A Itália vista por um brasileiro. As diferenças culturais, descobertas e sabores, com uma pitada de bom humor (às vezes).
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Tuesday, July 31, 2018
11 de janeiro
▬ Alô…?
▬ Alô, meu filho. Tudo bem aí?
▬ Tuudo, e você?
▬ Tudo indo. Alguma novidade?
▬ Saturno chegou.
▬ E quem é Saturno?
▬ Saturno é um planeta, mãe.
▬ Ahn… Tá bom. Você tá sozinho em casa?
▬ Sim. A Eloa e a Luiza foram prum spa, Terme di San Pellegrino.
▬ Ué, a Luiza não está em Londres?
▬ De férias. E como a Eloá também tá de férias, as duas estão aproveitando.
▬ E você, sozinho, se entupindo de Saturno.
▬ Mãe, Saturno é de ler, não è de comer, não. A Fal que me mandou.
▬ E você tá se alimentando direito, meu filho? Ou tá aproveitando pra se empanturrar de porcaria?
▬ Claro que estou me cuidando, mãe. Tenho quase 60 anos. Agora mesmo estou beliscando um pouco de ciccioli com uma cerveja.
▬ Bebendo a essa hora, meu filho?
▬ Mãe, tem o fuso horário de três horas. E ainda nem dei o primeiro gole na cerveja…
▬ E o que é “ciccioli”? E Saturno, como é?
▬ Tuu, tuu, tuu…
▬ Allan Robert, não se faça de besta comigo!!!
▬ Tuu, tuu, tuu…
▬ Tuuuuuuuuuuuuu…
▬ …Mãe?
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Para quem não conhece: Ciccioli (tchítchioli) - aquele treco estranho na tigela - é "um produto alimentar obtido a partir da gordura de porco. A gordura cortada em pequenas partes, permanece sobre o fogo lento a fim de permitir que a água evapore e a gordura se funda. Quando a gordura fica amarelada, coa-se com um pano, onde a gordura é espremida. A parte líquida é a banha, a parte sólida é salgada, temperada e novamente espremida, ganhando a aparência de lascas de pedra". Ciccia (tchítchia) é carne de animal; na gíria, pessoa gorda. Ciccioli, então, é o resíduo sólido da preparação da banha de porco, saudável como comida do macdoni. Cada 100 gramas de ciccioli contém 6.039.423,8 calorias. O ciccioli é plural (cicciolo, no singular), mas ninguém compra um cicciolo. Agora chega que a explicação tá ficando longa demais; só falta contar o romance da porquinha com o ciccione do namorado dela, que resultou no leitão que forneceu a gordura pra esse ciccioli. Depois que cresceu, né. Porque ninguém é besta de abater um leitãozinho muito levinho...
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Saturday, January 20, 2018
Retrospectiva
Em
algum lugar um canário canta, um outro morre e ninguém fica sabendo. A vida
acontece à revelia, simplesmente acontece.
É
preciso elaborar perdas e derrotas; é preciso elaborar conquistas e vitórias. É
preciso elaborar. Deixar cada coisa no seu lugar, mesmo que esse lugar já tenha
passado.
Pessoas
vem e vão, o tempo esculpe rugas. Festejando chegadas ou chorando despedidas, colecionamos
momentos. Nos acostumamos aos sonhos, à eterna esperança do evento que mudará
nossas vidas, às casualidades planejadas.
Calendários
e distâncias se fazem saudades; fotos e mensagens, por mais que digam, nunca me
disseram nada que substituisse um abraço. Mudar é não se importar mais;
adaptar-se é aprender a viver com a ausência. E um refazer de malas nos leva a
rever prioridades, encontrar novos caminhos..
O
futuro pisará as pedras que assentamos hoje.
Somos
todos construtores de histórias.
.
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Friday, October 27, 2017
Pintassilgo moderno
Macarrão,
carramão, racamão, camarão, marracão. Eu ia adiante por esse caminho até conseguir não lembrar como era o certo. Me desesperava ao tentar dizer macarrão e
sair outra coisa. Me desesperava e mudava de brincadeira. Brincava muito
sozinho, apesar de ter três irmãos e um mundo de amigos. “Ele vive no mundo da
Lua”, dizia minha mãe. Vez ou outra, ainda diz.
A
verdade é que sempre gostei de brincar com as palavras. Era bom em português, mas
já esqueci muita gramática, que gramática é regra e sempre fui meio rebelde. Um
rebelde tímido, silêncioso, que é pra não chamar a atenção. O anjinho encapetado. Não
dissimulado, sonso. Não, isso não. Apenas um com cara de querubim, imaginação
de sobra e espírito de porco.
