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Sunday, April 23, 2017

Democracia alheia



Dois mecânicos conversavam ontem, sábado, 22 de abril, num bar de Cremona, Itália.

▬ Seria legal se voltássemos a ter um rei.

▬ Tá maluco…?

▬ Um cara meio doido, que executasse quem se aventurasse a lhe fazer oposição.

▬ Entrou pro partido da monarquia? Eu é que não quero viver à sombra de um mandão decidindo a minha vida.

▬ Um rei com uma meia dúzia de ministros e mais os parentes e cunhados – que cunhado não é parente – livres de roubar. Um rei e seus quarenta ladrões.

▬ Da última vez não deu certo…

▬ Isso porque vieram com aquela conversa mole de igualdade, liberdade…

▬ E você acha correto deixar a nobreza roubar do povo?

▬ Seriam só uns quarenta, cinquenta. Hoje, quantos são? Dez mil, vinte mil?

▬ Ainda prefiro a democracia.

▬ O quê…? Não escolhemos em quem votar, votamos em quem decidem eles; reduzem os nossos benefícios e salários, enquanto os deles só aumentam; chamam de vagabundo quem trabalhou a vida toda pra se aposentar; decidem até o que podemos ou não fazer e criam leis para se protegerem… Se isso é democracia, então eu não sei o que é ditadura.

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Saturday, March 26, 2016

Preparação para a Páscoa - 2016

Check list de Páscoa:

- Igreja? R: tem uma em frente de casa

- tira-gosto? R:...esqueci

- comida? R: tem de montão

- ovos? R: tem. Inclusive de chocolate

- bacalhau? R: alguém vai ter que cozinhar


- colomba? R: comi


- cerveja? R: umas caixas


- amigos? R: só os que comem pouco e trazem cerveja


- pão de queijo? R: congelado (vale como tira-gosto?)


- vinho? R: e o que cê acha que eu fui fazer em Ziano Piacentino ontem?




Sunday, October 20, 2013

Copo de geleia





Aqui em casa é proibido comprar Nutella em copo. Qualquer embalagem é permitida, inclusive as maiores (não, as gigantes não), só não pode ser em copo. Sabe aqueles copos promocionais cheios de desenhos ou com a marca do produto? Aqueles da geleia de mocotó? Aqueles que não quebram nunca e ficam lá no meio dos copos que custaram uma fortuna e que acabam sendo usados, quando as visitas são muitas? Pois é, aqui em casa é proibido comprar.

Algumas coisas merecem durar para sempre. Outras, não. Apesar da minha obstinação contra o desperdício e o descartável, o passado não pode ser arrastado no dia a dia. Mesmo que esse passado seja apenas um copo promocional inquebrável. E “inquebrável” explica tudo.

Levanto no meio da noite – sem acender luz, que me incomoda e me desperta – para beber água e adivinhe que copo pego no escuro?  Na hora de quebrar os ovos da receita e com as mão cheias de massa, sabe qual é o único compo limpo? Uma amiga das meninas vai à cozinha pegar um copo de suco ou chá gelado e... Sim, sempre ele. Já tentei guardá-lo diversas vezes junto com os copos de vinho, mas o copo reaparece sempre. Misteriosamente. Jogar fora, reciclar, deixar escorregar? Sou contra o desperdício e o descartável, lembra?

O primeiro copo decorado de Nutella durou anos e resistiu a muitas quedas. O último, comprado por falta de opção de outras embalagens durante uma crise de abstinência, no mercadinho próximo de casa, já completou alguns aniversários e vem participando do cotidiano familiar impávido e infrangível, rumo à eternidade.

Me peguei pensando porque não o mando à reciclagem, como todas as outras embalagens que vieram depois dele. Raspando um vidro de Nutella quase vazio, olhava filosoficamente para o copo e o imaginava em meio às chamas, junto a tantos outros vidros que derretiam e tornavam a ser simplesmente matéria prima, para outros vidros ou copos, tanto faz. Acho que ele resistiria e ficaria lá, atrapalhando o processo produtivo e impedindo o fluxo do mercado global.

Pensei em mandar de presente para você. Quer? Só espero que não quebre na viagem.
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Wednesday, March 20, 2013

Caruso

Minha insônia agora tem companhia. Há uns dez dias, apesar das temperaturas não deixarem dúvidas sobre a intensidade e a longevidade desse inverno, o Caruso vem anunciando a primavera. Caruso é o melro-preto [Tuldus Merula], um pássaro canterino que mora em frente, do outro lado da rua, no telhado da igreja. Já virou tradição escrever sobre o Caruso e prefiro não interromper tradições (veja AQUI, AQUI, AQUI, AQUI e AQUI). Canta, Caruso. Canta.

