Monday, May 10, 2021

Comer com as mãos

O filho de um cliente me contou que não se sentiria a vontade de convidar-me para almoçar na academia de cadetes do Exército Italiano, assim como não convidaria nem mesmo seus pais, se isso fosse permitido. Por outro lado, convidaria o tio do pavê, só para vê-lo passar vergonha. Os cadetes, segundo ele, são punidos se não se comportam de modo exemplar à mesa. Disse, por exemplo, que comer banana ou laranja com as mãos é falta grave. São obrigados a usar garfo e faca e o fazem com habilidade.

Me incomoda quem se comporta de modo deselegante à mesa, mas tudo tem limite. Além disso, o uso das mãos, em alguns casos, é permitido e é o modo correto. Prefiro – e tenho muita companhia nisso – comer pizza com a mão. Frango frito (gente, que saudades de um bom frango à passarinho com alho!) é feito para lambuzar os dedos. Que devem ser rigorosamente lambidos. A maioria dos alimentos fritos pode-se comer com as mãos sem problema.

Existe uma relação sensorial com a comida que vai muito além do perfume, sabor e aparência. Crianças que aprendem a comer com as mãos, tocando alimentos inteiros ou em pedaços, invés da papinha em colheradas, crescem mais saudáveis física e emocionalmente. Uma fruta em cubinhos cria uma experiência muito mais pobre que aquela manuseada com as mãos. Não é por acaso que nas terapias de casal um dos exercícios é a pessoa oferecer à outra (a qual é afetivamente ligada) algum alimento com as mãos. Eu não lembro – e não quero googlar – do nome da atriz de Flash Dance, mas lembro da cena dela comendo lagosta com as mãos. Essa é considerada uma das cenas mais sexy do cinema!

Em todo caso, recomendo não aceitar fruta de sobremesa, caso receba um convite para almoçar em qualquer academia militar italiana.

Sunday, May 02, 2021

Qual tipo de massa você prefere?


 

Anos trás escrevi sobre o hábito de algumas pessoas utilizarem garfo e colher para comer massas longas. À época esclareci que nunca vi, na Itália, tal costume, com exceção de uma vez, em Roma. E aqui começa o divertido folclore italiano que enxerga os romanos como os verdadeiros caipiras da Bota. O mesmo folclore (por nada divertido) que produz pérolas como “l’Italia finisce a Modena” [a Itália acaba em Módena], frase usada entre os habitantes do norte e Centro-Norte do país. Esse, aliás, um mote dos separatistas do partido Liga.

Folclore a parte, afirmo a minha preferência pelas massas longas, espaguete, linguine, fetucine e suas variantes (tagliatelle, pappardelle e afins), além das massas recheadas. Claro que algumas massas curtas como tortiglione, penne e a coringa orecchiette convivem pacificamente com as demais aqui em casa. Apenas vou optar por uma massa longa se for eu a pilotar o fogão ou se puder interferir na escolha. Massas gigantes como paccheri ou conchiglione são mais bem-vindas que as massas curtas.

Lembrando que o uso de babador também não é comum por aqui – mas mais comum que a colher, usada para massas “in brodo” – e pedindo para nunca ser convidado se a massa escolhida for bucatini, aquele tipo de espaguete furado, pergunto: qual a massa de sua preferência?

Sunday, April 18, 2021

Diário 16.4.2021

Diário 16.4.2021

Estamos todos irritados, irritáveis e irritantes.

Até uns vinte anos atrás, a nossa possibilidade de interlocução se restringia prevalentemente ao círculo de pessoas com quem mantínhamos contato oral. Eram, na maioria dos casos, pessoas que conhecíamos pessoalmente. As comunicações não verbais estavam limitadas a uns poucos e-mails, a correspondências entre amigos, parentes e as de caráter profissional.

Com o surgimento das redes sociais a situação mudou completamente. Passamos a interagir por escrito muito mais do que estávamos acostumados. Tal mudança nos expõe ao confronto e ao julgamento alheio, que podem chegar de até mesmo de algum desconhecido do outro lado do planeta.

A partir de então, nos sentimos obrigados a ter opinião sobre quase tudo, a tomar posição, defender bandeiras, justificar a ideologia que escolhemos como correta e a fragmentar as relações como nunca acontecera. Sentimos a necessidade de preservar e defender nossos pontos de vista, de nos declararmos “do lado certo da história” e condenar quem discorda. Precisamos estar sempre do lado da verdade.

