Tuesday, December 31, 2019

Querido diário

Sim, eu sei. Amanhã é só mais um outro dia, nada muda. Os dias nascem e duram apenas vinte e quatro horas. Pouco tempo para saciar todas as nossas curiosidades, aprendemos uma coisa de cada vez. Mas no final o dia sempre acaba, a noite nos faz dormir e acordar para um novo dia que promete ser igual a tantos outros, mesmo acreditando que serão diferentes, mesmo que sejam diferentes e nos ensinem novas lições, esclareçam enigmas e tragam novos conhecimentos. Os dias são iguais, nada muda e duram sempre vinte e quatro horas. Os dias são iguais.

Acontece que nós, humanos, gostamos de inventar marcos temporais, símbolos abstratos que nos ajudem a crer nas mudanças que planejamos. Somos assim, precisamos de futuro. E o futuro é o dia que ainda não vivemos, experiências novas, conhecer pessoas e lugares a nós estranhos. Precisamos de esperança. E um dia é pouco tempo, não cicatriza ferida, nem permite avaliar se estamos no caminho certo. Um ano são vários dias, podemos procrastinar acreditando que ainda temos tempo, seguir em frente confiantes, deixando que os acontecimentos engulam nossas vidas e empurrem para o lado os nossos sonhos.

Então vem um novo ano e a confiança se renova. E, de repente, transformamos nossos sonhos em planos e lutamos para concretizá-los. Outros anos passarão antes de chegarmos onde queríamos. Ou perto. Só então nos damos conta de que é o movimento que produz a mudança. Jogamos fora a poltrona e nos preparamos para novas empresas, novas experiências e objetivos. E quando o ano acaba, e fazemos a conta do que realizamos, e entendemos que fazer é melhor que planejar, aí um novo ano chega, não importa o dia, não importa o tamanho do sonho, só importa festejar.

E a esperança já não será uma espera, mas uma possibilidade.

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Thursday, December 12, 2019

O macarrão da Lurdinha



Petrópolis, anos 60 (sim, do século passado, Pedro Bó).
Ele avisava que estava levando uns amigos pra almoçar em casa. Acontecia vez ou outra e ela até que gostava. Tinha tempo para preparar algo diferente, até que o grupo chegasse do Rio a Petrópolis. Sempre no sábado, depois que ele fechava o escritório em Copacabana(?) e encontrasse alguém pra dividir o primeiro drink. Ele sempre gostou de companhia e o que era ocasional virou rotina. Todos os sábados ela tinha que cozinhar para um pequeno grupo de amigos que passava a tarde no clima agradável de Petrópolis. O que era divertimento tornou-se obrigação.

Ela nunca foi do tipo que aceita tudo. Isso não. Cansada de ter que bolar pratos diferentes, de passar horas na cozinha – é verdade, com ajuda da senhora que cuidava da casa, mas a responsabilidade e o grosso do trabalho era dela – se encheu. Decidiu que passaria a fazer uma macarronada, quem sabe o pessoal se tocasse e desse uma folga. Acontece que a macarronada dela fez um sucesso tremendo, e aquilo se espalhou como farofa no ventilador. A caravana nem esperava mais por ele. Chegava antes pra aguardar a macarronada da Lurdinha. Claro, os amigos de sempre, boêmios, músicos e picaretas divertidos, mas já não apareciam sós. Era tudo uma questão de tempo pra bomba estourar.

Itália, 2019.
Temos uns amigos aqui em Piacenza que todos os anos nos convidam para uma polenta. Sempre no início de novembro, usam uma imensa garagem/cantina/depósito de um dos vizinhos e tome polenta. Com javali, com funghi, com funghi e molho de tomate, com gorgonzola... Um dos vizinhos faz um delicioso pão caseiro, acompanhado de garrafões de limoncino e cada um aparece com muito vinho, salame ou coppa e alguma torta. A cada ano o número de participantes aumenta. Esse ano a Bianca ainda resolveu fazer vin brulè [vinho quente com especiarias] com um dos amigos. Não sobrou nem pra remédio.

