Saturday, July 08, 2017

Neza




Essa é a história da Neza. Pensanso bem, é um cadinho da história da Neza mais o Zé, porque um sem o outro era nenhum. Gentes simples, como simples é a vida. Eram, também, epeciais. Não só porque cada pessoa è especial, mas porque eram especiais.

Juntos viveram e viveram. Deram duro para criar os filhos (sim, tiveram filhos) com exemplos de moral, amor e fé. Fé na vida, fé nas gentes. Ele, sempre concentrado no trabalho, quando tinha que trabalhar; concentrado no repouso quando tinha que descansar; concentrado na pescaria, quando ia pescar. Com a família no centro do mundo. Ela, atenta a tudo o tempo todo, com a família que cada vez mais se expandia, adicionando parentes, amigos e nescessitados.

O Zé era de um modo doce e educado, um jeito simples de resolver as coisas. A Neza era direta, instintiva, de sentimentos intensos e decidida. Beijava e brigava com a mesma energia, raiva e perdão. Eram opostos e diferentes que, unidos, beiravam à perfeição. Talvez por isso mesmo viveram juntos uma vida, mesmo depois que os filhos criaram, cada um, a própria família. Foi pra isso que criaram os filhos. 




Um dia o Zé foi embora, pescar em outros lugares que não fossem o ‘Panema. A Neza ficou só, na casa que agora era só dela, no canto dela. “Me deixa quieta no meu canto”, dizia. Os olhos já não refletiam o brilho de sempre. Passava o tempo esperando o tempo passar. Nem raiva nem perdão.

Domingo passado foi dia de festa, com músicas que ela não ouvia há muito tempo. Os olhos azuis do Zé cruzaram com os dela e a Neza entendeu como um convite. Ela aceitou e foi dançar com o Zé. Juntos de novo, estão lá dançando, como se não houvesse mais nada no Universo senão dançar. A Neza decidiu continuar a história deles, mesmo que o Zé decida ir pescar em outros ‘panemas. Ela vai atrás.

Porque o Universo é lugar de ficar junto. E de dançar.






Saturday, July 01, 2017

O resto do lixo



Quem aí se lembra do blog Lixo tipo especial do querido e divertido Flavio prada levanta o mouse.

Sim, ele tinha transferido o blog para o Verbeat e esqueceu de salvar tudo antes que o Verbeat fechasse. O bom é que ele agora voltou a escrever. Tá bom, o rimeiro post não foi exatamente escrito mas tá valendo. O novo endereço è

Vão lá visitar e aproveitem para desopliar o fígado.
:)


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Saturday, June 24, 2017

Trilha sonora italiana - Francesco De Gregori



Pode acontecer de um cantor ou compositor voltar a fazer sucesso após um período de ostracismo. Não é o caso do cantor e compositor Francesco De Gregori (Roma, 1951).  Ele jamais deixou a ribalta italiana.

Já nas primeiras exibições no Folkstudio – um espaço alternativo da Roma dos anos sessenta – pode-se notar a proposta introspectiva de De Gregori. Fã declarado de Bob Dylan (que também se exibira no Folkstudio quando ainda era desconhecido), compôs recentemente o disco  “De Gregori canta Bob Dylan – Amore e Furto”
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É difícil montar uma coletânea com as melhores canções desse artista inteligente e refinado, entre os mais premiados da música italiana, também chamado de “Il Principe”, o príncipe da música italiana. Anote o nome, ouça e faça você mesmo uma lista. Boa sorte!

Alguns sucessos:

La Donna Canone (uma história verídica sobre um circo em dificuldades, depois que a “mulher bala”, a principal atração, fugiu por amor)


Generale


Rimmel


Come il giorno (Bob Dylan)


Alice (a canção que o fez famoso eque voltou a tocar insistentemente nas rádios)

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Friday, June 02, 2017

Escola XV


Quem viveu o Rio nos anos setenta, conhece bem a Escola XV (Ginásio Industrial Quinze de Novembro – GIQN). Quem não viveu, não vai entender o que ela representava. Códigos, regras e gírias próprias. Grandes comprimidos placebo produzidos localmente (com pão…?) lotavam os enormes vidros da enfermaria. Eram indicados para tudo. E funcionavam. Enterrávamos sapoti para amadurecer e torrávamos castanhas de caju em latas vazias. O orgulho era a sala de troféus e os muitos atletas que de lá saíam. “Djonca” era sinônimo de perigo, cuidado, se manda.

