Sunday, November 08, 2009

Post curto - notícia emocionante

Vira-e-mexe alguém se lamenta por receber poucos comentários nos posts sérios – e longos – que escreve, enquanto o número de comentários aumenta nos posts curtos. Já reparei que comigo também acontece [não sobre o fato de escrever coisas sérias, mas o volume de comentários ser inversamente proporcional ao tamanho do post]. Não conheço - apenas intuo - a relação entre comentários e número de visitas ou de leitores, incluindo-se os leitores via Feed e afins, mas acabo de inventar um modo para melhorar a situação. Dos comentários, pelo menos.

Quando você chegar a este blog e ver o título “post curto” basta apenas ler a segunda parte do título e lembrar de algo que diga respeito àquele assunto. Depois, vá direto aos comentários e deixe o seu recado. Nem perca tempo lendo essa encheção de linguiça que estará repetida em todos os posts da série “post curto”. Basta apenas um ponto de exclamação, um smile, mas, se preferir, pode deixar o seu comentário, curto ou longo que seja. Vou ler todos e, na medida do possível, retribuir.


Fica combinado que terá sempre uma foto, para parecer um post mais sério, mas que não terá, necessariamente, nenhuma referência ao teor dos comentários a serem deixados. Ou sim, você escolhe.

Friday, November 06, 2009

Explicando a receita

Mês passado completamos dez anos de Itália. Perdemos referências, não sabemos quem é o cantor ou cantora da vez e desconhecemos muita gente que domina a mídia brasileira dos últimos tempos. Não há Internet que substitua o rádio do carro ligado, uma passada na banca de jornal, meia hora de tv ou a conversa de botequim. Por outro lado, adquirimos a cultura popular italiana. Chegamos a enviar e-mails falando de coisas que o nosso interlocutor não deve ter a mínima ideia do que seja. Isso quando não trocamos a língua. Noutro dia simplesmente não conseguia lembrar que melanzana, em português, é beringela – que eu detesto nas duas versões.

Algo parecido aconteceu quando dei a receita de “Penne alla norcina”. A querida Luma comentou:

“O que é que tem os cogumelos?

Uma certa mágica nesta receita - como amassar o dente de alho e não cortar? (com casca?) e como retirar o alho depois que amassou com a anchova e virou creme?

Não captou!! Beijus”

Os dias passaram e descobri que cometi a indelicadeza de não responder, o que faço agora. Eu não gosto de cogumelos – sim, o Cássio chamou à minha atenção que cogumelos são fungos, como os que se encontram em alguns tipos de queijos que eu devoro. Talvez a diferença esteja na dimensão, na consistência e no sabor acentuado dos fungos usados na caseificação, o que pode valer uma outra carta. Mas cogumelo, sejam porcini, tartufo e demais aliados, só se for pra não fazer feio como convidado.

Fica a ressalva de que existem diversas receitas com o mesmo nome. Algumas sem o tartufo ou outro tipo de cogumelo, e até com linguiça desmanchada. A receita que ofereci é apenas a mais clássica, mas não a única.

Sobre o alho: é comum por aqui amassar o alho e retirá-lo no final da receita e a coisa é bem simples. Descasque-o e, com um socador, – até o de caipirinha serve, se você não gostar de caipirinha – amasse ligeiramente o dente de alho, de modo que fique esmagado mas não aos pedaços. Isso permitirá fritá-lo sem que seus resíduos se misturem com o molho e facilitará a retirada do alho quando o prato estiver pronto, deixando apenas sabor e perfume no molho.

Anchovas. Em italiano, acciuga ou alice (plural: acciughe, alici). Podem ser vendidas salgadas em óleo, salgadas em vinagre, salgadas em salmoura, frescas ou salgadas. Normalmente usam-se as salgadas para esse tipo de receita. Devem ser lavadas, limpas da espinha e enxugadas. Para fazer o molho, frite o alho em azeite virgem de oliva, junte as anchovas e amasse-as – as anchovas! – com uma colher de pau. O alho fica no canto da frigideira, enquanto você vai mexendo as anchovas com o azeite até virar um creme e, ao final, com o alho frito mas inteiro, fica fácil retirá-lo da frigideira para completar o molho. Porque o que resta é apenas uma base, que pode ser enriquecida de diversas maneiras, inclusive com um pouco da água do cozimento do macarrão, pouco antes de escorrê-lo. Parece mais complicado do que é. Experimente – treine – e me conte depois.

