Sunday, February 01, 2015

Clube das meias solitárias


Com a Bianca morando em Pavia por causa da faculdade, a vida social dela também mudou de cidade. Nem todos os fins de semana ela volta pra casa e, quando volta, nem sempre tem disposição para participar dos afazeres domésticos. Afinal, ela já tem que cuidar da casa dela em Pavia, fazer comida, lavar roupa... [a bem da verdade, o quarto dela na faculdade está sempre arrumado, limpo e muito organizado]. Numa dessas conjunções astrais raríssimas, do tipo que só acontece a cada novo big bang, ela recolheu a roupa do varal sem que ninguém pedisse. Dobrou cada peça e separou e dobrou cada par de meia. Como acontece vez ou outra, de algumas meias só aparece um pé. Algumas meias sem par permanecem vagabundando no fundo do cesto de roupa pra passar. Com um pincel atômico na mão, ela transformou uma sacola de papel de uma loja qualquer na sede do “Clube das meias solitárias”.

Parentes, amigos, ex-colegas de trabalho ou de escola, a velha professora, gente simpática com quem dividimos o balcão do bar em horas de bate-papo, a turma da praia, pessoas importantes em algum momento da vida... Sobram apenas lembranças e cada ausência é uma perda.

Durante toda a vida tomamos decisões sem conhecer o rumo das consequências. Esperamos que os nossos sonhos dêem certo, que a fila no trânsito ande mais que as outras, que o prato escolhido no restaurante seja o melhor, que o filme que assistiremos nos empolgue...

Ainda bem que a maioria das nossas escolhas erradas permanecem anônimas. Basta um sorriso e o vizinho da mesa ao lado vai achar que o seu prato realmente era melhor que o dele; um displicente comentário pseudo-intelectual e o pior filme vai parecer inacessível à parca inteligência dos outros; aumente o volume do rádio e cante junto: todo mundo vai achar que você não se importa com o trânsito; sonhos? Bah!, podemos sonhar sonhos novos sempre que quisermos. E se nada disso resolver, coloque as suas perdas no clube das meias solitárias. Companhia é que não vai faltar. 
.

Saturday, January 10, 2015

Thursday, January 01, 2015

Feliz Ano Novo!


Em preto e branco, meias cores ou colorido: não importa a sua visão da vida, 2015 será um ano estupendo!

Auguri!











Tuesday, December 30, 2014

Thursday, December 25, 2014

Sunday, December 14, 2014

Passageiro Garcia



Fomos conhecer o canil municipal de Piacenza um dia depois da Luiza ter partido para Londres. Eu, que sempre fui contra ter cachorro em apartamento, sabia que desta vez deveria ceder. Não haveria mais – por exemplo – aquela turma de jovens invadindo a casa inesperadamente, capitaneada pela Lu que ia logo avisando: “viemos jantar, mas não se preocupem, a gente se vira na cozinha.” O espaço que o cotidiano dela ocupava nas nossas vidas permaneceria terrivelmente vazio e... Bem, precisávamos de um cão. A Bia – vivendo em Pavia por causa da universidade – ainda arriscou: “mas mãe, cachorros pequenos costumam ser histéricos. Adota um de raça média.” Claro que eu também preferia um silencioso akita, um divertido labrador ou um espaçoso são bernardo, mas não era o momento de criar atritos. Ela tinha decidido adotar um cão pequeno e esperava encontrar um west higland white terrier; eu torcia por um simpático jack russel, mas a realidade é que adotaríamos o primeiro vira-lata que nos agradasse.

O canil tinha acabado de acolher uma leva de mais de sessenta cães, sequestrados de agricultores cheios de boas intenções, mas sem possibilidades de cuidar de modo adequado da matilha com tantos recém nascidos. Um caos. Era a nossa primeira visita [sempre tive medo de entrar lá e sair com o carro lotado de cachorros que não caberiam no apartamento] e ficamos impressionados com a quantidade de pessoas que estavam ali para adotar um cão. Enquanto aguardávamos a nossa vez, Eloá conversava com os cães nos boxes da entrada, com empatia e pena. Notei um cão branco num dos últimos boxes, quase escondido. Mancava e se lamentava. Não gania nem uivava, mas se lamentava. Me aproximei e ele encostou a cabeça no alambrado. Olhar profundo, emitia sons quase humanos. E eram sons tristes.