A polarização de qualquer debate não nos fortalece. Apenas mostra a nossa dificuldade em aceitar diferenças, em discernir, em praticar a diplomacia e preservar contatos. Contatos que podem divergir, mas que as compatibilidades mantiveram intactos até então.

As redes sociais têm um ritmo muito dinâmico, os fatos e as interpretações nos alcançam muito rapidamente. Temos pouco tempo para reagir e tomar posição.

Toda essa ansiedade, o medo de não acompanhar as mudanças e a incerteza de não saber se estamos realmente do lado certo – e não digo que exista um lado certo para estar – cria uma angústia que vai endurecendo dentro de nós, que coloca em dúvida as nossas crenças, que transforma o que pensávamos ser. Um muro alto e rígido que nos afasta do que de fato conta: as nossas afinidades.

Algumas perdas não farão falta e continuam onde estão. Perdemos tanto, desde então. Perdemos muito mais nesses tempos sombrios. Por que não salvar o que pode e merece ser salvado?

Monday, April 12, 2021

Diário 9.4.2021

 Diário 9.4.2021

Giuseppe Verdi tinha raízes piacentinas. Nasceu aqui perto, em Busseto, na província de Parma, que na época pertencia ao Reino da França. Seus pais eram de pequenos lugarejos da província de Piacenza. Passeava muito por aqui e tinha sempre quem o hospedasse para uma temporada mais longa. Pois foi o veneziano Antonio Vivaldi quem resolveu tirar umas férias na cidade nesses dias. Trouxe as quatro estações – em minúsculo, por não se referir à sua obra mais celebrada. Tivemos do verão ao inverno, com direito a mangas curtas suadas a neve e cachorro tremendo sob o capote. Não, aqui na cidade não nevou, mas nas colinas mais altas da província. Só faltou a neblina. Talvez seja cedo demais para afirmar isso. Quem sabe amanhece que roubaram o mundo do lado de fora da janela.

*

E por falar em música, hoje acordei com uma canção que se ouvia em todas as rádios dos anos 70. “Não, eu não consigo/Acreditar/No que aconteceu/É um sonho meu/Nada se acabou...” Desde aquela época não ouvia o Márcio Greyk soltar a voz nesse sucesso. Hoje ouvi. Dentro da minha cabeça. O dia inteiro. Fuçando, descobri que muitos outros artistas gravaram “Impossível acreditar que perdi você”. Entre eles, o Fábio Junior. E lembrei quando o FJ apresentava o programa Hallellujah com o Silvio Brito, na TV Tupi. Volto ao Greyk, que continua trabalhando.

 

Todas as manhãs a música saía pelas janelas abertas a caminho da escola. Era um tempo de janelas abertas e meninada fazendo algazarra. Na volta, a mesma música se misturava com o barulho de panelas de pressão e perfume do feijão pro almoço.

 

É isso, os músicos não morrem. Agora, por exemplo, Vivaldi está vivinho ao meu lado. Vai começar a Primavera.

Sunday, April 04, 2021

Diário 28.3.2021 - 4.4.2021

Diário 28.3.2021

Domingo de sol, clima fresco. Dia ideal para passear pelas colinas da província, descobrir um restaurante... Não, esquece. Zona vermelha, dia de ficar em casa.

*

A necessidade de estar torcendo para o lado certo é um mal medonho. Mudar de ideia, se arrepender, descobrir-se errado e optar pelo correto evita o ódio. E o ódio cega, mata.

 

Diário 29.3.2021

Quinta-feira fui levar a Lu na casa da Bia para o retorno dela a Londres. Camisa de flanela, colete e jaqueta de couro. Ressabiado, joguei um casacão no banco de trás. Hoje fui trabalhar de camisa polo de manga curta e suei.

 

Diário 2.4.2021

Esse verão nasceu de sete meses.

 

Diário 3.4.2021

Oops! Tinha até esquecido do rabo do inverno. O tal verão morreu antes de começar. Pernilongo apressadinho, também.

 

Diário 4.4.2021

Domingo de Páscoa, sol, frio (2 graus de manhã), passeio com o Shivinha, máscara, ruas desertas, *gralhas bagunçando o coreto da tranquilidade, charuto, gin tônica, o peralta indo rosnar pra Eloá acordar e fazer carinho para ele dormir de barriguinha cheia, bacalhau com natas e vinho. E amanhã é feriado: Segunda-feira do Anjo, popularmente chamado de “Pasquetta.