Uma outra curiosidade é que algus pratos são típicos de estação. Se a feijoada fosse um prato italiano, seu consumo seria restrito aos meses mais frios do ano. Nos mercados, nesta época, as latas de anchovas salgadas são vendidas aos montes. Latas de três quilos abertas nos bancos frigoríferos, para serem vendidas a granel. 200 ou 300 gramas por cliente. Assim como as latas de enguias marinadas, que um dia tive a coragem de provar e descobri que a coragem nem sempre é boa conselheira.

Sunday, November 01, 2009

Fêisbuk

A matéria em uma das páginas internas do jornal não chamava a atenção. Era uma daquelas linguiças que enchem os jornais em períodos festivos; só resolvi contar para que outros conhecessem a história dela. Ela que já nem lembrava que existia um motivo para existir. Apenas deixou-se envolver na rotina de todos os dias como se houvesse piloto automático, até que completou cinquenta anos. Como presente, recebeu o computador usado do filho caçula, o último que saiu de casa, formado e casado.

No início faltou empolgação, mas no vazio da casa e com os dias que pareciam mais longos, foi aprendendo aos poucos com a vizinha, que se comunicava com a prole espalhada pela península através de fotos, filmagens, e bate-papos pela web cam. Logo, logo, ela também aprendera a viajar pela tela do computador. Só não podia dedicar muito tempo para não atrasar o almoço, o jantar e para não esquecer de deixar a casa como o marido gostava de encontrar. Ele, sim, nunca se aposentaria e o filho mais velho só herdaria o grande escritório de contabilidade quando o velho batesse as botas. Ela recordou do diploma de ragioniera (técnica em contabilidade) emoldurado e guardado em alguma caixa no sótão, o que lhe teria permitido trabalhar com o marido e, quem sabe, ser sua sócia. Mas a ideia morreu quando nasceu o primeiro filho, logo após o diploma, ainda menina. Depois, vieram o casal de gêmeos e o caçula. Pronto. Os cinquenta se apresentaram depressa e ela nem viu o tempo passar. Só quando o caçula deu aquele sorriso satisfeito, ao sair pela última vez da casa dos pais, ela se deu conta do tempo.

Não era muito curiosa, mas aprendia fácil. No computador descobriu como procurar velhos amigos, os parentes na Sicília e chegou a montar uma página sua, com a foto do dia da formatura do Istituto di Ragioneria di Licata. Relembrou velhos amores e, só por curiosidade, deixou um recado na página daquele cinquentão vistoso, que um dia fora o seu grande amor. Seguiram-se trocas cordiais de velhas fotos, novas piadas e a chama parecia reacender.

O jantar começou a atrasar, a casa já não brilhava, a tv sempre desligada. Nem na vizinha aparecia com a mesma frequência. “Depressão”, comentava-se. A gota d’água aconteceu quando o filho gêmeo avisou que passaria o Natal na casa dos sogros, em Nápoles. “Aquela puttana vem tentando separar você da sua mãe e você acha isso a coisa mais normal do mundo?” berrou ela no meio do almoço do domingo, um dos raros momentos em que a família ainda se encontrava. E “aquela puttana” estava sentada do lado oposto da mesa. O que seguiu foi uma cena digna de um filme italiano sobre uma família italiana. O pior é que ninguém ficou do lado dela. Quer dizer, todos tentavam acalmar a situação, mas ninguém lhe disse “tens razão” e isso foi o que mais doeu. A discussão durou mais de uma hora, com ela se lamentando pela ingratidão dos filhos, pela frieza e distância do marido e a cada nova “puttana” que ela gritava a confusão recomeçava.

Mas o tempo tem o poder de mudar tudo e, em uma semana, lá estava ela, de vestido preto – como manda a tradição siciliana – batendo à porta daquele cinquentão vistoso, queimado pelo sol de Licata em horas e horas de mar. Entrou na casa simples com as portas que mostravam o mar da Sicília, aceitou o chá, conversaram sobre filhos, casamentos desfeitos e sonhos que ficaram. Mas aquele lobo de mar deixou claro que preferia continuar assim, sem ninguém que o esperasse. E que o amor que um dia existiu, era por aquela garota da foto do Istituto di Ragioneria di Licata, não por aquela senhora gordinha, de mãos pequenas e grossas, cabelos curtos e olhar triste. Não, ela também se tornara um sonho amarelado naquela foto. Se despediram amigavelmente e ela decidiu que nunca mais voltaria à Sicília. Já nem havia lágrima ou vontade de chorar.

