Sunday, August 09, 2015

Tomate datterino




Acho incrível a quantidade de variedades de tomates existentes. Certamente muitos foram desenvolvidos para atender a exigência por novidades do mercado consumidor (nós). Sim, porque não queremos apenas comida, queremos esclusividade, ser o primeiro ou primeira a comentar/falar/escrever/mostrar/postar e parecer superior. Como se isso mudasse algo nesse planeta, que não passa de um microscópico gão de areia no Universo.

Acontece que o universo acaba sempre no meu prato. Ou começa; ainda não entendi bem essa equação de causa e efeito.

O tomate datterino não deve ser confundido com o perino, que se assemelham no tamanho diminuto e na forma ovalada: o perino tem forma de pêra e é mais ácido que o datterino. Este último é muito apreciado no Norte da Europa por ser adocicado e só agora faz sucesso na terra da pizza. Pode ser facilmente encontrado nos supermercados, o que tem estragado a festa do poucos e resistentes quitandeiros, que o vendiam antes como raridade e preço muito mais alto.

Se for comprar uma confecção para provar, compre duas: uma pra fazer a salada e outra para devorar enquanto faz a salada. Minha sugestão: tomatinho datterino, rúcula, Mozzarella di Bufala Campana DOP e pão. Sem tempêro, sem nada.

:)

Sunday, July 26, 2015

Receita de Tiramisù



Todas as tardes de sábado ele caminhava até o café da praça e fazia a pausa mais longa da semana. Passava horas lendo e bebericando vinho branco, sempre na mesma mesa ao ar livre, com vista para as estátuas da Piazza Cavalli, em Piacenza. No final, pedia um café e um pouco de tiramisù. Era nesse momento que algum conhecido podia se aproximar e trocar uma prosa.

Você vai precisar de:
6 ovos
150 g de açúcar de confeiteiro (glaçucar) com baunilha – açúcar vanille
250 g de mascarpone
Biscoitos savoiardi
Café pronto
1 copo pequeno de vinho Marsala
Cacau em pó
1 pitada de sal



Trabalhava em algum banco, se sabia. Era sempre em trajes formais muito bem passados. Só os sapatos pareciam sofrer com aquele corpo alto e sedentário. Era casado, se presumia, sempre com a aliança enorme, como enorme eram as suas mãos. Transmitia a nítida impressão de só se sentir à vontade no escritório que deveria ocupar. Uma pasta de trabalho era a companheira fiel do todos os dias. Absolutamente todos.

Bata as gemas com o açúcar até formar um creme denso e quase branco (se for difícil achar o açúcar vanille, compre um pacote de glaçucar, duas ou três vagens de baunilha e coloque em um vidro com tampa. Depois de quinze dias, basta peneirar). Adicione o mascarpone e o copinho (uns 50 ml) de Marsala e bata até que o creme fique homogêneo e aveludado.



Durante a semana caminhava passos apressados; devia morar ali pelo centro. Ia e voltava a pé para o trabalho. Parava rapidamente no bar da praça para o café depois do almoço; trocava duas ou três palavras gentis com as senhoras do bar e partia veloz. No final da tarde, chegava no bar como se tivesse hora marcada e medo de se atrasar. Tomava um cálice de vinho branco em pé, no balcão e desaparecia pelas ruas do centro com sua pasta na mão.

Prepare o café e ponha em uma bacia funda. Bata as claras com uma pitada de sal, formando uma neve consistente. Junte as claras em neve com o creme batido anteriormente e misture bem – sem bater.

O café nas manhãs de domingo também era tomado no balcão, em pé. E sumia até segunda-feira. Vez ou outra era visto em algum ponto de ônibus, sóbrio e compenetrado. Um sorriso raro mas afável, óculos e cordialidade. A sua voz pouco se ouvia, um ar distante e destacado ajudavam a manter distâncias.

Em uma forma ou pirex, cubra o fundo com uma camada do creme. Passe rapidamente cada biscoito no café e coloque lado a lado na forma (atenção: os savoiardi se desmancham facilmente quando molhados, devem ser colocados imediatamente na forma, um por um). Despeje metade do creme batido, faça outra camada de biscoitos molhados no café e cubra tudo com a outra metade do creme. 