* Gralhas são voláteis que passam o inverno em algum pub de Londres e só voltam quando os corvos resolvem tomar a primeira do ano e os enxotam.

Saturday, March 27, 2021

Diário 15.3 - 26.3.2021

 Diário 15.3.2021

Se só esse vento gelado deixasse para soprar durante o verão, e não nesse fim de inverno, ele passaria de maldito a bendito. Eu nem me importaria com a terra dos campos que ele trouxe para dentro de casa.

 

Diário 16.3.2021

Hoje o vento gelado fez uma mulher correr atrás da bolsa de supermercado pelo estacionamento e pelo meio da rua. Quando ela alcançou a sacola, o vento voltou a soprar forte e por pouco ela não voou como um balão. De longe, não tinha como ajudar. Aproveitei para rir muito.

*

A Bia escreve, fula da vida, que o Real Madrid foi jogar contra o Atalanta no estádio aberto Di Stefano, e não no Santiago Bernabeu – que é um estádio fechado, no meio da cidade. Ventava na Espanha também. A Lu responde que sempre preferiu o Barça. Está certo, ela sempre disse isso. Acho que a Lu nunca torceu pra time nenhum. Ainda pequena, ela esperava o campeonato terminar para torcer pelo vencedor. A Lu sempre foi mais esperta.

*

O que uma gaivota faz às onze da noite, voando e gritando (?) pra lá e pra cá? Não, eu não quero saber, não. Era só pra perguntar.

 

Diário 17.3.2021

O serviço de podas fez um bom trabalho um (uns?) mês atrás. O vento está provando estar acima desse tipo de julgamento. Os bombeiros continuam sendo acionados por galhos e árvores que sucumbiram a essa super brisa que joga o vírus para outra dimensão.

*

Descobri o lado brincalhão dos melros. Quando o Shiva corre atrás deles, voam baixo para atiçá-lo. Só quando chega muito perto é que voam para o alto. E acho que ele entrou na brincadeira.

 

Diário 19.3.2021

Dia dos Pais. Presentes, vídeo chamada, carinho.

*

Não me lembro de um período ventoso tão longo quanto esse. E o lugar onde o vento faz a curva deve ser longe pra caramba, ele não volta durante o verão, mesquinho! E por falar em verão, o golpe de cauda do inverno chegou com o vento. Acordar com zero grau me congela os ânimos.

*

Abre parênteses. Não tenho medo de tomar injeção, tomei tanta nos últimos nos que as veias estão cheias de válvulas. Porém, não consigo ver aplicar. Viro o rosto e pode espetar o quanto quiser. Quando, em 2019, passei 45 dias internado, a enfermeira mandou a estagiária aplicar. A moça desistiu na terceira tentativa, disse que não conseguia e pediu que a enfermeira aplicasse. Eu interrompi e pedi a ela para se acalmar, ou não conseguiria superar. Disse que continuasse tentando, com paciência e devagar para sentir a minha veia e, se não acertasse, para tentar de novo e de novo até conseguir. Ela se aclamou e conseguiu. Cinco tentativas depois. Fecha parênteses.

Pergunta: Precisa mesmo mostrar tanta gente sendo espetada na tv?

 

Diário 26.3.2021

O vento passou, a semana foi mais tranquila.

*

Essa zona vermelha tá uma zona.

*

— Você fala com o seu cachorro???

— Claro que falo!

— E ele entende?

— Deve entender, ele presta uma atenção que vou te contar.

Sunday, March 14, 2021

Diário do futuro - 11

 Diário do futuro – dia 67

Quero deixar registrado o meu protesto contra o que parece, mas não é. É comum encontrar carros com bancos de couro. Mais agradável ao tato, bonito durável e luxuoso, o couro é muito popular nos carros de luxo – e nem tanto – da Europa. Desde que o mundo é mundo, o homem aprendeu a falsificar (a coroa da rainha da Inglaterra tem um rubi falso). Com o couro não seria diferente. Alguns materiais apenas se parecem com couro; já outros, são praticamente idênticos. Difíceis mesmo de identificar. Imaginem que algumas bolsas, casacos, sofás e outros objetos, são de material similar e o fabricante tem o cuidado de costurar uma tirinha de couro em algumas costuras para que o consumidor pense ser a borda do produto, acreditando ser de couro.