Asno
gorante, invés de ignorante; burro de estrofe, quando a ignorância faz alguém
empacar; muitilhão, tantilhão, coisilhão e porrilhão. Nessa ordem de grandeza; diarreia
intelectual, quando alguém tenta me convencer com argumentos apoiados em
tratados, resultados científicos ou baboseiras alheias. Mas tem mais. Muito
mais.
Quem
tem dois ou mais filhos não se assusta quando outros pais trocam o nome dos próprios
filhos [é verdade, meus pais me chamavam de Bruce durante um período por
incerteza mesmo, mas naquela época eu e meu irmão caçula éramos realmente idênticos.
Até eu me confundia]. No caso das minhas filhas, Bianca e Luiza, acontecia
por dois motivos: primeiro, a síndrome a que me referi acima; depois, porque
sim. Marinalva e Bertolândia, Arirí e Arará, Pupunha e Janaíra ou qualquer
coisa que me viesse na hora. “Papi, quem é a Chumbrega e quem é a Fufinha?” “A Fufinha sou eu,
você é a Chumbrega.” “Não, eu não quero ser a Chumbrega…” E a coisa rolava.
É
mais fácil lembrar de alguém que se chama Petronilha ou Marinalva que da Maria ou
da Regina. Sim, teve uma Petronilha na minha infância e uma Marinalva na minha
adolescência, lembro delas até hoje. Quantas marias e reginas passaram? Quem
sabe? Eu, não.
Conversava
com um querido amigo – que já se foi – numa língua que não existia. Cada dia um
era o tradutor, num chopinho descontraído em algum boteco do Leblon ou da
Tijuca. “Vat minih havá” (vai tomar no c…) “Vate vut!” (vai você!) “Ah damalah
n’go” (bora tomar outra). E as pessoas olhavam com curiosidade, e os garçons se
dirigiam àquele que falava em português, e nós ríamos às pamparras.
Pintassilgo
moderno é algo realmente bonito. Não, o superlativo de bonito é lindo. Então,
pintassilgo moderno (às vezes sai “muderno”, que é mais bonito) é algo
lindíssimo. Vocês já viram um pintassilgo, as variações de cores e a vivacidade
delas? Um pintassilgo moderno seria a tentativa de melhorar o que já é
melhor, uma ode à beleza, o Sol visto de cima da neblina, o vôo do pássaro
solitário, um abraço na rua. Pintassilgo moderno é o orvalho no cabelo do rapaz
esperando a namorada, a horta no fundo do quintal, a flor que desafia a
calçada. Pintassilgo moderno são minhas duas filhas, Chumbrega e Fufinha.
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Friday, June 02, 2017
Escola XV
Quem viveu o Rio nos anos setenta, conhece bem a Escola XV (Ginásio Industrial Quinze de Novembro – GIQN). Quem não viveu, não vai entender o que ela representava. Códigos, regras e gírias próprias. Grandes comprimidos placebo produzidos localmente (com pão…?) lotavam os enormes vidros da enfermaria. Eram indicados para tudo. E funcionavam. Enterrávamos sapoti para amadurecer e torrávamos castanhas de caju em latas vazias. O orgulho era a sala de troféus e os muitos atletas que de lá saíam. “Djonca” era sinônimo de perigo, cuidado, se manda.
1)
1970, dia de vacinação. Mil e quinhentos alunos em fila e em silêncio. Duas enfermeiras
com pistolas, uma para cada braço. A organização era por ordem de classe e
alfabética. Nem mesmo as moscas se
atreviam a voar. O aluno passava e tomava a primeira vacina no braço direito,
dava um passo e tomava a segunda no esquerdo. Quem teria resitido à tentação?
Eu não. Primeiro da fila: Allan, da Primeira A. Segurei o riso e berrei o mais alto que pude. Duas vezes. Lembro do
desespero dos poucos inspetores tentando capturar os fujões medrosos. Perdeu-se
o dia com a vacinação. Houve, inclusive, quem duvidasse da minha dor.
