Monday, April 14, 2014

Pizza e Máfia



A semana passada foi marcada por notícias que se repetem, se repetem, se... Mas que pouca coisa mudam.  Quatro grandes expoentes da política italiana foram manchete na página policial.

Clemente Mastella e a esposa Sandra Lonardo (e mais 16 pessoas) serão processados por associação criminosa. Mastella é líder do Udeur, partido que gravitava entre as forças do poder, sem se importar com ideologias. Foi ministro do governo Berlusconi (de direita) e do governo Prodi (de esquerda). Atualmente é deputado no Parlamento Europeu.  Em 2008 a esposa Sandra Lonardo era a presidente da região Campania quando iniciou-se o processo contra eles. Mastella, então ministro da Justiça de Romano Prodi, pediu demissão e acabou gerando a crise que derrubaria o governo. Parece que dessa vez o processo vai em frente. (AQUI)

Roberto Formigoni, senador, ex-presidente da região Lombardia,  teve suas contas e bens bloqueados pela polícia financeira (Guardia di Finanza), que tenta reaver a soma de quarenta e nove milhões de euros, valor que Formigoni teria amealhado com a corrupção durante o seu governo. Ele se defende, afirmando uma penúria de dar dó. (AQUI)

Marcello Dell’Utri, ex-deputado e ex-dirigente da Fininvest, não deve ter recebido muito bem o aproximar-se da decisão da Corte de Apelo, pela sua condenação a sete anos de prisão. Tanto que fugiu. Ele é acusado de ser o elo entre Berlusconi e a Máfia. Acabou sendo preso em Beirut, interceptado através do celular e do cartão de crédito. Tenho a impressão de que irá passar os próximos sete anos assistindo a filmes policiais. Aqueles que ensinam que a primeira coisa a se fazer em caso de fuga, é livrar-se de celular e cartão de crédito. (AQUI)

Silvio Berlusconi, que dispensa apresentações, condenado a quatro anos por fraude fiscal, poderá cumprir a pena prestando serviços sociais. É uma meia vitória. Diferentemente dos processos anteriores, nos quais contou com a lentidão da justiça italiana e a argúcia dos advogados, não conseguiu esticar o processo até a prescrição penal. Pelas contas dos opositores, falta a justiça julgar outros trocentos processos contra o perseguido Berlusconi. (AQUI)

Sim, eu sei que a corrupção está restrita à região entre Longyearbyen e Puerto Williams. O que incomoda é a capacidade de corruptos e corruptores em se reproduzir e da impunidade para esse tipo de crime. A maioria dos culpados não paga nunca. E continuam a ser eleitos. Ver um ou outro, ocasionalmente, ter que responder penalmente, acaba sendo um consolo pífio. Melhor a pizza.

E você aí chateado com os ataques ao partido do coração...
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Thursday, April 10, 2014

BookCrossing Blogueiro - 8ª edição

http://luzdeluma.blogspot.com.br/2014/03/vem-ai-8-edicao-do-bookcrossing.html

A querida e incansável Luma está convidando para a 8ª Edição do BookCrossing Blogueiro, de 16 a 23 de Abril.

Que tal liberar um livro que coleciona poeira há muito tempo na sua estante? Eu sempre deixo com um bilhete explicando que o livro não está perdido e que deve ser levado e lido por quem o encontrar. E, se possível, ser deixado para que outra pessoa possa ler também. Vai que quem o achou gosta da ideia e começa liberar os próprios livros...

Quer saber mais? Visite o blog da Luma e participe: Clique AQUI.
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Sunday, April 06, 2014

Pão e salame



No início do mês passado (Março) fui levar a Bianca ao Istituto Humanitas, em Rozzano, uma cidade da região metropolitana de Milão. Ela precisava fazer os exames preoperatórios para uma pequena cirurgia no ombro direito que, rebelde, costumava sair do lugar. Chegamos cedo e ficamos em jejum – ela por força dos exames, eu por solidariedade – até à uma da tarde. Fizemos um lanche no bar do hospital e voltamos para completar os exames. Como a programação das visitas com o anestesista, a enfermeira e o cirurgião era a partir das três e meia, fomos almoçar. Às seis e meia saímos do hospital com tanto papel que não tinha dúvida de que a cirurgia seria feita por um advogado.

