Friday, March 06, 2009

Top One

Houve um tempo em que os escritores italianos usavam o latim quando desejavam ser lidos nos diversos borgos, repúblicas, ducados e afins dessa heterogênea península. Os dialetos também eram usados, mas o número de leitores se restringia. Até que um certo poeta florentino, um tal Dante, insistiu em fazer suas obras circularem no dialeto toscano de Florença. Outros autores da região aderiram à moda quando descobriram o sucesso de Dante. E foi assim que o dialeto florentino acabou virando a língua oficial da República Italiana.

Com a entrada em circulação do €uro em 2002, a lira italiana foi aposentada, depois de mais de mil anos de existência. Apesar de nenhum italiano que eu conheça ter convivido tanto tempo assim com a lira, muitos fazem, ainda hoje, as contas com a velha e extinta moeda, num exemplo de quanto as pessoas podem ser resistentes às novidades. Mussolini, ao proibir termos e nomes estrangeiros, não poderia imaginar que se tornaria responsável por toda e qualquer manifestação conservadora que viria depois.

O fato é que, por uma razão ou por outra, o italiano desenvolveu um relacionamento conflituoso com as demais línguas europeias e, em particular modo, com a língua inglesa. Fazem parte do cotidiano local palavras como buyer, computer, mouse, manager, comfort, brand, trend, weekend, e muitos outros. A coisa se complica com as letras que não pertencem ao alfabeto italiano ou que possuem um som diferente, na língua de Dante: épiauer (happy hour); olivúdi (Hollywood); noáu (know how); vúdi alen (Woody Allen); iâma-a ou iamáka (Yamaha). Isso sem contar que o velho Marx virou Carlo e a rainha da Inglaterra, Elisabetta, entre tantos outros exemplos. Incomodar-se com esse conflito é batalha vã, como demonstram os esforços do escritor Beppe Servegnini, que há anos combate o excesso de estrangeirismos e o mau uso de expressões em inglês. Essa mistura entre línguas não deveria ser um problema, afinal, a língua de um povo é tão viva quanto quem a usa. O conflito começa quando comete-se o equívoco de tentar mudar uma língua alheia, ou quando essa língua é adaptada à cultura local.

A letra “R” italiana diverge foneticamente do “R” em português, no início de palavras e em dígrafos, como em ‘rua’ ou ‘carro’, respectivamente. Nestes casos o som será sempre como o ‘R’ de ‘caroço’, prolongando o som da letra; já o ‘H’, se não precedido de ‘C’ ou ‘G’, será completamente ignorado. Uma cadeia de fast-food é conhecida por aqui como RRRodáusss (Road house) e um antigo bar local fechou, depois que os clientes passaram a associá-lo – injustamente – à falta de higiene: chamava-se Top One, acabou virando Topone (ratão).

12 comments:

acqua said...

Oi Allan, boa noite caríssimo.
Sabe que eu sempre tive uma enorme bronca com relação a isso tudo? Lembro-me que na casa dos nonos toda vez que eles queriam conversar alguma coisa e não queriam que a gente entendesse, falavam no bendito dialeto, até que aprendemos o tal dialeto. E no colégio a briga era com as professoras que insistiam com a maldita aula de espanhol e eu só me interessa pelo inglês e português.
Nossa, se tem uma coisa que sempre me incomodou na Itália é o conservadorismo e claro o machismo que sempre me deixou com a sensação de ter sido inventado por um romano. Só faltou agora eu cuspir no chão como fazia mio nono. rs
Abraços daqui e bom fim de semana...

Philip Rangel said...

Muito interessante mesmo passar por aki e conhecer seu mundo...ainda mais saber dos leitores italianos...

abraçao

Claudio Costa said...

Língua, linguagem, "lalangue",
Parler, parlare, "parlêttre",
Ser (être). O ser, l'être. A palavra, lettre.
In principio erat verbum.
- Que confusão, Babel!

Glenda Dimuro said...

Oi Allan! Dá uma passadinha lá no blog que tem um "regalito" para ti! Beijos!

Segunda impressão said...

Eu penso que um certo conservadorismo com a cultura e os costumes de um dado país, muito bacana, especialmente a Itália, um país riquíssimo de tudo isso. Aqui no Brasil, se americanizou tudo! Penei para achar uma camiseta tipicamente "carioca" que não tivesse inscrições em inglês.
Já o latim, eu não sei a importância que tem para a Itália. Mas para o Brasil torna-se até exagerado e motivo de problemas, vez que ele é comumente usado na linguagem dos advogados e dificulta o acesso ao judiciário do cidadão comum.
Adorei as dicas do idioma! To atenta! Morri de rir com o caso do bar...:D!
Tem selo pra vc, lá no blog!
Abraço!:D

Segunda impressão said...

Que besteira? Não sei onde! :D
Os 3 selinhos foram merecidos! É realmente muito bom vir aqui!

luzdeluma said...

Então, mas os italianos sabem de tudo isto e agora os ingleses? Para eles deve ser bastante difícil aprender o italiano. Boa semana! Beijus

Leila Silva said...

Olá, Allan!

Eu sempre achei engraçado a grafia dos nomes como Carlo Marx e outros em italiano...
Os franceses também sofrem influência do inglês (todo mundo, talvez)e a pronúncia é muito estranha, assim como na Itália. O H é um problema para todos de língua latina, aparentemente, os franceses tampouco o pronunciam e no Brasil ele é pronunciado quase como um R.
Abraço

Meire said...

Allan, quando eu cheguei aqui, achava estranho a maneira deles falarem algumas palavras em ingles, tinha vontade de corrigir...depois acabei me acostumando...
Falando de nomes me recordei de Scarlett O'Hara que virou Rossela...rs
E nesta de mudar nomes, uma vez no Brasil, uma pessoa querendo impressionar meu marido, ao falar de Minas Gerais ele soltou um Miniere General, rs confesso que tive que segurar para nao rir.

Bjs

Vivien Morgato : said...

Sempre achei que o patriotismo exacerbado era o germe da xenofobia...isso me assusta.
Mas, até certo ponto, proteger a identidade gramatical é interessante.
beijos.

Manoel Carlos said...

Em meados do século passado, os livros brasileiros também registravam Carlos Marx.
As novas palavras tendem a ser adaptações, pelo som ou pela grafia, de palavras estrangeiras, sobretudo nas áreas tecnológica e científica. A não ser que se faça como na Islândia, onde há uma comissão nacional que cria termos na língua local antes que eles se propaguem em forma de estrangeirismos.
Manoel Carlos

angel said...

Allan, muito interessante seu blog. Só não entendi bem se você mora na Itália ou conta coisas de lá. Concordo com você quanto ao modo de falar dos italianos em relação à língua inglesa. É assim mesmo. Da primeira vez que ouvi um dizendo o endereço de um site fiquei meio no ar, ele dizia vuvuvu...Era o famoso WWW. Lá para eles, W se lê vu, e também palavras ficam muito engraçadas e incompreensíveis. mas fora tudo isto, itália é belíssima.
Sou apaixonada pelas paisagens. Qualquer foto fica linda, seja de colina, de montanha, de lago ou até de plantações.
Parece sempre cenário de filme. Até a luz é diferente.
Um abraço
Angel