Saturday, October 13, 2018

Eleição brasileira no consulado de Milão


Perdemos o trem das 9:50 h antes mesmo de sair de casa. Tudo bem, o compromisso não tinha hora marcada, pegaríamos o próximo. Apesar de morarmos a 60 quilômetros de Milão, prefiro ir de trem. Evito dirigir no caos da cidade, procurar estacionamento, levar multas e gastar muito mais tempo que gasto indo de trem. De quebra, posso passear pela cidade sem me preocupar em voltar para pegar o carro.





         Antes mesmo de entrar na via Clerici, onde se encontra o Palazzo Clerici, local da votação bem no centro de Milão, nos assustamos com a imensa fila de eleitores que se estendia até o Largo Belotti, virava na via S. Dalmazio e se perdia de vista. Enfim, uma confusão danada para entrar, uma confusão maior para descobrir em qual nova sessão votar e uma certa indignação com o que parecia ser falta de organização para um evento tão importante assim, apesar da cortesia, paciência e disponibilidade dos funcionários. Descobrimos que o espaço tinha sido reduzido de dois andares a duas salas, com as seções dispostas uma ao lado da outra. Claro que a culpa não era dos funcionários, que devem ter dado saltos mortais de costas, carpeados e dobrados para permitir que a votação acontecesse no minúsculo espaço à disposição.






         Na verdade, o que vimos foi um grande espetáculo. Um monte de gente bonita alegrando o domingo milanês. Não, não era um desfile de moda com modelos ou personalidades famosas. A grande estrela desse 7 de outubro foi a gente brasileira, feliz por estar participando da festa. Gente de todas as cores e tipos aguardando a sua vez, reencontrando conhecidos e fazendo novas amizades, combinando o que fazer depois, papeando amenidades. Só duas pessoas com camisas verde-amarelas e o único comentário sobre a eleição que ouvi foi: “Vocês viram? O pessoal no Brasil enlouqueceu. Eu não vou declarar meu voto, não e também não quero saber o candidato de ninguém. Cada um vota com a própria consciência.”  Sim, viver longe às vezes tem suas vantagens.





         Depois do voto? Bem, fomos comer, dar umas voltas pela cidade, tomar um café e uma grappa, outra grappa e, de quebra, minha filha deu dicas preciosas a um médico tailandês (acho) que passeava pela cidade, sobre como se locomover com o transporte local. Para digerir a grappa, desistimos do metrô e caminhamos por uma hora até a estação Central. O trem nos levaria de volta. Felizes e com a sensação do dever cumprido da melhor maneira.


Friday, September 28, 2018

Prepare o seu voto - eleições 2018

Este ano o que sobra é candidato para presidente da república, escolha o seu, escolha o certo. Mas não podemos esquecer que devemos eleger bons senadores e bons deputados, assim como governador e deputados estaduais.

Como a eleição para os cargos executivos – presidente e governador – pode ocorrer em dois turnos, caso nenhum dos candidatos obtenha mais de 50% dos votos válidos, é muito importante deixar essa história do “voto útil” de lado, pelo menos no primeiro turno. Se todo mundo votar no candidato que acredita ser o melhor, a eleição fica mais equilibrada e o seu candidato se fortalece, mesmo que não vença a eleição. O vencedor vai ter que considerar quantos eleitores escolheram as propostas do outro, e o governador e o presidente, serão governador e presidente de todos, e não somente dos eleitores que os votaram. Repito: é muito importante votar no candidato que você acha o melhor. O melhor que irá governar por quatro anos, mesmo que tome medidas desagradáveis.

E aqui a solução é informar-se. Não se deixe levar pelas pesquisas, não vote em um candidato apenas por que as pesquisas apontam que será o vencedor. Busque todas as informações disponíveis e pense bem no que você espera do seu governador e do presidente. Não tem que ser simpático/simpática, bonito/bonita, jovem ou o que fala melhor. Informe-se sobre quais são as suas propostas.

Aproveite para informar-se sobre o passado dos seus candidatos, o que fizeram, quem ele defende e qual as melhorias propostas. Claro que isso vale também – e principalmente – para os candidatos a deputados estaduais, deputados federais e senadores. Se você é empresário/empresária, veja se o seu candidato apoia o seu setor. Se, ao contrário, você é empregado/empregada, veja quem votou em leis que prejudicam a classe trabalhadora. Depois, pergunte-se se era isso que você queria, se está satisfeito/satisfeita com o trabalho do seu candidato e se quer que ele/ela seja o seu representante, o/a representante do que você deseja. Se puder, evite votar em quem vive de política. Político não é profissão e quem aparece de quatro em quatro anos distribuindo sorrisos e abraços, ou (pior!) dando alguma coisa em torca do seu voto, vai esquecer de você pelos próximos quatro anos. Do mesmo modo, não reeleja político que nunca apresentou projeto, que dorme no plenário e está lá apenas para fazer número, ganhar sem fazer nada e dar emprego a parentes e amigos. Se ficar na dúvida, escolha outro candidato. E depois tenha orgulho de dizer que votou com consciência. A sua consciência.

