E quem é que tem coragem de confessar as
próprias descobertas infantis? Sim, porque achei infantilidade minha ficar
surpreso com a existência de pernilongos na Itália, anos atrás. O que eu
esperava? Que no primeiro mundo fosse tudo possível e perfeito? [cá entre nós,
precisamos urgentemente rever o conceito de “primeiro mundo”]. Frio, calor, temporais, secas e – por que
não? – pernilongos: tudo igualzinho. E é assim que tem que ser.
▬ ...Quem é esse tal de Lunedil?
Noutro dia li que “as mudanças climáticas já estão tendo
impacto sobre a economia americana.” Como assim, “já”? Só descobriram agora? Quando
o ciclo natural do planeta é alterado, todas as atividades são afetadas (sim,
eu sei que o ritmo natural do planeta é de mutação constante, mas a ação humana
tem acelerado o processo). Perguntem aos pernilongos como a vida deles mudou
nos últimos anos. Chegam sempre adiantados ou atrasados. Para garantir a
sobrevivência da espécie, estão modificando o ritmo de procriação [teoria
minha, nada de científico, mas merece ser estudado].
▬ Róbsu! Ô Róbsu!, quem é esse tal de Lunedil aí, Róbsu?
▬ Lunedì, ele se chama Lunedì.
▬ E quem é esse cara?
▬ Amigo meu, ‘cê num conhece não.
Ele só vem quando ‘cê num tá’qui.
O certo é que os pernilongos perturbam um
bocado e eu ainda não descobri a utilidade deles. Se servem para alimentar
andorinhas e outros pássaros, eu toparia dar comida às aves em troca da
extinção deles, os pernilongos. Melhor não, quem garante que a boa vontade se
perpetuaria?
▬ E por que ele só vem nos dias que eu um tô?
▬ Sabe que ele perguntou a mesma coisa de você? E, depois, quê isso? Tá cum
ciúmes ou quer conhecer o cara?
▬ Ih, cara, sai pra lá! ...Eu, com ciúmes? Sai pra lá, lubisomem!
▬ Então eu apresento ele pra você.
▬ Eu não. Vê lá se eu quero conhecer alguém que chama Lunedil!
▬ Lunedì, ele se chama Lunedì.
▬ O acento no nome dele tá errado. Num existe crase no i.
As gerações futuras teriam dificuldade para
entender porque escolhemos alimentar os pássaros em troca da extinção dos
pernilongos. As aves seriam extintas e, aí sim, o mundo ficaria uma merda.
Melhor deixar os pernilongos.
▬ No caso dele, tá certo assim. Lunedì é italiano.
▬ ...Piorou.
▬ ‘Cê num gosta de italiano?
▬ Quem gosta de massa é pedreiro, eu sou gente fina.
▬ Que mais que ‘cê num gosta?
▬ Galinha.
▬ ‘Magina!, nós comemos frango ontem.
▬ Frango tem carne macia, eu não gosto é de galinha. Galinha, pra mim, só
de batom e salto alto.
▬ Tá ficando muito enjoado.
Quando estive em Angola descobri que reclamava
de barriga cheia: lá sim que tem pernilongos. Na volta, aprendi a fazer um
repelente caseiro que funciona de verdade: coloque uns 30 gr de cravo da Índia
em 100 ml de álcool e deixe em local escuro por uns quatro dias; coe e dilua em
500 ml de óleo de amêndoas (ou outro óleo para o corpo); passe quando for
encontrar com pernilongos. Eles vão detestar e evitar chegar perto.
▬ Prest’enção, cara! ‘Cê pegou um peixe!
▬ Oba!, hoje vamos comer peixe na brasa.
▬ A brasa tá acesinha, só esperando ele.
▬ ‘Bora pra casa comer esse peixe , Sexta-feira?
▬ Nós já estamos em casa, Róbsu. Nossa casa é uma ilha.
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