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Wednesday, December 26, 2018

Feliz 2019!


Sim, fomos manipulados politicamente nos últimos anos. Não é exatamente uma novidade, mas nunca como antes fomos cooptados de forma tanto acintosa, invasiva e tão facilmente.

A mentira, o engano, a fraude, sempre fizeram parte da conquista e da manutenção do poder. Qualquer eleição, a invasão do Iraque que não possuia armas químicas, as duas Guerras Mundiais, a ascenção de Nabúlio, as diversas tramas registradas por Maquiavel (ou, melhor: Niccolò Machiavelli), a descoberta das Américas, o Império Romano, as Guerras Púnicas, Troia e antes de Troia. Em qualquer época e em todo lugar, ludibriar é uma arte praticada pelo poder.

A novidade é a rapidez da difusão e o alcance que um engodo pode alcançar hoje. Nunca houve tanta disponibilidade de informação – verdadeira e falsa – à disposição. Os meios que possuimos são armas poderosas nas mãos de quem fantasia propostas para os conflitos de todos os dias. O resultado é que o senso comum tomou o lugar do bom senso; criaram-se exércitos cegos e fieis, dispostos até mesmo a ações físicas em nome de uma rivalidade suposta. Sim, suposta. Porque os líderes rivais têm muito mais em comum do que nos deixam enxergar. A verdade inventada precisa ser transmitida e retransmitida velozmente, para que outras novas verdades sejam criadas e repassadas num fluxo sem fim, formando uma consciência cada vez mais sólida da falsa realidade, que só será contestada por infieis merecedores do limbo.

Paradoxalmente, a saída, a volta ao discernimento (que prefiro usar ao invés do termo desgatado “bom senso”), é utilizar exatamente as mesmas ferramentas dos aspirantes ao poder. E escavar a informação até o limite das forças, se recusar a fazer parte da corrente que alimenta o dilúvio das falsas notícias, criadoras de uma falsa honestidade e falsos salvadores. A informação deve ser pesquisada, vasculhada, verificada na fonte primária e certificada. Caso seja impossível ou você tenha dúvidas, não divulge, não compartilhe nem comente. Nem dê "like". Se você não se propõe a isso, torna-se a peça mais importante disputada pelos charlatões. Será manipulado sim, apesar de acreditar que não e que está do lado certo, decidindo com a própria consciência. Como o lado certo se escolhe antes de começar uma luta, é fundamental informar-se bem. É a única arma que possuimos.

E se você está aí se perguntando quem foi Nabúlio, aproveite para ir treinando. Pesquise. 

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Saturday, July 08, 2017

Neza




Essa é a história da Neza. Pensanso bem, é um cadinho da história da Neza mais o Zé, porque um sem o outro era nenhum. Gentes simples, como simples é a vida. Eram, também, epeciais. Não só porque cada pessoa è especial, mas porque eram especiais.

Juntos viveram e viveram. Deram duro para criar os filhos (sim, tiveram filhos) com exemplos de moral, amor e fé. Fé na vida, fé nas gentes. Ele, sempre concentrado no trabalho, quando tinha que trabalhar; concentrado no repouso quando tinha que descansar; concentrado na pescaria, quando ia pescar. Com a família no centro do mundo. Ela, atenta a tudo o tempo todo, com a família que cada vez mais se expandia, adicionando parentes, amigos e nescessitados.

O Zé era de um modo doce e educado, um jeito simples de resolver as coisas. A Neza era direta, instintiva, de sentimentos intensos e decidida. Beijava e brigava com a mesma energia, raiva e perdão. Eram opostos e diferentes que, unidos, beiravam à perfeição. Talvez por isso mesmo viveram juntos uma vida, mesmo depois que os filhos criaram, cada um, a própria família. Foi pra isso que criaram os filhos. 




Um dia o Zé foi embora, pescar em outros lugares que não fossem o ‘Panema. A Neza ficou só, na casa que agora era só dela, no canto dela. “Me deixa quieta no meu canto”, dizia. Os olhos já não refletiam o brilho de sempre. Passava o tempo esperando o tempo passar. Nem raiva nem perdão.