Se você não fez o cadastro biométrico, é mais provável que o seu título tenha sido cancelado e que você vá ficar de fora das eleições. Se você mora no exterior, lembre-se de que só pode votar para presidente da república e que o cadastro biométrico não vale para expatriados. Em ambos os casos – quem vota no Brasil e não fez o cadastro biométrico e para quem vota no exterior – é aconselhável consultar o site do TSE para confirmar se está apto a votar e a seção de votação. E não se esqueça de justificar o voto, no caso de se encontrar fora do domicílio eleitoral.

A probabilidade de haver segundo turno é muito grande. Portanto, escolha o candidato/a candidata do coração e deixe o voto útil para o segundo turno.

Calendário eleitoral:
7 de outubro – 1º turno
28 de outubro – 2º turno

O TSE lembra:
1.     a) Facultado ao eleitor que estiver ausente de seu domicílio eleitoral — inclusive o transferido temporariamente para votar em trânsito — justificar sua ausência na votação nas mesas receptoras de votos ou nas de justificativas, instaladas para esse fim, no mesmo horário reservado para a votação.
2.     b) Vedado ao eleitor portar aparelho de telefonia celular, máquina fotográfica, filmadora, equipamento de radiocomunicação ou qualquer instrumento que possa comprometer o sigilo do voto, devendo a mesa receptora, em caso de porte, reter esses objetos enquanto o eleitor estiver votando (Lei nº9.504/1997, art. 91-A, parágrafo único).
3.     c) Permitida a manifestação individual e silenciosa da preferência do eleitor por partido político, coligação ou candidato (Lei nº9.504/1997, art. 39-A, caput).
4.     d) Vedada, até o término da votação, a aglomeração de pessoas portando vestuário padronizado, bem como bandeiras, broches, dísticos e adesivos que caracterizem manifestação coletiva, com ou sem utilização de veículos (Lei nº9.504/1997, art. 39-A, § 1º).
5.     e) Vedado aos servidores da Justiça Eleitoral, aos mesários e aos escrutinadores, no recinto das seções eleitorais e juntas apuradoras, o uso de vestuário ou objeto que contenha qualquer propaganda de partido político, de coligação ou de candidato (Lei nº9.504/1997, art. 39-A, § 2º).
6.     f) Vedado aos fiscais partidários, nos trabalhos de votação, o uso de vestuário padronizado, sendo-lhes permitido tão só o uso de crachás com o nome e a sigla do partido político ou coligação (Lei nº9.504/1997, art. 39-A, § 3º).

Boa eleição a todos!

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Saturday, September 22, 2018

Andrea Camilleri - talento italiano



Camilleri nasceu em 6 de setembro de 1925, na pequena Porto Empedocle, província de Agrigento, na Sicília. Vive em Roma desde os anos Quarenta.

Muito antes de se tornar escritor, foi diretor de teatro, roteirista, dramaturgo e professor da Academia Nacionale d’Arte Dramatica. Sua carreira como escritor começou em 1978 com “Il corso delle cose”, escrito dez anos antes. E não parou mais (exceto por um período de doze anos, entre os anos oitenta e noventa). Com diversas honrarias, prêmios e homenagens, Andrea Camilleri é um patrimônio vivo.

Alguns romances de Camilleri são escritos em vigatês, uma língua inventada por ele que mistura expressões de dialetos sicilianos com a língua italiana, respeitando a estrutura da escrita italiana. Não se trata simplesmente de inserir termos dialetais nas frases, mas um trabalho árduo de encaixar vocábulos que coincidam com aqueles da língua oficial tanto no sentido como na sonoridade. Essa língua inventada diverge das primeiras obras do escritor, quando respeitava rigorosamente as regras da literatura italiana – poesias premiadas, admiradas e respeitadas pela crítica e escritores. Apesar do sucesso, abandonou a poesia quando se interessou pelo teatro, passando a escrever contos e crônicas. Até quando decidiu escrever peças teatrais e descobriu não ser capaz de obras mais longas com suas palavras e deixou de escrever, seja em verso que em prosa. Descobriu, anos mais tarde, obras literárias escritas em dialeto siciliano, que o fizeram voltar a ter vontade de escrever. A língua exclusiva de Camilleri começou quando acudia seu pai em fim de vida no hospital, contou-lhe uma história que gostaria de publicar, mas que não era capaz de compô-la em italiano. Foi seu pai quem sugeriu de escrevê-la como ele tinha acabado de contar.

Vigata também é uma cidade inventada por ele. Ficaria na província de Montelusa (também inventada), na Sicília. “Agrigento sarebbe la Montelusa dei miei romanzi, però Montelusa non è un’invenzione mia ma di Pirandello, che ha usato questo nome molte volte nelle sue novelle: l’Agrigento di oggi la chiamava Girgenti e anche Montelusa, e io gli ho rubato il nome, tanto non può protestare”. [Agrigento seria a Montelusa dos meus romances, mas Montelusa não é uma minha invenção, mas de Pirandello, que usou esse nome muitas vezes nas suas novelas: a Agrigento de hoje a chamava Girgente ou Montelusa, e eu roubei dele, já que ele não pode reclamar mesmo].