Como sempre, numa turma numerosa tem sempre alguém menos simpático (aliás, mesmo nas turmas menos numerosas, devo confessar), alguém mais simpático, os extrovertidos, quem passa só para um alô, quem vai embora antes. Uns dois anos atrás descobri que a polenta tem um motivo: o aniversário de um daqueles, da turma dos menos simpáticos e que não é nem o dono do espaço onde rola a comilança e bebelança. Mas a polenta virou tradição e os estranhos só aumentam. Alguém levado por alguém, que foi levado por outro alguém. Verdade seja dita, comida e bebida não faltam e todo mundo procura ajudar. Muito vinho, doces que precisam ser consumidos até o anoitecer, um almoço que se estende até o jantar.

Com o fim da polenta, os salames, coppa e gorgonzola podem voltar pra mesa com o pão. Vinho, muito vinho. E licores vários e grappa. Misericórdia que o mundo vai acabar hoje. Já pensou o médico vendo aquela orgia de colesterol, álcool, açúcar, triglicérides e demais acompanhantes? Mas somos um grupo de glutões profissionais e esses são os riscos da profissão.

A polenta deve durar por mais um século, imagino. E ninguém vai lembrar quando começou nem o que comemoram. O importante é não perder uma. E levar vinho.

Como terminou a história do macarrão da Lurdinha? Não lembro, mas acho que ela deve ter rodado a baiana e acabado com a festa. Uma festa da qual ela não participava mais. Que fossem comer na praia, longe de Petrópolis. E ai de quem a chamar de Lurdinha hoje!

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Sunday, December 01, 2019

Hospital italiano


Gianni tem 72 anos, mas parece ter um vinte a menos. Média estatura, magro, sorriso fácil. Ele e a atual esposa – vinte anos mais jovem – são ciclistas apaixonados. Viajam de bicicleta por toda a Europa. E foi justamente uma bicicleta que o trouxe até aqui. No sentido figurado, ao menos. Passeavam numa tarde de domingo pela val Trebbia quando decidiram ir para a val d’Aveto e encontraram uma cratera. No final das contas, foi uma ambulância que o trouxe. Nenhum osso quebrado, só uma luxação num dedo da mão esquerda e um enorme hematoma nas costas, o que minimizou o joelho inchado e os muitos arranhões. Alguns leves, outros, profundos. A forte dor nas costas o impossibilitava de ficar em pé, que dirá de caminhar. Os muitos exames não revelaram traumas na cabeça, só no bolso: a bike de mais de seis mil euros acabou no ferro velho. Gianni tem apenas três dedos na mão direita. Uma prensa hidráulica lhe esmagou a mão trinta anos atrás. Tinham-na dada por perdida e seria amputada. Foi o médico bebum, idoso e desacreditado quem decidiu que meia mão era melhor que nenhuma. O indicador foi transformado numa pinça para permitir pegar objetos. E Gianni estava lá, adaptado e feliz. Feliz por não ter quebrado nada, feliz pela sua esposa passar quase o dia inteiro com ele, feliz com a meia mão. Fez amizade com todo mundo, sorrindo e batendo papo.

— Gianni, você precisa se esforçar. Procure levantar e caminhar um pouco, mesmo com alguma dor.
Ele olhou o médico e não disse nada. As pupilas e narinas se expandiram, a respiração mudou de ritmo. Só olhava.