Domingo passado foi dia de festa, com músicas que ela não ouvia há muito tempo. Os olhos azuis do Zé cruzaram com os dela e a Neza entendeu como um convite. Ela aceitou e foi dançar com o Zé. Juntos de novo, estão lá dançando, como se não houvesse mais nada no Universo senão dançar. A Neza decidiu continuar a história deles, mesmo que o Zé decida ir pescar em outros ‘panemas. Ela vai atrás.

Porque o Universo é lugar de ficar junto. E de dançar.






Monday, April 04, 2016

Missa de sétimo dia



(Com a mão na boca)






Pescando no ‘Panema, perdíamos as horas e contávamos causos. Peixes? Ah, era isso que tínhamos ido fazer... Quem se importa? O barco à deriva, o churrasco na calma madrugada do rancho, a cerveja gelada, as laranjas para martar a fome no barco e as aulas de nós, que de pesca ele entendia. De pescar, um pouco menos.


Início ou fim da estrada?

Depende do ponto de partida.

A chegada não é o destino,

Senão o recomeço.

E se a estrada é limitante,

Caminhe pelos campos.



(Na primeira vez que a viu, disse: "vai ser a mãe dos meus filhos")





Foi, talvez, a pessoa mais inteligente que conheci. Uma inteligência simples, prática e definitiva. Teimoso também. Trabalhador entusiasmado, inventava soluções na sua 1020, a oficina de torno e solda histórica e respeitada. Depois de observar e observar e observar, descobri que ele estava para soldar a grade do lado errado. Disse a ele, mas nem piscou: “não está”, retrucou sem se alterar. Pedi para que olhasse bem e ele balançou a cabeça: “não está”, repetiu. Insisti, argumentando que ele teria que desfazer a solda e isso poderia arruinar o trabalho de horas. Ele parou, olhou pra grade no chão, virou-a do lado certo, ligou a máquina de solda e, com toda tranquilidade: “agora tá do lado certo”. E soldou.


Senhor de muito amar,

Fiel na fé em si.

Acreditar no trabalho e na família,

Nas amizades sinceras e joviais.

Acreditar, também, acredite!,

No ritual da cerveja,

Que a vida não é sofrer.



(Piacenza, Itália - Dezembro de 2009)





Não falava mal de ninguém. Tampouco era de pedir opiniões; decidia e fazia, no tempo dele, do jeito dele, esperando que fosse definitivo. Tudo o que fez, fez para durar. Nas relações, no trabalho, na paz. Esse era um compromisso, não gostava de gambiarras ou situações paliativas. E se nada é para sempre, já que a vida é provisória, pelo menos aquilo que fazia deveria ser sólido, durável, de qualidade. Devia ser “1020”.

Se o destino não é clemente,

O sábio ensina a rir,

Observar, aprender e mudar

Sorrir é melhor que discutir.

Lutar não será alternativa,

Viver em pazes, ao contrário...


(Preparando o banho das minhocas)

Passeava na Itália como em casa. Comunicador que era, encontrava novos amigos, rodava a cidade a pé, sozinho; ficava horas na casa do amigo sem que ninguém soubesse dele. Nunca se perdeu na vida, foi a vida a perder-se nele. Conversava com todo mundo, voltava para casa com cálibres, ferramentas de precisão, brindes e as peças de reposição de que precisava. Sem falar a língua. Era universal mas dizia-se caipira.

O mundo ideal será assim,

De amigos, gentes de bem.

Com quem se aprende

A ser uma pessoa melhor.

...E a devolver alguns peixes ao rio,

Pois o importante é a pescaria,

Não o peixe.


(O sorriso de sempre e aqueles olhos azuis que a convenceram)




E assim vem outra aula, a última, que ensina que tudo acaba, um dia. A parceria de causos e cervejas fica pra depois, a pescaria do tempo substituiu churrascos noturnos por lembranças. A vida vai à deriva e o que fica é o velho barco de alumínio construído com as próprias mãos (como sempre), emborcado nos fundos do quintal da oficina, com mais ferrugem que ferragens. Aqui, até a saudade é 1020.
                        

Amém!



PS - Nessa carta AQUI já tinha falado da nossa cumplicidade, em pescar, mentir e contar causos; já essa outra AQUI, foi uma homenagem ao grande amigo, que deve estar rindo muito de todo esse palavrório sobre ele e a falta dele, do meu esforço vão de dizer o indizível.


(A saudade tatuada na neta Luiza)

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