Telhados antigos devem possuir muito nichos, aberturas e espaços vazios. Ou isso, ou eu não sei porque tem tanto pássaro vivendo no telhado da igreja da frente e no convento nos fundos (são duas estruturas religiosas, uma na frente e outra nos fundos do apartamento onde moramos). Quando chega a primavera, falta telhado.

Nesses anos de Itália, ampliei meus conhecimentos sobre o melro-preto. Descobri o que já desconfiava: em regiões frias, o pássaro migra, sim. E Piacenza é muito fria durante o inverno. Deveria ter aprendido com ele, procurando sempre um clima agradável. Que lugar do mundo tem primavera quando aqui é inverno? E outono, quando aqui é verão?

O retorno do Caruso é sempre um momento de festa. O que me faz lembrar de começar a deixar migalhas no balcão da cozinha. Mas esse ano tem algo diferente, pois o bichinho começa a cantar por volta das três e meia da madrugada, três horas antes do nascer do Sol. Sou testemunha e vítima. Dou de ombros e tento me convencer de que deve ter alguma coisa de positivo em não conseguir cochilar pelo canto do passarinho. Mas que ele podia deixar para cantar depois das seis, Ah, podia sim.

O Caruso faz festa com migalhas, troca de ninho toda vez que a fêmea depõe ovos (o que acontece três vezes por ano) e, ao que parece, passou a sofrer de insônia. Eu também não dormiria se fizesse tantos filhos assim. O Caruso parece não se importar muito com os vizinhos, não tem prestações nem faculdade dos filhos. Também não paga impostos, não enfrenta filas nem tem que lidar com a burocracia. Vai ver, é por isso que está sempre feliz. Canta, Caruso. Canta.
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Thursday, February 14, 2013

Luli bijou

Minha filha Luiza fazendo gracinha por 7 segundos:


Sunday, January 27, 2013

O avesso do contrário

Tem alguma coisa errada com essa sociedade. O cidadão foi julgado culpado de extorsão e começou a gincana da captura dele. De um lado, as polícias de metade da Europa; do outro, milhares de fãs que torciam e deixavam mensagens de incentivo Internet afora. Onde foram parar os mocinhos que salvarão o mundo?

Noutro dia me surpreendi lendo o depoimento de um artista que admiro: “Além disso, o cara é muito arrogante. Como não gostar de um cara assim?” Concluí duas coisas: a primeira, que na realidade admiro a obra dele, e não o artista em si; a segunda, que subestimei a minha capacidade de me surpreender.

Anos atrás escrevi sobre o efeito nocivo dos telefones celulares nos jovens. Bem, os jovens cresceram e contaminaram todo mundo. A vida virtual tornou-se mais importante que a vida real (aquela em que as pessoas devem sentar em redor de uma mesa para fazer as refeições, dormir, lutar para melhorar e – quem sabe – comprar novos celulares), e é por isso que ela deve poder ser vasculhada e divulgada. Certamente vai estar longe da vida real escondida a sete chaves e sem conexão.

 Mensagens curtas, artigos de jornal curtos, matérias de TV superficiais. Muitos SMS, compartilhar, curtir, smiles. A vida telegráfica para poder se multiplicar em todos os lugares onde houver alguém disposto a retribuir o breve e fútil contacto. E pensar que são poucos os que hoje ainda sabem usar o código Morse.

Pensei em criar um site para desensinar a vida como ela é. Mas me dei conta , desaprendendo, as pessoas não iriam conseguir acessar o site e desanimei. Como desensinar de maneira contínua? Acabei indo parar na desciclopédia e pensei: “quantos malucos acabam levando a sério textos irônicos como este?” clique aqui

Quer saber? Melhor deixar tudo como está e esperar para ver aonde esse mundo vai parar. Quem sabe dou sorte e não estou mais aqui para descobrir a resposta?

Tuesday, December 11, 2012

Fim do mundo na Itália



Segunda de manhã, o bar cheio de gente que toma café para espantar o frio de -4 ºC. São operários, motoristas de caminhão, o rapaz das entregas, o frentista, viajantes, enfim, gente que acorda cedo. O pessoal de escritório começa mais tarde e perde parte do espetáculo cotidiano, onde todo mundo comenta os últimos acontecimentos, impressos nos jornais espalhados pelas mesas do bar.

...Com a saída do Professor Mario Monti a economia italiana volta pro buraco

Mas se ele deveria conduzir um governo técnico e não fez nada...?

É verdade, ele anunciou um monte de medidas que já tinham sido tomadas como se fossem dele...

Uma coisa ele  fez: aumentou todos os impostos. Assim, até eu!

Será que a Itália vai sobreviver à volta de Berlusconi?