Enrico foi largado no hospital. Pelas caras da esposa e da filha – acho que era filha – ficou claro que fora levado contra a sua vontade para o hospital. Passou os primeiros quatro dias deitado sem falar ou reagir, apenas alguns “não sei” quando o médico perguntou que remédio tomava para o coração, para o diabetes e outras questões de saúde. A mesma  bermuda, a mesma camiseta, barba por fazer e uma absoluta ausência do mundo. Vinte e quatro horas de silenciosa imobilidade por dia. Ia ao banheiro, pé enfaixado mancando, beliscava a comida que traziam, dormia e mergulhava na mudez. No quinto dia reapareceram a mulher e a filha. Levaram roupa limpa, pijamas, produtos de higiene e um pouco de conforto. Aos poucos descobriu-se que Enrico tem 74 anos, o pé direito em péssimas condições por causa da doença e um cateterismo que identificou a necessidade de uma angioplastia. Enrico serviu o Exército Italiano como paraquedista, trabalhou na construção civil e criou com a esposa as duas filhas. Aposentou-se e foi prestar serviço no bar da esquina. Cabeça dura, se recusava a ir ao médico e evitava passar perto de hospitais. Homem rude, um verdadeiro “duro”, Enrico. Sorriu quando recebeu a visita do neto de treze anos, internado por um pé quebrado no futebol, levado em cadeira de rodas ao quarto do avô. A outra vez foi quando um OSS (Operador Sócio Sanitário, o antigo auxiliar de enfermagem) se propôs a fazer-lhe a barba. Um sorriso de menino no espelho e um curativo no pequeno corte da lâmina de barbear. Um novo cateterismo, duas angioplastias e a proibição de colocar o pé direito no chão. A situação era complicada e teria que ser operado. Enrico continuaria internado, esperando a cirurgia. Ele mesmo declarou que não voltaria ao hospital, caso saísse. Descobriu-se que a esposa e filhas tinham ido todos os dias ao hospital naqueles primeiros quatro dias, que advertiram que ele não voltaria, que tinha sido levado praticamente à força, o que as fez abandoná-lo, no início. Enrico, emburrado atávico, mas de coração bom, diabético, cardiopata e silencioso.

Domenico velho de guerra. De família numerosa, recebia visitas o dia inteiro – inclusive fora do horário de visitas – de amigos, ex-funcionários, parentes e conhecidos. Reclamava. Casado a mais de cinquenta anos, dividia a atenção entre a esposa, os filhos, amigos e ex-colegas. Reclamava do sol, da chuva, do calor, do frio do ar-condicionado, da comida do hospital, da pouca atenção (sic) da equipe médica, da limpeza (duas vezes por dia), da política, do mundo e até de você, que nunca o viu mais gordo. Com 78 anos, era um eterno insatisfeito. Reclamava do colega de quarto, Enrico, que nunca falava, que ia ao banheiro e não o deixava limpo, que parecia um bicho, como se Enrico não estivesse ali, ocupando uma das três camas do quarto. “Aquele ali não é normal”. Nas poucas vezes em que não havia visita com ele, colocava ambas as mãos no peito, junto ao corpo e praticava  um lento e contínuo movimento com os dedos, fazendo o polegar deslizar nos outros dedos, do mínimo ao indicador. Se percebia que alguém notava, explicava que era um truque hindu para acalmar a mente. O diabetes tinha causado um estrago no pé direito e ele estava ali para uma nova cirurgia. Nos horários estabelecidos, as enfermeiras entregavam os remédios a cada paciente, tudo muito controlado. Ele agradecia, esperava a enfermeira sair, escondia os remédios que lhe foram entregues e tomava os que trouxera de casa. “Ah, esses médicos não sabem de nada. Esses remédios genéricos não têm a mesma eficácia dos de marca. Sou eu o meu próprio médico.”

O controle no hospital é rigoroso, tudo registrado e anotado, remédios com hora certa, dietas sendo respeitadas, limpeza, organização e cuidados acima do esperado.

Gianni voltou a andar quatro dias depois de dar entrada, com o auxílio de duas muletas. Mais uma semana, um procedimento cirúrgico para a aspiração do hematoma nas costas e tornou a caminhar normalmente, carregando pra cima e pra baixo um saco de drenagem com o tubo inserido nas costas. Recebeu alta poucos dias depois. Llivre da drenagem, comprou uma bicicleta nova e contratou um advogado para processar a prefeitura onde se encontrava a cratera. Atualmente está pedalando por aí.

Domenico foi transferido para outro hospital, sempre reclamando (mais de cinquenta anos de casado, santa esposa), para submeter-se à nova cirurgia. Vai reclamar até o fim dos tempos. E isso é tempo pacas!

Enrico continua internado, aguardando a cirurgia. Poderia ter ido pra casa esperar a nova internação com tranquilidade e conforto, mas se sair, Enrico não volta. Ah, não volta, não.

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Obs.: val Trebbia e val d’Aveto são as zonas adjacentes do rio Trebbia e do riacho Aveto, respectivamente, e não apenas o vale dos cursos d’água.

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