A voluntária nos chamou para uma volta pelo canil. Esclarecida a nossa – dela – preferência por uma raça pequena, com um ou dois anos de idade, direcionou a visita entre os hóspedes que mais se adaptavam. No final perguntei do branquinho manco e a veterinária me dissuadiu: era um cão de onze anos, quase cego, meio surdo, com artrite, problemas renais e uma cardiopatia; tinha sido deixado pelo antigo proprietário no canil, que não podia mais cuidar dele. Enquanto vagávamos sozinhos para avaliar os que tínhamos visto, uma outra voluntária veio nos fazer companhia. Convencemos a senhora a nos deixar visitar o cachorro manco, com o auxílio de um outro voluntário, que tinha contato frequente com o cão. Daquele momento em diante era nosso. Enquanto a segunda voluntária esclarecia estusiasmada as dificuldades do animal, eu balançava a cabeça negativamente à Eloá, que a cada aceno se apaixonava ainda mais pelo infeliz. O melhor jeito de convencê-la é deixar que ela me convença.

Mais de três semanas depois, saíamos do canil com o Garcia no carro e um atestado de adoção, direto para a primeira ducha dele em sabe-se lá quanto tempo. No início foi fácil; com o tempo as coisas vão melhorando. Só a artrite dele parece não responder ao tratamento. Dias de prostração se alternam com dias de puro vigor canino. Nem parece que no dia 3 de janeiro completará 12 anos.

O espaço que ele ocupa não preenche o vazio deixado pelas meninas. Na primeira vez que ele subiu no sofá, apontei para as almofadas que a Eloá fez para ele. De orelha resignadamente baixa, desceu e foi para o canto dele. É bom deixar claro regras e limites, tanto quanto é essencial deixar ao cão um espaço que seja só dele. Acontece que na segunda vez que o encontrei no sofá, ele cochilava com a Eloá. Perdi meu lugar e fui deitar no sofá menor. Vez ou outra ele decide que é o caso de me fazer companhia, sem entender que o sofá pequeno é... Pequeno.

Não é meu filho, não é um ser humano. É um cachorro, idoso e doente que necessita de cuidados e de um lugar quente para passar o inverno. Pouco mais de um mês e parece que vivemos juntos desde sempre. Daqui não sai mais. Amigo, resmungão, divertido, manipulador, fiel, chantagista, destruidor oficial de bolinhas de tênis e que detesta chuva e frio. Noutro dia me mordeu; os dentes inferiores no meu queixo e os superiores na testa. Culpa minha, eu mordi primeiro. Menos mal que foi uma mordida de brincadeira ou de advertência, ou ele teria triturado meu crânio.

A Bianca faz muita falta, mas ela volta para casa nos finais de semana; a Lu faz muita falta, mas apoiamos e incentivamos a decisão que ela teve quando completou dezoito anos e avisou – depois de ter passado uma semana em Londres – que iria mudar-se quando concluísse o liceu artístico. Londres é onde cursará a faculdade no ano que vem e ela quiz ir antes para melhorar o inglês, mas, principalmente, para ser dona do próprio nariz, com apenas dezenove anos. Ela está bem, trabalhando e entusiasmada. E o entusiasmo – sabemos – costuma ser maior que a saudade.

Filhos são insubstituíveis. Duas filhas maravilhosas o são ainda mais. A verdade é que precisávamos de um cão. E o Garcia precisava de nós. Garcia, o nosso amável e brincalhão pit bull.

Abaixo, duas fotos do dia em que fomos buscá-lo no canil. As outras são de um passeio nas margens do rio Po e de quando ele decidiu me fazer companhia no sofá pequeno (que virou hábito).




 .

Monday, December 01, 2014

Mais de cem mil cópias vendidas!

Compre o seu AQUI



Muito obrigado!!!

Mais de cem mil cópias vendidas*.

E você?, já comprou o seu?

O que está esperando?

Compre logo e aproveite para dar de presente!

COMPRE AQUI!

Mais uma vez. muito obrigado!

:D

* Segundo o relatório do Instituto Fictício de Medição Literária de Montelusa, a ser publicado em 30 de novembro de 2104.