“Cadê o Senhor do Banco?”, pareciam se perguntar os frequentadores do bar e do centro da cidade. Ninguém sabia o que teria acontecido, ou porquê sumira há dias. A primeira vez em... Quantos anos? Ninguém conhecia sequer o nome dele, reservado que era. O “Senhor do Banco”. Ilações e conjecturas não foram formuladas, que um senhor assim respeitável não suscitava suspeitas. Quando reapareceu tinha a pele ligeiramente bronzeada. Ligeiramente. As estátuas da Piazza Cavalli foram as únicas a restarem impassíveis. A rotina voltava ao normal e a cidade pareceu suspirar aliviada.

Cubra a torta com uma mais que generosa camada de cacau peneirado e leve à geladeira por seis horas. O ideal é fazer à noite para o dia seguinte.



Curiosidades: O Tiramisù ("levanta-me o moral", em tradução livre - quem nunca tomou gemada?) é um doce recente, presumivelmente do fim dos anos sessenta. A sua origem também não é certa, sendo reivindicada por mais de uma região italiana (Lombardia, Vêneto, Toscana...). Assim sendo, não existe uma receita “original”, mas todas se parecem. O Marsala é um vinho licoroso da Sicília, mais precisamente da zona de Trapani (Marsala é uma cidade da província de Trapani). O Mascarpone é um queijo da região Lombardia, com origem em algum ponto entre Milão e Pavia, onde existia a “cascina Mascherpo” [“cascina” é o aglomerado rural que compreende a casa, estábulo, paiol e queijaria; Mascherpo é um sobrenome comum naquela zona].



Sunday, July 19, 2015

#savethewale

#savethewale  
Links no final

Quem me conhece sabe que prefiro escrever sobre amenidades, a ponto de parecer ingênuo ou patético. E sabe – também – que me preocupo com a sustentabilidade do planeta. Hoje resolvi deixar prevalecer essa preocupação e tornar público uma decisão. Vamos salvar as poucas baleias que restam.

“Porquê?”, podem perguntar alguns. Bem, se na era da Internet você ainda não se informou sobre o resultado da caça às baleias, aproveite a oportunidade para ler a respeito.

Nem a decisão da Corte Internacional assusta o governo japonês. A saída é tocar no único ponto vital para qualquer país neste século XXI: a economia. A partir de hoje vou boicotar todo e qualquer produto das grandes marcas japonesas.
- Bridgestone
- Canon
- Denso
- Fujitsu
- Hitachi
- Honda
- KDDI
- Mazda
- Mitsubishi
- NEC
- Nintendo
- Nissan
- NTT
- Panasonic
- Ricoh
- Sanyo
- Sharp
- Softbank
- Sony
- Sumitomo
- Suzuki
- Toshiba
- Toyota

Comprar artigos dessas marcas só após o Japão decretar DEFINITIVAMENTE o fim da caça às baleias.

Neste domingo, 19 de Julho de 2015, convido você para participar e divulgar. Basta uma pequena pressão que ameace a economia para mudar a opinião do governo japonês. Ninguém é obrigado a participar, mas com as ferramentas de hoje, temos a oportunidade de melhorar o mundo em que vivemos. Corra, pois os cientistas ainda não descobriram um outro planeta que possa nos abrigar, quando a catástrofe for irreversível.

 - (31.3.2014) Corte Internacional veta caça às baleias

- (20.9.2014) Japão anuncia volta à caça às baleias

Esse artigo do Jason G. Goldman, traduzido pela Jéssica Maes, publicado no Portal do Meio Ambiente, explica a importância da preservação da espécia para o equilíbrio do ecosistema. E nós somos parte dele (o ecosistema). Leia AQUI

Monday, July 06, 2015

Fruta da estação - Susina Meschina


Em 2009 já tinha escrito sobre as susinas (Prunus Domestica), fruta típica do verão italiano. Como são muitas as variedades, decidi esclarecer e mostrar um pouco da minha preferida: a susina meschina Goccia d'Oro.

