Saturday, June 02, 2018

Feriado italiano - 2 de Junho Festa della Repubblica



Festa della Repubblica.
Nos dias  2 e 3 de junho de 1946 os italanos participaram do referendo que escolhia entre a manutenção da monarquia e a implantação da república. Venceu a república, com 12.717.923 votos a favor contra os 10.919.284 obtidos pela monarquia, que sustentava o sistema ditatorial vigente. No dia 10 de junho do mesmo ano, a corte suprema italiana declarou o nascimento da República Italiana.

 
Cédula eleitoral do referendo

Umberto II di Savoia, então rei da Itália, para evitar uma guerra civil entre monarquistas e republicanos, aconselhado a deixar Roma “por pouco tempo”, esilou-se em Portugal. Umberto II assumiu o trono em 9 de maio de 1946, quando seu pai, Vittorio Emanuele III, abdicou. Foi o reinado mais breve da história italiana (um mês) o que lhe valeu o apelido de “Rei de Maio”. Por aqui instalou-se a Assembleia Constituinte, encarregada de redigir a nova constituição, promulgada e publicada em edição extraordinária em 27 de dezembro de 1947. Com a entrada em vigor em 1º de janeiro de 1948, a constituição proibia a entrada na Itália dos descendentes do sexo masculino de Umberto II. Tal decisão foi revista e cancelada em 2002.


 Manifestante festejando a República

Alcide De Gasperi, Primeiro Ministro desde 1945, foi declarado chefe de Estado, mandato que durou até 28 de junho, quando a Assembleia Constituinte elegeu Enrico De Nicola como Primeiro Ministro. De Gasperi foi o último Premier da monarquia e o primeiro da república.

Como em qualquer lugar no mundo, muita gente por aqui continua monarquista, mas a maioria é por acreditar ter o rei na barriga. A verdade é que o país é dividido em pequenos borgos, onde castas não se misturam e a juventude prefere viver no exterior que enfrentar os dogmas herdados da monarquia. O país sempre enfrentou – e enfrenta, ainda – problemas como racismo e xenofobia (como nós, brasileiros), mas não chega a ser um problema. Há a esperança de que um dia as novas gerações voltem a viver aqui e ensinem a tolerância e a compreender diferenças. Até lá, pode-se esconder tudo sob o tapete. Como nós…

Tem quem diga que o melhor do 2 de Junho é o fato de ser feriado. Prefiro me divertir e achar curioso como esses caras (Corpo dei Bersaglieri) conseguem correr e tocar ao mesmo tempo. E aonde vão com tanta pressa.



Sunday, May 27, 2018

Eles estão entre nós



 Era o ano de 1959.
 Turi percebeu que algo passava entre ele e o Sol, mas não abriu o olho. Não sentia cheiro de comida, e isso descartava a necessidade de se levantar da rede. Ninguém o importunaria, podia voltar ao que mais gostava de fazer: nada. Sentir a brisa do mar era mais que suficiente para um nobre como ele.

Minutos depois, o que quer que fosse voltou a esconder o Sol. Turi se espreguiçou, coçou calmamente a barriga, levantou a cabeça e só então abriu os olhos. Sobre o mar calmo, um silensioso objeto circular fazia manobras aéreas. Às vezes quase tocando a água, noutras, numa altura que não se podia enxergar. Curioso mas não assustado, Turi apenas observava, pensar não era um hábito. Finalmente o objeto parou acima da areia da praia, a uns dez metros de distância de Turi e esticou um cilindro de uns três metros até o chão. De lá saíram três seres que pareciam camarões (não na cor, mas na forma), que se dirigiram ao sorridente Turi.

▬ Olá! Viemos em paz. Gostaríamos de fazer uma proposta ao seu povo…
▬ Que proposta? – interrompeu Turi, enquanto se ajeitava na rede.
▬ Bem, gostaríamos de propor uma troca. Mas antes, deixe-nos explicar o que temos a oferecer.

Turi olhou atentamente aqueles três camarões imensos e não conteve o sorrisinho.
▬ Do quê você está rindo? – perguntou o camarão chefe.
▬ Desculpem, foi involuntário. É que eu… Bem, er… Aprecio camarões.