1) 1970, dia de vacinação. Mil e quinhentos alunos em fila e em silêncio. Duas enfermeiras com pistolas, uma para cada braço. A organização era por ordem de classe e alfabética. Nem mesmo as moscas se atreviam a voar. O aluno passava e tomava a primeira vacina no braço direito, dava um passo e tomava a segunda no esquerdo. Quem teria resitido à tentação? Eu não. Primeiro da fila: Allan, da Primeira A. Segurei o riso e berrei o mais alto que pude. Duas vezes. Lembro do desespero dos poucos inspetores tentando capturar os fujões medrosos. Perdeu-se o dia com a vacinação. Houve, inclusive, quem duvidasse da minha dor.

2) Driblamos a vigilância e fomos roubar goiaba na chácara do vizinho – longe pra caraca! Corremos quando a sentinela avistou o proprietário e deu o alarme. Manhã seguinte, depois do café e antes da formação para a aula, Seu Glaston – chefe de disciplina – apareceu na varanda cinco degraus acima do pátio e apitou com estridência: “Priiiii!” Naqueles momentos todo mundo brincava de estátua. Nem virar a cabeça podia, só o barulho da bola rolando e a voz do Seu Glaston no microfone: “Formação de disciplina – Priiiii!” Pronto, podia-se voltar à pelada. Sem muito entusiasmo, porque formação de disciplina anunciava merda.

Tínhamos três tipos de formação, uma para aula, por classes e ordem alfabética; uma para o refeitório, que se formava a partir de quem chegase primeiro, sem correria; uma de disciplina, por dormitório e altura, com os mais baixos na frente. Cinco minutos depois Seu Glaston apareceu de novo no balcão: “Priiiii!” Naquele momento não precisava dizer mais nada, cada um sabia o seu lugar. Seu Glaston pegou o microfone e fez um discurso de meia hora sobre responsabilidade, honestidade ou coisa parecida, que ninguém escutava. Só nos preocupávamos em permanecer perfeitamente alinhados, em posição militar de descansar e sem se mexer. Após concluir a ladainha, esclareceu que um grupo de alunos tinha roubado goiabas no vizinho. Informou que o vizinho – o senhor al lado dele – ouvira o nome de um de nós e, batendo a “mãe preta” na mão (uma tira de borracha rígida de uns quarenta centímetros de comprimento, cinco de largura, por um de espessura – usada nas mãos oferecidas pelos infratores como sinal de arrependimento) chamou o senhor ao microfone. Frio na espinha. Quem teria esquecido a regra de nunca usar nomes? Até porque, éramos conhecidos pelo número de matrícula. Eu era o 405 (quatrocentos e cinco), meu irmão, 897 (oito, nove, sete) e por aí vai. Quantos josés deveriam ter? Sei lá. Poucas, pouquíssimas exceções; Hulk era o aluno mais forte da escola; Doinha era a estrela do basquete; Clidão (Euclides) o mais alto e mais magro. E tinha o Negão Dois Dez (210), que era um monstro. No bom sentido, claro. Tinha dois metros de altura por dez de largura. Cinematográfico lutador de judô que ignorava a filosofia daquele esporte (que eu e meu irmão também praticávamos, além do xadrez – este, com honras): “usar a força do adversário contra ele mesmo”. Dois Dez simplesmente levantava o adversário, se ajeitava embaixo e liquidava a luta com um ipon, independente do tamanho ou do peso do opositor. Não era raro ver o outro lutador desmaiar ao ser arremessado no chão com tanta força. Mesmo o Hulk mantinha distância dos debates sobre a força dele. Professor Paquetá ria e tinha o cuidado de ser gentil ao corrigir Dois Dez.

Voltando à disciplina, o vizinho recebeu o microfone das mãos de Seu Glaston e repetiu em voz alta o nome ouvido: “Djonca.” O chefe de disciplina ria tanto quanto nós. Supervisores gargalhavam e a formação estava desfeita, impossível recompor. O vizinho saiu em silêncio, ciente de que algo dera errado e de que os culpados não seriam identificados. Quase cinquenta anos depois ainda acho graça.

3) A escola tinha uma mascote, uma viralatas brincalhona e paparicada por todos. Acostumada com o falatório da multidão que ocupava o pátio nos momentos livres, só atendia se chamada pelo nome ou para correr atrás de bola.