É uma variedade da mesma fruta, só que pequena e muito saborosa, sem a acidez de outras mais comerciais. Pequena, tem alto teor de açúcar [ainda tem acento?] e é fácil perceber o momento exato da maturação, quando começa a ficar translúcida.

As susinas são originárias da Ásia, Europa e América. As susinas chamadas meschinas são europeias; essas da foto são daqui mesmo. Sabor a quilômetro zero, sem agrotóxico

:)!

Sunday, June 28, 2015

Trilha sonora italiana - Riccardo Cocciante



Riccardo Cocciante, 1946 Saigon, Vietnam, de pai italiano e mãe francesa, é – talvez -  o maior intérprete do gênero melodramático da música italiana.

Se você foi a algum baile nos anos 70, antes da explosão das discotecas, provavelmente dançou ao som de uma das canções dele. Lembra daquele momento em que começava a tocar uma música romântica, quando uma parte da garotada desviava o olhar e ia ao banheiro ou ia pegar um refrigerante, enquanto a outra parte tomava coragem e tirava a garota errada pra dançar? Pois é, aquela música era do Riccardo Cocciante.

A primeira gravação aconteceu em 1968, mas não o primeiro sucesso. Inicialmente assinando como Rioccardo Conte, em seguida como Richard Cocciante (como é conhecido na França) e, finalmente como Riccardo Cocciante, depois de decidir não mais compor e cantar em inglês e de trocar o rock progressivo pelo estilo romântico. 1973 surge com o sucesso “Bella senz’anima”. Não grava desde 2005. Viveu na França, nos Estados Unidos e na Irlanda, além da Itália.

Escreveu as óperas populares Notre Dame de Paris, Le Petit Prince e Giulietta e Romeo.

Mas se você ainda está se perguntando quem é esse cara, ouça alguns dos sucessos dele como Margherita, Poesia, Io canto e Bella senz’anima:

Sunday, June 21, 2015

Infância



A lembrança mais antiga é a do sonho intrauterino que me seguiu pelos primeiros cinco ou seis anos. Fogareiro Jacaré em Copacabana, onde o Sol refletia nos meus cabelos brancos, o que me rendeu um dos tantos apelidos: alemão. O alemão que gostava de Mariola Lula, das pernas tortas do Garrincha driblando no Canal 100 e que gostou do sabor do camarão cru que o tio usava para pescar. Aprendi a pescar traíra em Itaquira, descalço e riscado pelo mato com cheiro de bosta de vaca. Mas andar descalço é perigoso, e a avó, sábia, vermifugava com sementes de mamão e chá de hortelã por um dia inteiro. Não sei o que era pior: o vermífugo ou a sensação de estômago vazio no dia seguinte, quando a convulsão estomacal me fazia vomitar o nada.

Kiko, o nosso Boxer, morreu envenenado; tinha uma cabra que vivia no morro dentro do quintal, na casa no bairro do Cremerí, em Petrópolis; a tartaruga que enterrávamos e que o Kiko ia desenterrar; a vaca vermelha que meu irmão driblava quando íamos buscar leite, em Itaquira; Cambaxirra, a égua que eu montava nos finais de semana; a gata Catina arranhou meu nariz.

A vizinha Nádia Pacheco me ensinou a ler aos três anos, como presente por ter aprendido a ver as horas com meu pai; a Denise foi a primeira namorada, com lugar cativo ao meu lado na Kombi do jardim da infância; o Casquinha era o amigo que sempre levávamos ao Quitandinha; a voz do Antônio Maria.

O cheiro do Andriodermol líquido que meu irmão usou por um bom tempo; a desidratação quase me levou, mas sobreviví e passei as férias em Itacuruçá tomando aquele sôro de gosto horrível; emulsão Scott; perfume de hortências do Valparaíso; gosto de ingá, marmelo, abóbora com carne seca da casa da vó e o café ralo que ela fazia.
De broa de milho com semente de erva-doce eu nuca aprendi a gostar; angu da Dona Petronilha; paçoca de gergelim da tia Carmélia, socada no pilão; pudim de coco; maria-mole; pé de moleque; carambola, pitanga e goiaba no pé;

Empinar papagaio; jogar pião, figurinha, bolinha de gude e stoc; castelos na areia da praia; torrar castanha de caju e desenterrar sapotí; pular do telhado; futebol de prego, futebol de botão, patinete e bola Pelé; jogar boliche e cair na pista de gelo do Quitandinha.

