Houve um tempo em que os escritores italianos usavam o latim quando desejavam ser lidos nos diversos borgos, repúblicas, ducados e afins dessa heterogênea península. Os dialetos também eram usados, mas o número de leitores se restringia. Até que um certo poeta florentino, um tal Dante, insistiu em fazer suas obras circularem no dialeto toscano de Florença. Outros autores da região aderiram à moda quando descobriram o sucesso de Dante. E foi assim que o dialeto florentino acabou virando a língua oficial da República Italiana.
Com a entrada em circulação do €uro em 2002, a lira italiana foi aposentada, depois de mais de mil anos de existência. Apesar de nenhum italiano que eu conheça ter convivido tanto tempo assim com a lira, muitos fazem, ainda hoje, as contas com a velha e extinta moeda, num exemplo de quanto as pessoas podem ser resistentes às novidades. Mussolini, ao proibir termos e nomes estrangeiros, não poderia imaginar que se tornaria responsável por toda e qualquer manifestação conservadora que viria depois.
O fato é que, por uma razão ou por outra, o italiano desenvolveu um relacionamento conflituoso com as demais línguas europeias e, em particular modo, com a língua inglesa. Fazem parte do cotidiano local palavras como buyer, computer, mouse, manager, comfort, brand, trend, weekend, e muitos outros. A coisa se complica com as letras que não pertencem ao alfabeto italiano ou que possuem um som diferente, na língua de Dante: épiauer (happy hour); olivúdi (Hollywood); noáu (know how); vúdi alen (Woody Allen); iâma-a ou iamáka (Yamaha). Isso sem contar que o velho Marx virou Carlo e a rainha da Inglaterra, Elisabetta, entre tantos outros exemplos. Incomodar-se com esse conflito é batalha vã, como demonstram os esforços do escritor Beppe Servegnini, que há anos combate o excesso de estrangeirismos e o mau uso de expressões em inglês. Essa mistura entre línguas não deveria ser um problema, afinal, a língua de um povo é tão viva quanto quem a usa. O conflito começa quando comete-se o equívoco de tentar mudar uma língua alheia, ou quando essa língua é adaptada à cultura local.
A letra “R” italiana diverge foneticamente do “R” em português, no início de palavras e em dígrafos, como em ‘rua’ ou ‘carro’, respectivamente. Nestes casos o som será sempre como o ‘R’ de ‘caroço’, prolongando o som da letra; já o ‘H’, se não precedido de ‘C’ ou ‘G’, será completamente ignorado. Uma cadeia de fast-food é conhecida por aqui como RRRodáusss (Road house) e um antigo bar local fechou, depois que os clientes passaram a associá-lo – injustamente – à falta de higiene: chamava-se Top One, acabou virando Topone (ratão).