Num meio de semana fomos informados que deveríamos nos preparar para uma visita importante. À noite, troca de uniformes por peças novas, o que significava visita imprtante. Manhã seguinte e um grupo de homens bem vestidos acompanhado de madames chegou. Formação de refeitório, sorrisos, dentes escovados e perfume de sabonete. As visitas tomaram café no refeitório, o que era ótimo. Café caprichado para imperssionar, bis a vontade e serventes simpáticas (ao contrário dos outros dias, quando os alunos que trabalhavam na cozinha serviam café com leite preparado com a água onde eles costumavam lavar os sapatos).

As atividades começariam meia hora mais tarde, para que as visitas tivessem a oportunidade de passear entre os bem comportados alunos. Metade dos alunos estudava pela manhã e metade pela tarde. Quem não estava estudando, estava em uma das muitas oficinas de formação (mecânica, tornearia, sapataria…) ou – como eu e meu irmão – no curso de música. Mas não nos dias de visita. Precisávamos causar ótima impressão.

Os visitantes se dividiram em dois grupos, masculino e feminino. Pouco antes da formação para aula, os grupos se reencontraram num ângulo do pátio, onde dormia preguiçosamente a nossa viralatas. “Como ela se chama?” Perguntou uma madame que parecia ser a esposa do mais importante. “Tem nome não. A gente chama assim: 'vem, tsc, tsc' e ela vem. Mas hoje tá com preguiça.” Os visitantes começaram a chamar, assobiar, abaixaram-se para que ela se sentisse confiante mas, nada. Insistiam, numa competição para ver quem era mais simpática. Nada. De repente a cachorrinha levantou abanando o rabo e foi em direção à multidão de alunos, de onde alguém a tinha chamado pelo nome, que todos conheciam: “Piroca!”

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Sunday, April 23, 2017

Democracia alheia



Dois mecânicos conversavam ontem, sábado, 22 de abril, num bar de Cremona, Itália.

▬ Seria legal se voltássemos a ter um rei.

▬ Tá maluco…?

▬ Um cara meio doido, que executasse quem se aventurasse a lhe fazer oposição.

▬ Entrou pro partido da monarquia? Eu é que não quero viver à sombra de um mandão decidindo a minha vida.

▬ Um rei com uma meia dúzia de ministros e mais os parentes e cunhados – que cunhado não é parente – livres de roubar. Um rei e seus quarenta ladrões.

▬ Da última vez não deu certo…

▬ Isso porque vieram com aquela conversa mole de igualdade, liberdade…

▬ E você acha correto deixar a nobreza roubar do povo?

▬ Seriam só uns quarenta, cinquenta. Hoje, quantos são? Dez mil, vinte mil?

▬ Ainda prefiro a democracia.

▬ O quê…? Não escolhemos em quem votar, votamos em quem decidem eles; reduzem os nossos benefícios e salários, enquanto os deles só aumentam; chamam de vagabundo quem trabalhou a vida toda pra se aposentar; decidem até o que podemos ou não fazer e criam leis para se protegerem… Se isso é democracia, então eu não sei o que é ditadura.

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Friday, February 10, 2017

Saco do touro de Milão



 

Na praça central dentro da Galleria Vittorio Emanuele II, na Piazza Duomo de Milão, entre os mosaicos que compõem o pavimento existe uma figura de um touro, que representa a cidade de Turim. Não se sabe quando o rito surgiu, mas a tradição afirma que girar sobre o calcanhar direito, dando três voltas completas sobre os genitais do touro traga sorte. É um ritual supersticioso repetido diversas vezes por dia dos passantes, especialmente dos turistas.



Acontece que tal hábito consome velozmente a imagem do touro, que deve ser restaurada frequentemente. Na realidade, uma antiga tradição milanesa previa esfregar o pé sobre o brasão somente na noite de 31 de Dezembro, à meia-noite.



Um amigo que visitava a cidade lembrou que na praça central da cidade de Florianópolis, onde morava, há uma árvore com uma copa imensa, sob a qual foram instalados bancos onde os moradores e turistas aproveitam para reparar-se do sol no Verão. Contava o amigo, que os guias turísticos inventaram que dar três voltas circundando o tronco da imensa árvore dava sorte, levando uma romaria de turistas a caminhar em volta da árvore, até que a prefeitura local resolveu acabar com a festa, ameaçando os guias turísticos com a cassação das respectivas licenças.



A prefeitura de Milão chegou a cogitar isolar o mosaico do touro com uma cerca metálica, mas acabou entendendo que tal atitude seria recebida com antipatia pelos frequentadores da Galleria e que o turismo poderia ter alguma perda. Resignada, preocupa-se de refazer o mosaico cada vez que o buraco ameaça a incolumidade dos passantes.

Lembre-se: devem ser três giros.