Aceitou viver de favor com a irmã, na mesma Milão que tinha deixado dias antes. Trabalhava de noite, fazendo limpeza em shopping centers e foi assim que acabou no jornal, na foto anônima que ilustrava uma matéria sobre trabalhadores na noite de Natal. Um grande suspiro ao ver a foto no dia seguinte, no jornal que ela apertava sobre o colo. O computador e o diploma foram deixados lá no quarto do filho caçula, com aqueles cinquenta anos doídos e uma foto velha do Istituto di Ragioneria di Licata.

Tuesday, October 27, 2009

Pronúncia italiana – T, U, V, Z

Últimas letras do alfabeto italiano. Algumas observações irão se repetir, como no caso da letra t, que quando precede a letra i não tem aquele som chiado do protuguês falado no Brasil. Se você fala, por exemplo, “tia” um italiano pensará que se escreve “cia”. Essa pronúncia chiada do brasileiro nos casos de d + i e do t + i cria grande confusão. No caso do t + i que pronunciamos como “tchi” você deve procurar tirar o “ch” da pronúncia e fazê-la soar mais dura. Vamos dar uma repassada nas letras do alfabeto italiano e a pronúncia de cada uma delas.
A – a
B – bi
C – tchi (lembre-se que “tchau” – com esta pronúncia – em italiano se escreve “ciao”)
D – di (não “dji”; tire o jota da pronúncia)
E – e
F – effe
G – dji
H – áka
I – i
L – élle
M – émme
N – énne
O – ó
P – pi
Q – ku
R – erre (repito: não existe em italiano aquele r de “rua” carioca, mas somente r como em “caroço”)
S – esse
T – ti (não “tchi”; tire o ch da pronúncia)
U – u
V – vi ou vu; são aceitas as duas formas
Z – dzetta

Pois é, parte da charada desta lição fica esclarecida com as pronúncias acima. A letra u será sempre igual ao português, assim como a letra v. A diferença diz respeito à letra z, que irá depender da região e de algumas regras não escritas. Há quem defenda que o único som possível é d+ z, como em “dzetta”, mas os meus ouvidos há muito perceberam que existe, sim, uma outra pronúncia: “tz”. Principalmente quando acontece no meio de uma palavra e o z é duplo, como em attrezzatura, por exemplo. Na realidade você será entendido em ambos os casos e o balconista irá providenciar a attrezzatura (equipamento) de que você necessita, mas ele terá certeza da sua proveniência, o que nem chega a ser um problema. Afinal, o importante é comunicar.


Vá treinando (entre colchetes, a pronúncia com a vogal tônica em negrito):
Toro – [tôro] touro
Tesi – [tési] tese
Tipo – [tipo] tipo (sujeito)
Titolo – [títolo] título
Tolleranza – [tol_lerándza] tolerança
Tacere – [tatchere] calar
Udito – [udito] ouvido (lembrou de tirar o “j” da pronúncia?)
Uncino – [untchino] gancho (capitão Gancho = capitan uncino)
Undicenne – [unditchénne] quem tem onze anos
Unghia – [únghia] unha
Volo – [vôlo] vôo
Vita – [víta] vida
Vetta – [vétta] cume (de montanha), topo
Covo – [côvo] toca, ninho
Zorro – [dzorro] Zorro (o personagem)
Zucchero – [zúk_kero] açúcar
Attrezzo – [at_tretzo] instrumento
Zecca – [zék_ka] carrapato, casa da moeda
Carrozza – [car_rotza] carroça

Saturday, October 24, 2009

Comer para crescer

A Úrsula só conheço por fotos, mas a Isabella teve a felicidade de fazer xixí no meu colo, morrer de rir das minhas cosquinhas e de ganhar um coelhinho que virou o xodó dela.