 

Pois bem, a minha indignação vai para o material mais recente, coisa de uns quatro anos, que é exatamente igual ao couro. E pode até ser vendido como couro, dependendo da lei do país. Como é possível? Bem, a coisa começou assim: anos atrás algum gênio decidiu aproveitar as sobras de couro dos curtumes, estofadores, fábricas de móveis e todo estabelecimento que usasse couro em quantidade. A peça de couro, aquela com a forma do boi, costuma ter partes não aproveitáveis, seja por cicatrizes, dobras e outros defeitos. O descarte ia para o lixo até esse geniozinho de merda pegar tudo, triturar, misturar com uma resina elástica e cobrir com uma película plástica, normalmente aplicada a quente, por um rolo que imprimia o desenho imitando o couro. O resultado é que milhões de carros trafegavam com o volante despelando após o primeiro verão. Sabe quando você esqueceu do filtro solar e abusou do sol? Despela tudo, não é? Pois aqueles volantes despelavam igualzinho. É possível que você tenha visto um desses volantes. Pois bem, resolveram melhorar o material e expandir o uso para os bancos dos carros, só não tem mais aquela película.

 

O problema é que ao triturar o couro ele perde as fibras que mantinha a peça íntegra. Esse material é um aglomerado destinado a se desaglomerar. E estão usando isso em carros de luxo e caros. Eu deveria rir da situação e dar de ombros, afinal eu não tenho, e nunca teria um carro ou sofá de couro. O couro é a pele do animal. Pele faz rugas. Rugas precisam de tratamento especializado e o resultado não substitui a pele nova. Banco e sofá de couro só é bonito na loja. Quando usado, amassa, fica cheio de rugas, é frio no inverno, quente no verão e chato de limpar. Quero não.

 

Voltando a como eu deveria estar, eu não posso ficar feliz. Sou restaurador de couro e o meu trabalho sobre esse falso couro não vai durar por causa do material. Só para dar uma ideia, algumas marcas de automóveis tem um couro de primeira e é necessário muito tempo ou muita esfregação – entrar e sair do carro esfrega o banco – para que seja necessário um restauro. Mediamente uns duzentos mil quilômetros (o que aqui não é muito), enquanto esse novo material precisa de algo como trinta e cinco mil quilômetros. Em outras palavras, a restauração vai durar muito menos e o cliente vai duvidar da qualidade do meu trabalho. Que raiva!

 

No próximo capítulo vamos ver de que material são feitos os discos voadores. Não percam.

 

Diário do futuro – dia 68

Toda vez que algum parente, amigo ou conhecido é vacinado, fico feliz. Hoje foi a vez do Presidente Sergio Mattarella e da amiga Tatiana (mais alguém?). Só a vacinação em massa vai interromper o ciclo e impedir o aparecimento de novas variantes.

*

Ontem foi uma segunda-feira pesada. Hoje foi a segunda-feira de ontem. Vou lá fora buscar outra cerveja.

*

Já voltei.

*

Ele espera que eu saia do banheiro de roupa trocada e vá preparar o kit para o passeio. Guia, garrafa d’água, saquinhos plásticos, focinheira, casaco e o capote dele. Só então resolve levantar. Passa a noite dormindo entre o sofá, a cama da Lu, a dele e a nossa. Conhece a rotina da casa e se adapta a ela. Para subir na nossa cama, dá a volta e sobe por cima dela. Nunca entendi, mas é assim desde sempre. Rosna. Rosna quando quer carinho, rosna porque o carinho é no lugar errado, rosna se alguém o acorda, rosna quando tem que ceder o lugar. Rosna. Rosna tanto que rosna enquanto dá beijinhos. Rosnento.

*

Tenho que confessar uma coisa. Ontem escrevi que veríamos de que material são feitos os discos voadores. Infelizmente tenho que dizer que não sei. Eles até contaram, mas o som é irrepetível por mim, uma daquelas coisas que se quisesse imitar, teria que quebrar a garganta. E depois, de nada adiantaria. Não tenho a menor ideia que material é aquele.

 

Diário do futuro – dia 69

Ela decidiu que o relacionamento não podia continuar. Ele, furioso, decidiu “se vingar”. Espalhou pelo vilarejo, na província de Salerno, sul da Itália, cartazes com uma foto dela em pose sensual, possivelmente photoshopada, oferecendo prestações sexuais. Como o lugar é muito pequeno e todo mundo se conhece (todo mundo se conhece mesmo!), os moradores, chocados, arrancaram os cartazes e denunciaram à Polícia Postal (aqui o que não falta é polícia). Após uma rápida averiguação – termo policial – ele foi devidamente levado a uma hospedaria do governo.