No final do mês, lá fomos nós de novo. Dessa vez para a cirurgia (day hospital). Chegamos às sete da manhã, depois de mais de uma hora de viagem. A Bia foi levada para a preparação às nove, nove e quinze. Eu e a Eloá decidimos que era hora de tomar café da manhã e fomos ao bar do hospital. Ai...! O café da manhã italiano se resume a cappuccino ou café e brioche doce. O meu se alarga pelos queijos, salames, pão, sobras do jantar, pizza gelada... E café. Vou me acotovelando com médicos enquanto vasculho o bar na busca por um pedaço de focaccia ou pizza, pergunto à atendente se há algo salgado e ela – de olhos arregalados – avisa que salgado só na hora do almoço.

Abandonei a Eloá com o livro dela e saí para procurar um bar. Em frente ao hospital eis que surge uma paninoteca (sanduicheria) diante do meu estômago. Fechada (quem, em Milão, entraria pra comer um sanduíche de manhã?). Caminho mais uns metros e encontro um “tudo na grelha”, também fechado. Vou até a esquina, pois lembrei da piadineria (piadina é uma tortilha pouco digerível recheada com a escolha do cliente, tipo misto quente) que simplesmente não poderia estar fechada. Mas estava. Caminhei desanimado até encontrar um bar, logo depois da banca de jornais que não vendia revistas, e deparo com o cartaz na entrada: “Pizzas, focaccias, sanduíches e pratos frios”. Sorri. Entrei e pedi dois sanduíches: um com coppa e um com salame (tinha caminhado muito e precisava repor o índice de gordura, as colorias, matar a fome, enfim). O balconista me olhou desconsolado e avisou que não tinha nada de salgado àquela hora.

Voltei derrotado ao hospital e deparei com a paninoteca abrindo. Entrei e comi. E decidi que da próxima vez levo de casa. Esperando que não tenha uma próxima vez. A Bianca? Está bem, obrigado.
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Tuesday, March 25, 2014

Meu herói, meu bandido - republicação

Dia 27 de Março completam 7 anos.
Que seja o início de um novo cilclo, positivo e otimista.
Mesmo com os erros gramaticais decidi republicar, já que não escreveria uma homenagem menos sofrida.

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Nossa história começou naquele início de noite da primavera carioca. Minha mãe conta que você ameaçava agredir o médico, que entendia a calma dela como um sinal de que o momento ainda não havia chegado. Era a minha estréia nesse mundo e você brigando. Não muito diferente de qualquer outra ocasião em que fosse necessário um mínimo de paciência, um pavio ainda que curto.

Lembro do seu sorriso orgulhoso enquanto minha mãe me levava à casa da Nádia Pacheco, do outro lado da rua Peixoto Gomide, no Cremerí, em Petrópolis, para a minha primeira lição de leitura. Tinha apenas três anos, mas você me havia ensinado a ver as horas e a jogar xadrez, e isso fazia de mim alguém capaz de aprender a ler. Lembro, também, do quarto de brinquedos tão cheio que vez ou outra encontrávamos um pacote esperando ser desembrulhado. Eu, meus irmãos e o exército de amigos necessários para tantos brinquedos. Lembro dos almoços intermináveis aos domingos e a casa sempre cheia de gente, e que os brinquedos não substituíam a sua presença, cada vez mais rara.

Quem tem irmãos nunca está sozinho, mas eu sou estranho mesmo. Sempre vivi no mundo da lua ou nos outros mundos que construía sozinho. Ainda hoje passo a língua no dente que está para cair tentando ajudá-lo e me espanto: o último dente de leite caiu há muitos, muitos anos. E você nem estava para ver. Como também não estava em outras ocasiões importantes

Apesar de tantas idas e vindas, separações e reencontros, aprendi muito com você. Aprendi como não tratar as mulheres e como não conduzir os negócios. Como destrinchar frango com cara de quem sabe o que está fazendo e ter a capacidade de mudar de idéia, compreender e aceitar a diversidade do mundo. Aprendi que o caminho escolhido deve ser uma trilha, não um trilho. Meus irmãos e a rua trataram de ensinar o resto. Empinar papagaio, jogar bolinha de gude, nadar, andar de bicicleta e trabalhar para pagar as contas. Ser independente foi consequência, não uma lição.

Minha curiosidade me levou cada vez mais longe, mas eu sou estranho mesmo e sempre me senti muito perto. Sempre penso em quem está longe como se morasse na rua de trás e converso conversas imaginárias. Vou a lugares que combinam com alguém e imagino esse alguém ali, a conversar comigo. Vou a cafés que iríamos juntos e passeio por lugares que passearíamos. E isso reduz um pouco esse sentimento de culpa por não ter acompanhado a sua velhice, por não ter tomado um café juntos. Por viver longe e saber da sua morte por telefone.