2)
Driblamos a vigilância e fomos roubar goiaba na chácara do vizinho – longe pra
caraca! Corremos quando a sentinela avistou o proprietário e deu o alarme. Manhã
seguinte, depois do café e antes da formação para a aula, Seu Glaston – chefe de
disciplina – apareceu na varanda cinco degraus acima do pátio e apitou com estridência:
“Priiiii!” Naqueles momentos todo mundo brincava de estátua. Nem virar a cabeça
podia, só o barulho da bola rolando e a voz do Seu Glaston no microfone: “Formação
de disciplina – Priiiii!” Pronto, podia-se voltar à pelada. Sem muito
entusiasmo, porque formação de disciplina anunciava merda.
Tínhamos
três tipos de formação, uma para aula, por classes e ordem alfabética; uma para
o refeitório, que se formava a partir de quem chegase primeiro, sem correria;
uma de disciplina, por dormitório e altura, com os mais baixos na frente. Cinco
minutos depois Seu Glaston apareceu de novo no balcão: “Priiiii!” Naquele
momento não precisava dizer mais nada, cada um sabia o seu lugar. Seu Glaston
pegou o microfone e fez um discurso de meia hora sobre responsabilidade,
honestidade ou coisa parecida, que ninguém escutava. Só nos
preocupávamos em permanecer perfeitamente alinhados, em posição militar de
descansar e sem se mexer. Após concluir a ladainha, esclareceu que um grupo de
alunos tinha roubado goiabas no vizinho. Informou que o vizinho – o senhor al
lado dele – ouvira o nome de um de nós e, batendo a “mãe preta” na mão (uma tira
de borracha rígida de uns quarenta centímetros de comprimento, cinco de
largura, por um de espessura – usada nas mãos oferecidas pelos infratores como
sinal de arrependimento) chamou o senhor ao microfone. Frio na espinha. Quem
teria esquecido a regra de nunca usar nomes? Até porque, éramos conhecidos pelo
número de matrícula. Eu era o 405 (quatrocentos e cinco), meu irmão, 897 (oito,
nove, sete) e por aí vai. Quantos josés deveriam ter? Sei lá. Poucas,
pouquíssimas exceções; Hulk era o aluno mais forte da escola; Doinha era a
estrela do basquete; Clidão (Euclides) o mais alto e mais magro. E tinha o Negão
Dois Dez (210), que era um monstro. No bom sentido, claro. Tinha dois metros de
altura por dez de largura. Cinematográfico lutador de judô que ignorava a
filosofia daquele esporte (que eu e meu irmão também praticávamos, além do
xadrez – este, com honras): “usar a força do adversário contra ele mesmo”. Dois
Dez simplesmente levantava o adversário, se ajeitava embaixo e liquidava a luta
com um ipon, independente do tamanho ou do peso do opositor. Não era raro ver o
outro lutador desmaiar ao ser arremessado no chão com tanta força. Mesmo o Hulk
mantinha distância dos debates sobre a força dele. Professor Paquetá ria e
tinha o cuidado de ser gentil ao corrigir Dois Dez.
Voltando
à disciplina, o vizinho recebeu o microfone das mãos de Seu Glaston e repetiu
em voz alta o nome ouvido: “Djonca.” O chefe de disciplina ria tanto quanto
nós. Supervisores gargalhavam e a formação estava desfeita, impossível
recompor. O vizinho saiu em silêncio, ciente de que algo dera errado e de que os
culpados não seriam identificados. Quase cinquenta anos depois ainda acho
graça.
3)
A escola tinha uma mascote, uma viralatas brincalhona e paparicada por todos.
Acostumada com o falatório da multidão que ocupava o pátio nos momentos livres,
só atendia se chamada pelo nome ou para correr atrás de bola.
Num
meio de semana fomos informados que deveríamos nos preparar para uma visita
importante. À noite, troca de uniformes por peças novas, o que significava
visita imprtante. Manhã seguinte e um grupo de homens bem vestidos acompanhado
de madames chegou. Formação de refeitório, sorrisos, dentes escovados e perfume
de sabonete. As visitas tomaram café no refeitório, o que era ótimo. Café
caprichado para imperssionar, bis a vontade e serventes simpáticas (ao
contrário dos outros dias, quando os alunos que trabalhavam na cozinha serviam
café com leite preparado com a água onde eles costumavam lavar os sapatos).
As
atividades começariam meia hora mais tarde, para que as visitas tivessem a
oportunidade de passear entre os bem comportados alunos. Metade dos alunos estudava
pela manhã e metade pela tarde. Quem não estava estudando, estava em uma das
muitas oficinas de formação (mecânica, tornearia, sapataria…) ou – como eu e
meu irmão – no curso de música. Mas não nos dias de visita. Precisávamos causar
ótima impressão.