 

Nunca entendi o que leva alguns homens a pensar e acreditar que outra pessoa possa ser uma propriedade. Ela pulou fora? Somos mais de 7 bilhões de humanos, mais ou menos a metade é do sexo feminino, procura outra e esquece.

 

O que vai acontecer com a vida dessas duas pessoas? Quanto tempo de hospedagem vai ser preciso para ele entender a estupidez? Ou será que vai piorar, ficar com mais raiva ainda e decidir tratar todas as mulheres como objetos propriedades de alguém? Vai sair pior que quando entrou? Que sociedade nos tornamos?

 

Torço muito para que essa história termine aqui. Gente é pra se amar.

 

Ele: 17 anos.

Ela: 13.

!!!

 

Diário do futuro – dia 70

Os melros já festejam a primavera. Cantam e cantam, ignorando a presença dos habitantes da cidade. Ouriços sonolentos e debilitados pelo letargo, atravessam parques e ruas lentamente, ao contrário dos apressados javalis que rondam a periferia, lá onde a cidade deixa espaço ao campo, a dez minutos de bicicleta do centro da cidade, e por onde correm cervos, lebres e coelhos. Faisões tímidos ciscam os terrenos preparados em pequenos haréns, fugindo a qualquer aproximação com seus voos baixos. A nútrias, ou ratões-do-banhado, pastam calmamente nas margens de rios e córregos. A vida ainda não explode, apenas boceja com os olhos semiabertos. Só aquele tipo de cegonha que passa o dia imóvel, com uma das patas enfiada na neve desapareceu. Assim como a neve. Não tarda e as borboletas, pernilongos e outros insetos virão.

 

A vida segue. Cochilando e espreguiçando.

 

Diário do futuro – dia 71

“A mulher bala larga tudo e vai embora”. Esse era o título de um velho artigo de jornal. “Duas almas sentem que se amam, mas a regra não permite. Não lhes seria permitido exaurir o desejo de dividir suas emoções juntos porque ‘a regra do circo’ não permitia.” E foi por isso que a estrela e grande atração do circo decide fugir e viver seu grande amor.

 

Francesco De Gregori inspirou-se na notícia para compor uma música que entrou para o rol das grandes canções italianas. Um clássico. Ele convida à loucura de ignorar as regras e voar para viver a própria vida. Largar tudo por algo que não pode esperar para ser vivido.

 

O título original da música é “La donna cannone”. Link nos comentários.

*

La donna cannone (A mulher bala) – Francesco De Gregori

 

Butterò questo mio enorme cuore tra le stelle un giorno,

(Vou lançar meu grande coração entre as estrelas, um dia,)
giuro che lo farò,

(Juro que lanço,)

e oltre l'azzurro della tenda nell'azzurro io volerò.

(E além do azul da tenda, no azul eu vou voar.)
Quando la donna cannone

(Quando a mulher bala)
d'oro e d'argento diventerà,

(De ouro e prata será,)
senza passare dalla stazione

(Sem passar pela estação)
l'ultimo treno prenderà.

(O útimo trem vai pegar.)

E in faccia ai maligni e ai superbi il mio nome scintillerà,

(Na cara dos maldosos e soberbos meu nome vai brilhar)
dalle porte della notte il giorno si bloccherà,

(Das portas da noite o dia vai se livrar)

un applauso del pubblico pagante lo sottolineerà

(Que o aplauso d público pagante irá sublinhar)
e dalla bocca del cannone una canzone suonerà.

(E da boca do canhão uma canção vai tocar.)

E con le mani amore, per le mani ti prenderò

(E com as mãos, amor, vou te pegar)
e senza dire parole nel mio cuore ti porterò

(E em silêncio, ao meu coração te levarei)
e non avrò paura se non sarò bella come dici tu

(Não terei medo se não sou tão bonita como diz)
ma voleremo in cielo in carne ed ossa,

(Mas voaremos no céu em carne e osso,)
non torneremo più...

(Não voltaremos mais...)
na na na na na

e senza fame e senza sete

(E sem fome e sem sede)
e senza ali e senza rete voleremo via.

(E sem asas e sem rede voaremos para longe.)

Così la donna cannone,

(Assim a mulher bala)
quell'enorme mistero volò

(Aquele enorme mistério voou)
tutta sola verso un cielo nero nero s'incamminò.