A imagem mais forte é, talvez, a primeira. Biscoito de cuspe e mate gelado na praia, em Copacabana. Lembro dos meus cabelos, brancos como o sol. Brancos como o seu sorriso.

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Publicado originalmente em  15 de Abril de 2007
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Sunday, March 09, 2014

Receita de pizza Margherita


Ocasionalmente faço pizza em casa. Pode parecer provocação, morando na Itália e tendo algumas das melhores pizzarias da cidade num raio de 500 metros, mais seis pizzarias que vendem pizza aos pedaços num raio de cem metros. A verdade é que estou me preparando para o dia em que a Itália se tornar uma saudosa lembrança. Então, é melhor caprichar.

Outras culturas já consumiam pratos que teriam servido como base para a pizza moderna e, segundo a maioria dos históricos – inclusive italianos – a pizza como a conhecemos hoje, teria sido aprimorada na Grécia (quem diria!). Cada cultura desenvolveu uma própria receita de pizza, mas prefiro a italiana. O prato era o aproveitamento de sobras com um pouco de nada, um prato pobre. E a pizza italiana mantém essa tradição.

Já a pizza Margherita é a pizza napolitana por excelência. Conta a lenda – que muitos afirmam ser História – que em Junho de 1889 o pizzaiolo Raffaele Esposito, da Pizzeria Brandi, de Nápoles, teria criado a receita da pizza mais tradicional dos nossos dias em homenagem à rainha da Itália, Margherita di Savoia. A pizza Margherita deve levar apenas molho de tomate, mozzarella e manjericão, produtos com as cores da bandeira da Itália. Além da massa, é claro.

Se você gosta de pizza e quer se aventurar a produzir a sua, vou logo avisando que não há nada mais fácil. É necessário apenas um pouco de prática. Às vezes a massa fica mais crocante; noutras – como nas fotos abaixo – cresce pouco. Portanto, não faço como eu e tenha paciência: todas as vezes que segui à risca a receita abaixo, a pizza recebeu aplausos e a torcida pediu bis.


Ingredientes para a massa de 3 pizzas:
Mais ou menos 300 ml de água morna (mais quente que fria)
500 gr de farinha de trigo e mais um pouco para corrigir e abrir a massa
1 colher de sopa de sal
3 colheres de sopa de azeite extra virgem de oliva
25 gr de fermento para pão (Fleischmann, no Brasil – na Itália use aquele cubinho da foto)
1 colher de chá rasa de açúcar


Preparação da massa:
Coloque a farinha em uma bacia, faça um pequeno vulcão e reserve; em uma vasilha, coloque um pouco da água morna e dissolva o sal e só depois adicione o azeite, misture e reserve; em outra vasilha, coloque um pouco da água morna, o açúcar e o fermento (tendo o cuidado de desmanchar o fermento com as mãos) e dissolva bem;  quando o fermento estiver bem dissolvido com a água e o açúcar, coloque no centro da farinha. Não use toda a água nessas operações, pois dependendo da farinha e da umidade do ar, a receita vai precisar de mais ou menos água. Pelo mesmo motivo, tenha sempre um pouco mais de farinha de reserva. Junte a água com o sal e o azeite e misture bem a massa. Tenha sempre à mão um pouco de farinha e água morna para corrigir a massa, se necessário. A massa deve ficar consistente, lisa e elástica. Cubra a massa na bacia com um pano seco e limpo e deixe descansar em um lugar sem corrente de ar e – de preferência – próximo a uma fonte de calor. Vale colocar dentro do forno desligado, o importante é não sofrer mudança de temperatura. 


Deixe a massa descansar por pelo menos uma hora e meia, até que a massa tenha dobrado de volume. (Repare que a massa da última foto ficou mais baixa do que deveria; não tive paciência para esperar e abri a massa depois de quarenta minutos.) Acenda o forno e deixe pré-aquecer. 



Divida a massa em três partes e abra com um rolo de macarrão. Com o tempo você vai aprender a esticar o meio da massa apoiando-a nos punhos, mas o tempo e a elasticidade da massa é que ditarão a regra.



Coloque a massa na assadeira e cubra com uma concha de molho de tomate (usei um molho pronto), 150 gr de mozzarella por cada pizza e umas folhas de manjericão (reserve algumas para enfeitar a pizza depois de assada).

 



Asse em fogo alto até que a base da massa – embaixo – assuma uma coloração dourada. Corte e coma com as mãos. Se der tempo, acompanhe com um copo de vinho – vá lá!, cerveja, se preferir.


E volte aqui para me contar.
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