Rebelde – foi expulso do colégio episcopal por ter jogado ovos num crucifixo – simpático e divertido, é chamado de “Maestro” [mestre, em italiano] e reverenciado até por seus poucos desafetos políticos. Suas entrevistas são deliciosas e nos faz refletir sobre como um senhor de 93 anos sobrevive fumando tanto. Há pouco tempo Camilleri ficou cego. “Fiquei cego mas meus sonhos são coloridos”, afirma rindo.

Apesar dos muitos livros que escreveu – e que continua escrevendo –, seu personagem mais famoso é o comissário Montalbano, da série policial que foi parar na tv e no cinema. Montalbano è um policial inteligente, com pouca paciência, que entende como ninguém os costumes sicilianos, inclusive a relação com a Máfia. O nome è uma homenagem ao escritor espanhol Manuel Vázquez Montalbán, criador de um outro personagem “Pepe Carvalho”. Para não deixar o personagem incompleto, Camilleri escreveu – há mais de uma década – a morte do comissário, que deve ser publicada num livro póstumo e que está guardado na gaveta do seu editor. O sucesso è imenso. Apesar disso, conheço leitores italianos que nunca leram Camilleri. Alguns, por desistirem da da leitura na primeira página, por causa da linguagem quase cifrada do autor, impressão que tenho trabalhado em mudar. Pessoalmente considero Andrea Camilleri o maior romancista italiano atual. E adoro o divertido dialeto inventado. Acho que seria uma justa homenagem se Porto Empedocle mudasse o nome para Vigata. Se você nunca leu, aproveite para conhecer e se deliciar. E prepare-se para rir muito. Nunca li Camilleri em português, e não ousaria: não há como traduzir a intrincada língua.

  Montalbano na tv (em italiano): Rai Play

Montalbano no cinema: Il Commissario Montalbano: Amore

Site de fãs de Camilleri:  Vigata.org

Entrevistas de Cammileri para o projeto “La Banca Della Memoria”: la banca della memoria

 Site oficial: Andrea Camilleri

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Tuesday, September 11, 2018

Vivendo aqui fora


Jamais pensei em viver fora do Brasil e, no entanto, lá se vão 19 anos. A vida vai mudando e nós mudamos junto com ela. Mas que dá uma saudade, ah!, isso dá. Só não sei se um dia terei vontade de voltar.

Viver na Europa não é chique nem há glamour algum nisso. Sim, é diferente e existem muitos pontos positivos. Só sugiro nunca colocar na balança os prós e o contras para não se frustrar. Por aqui existe todo tipo de gente: culta, ignorante, amável, chata, educada, analfabeta e tudo o mais que precisar (mesmo que você não precise). Aquela sensação de viver no primeiro mundo passa logo; tem quem não aguenta e volta na primeira oportunidade. Quem fica, mata dois leões por dia.

Tenho uma amiga que morou por anos na Itália e escrevia “no interior do Zaire é assim”, quando contava sobre o dia a dia da cidade em que vivia. Voltou para o Brasil e prometeu que “na Vaticália só a turismo.” Diferenças à parte, sentimos falta dos costumes que nos acompanharam desde o nascimento. Talvez, o pior é a falta do calor humano, a distância de amigos e parentes, a cerveja gelada, a comida. E a língua. Porque – como disse Caetano – “minha pátria, minha língua”. Ou, para citar um escritor italiano que vivia seis meses por ano em Lisboa (e seis na Toscana), quando lhe perguntaram qual era a sua casa, respondeu: “a minha casa é a minha língua”. Antonio Tabucchi, escritor e professor de Língua e Literatura Portuguesa na Universidade de Siena, sentia-se à vontade na própria língua. Assim como eu me sinto confortável com o português.

Esse – da língua, da cultura – é um dos preços a pagar. O vocabulário, vai diminuindo, as novas gírias ou ditados são sempre novidade e os idiomas se misturam. No início até ouvia rádios brasileiras na Internet, mas o mau gosto de certas músicas, o pouco tempo livre, e um monte de motivos banais me fizeram perder o hábito. Por outro lado, aprendi a gostar de Lucio Battisti, Vasco Rossi, Zucchero; a reconhecer um Culatello di Zibelo, a distinguir o bom pisarei e fasò do ruim e a beber vinho bom.

Em um ano politicamente tão complicado (aqui como aí), lembro que uma caraterística que nos une é essa torcida ideológica agressiva e obtusa. A Europa xenófoba não será os Estados Unidos da Europa que muitos sonhavam. O Brasil corre o risco de se esfacelar, de deixar de ser o país cordial e tolerante que encantava o mundo. Nossos umbigos estão cada vez maiores. Aqui como aí. E nem isso assusta mais. 


Piasarei e fasò - prato típico de Piacenza de massa com feijão. Como sempre, é um prato pobre, feito com avanços e migalhas. A massa reaproveita o pão velho e a banha de porco; o feijão, ah, esse custa pouco e é resistente em qualquerlugar do mundo.