O pai das meninas, o Cássio, é amigo de longas datas (1975...?). Conheço a Mônica há menos tempo, mas nem parece. Agora, a Mônica com uma sua amiga Patrícia, resolveram colocar as próprias experiências em um blog. São histórias e causos envolvendo a culinária infantil de modo sério mas sem ser chato. Ou como elas escrevem: "...vamos xeretar muito sobre alimentação infantil, comentar pesquisas, entrevistar especialistas, testar novos produtos, pôr os livros de alimentação infantil à prova, divulgar receitas, afinal somos duas jornalistas que há muito tempo escrevem sobre o assunto e continuam curiosas. Também vamos dar dicas para as grávidas tentarem comer direito, falar de refeições legais para o pós-parto e amamentação"

Divirtam-se! Vale à pena ler e acompanhar.

:)

Monday, October 12, 2009

Odores agradáveis da nossa gente

Sra. Anna: “Allan, uma das coisas que chama a atenção da gente no Brasil é que as pessoas não fedem.”

Allan: “Sra. Anna, o Brasil é um país tropical, com temperaturas acima dos 20 ºC durante todo o ano em boa parte. Se não tomar banho e usar desodorante, ninguém aguenta.”

Sra. Anna: “Pois é, mesmo as mulheres que iam fazer a limpeza ou cozinhar estavam cheirosas no fim do dia…”

Allan [constrangido pelo argumento, pois concordar implica aceitar o fato de que a coisa é diferente por aqui, onde não é raro encontrar pessoas que não usam desodorante e têm medo do chuveiro]: “A mulher brasileira é muito vaidosa…”

Thursday, October 08, 2009

Um mar de veneno

Quando se vive em um outro país fazemos as contas com perdas e ganhos. Uma coisa que se perde é a noção do que é ou não é notícia no país de origem. Apesar de toda a facilidade da Internet, os jornais que leio são italianos. Sim, todos os dias dou uma olhada em três jornais brasileiros, alguns sites de notícias e uma ou outra revista on-line, mas ler, de verdade, só jornais italianos.

Há alguns dias houve uma manifestação em Roma pela liberdade de informação. Pode parecer piada em um país onde se fala o que quiser de todo mundo. As hipotéticas relações extra-conjugais do primeiro-ministro e o envolvimento dele em escândalos financeiros julgados pela justiça; transcrição de gravações investigativas usadas como provas em processos judiciais em curso; relações de salários de servidores públicos, com nomes, cargos e valores: Enfim, tem de tudo. Inclusive muita informação que em muitos países são consideradas confidenciais, pela preservação da privacidade alheia. Muitas vezes trata-se de uma falsa transparência em busca do furo jornalístico. Noutras, cortina de fumaça para desviar a atenção do que realmente é notícia.

No mês de Setembro, através das declarações de um “colaborador da justiça” (nome dado aos que se “arrependem” e denunciam os crimes em que participaram em troca de atenuantes) a polícia italiano localizou um navio afundado na costa italiana, carregado de resíduos tóxicos. Não lembro de ter lido a notícia em nenhum site de jornal, revista ou site de notícias brasileiro a não ser no site da BBC.

Pelo que li até agora, é uma investigação que teria começado 14 anos atrás, com cenas de mortes misteriosas e envolvimento de poderosos. O jornal La Repubblica foi dos poucos que dedicou uma série de matérias, que podem ser lidas – em italiano – aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui

Antes que você se perca nos links, saiba que – sempre segundo informações de “colaboradores da justiça” – não se trata de um navio, mas de 30 (trinta!) e o número pode crescer. A prática era simples e enriqueceu muita gente. Uma empresa, com sede em um paraíso fiscal, teria oferecido o serviço de estocagem de resíduos tóxicos a diversos países. Alguns governos contrataram os serviços da empresa, outros recusaram e houve os que pagaram mais caro para permanecer no anonimato. Resíduos como escória atômica e lixo hospitalar, entre outros, eram carregados em navios cargueiros que depois teriam sido afundados no mar mediterrâneo e na costa do chifre da Africa. Verdadeiras bombas ecológicas capazes de contaminar não apenas as regiões onde se encontram, mas toda a cadeia alimentar.

Como localizar e recuperar todos os navios antes que uma tragédia aconteça? O que fazer com o material que for recuperado? Como evitar que esse tipo de ação possa se repetir? Espero que não levem outros 14 anos para responderem essas perguntas. E que os jornais passem a tratar de modo sério as notícias sérias.