Os
visitantes se dividiram em dois grupos, masculino e feminino. Pouco antes da
formação para aula, os grupos se reencontraram num ângulo do pátio, onde dormia
preguiçosamente a nossa viralatas. “Como ela se chama?” Perguntou uma madame
que parecia ser a esposa do mais importante. “Tem nome não. A gente chama
assim: 'vem, tsc, tsc' e ela vem. Mas hoje tá com preguiça.” Os visitantes
começaram a chamar, assobiar, abaixaram-se para que ela se sentisse confiante mas,
nada. Insistiam, numa competição para ver quem era mais simpática. Nada. De
repente a cachorrinha levantou abanando o rabo e foi em direção à multidão de
alunos, de onde alguém a tinha chamado pelo nome, que todos conheciam: “Piroca!”
*
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Sunday, January 01, 2017
2017 começou bem
Acordei
de manhã e era um outro ano. Assim, de repente.
Quer
dizer que eu levo trezentos e tantos dias aprendendo a lidar com um ano e ele
acaba ainda novo? Claro que os fogos de
ontem à noite anunciaram a mudança; até o calendário na cozinha já é o de 2017,
mas vou ter que me acostumar com um ano diferente, meio que sem saber o que fazer
dele.
O
celular desligado recebeu um toró de mensagens enquanto eu dormia. Todas
desejando mudanças positivas e palavras de amor, porque não basta ser um outro
ano, precisamos mudar para que ele seja novo. Atitude é a palavra. É o que
deve substituir os planos, para que estes não fiquem apenas sonhos. Já
repararam que diante de uma tragédia as pessoas usam o celular para enviar
mensagens de amor? Não, 2017 não será uma tragédia, era só para reafirmar que o
amor é o mais forte dos sentimentos.
Essa
sensação de recomeçar, de que tudo é possível, faz parte do ser humano, acho eu.
Queremos o novo, queremos mudar e sermos melhores. E desejamos a quem gostamos
essa nova oportunidade registrada pelo calendário, para que elas sejam felizes também. Estabelecer metas e
estipular prazos, conscientes de que planos podem ser modificados, que o
caminho é cheio de curvas, sobe e desce, escurece, faz frio e chove. Não
precisamos estar preparados para o que der e vier, devemos estar prontos
para nos adaptarmos, improvisar e seguir em frente. Planos podem ser
modificados.
Piegas,
não? É que o inverno por aqui é de dias curtos e frios, e isso me faz nostálgico, introspectivo. Já começo a descobrir o que fazer com 2017. Para
começar, vou acordar todos os dias dizendo que é primeiro de janeiro; definir
metas, prazos e bolar um plano infalível: continuar entusiasmado.
Feliz
Ano Novo!
*
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Sunday, December 25, 2016
O Natal vai passar
26 de dezembro é feriado na Itália, dia de
Santo Stefano (Santo Estevão). Foi o primeiro mártir cristão, apedrejado após
ter sido condenado por blasfêmia pelo Sinédrio, uma alta corte de Jerusalém
daquela época. Segundo Santo Agostinho (entre outros) a conversão de Saulo (São
Paulo) teria sido influenciada pelas orações de Santo Estevão.
Mas hoje é Natal. Essa festa que foi perdendo o
sentido, até ser transformada no mais esperado momento comercial do mundo
ocidental. Amanhã, vinte e seis de dezembro, o Natal terá passado. Olharemos as
geladeiras cheias das sobras dos nossos excessos; voltaremos a ser solidários
com pessoas distantes e menos pacientes com as mais próximas; acabou a
expectativa e a espera passou; a Síria ainda vai estar destruída e Alepo não
vai ressucitar; nossas opiniões continuarão a ser verdades absolutas; só os
estevãos, stefanos, stephens e que tais viverão um dia especial; amanhã o
espírito do Natal já terá ido embora.
Outros natais virão, novas efemérides
substituirão as velhas. Carnavais, feriados, fins de ano, aniversários e
casamentos: até quando deixaremos nossas vidas serem regidas pelos calendários?
A festa tornou-se mais importante que o festejado; o hábito, mais que o monje;
ter, mais que ser. O Natal vai passar, a Síria vai passar, a humanidade vai
passar.
Mas hoje é Natal. Aproveite para comemorar e
guarde um pouco desse espírito para os outros dias. Se importe, se indigne com
as injustiças e indiferenças. E aja. Faça o impossível, mude e melhore o mundo.
E conte comigo.
Feliz Natal!
*
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