Sunday, January 22, 2017

Jantar na sogra



▬ Nossa, como você demorou hoje!

▬ Esse trânsito de Milão piora a cada dia…

▬ Bom, menos mal que você chegou. Não tem água quente, a caldeira quebrou. Faz três horas que estou esperando pra tomar banho.

▬ Três horas? E por que você não tentou consertar?

▬ …Eu? Isso é trabalho de homem.

▬ Desde quando?

▬ Desde sempre. Você já viu encanador mulher? Ou eletricista? Ou qualquer outro trabalho de homem?

▬ …Ué, cadê aquele discurso de igualdade?

▬ Deixa de história e vai logo consertar a caldeira. È claro que existem diferenças. Ou você acha que alguma mulher projetaria uma coisa estúpida como o paraquedas?

▬ Estúpida?

▬ Sim, acho estúpida. Pra quê alguém que já está no chão tem que subir num avião e pular de paraquedas pra voltar pro chão? Isso sem contar os riscos…

▬ O paraquedas é útil… Numa guerra, por exemplo.

▬ Outra imbecilidade inventada pelos homens. …Viu? A caldeira não tem chama, a água tá fria.

▬ Me passa a lanterninha que está em cima da geladeira. …E o casamento, também foram os homens que inventaram?

▬ Claro! Quando os humanos começaram a deixar de ser nômades e surgiu a propriedade privada, os homens inventaram a família para garantir a hereditariedade aos próprios descendentes.

▬ E antes do casamento, como era?

▬ As mulheres que se arranjassem com a prole.

▬ Você tava lá?

▬ Você quer cair dessa escada? Com esse trânsito a ambulância vai levar horas pra chegar.

▬ Então lavar e passar roupa é trabalho de mulher?

▬ Não, é trabalho de quem precisa de roupa lavada e passada.

▬ Me passa o isqueiro.

▬ “Por favor”.

▬ Por favor. Pronto. A caldeira estava só apagada, bastava acender a chama piloto. Você podia ter tomado banho há horas, agora precisa esperar uma meia hora pra água esquentar.

▬ Liga pra sua mãe e avisa que vamos chegar tarde.

▬ …Ai!

▬ Acho que a lasanha da sua mãe vai ficar pra outro dia. Melhor comer alguma coisa. Tô morrendo de fome e tem que esperar a água esquentar.

▬ Você podia ter preparado uma saladinha, né?

▬ E desde quando cozinhar é trabalho de mulher?

▬ Mãe do céu…


 *

Sunday, January 01, 2017

2017 começou bem



Acordei de manhã e era um outro ano. Assim, de repente.

Quer dizer que eu levo trezentos e tantos dias aprendendo a lidar com um ano e ele acaba ainda novo? Claro que os fogos de ontem à noite anunciaram a mudança; até o calendário na cozinha já é o de 2017, mas vou ter que me acostumar com um ano diferente, meio que sem saber o que fazer dele.

O celular desligado recebeu um toró de mensagens enquanto eu dormia. Todas desejando mudanças positivas e palavras de amor, porque não basta ser um outro ano, precisamos mudar para que ele seja novo. Atitude é a palavra. É o que deve substituir os planos, para que estes não fiquem apenas sonhos. Já repararam que diante de uma tragédia as pessoas usam o celular para enviar mensagens de amor? Não, 2017 não será uma tragédia, era só para reafirmar que o amor é o mais forte dos sentimentos.

Essa sensação de recomeçar, de que tudo é possível, faz parte do ser humano, acho eu. Queremos o novo, queremos mudar e sermos melhores. E desejamos a quem gostamos essa nova oportunidade registrada pelo calendário, para que elas sejam felizes também. Estabelecer metas e estipular prazos, conscientes de que planos podem ser modificados, que o caminho é cheio de curvas, sobe e desce, escurece, faz frio e chove. Não precisamos estar preparados para o que der e vier, devemos estar prontos para nos adaptarmos, improvisar e seguir em frente. Planos podem ser modificados.

Piegas, não? É que o inverno por aqui é de dias curtos e frios, e isso me faz nostálgico, introspectivo. Já começo a descobrir o que fazer com 2017. Para começar, vou acordar todos os dias dizendo que é primeiro de janeiro; definir metas, prazos e bolar um plano infalível: continuar entusiasmado.

Feliz Ano Novo!

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Sunday, December 25, 2016

O Natal vai passar


26 de dezembro é feriado na Itália, dia de Santo Stefano (Santo Estevão). Foi o primeiro mártir cristão, apedrejado após ter sido condenado por blasfêmia pelo Sinédrio, uma alta corte de Jerusalém daquela época. Segundo Santo Agostinho (entre outros) a conversão de Saulo (São Paulo) teria sido influenciada pelas orações de Santo Estevão.

Mas hoje é Natal. Essa festa que foi perdendo o sentido, até ser transformada no mais esperado momento comercial do mundo ocidental. Amanhã, vinte e seis de dezembro, o Natal terá passado. Olharemos as geladeiras cheias das sobras dos nossos excessos; voltaremos a ser solidários com pessoas distantes e menos pacientes com as mais próximas; acabou a expectativa e a espera passou; a Síria ainda vai estar destruída e Alepo não vai ressucitar; nossas opiniões continuarão a ser verdades absolutas; só os estevãos, stefanos, stephens e que tais viverão um dia especial; amanhã o espírito do Natal já terá ido embora.

Outros natais virão, novas efemérides substituirão as velhas. Carnavais, feriados, fins de ano, aniversários e casamentos: até quando deixaremos nossas vidas serem regidas pelos calendários? A festa tornou-se mais importante que o festejado; o hábito, mais que o monje; ter, mais que ser. O Natal vai passar, a Síria vai passar, a humanidade vai passar.

Mas hoje é Natal. Aproveite para comemorar e guarde um pouco desse espírito para os outros dias. Se importe, se indigne com as injustiças e indiferenças. E aja. Faça o impossível, mude e melhore o mundo.

E conte comigo.

Feliz Natal!

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Tuesday, December 13, 2016

Transcendência


Sim, você entendeu direito: eu sou uma mesa.

Talvez o certo seria dizer que eu estou uma mesa, pois já fui árvore. Um dia fui semente, depois de viajar pólen dos meus ancestrais, em abelhas e ventos. Tomei muito sol e gozei chuvas. Perdi a hora e vivi dias; o tempo não é uma dimensão na realidade das raízes.

Você apoia o computador, come e bebe em mim; às vezes tem festa, às vezes chora. Vivemos juntos e você nem sabe que já fui Sol e já fui Lua, enquanto o gato passeia entre as nossas pernas. Eu sou móvel, sou imóvel. Se não esfarelar cupim, vou viver até o fim. Que depois é só um outro começo.

Um resto de sobremesa pingou. Seca, virou parte da minha madeira, como as migalhas nas minhas frestas. Sal, olhares trocados, parafina e vinho. Histórias contadas, segredos inconfessáveis. Um dia vou estar serragem; ou cinza e fumaça. Um dia vou ser estrela. Vou chover nos mundos, fecundar as terras e arder os sóis. Um dia seremos o pó que se mistura, seremos um só, como sempre fomos.

Não pense em Brasil, Itália, Japão ou Saturno: a geografia real não é feita de nomes. Nem de lugares. Tampouco é real. Estamos e estaremos em todo e qualquer lugar. Já imaginou: uma mesa, um gato e a sua vida toda resumidos em farelo cósmico?

E o que mais você esperava?

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