Bem, a alternativa não é mais confortante. A alternativa é Pier Luigi Bersani...

...Itália? Será que a Europa vai sobreviver?

Todo esse falatório por nada. A eleição só será antecipada de umas quatro ou cinco semanas. E os candidatos são sempre os mesmos. Ou alguém esperava que aparecesse um novo salvador da pátria uma semana antes da eleição?

Ah, o meu voto será de protesto...

O único candidato “de protesto” é o Beppe Grillo [cômico italiano].

...A nossa última esperança é o calendário Maia.
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Monday, October 15, 2012

Lava roupa todo dia



Os mercadinhos chineses e africanos são um alívio para estrangeiros na Itália. Onde encontrar o dendê, camarão seco, aipim, polvilho e suco de maracujá, senão nas lojas de produtos étnicos? Até xuxu encontrei noutro dia. Os chineses costumam ter um pouco de tudo e é para lá que eu vou quando acaba a farinha de mandioca ou quero pesquisar sabores diferentes, curiosar frutas e me espantar com congelados misteriosos.

Detalhes do cotidiano vão nos ensinando a adaptar (feijoada sem paio), nos levam a descobertas e nos guiam na absorção de uma nova cultura, que não substitui a nossa, mas se adiciona a ela. Porém, algumas coisas ficam sem alternativas. Como secar a roupa na meia estação é um mistério mais misterioso que os animais congelados no mercadinho chinês. O problema não existe durante o verão, quando bastam poucas horas para enxugar as cobertas do inverno; mesmo no inverno, basta ter um varal dobrável perto do aquecedor (e lembrar de deixar a janela aberta para livrar-se da umidade) que a roupa vai secar até quase virar pó. Outono e primavera são péssimos para lavar roupa. Quer dizer, lavar pode, o difícil é secar sem uma secadora. Dias úmidos, neblina, temperatura indecisa e aquecedores desligados: haja roupa!

É no outono que os solteiros vão estar sempre de pulover. Morando sozinhos, tendem a evitar trabalhos inúteis, como passar a camisa inteira. Só o colarinho e punhos são cuidadosamente passados, o resto a malha cobre. Mesmo no escritório ou no restaurante, onde a temperatura não combina com roupa de frio. É na primavera que acontece o lançamento das roupas amassadas chiques, pelo mesmo motivo do outono. Todo o guarda-roupa devidamente estendido por dias até secar.

Enquanto tiver roupa limpa, vamos evitando comprar uma secadora. Mas se o aquecedor não for aceso logo...


PS – O xuxu ficou no mercadinho, que saudade também tem limite.
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Friday, September 14, 2012

Jesus, Maria, José


Bom dia! Chamo da Companhia Sorgenia. Falo com o Senhor Jesus dos Anjos?

...Sim.

Senhor Jusus, estou ligando para falar sobre a conta de luz da Rua Pinco Pallino, 33.

Sim, me diga.

Sabe Senhor Juses, com a nova norma o Senhor pode economizar petróleo e passar a utilizar energia alternativa que não polui.

É o fim do petróleo?

Não, Senhor Juis, é o início de uma nova era. Além disso, acaba a faixa horária. A energia vai custar o mesmo a qualquer hora do dia.

Ai!, outro aumento...

Pense nas vantagens, Senhor Jusus: consumir energia renovável que não polui, sem faixa horária e por um preço inferior!

E quem disse que eu já não tenho todas essas vantagens?

O Senhor já é nosso cliente? A conta de luz está no seu nome, Senhor Jus?

E a senhora liga para minha casa sem um mínimo de informação??? E na hora do almoço?!

Desculpe Senhor Juis, eu recebo apenas uma folha com a relação dos nomes e telefones a chamar; tenho um texto padrão mas o resto eu tenho que improvisar. E se não ligar na hora do almoço, a que horas vou encontrar as pessoas em casa?

Pois aproveite essa folha para escrever o nome do cliente e repetir umas dez vezes antes de ligar. Principalmente nomes estrangeiros como o meu. Eu me chamo Jesus, como aquele da cruz; sabe quem é? Jesus!!! E me dê licença que vou terminar de almoçar.

O Senhor prefere que eu ligue mais tarde?

Não, eu prefiro que a senhora não ligue mais. Este número de telefone está inscrito no “Registro das Objeções”, o que significa que a senhora não pode ligar para me oferecer propostas comerciais nem para fazer pesquisas de mercado. Tenha um bom dia.

...Senhor Jesus dos Anjos? ...Alô? ...Alô? ...Hmm, mesmo número, mesmo endereço, outro nome. Será que se eu ligar pra essa “Marinalva dos Santos” mais tarde eu consigo vender pra ela?
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