(Sozinha para um céu escuro caminhou.)
Tutti chiusero gli occhi nell'attimo esatto in cui sparì,

(Todos fecharam os olhos no instante exato que desapareceu,)
altri giurarono e spergiurarono che non erano stati lì.

(Outros juraram e perjuraram que não estavam lá.)

E con le mani amore, per le mani ti prenderò

(E com as mãos, amor, vou te pegar)
e senza dire parole nel mio cuore ti porterò

(E em silêncio, ao meu coração te levarei)
e non avrò paura se non sarò bella come dici tu

(Não terei medo se não sou bonita como diz)
ma voleremo in cielo in carne ed ossa,

(Mas voaremos no céu em carne e osso,)
non torneremo più...

(Não voltaremos mais...)
na na na na na

e senza fame e senza sete

(E sem fome e sem sede)
e senza ali e senza rete voleremo via.

(E sem asas e sem rede voaremos para longe.)
 

Diário do futuro – dia 72

O Zuka me propõe amizade com pessoas que sempre foram amigas. Vou conferir e descubro que fomos desamigados. Na dúvida não peço amizade de novo, vai que o excluído fui eu... É raro, mas raro mesmo eu bloquear alguém. Se não curto nem comento, o algoritmo se ocupa em não mostrar mais. Eu acho. Claro que tem quem me desamigou, mas sou distraído demais para perceber. O chato mesmo é quando encontro comentário não respondido em postagem velha. Ah, Zuqinha!

*

— Por quê quando vou escrever lockdown eu sempre acho que é com a?

— Escreve lókidáum que não tem erro.

— Quarentena me parece longo demais. Não quero ficar em casa quarenta dias.

— Lockdown é muito down. Poderia ser locklight, softlock, softrock...

— Nós já temos um destruidor de ânimos em casa, não precisamos de algo down.

— Esse é o verdadeiro blackstorm! O nosso Blackdown.

— Que lockdown que nada! Esse é lôkobrown.

— E se invés de lockdown você escrevesse zona vermelha?

— Não vou responder é nada! Vou mudar de assunto e falar de comida.

 

Diário do futuro – dia 73

Em março do ano passado eu escrevia o primeiro “Diário do fim do mundo”, esperando que a quarentena terminasse num par de meses e que tudo voltaria ao normal. Passamos diversas fases de medidas de contenção da pandemia, acompanhamos erros e acertos, teorias furadas, negacionismos, a chegada das vacinas – Viva a Ciência! – e perdemos muito. Perdemos pessoas, rotinas, tempo e paciência. Só não perdemos a esperança.

 

Hoje nos preparamos para voltar à situação daquele dia. A partir de amanhã estaremos trancados em casa novamente. Não aprendemos nada. Não aprendemos com a China, que trancafiou milhões de pessoas em casa. Não aprendemos com a Nova Zelândia, que no primeiro sinal decretou uma quarentena que nos deveria servir de lição. “Ah, mas a Nova Zelândia é uma ilha...” Oras, toda cidade é uma ilha. Araraquara é uma ilha e o isolamento da cidade está provando que mesmo em meio ao caos do país, é possível tomar medidas eficazes.

 

No dia 1º de janeiro eu estava cheio de bons propósitos a ponto de rebatizar essa escrita de “Diário do futuro”, acreditando que esse 2021 seria um ano muito melhor. Bastaram 74 dias para que o meu otimismo fosse engolido pela cratera da realidade. A campanha de vacinação se arrasta por aqui e por todo lugar. A vacina é a única solução para a espécie que se autointitula “evoluída”, mas que não é capaz de viver no coletivo. Basta o anúncio de maior restrição da circulação para que os bares e restaurantes italianos fiquem entupidos de pessoas evoluídas, que querem aproveitar o último gostinho de liberdade. Para alguns desses – e para os que os cercam – será realmente o último. Acompanho as notícias brasileiras de praias lotadas, bares que burlam as medidas, festas clandestinas e o número de vítimas que só faz crescer. Tudo isso tem um efeito devastador em quem se tranca em casa, em quem adota as medidas de proteção, em quem se preocupa. Tenho andado muito abalado com toda essa situação, só posso torcer e esperar.

 

Esse diário termina aqui. O futuro em que acreditava só acontecerá quando a humanidade se reconhecer como um único organismo, que as nossas atitudes individuais, boas ou ruins, têm efeito no planeta. O diário passa a ser esporádico, quando a vontade de partilhar algo positivo aparecer, mas já não será um compromisso cotidiano.

 

Fique bem.