Sabores, perfumes, sensações e lembranças sempre presentes, como a língua que procura o dente que estava para cair. E que caiu faz tempo.

*

Sunday, May 24, 2015

Bartali e Coppi, rivais cordiais – a história de uma foto



A Itália dos anos 40 e 50 foi marcada por dois personagens que aliviaram as feridas da II Guerra. Juntos, resgataram um pouco do orgulho do povo. A mesma gente que se uniu em torno do ciclismo, dividiu-se entre os dois maiores nomes do esporte. Quem torceu por Gino Bartali, torceu contra Fausto Coppi. E vice-versa. Os dois ciclistas – e as conquistas deles – transformaram o ciclismo no esporte mais popular no país e que mais vendeu jornal, na época.


O ciclismo de estrada é um esporte de equipe. O time se divide em um capitão e os gregários. As provas propostas em circuitos como o Giro D’Italia ou o Tour de France, se dividem em várias etapas, com provas contra o cronômetro em equipe e individual, circuitos mistos em cidades e de escaladas, com subidas e descidas em montanhas. Entre os gregários encontram-se especialistas para cada prova e o trabalho deles é proteger o capitão do vento e atuar a estratégia da equipe técnica, que segue as provas em um carro, passando as informações via rádio. O capitão é aquele com maiores probabilidades  de vencer o circuito, com bom desempenho em todas as especialidades (escalada, velocidade e passista – capacidade de manter bom ritmo durante muito tempo).

Bartali e Coppi se tornaram companheiros quando correram juntos pela mesma equipe em 1940. Bartali já era famoso e campeão de circuitos importantes, enquanto Coppi era apenas um jovem gregário. Durante uma prova, Bartali caiu e os gregários pararam para ajudá-lo, mas Coppi recebeu ordem dos técnicos para continuar e manter a boa classificação geral que conquistara. Coppi venceu a prova, passou à frente de Bartali na classificação geral e virou a ponta da equipe, com Bartali atauando quase como um gregário. Naquele ano, Fausto Coppi venceu o Giro D’Italia, tornando-se o mais jovem campeão do evento na sua primeira participação.

Os anos seguintes foram marcados pela guerra e a pouca atividade ciclística, além das diferentes posições entre os dois. Coppi foi convocado como soldado e participou da campanha no Norte da África; Bartali consertava bicicletas e ajudava refugiados e judeus.

Se reencontraram em 1946, no primeiro Giro D’Italia após a guerra. Dessa vez, como rivais, em equipes diferentes. Venceu Bartali. E a partir de então, os jornais estimularam a rivalidade entre os dois e os transformaram em mitos. Claro que teria sido diferente se não fossem ambos grandes esportistas. Coppi venceu o Giro D’Italia cinco vezes; Bartali, 3; dois Tour de France cada um. No total, Bartali venceu 124 etapas de diversos circuitos, enquanto Coppi venceu 122.

Rivais cordiais, em diversas ocasiões se ajudaram, mesmo estando em equipes diferentes (é comum uma “fuga” de dois ou mais corredores do grupo principal para tentar um ritmo mais veloz). E foi numa dessas fugas que a cena aconteceu. Com um dos dois passando uma garrafa d’água ao outro.

Acontece que naquela época faltavam os meios de hoje para registrar a corrida em tempo integral. Aquele gesto não foi filmado nem fotografado por ninguém, apesar das muitas testemunhas. Segundo Vito Liverani, a fotografia mais importante e difusa do ciclismo italiano foi criada com a autorização da direção da corrida e em comum acordo com os corredores. Teria sido o fotógrafo Carlo Martini a imortalizar a cena reconstruída durante o Tour de France de 1952, no dia seguinte à cena original. Com Bartali que passa uma garaffa de água Perrier a Coppi.

Quanto a cena original, ninguém sabe ao certo quem passou a garrafa ao outro. Não importa, o mistério faz parte do mito.
Entrevista de Vito Liverani ao jornal “Il Giornale” AQUI