Instintivamente os três bichões deram um passo para trás.
▬ Continuando – prosseguiu o suculento e enorme camarão chefe – nós viemos de uma galáxia muito distante. Exploramos o Universo em busca de planetas como o seu para incubar as nossas futuras gerações.
▬ Não tem motel por lá? …Ou praia? Na praia, se não estiver ventando, também dá para produzir novas gerações.
▬ Não, o problema é a temperatura. Com o tempo, o nosso planeta está se aquecendo, o que interfere na incubação dos ovos, matando-os antes da eclosão. O subsolo de vocês tem a temperatura ideal e vai continuar assim por mais uns cinco milhões de anos.

Turi ouvia com atenção. Salivando.
▬ Hum…
▬ Bom, a nossa civilização é muito evoluída, resolvemos todos aqueles problemas que para vocês ainda parecem insolúveis, preservamos a natureza do Universo, vivemos em paz com outros povos, aumentamos a qualidade de vida e atingimos uma longevidade de cinco mil anos...
▬ Hum…
▬ Sim, imagino que você gostaria de saber qual é a nossa proposta, não?
▬ Hum… – coçava a barriga.
▬ Bom, assim como fizemos com outros planetas, gostaríamos de instalar algumas colônias aqui. Tudo muito discreto, seu povo não vai nem ver.
▬ Hum…
▬ Não, não se preocupe, sabemos ser invisíveis. Pode acontecer algum incidente, mas nada que prove a nossa presença no seu planeta. Em troca, oferecemos um dos nossos planetas onde reproduzimos o seu habitat. Quer dizer, o habitat dessa parte do planeta onde você e o seu povo vivem.
▬ Hum…
▬ Pode confiar. Estudamos a composição dessa região e já a reproduzimos em todos os detalhes. Não falta nem mesmo o ar característico daqui. Só não adicionamos nada de tecnológico, como avião ou telefones, pois entendemos que você prefere não se envolver com essas besteiras.
▬ E como foi que me escolheram?
▬ Milhões de anos de experiência nos ensinaram que o povo que vive melhor é aquele comanda o planeta. Sabemos que a qualidade de vida de vocês é invejada pelos outros povos do seu planeta, que a música é a melhor, que deixam o trabalho duro para os outros, que estão longe dos conflitos de poder subalterno, que se alimentam basicamente do que o habitat de vocês oferece. E dentre o seu povo, descobrimos que você é o ser mais relaxado. Portanto, você é o monarca.
▬ Hum…
▬ Claro que não vamos levar todos de uma vez, isso provocaria alarme no resto da população e chamaria a atenção. O modo como agimos funciona do seguinte modo: nós monitoramos cada pessoa; quando alguém estiver para morrer, levamos para o novo planeta e, no caminho, curamos a pessoa e a deixamos na nova casa pronta para os próximos cinco mil anos. Tudo o que pedimos em troca é a possibilidade de incubar nossos filhos no subsolo do seu planeta. Uma incubação que dura de vinte a vinte e dois anos, pelo tempo de vocês. Não vamos interferir em nada, a menos que alguém descubra uma das nossas colônias. Nesse caso – e somente nesse caso – a pessoa ou pessoas envolvidas serão eliminadas.

Turi estalou a boca, limpou a saliva com as costas da mão, sentou-se na rede, se espreguiçou novamente e falou (com uma fome dos diabos):
▬ Tá bom.

Estamos em 2018. O pacto funciona perfeitamente até hoje.
Enquanto as colônias dos camarões gigantes são cultivadas há anos, na Terra, em algum lugar no Universo, o preguiçoso filho de pescador Turi e boa parte do seu povo vivem tranquilamente num planeta exatamente igual à Samoa, onde os grandes camarões, por precaução, jamais colocaram os pés.

Friday, April 27, 2018

Trilha sonora italiana – Antonello Venditti: Notte prima degli esami

Essa música está entre as mais belas e mais conhecidas da Itália. Todo e qualquer italiano – de qualquer idade – conhece e não consegue não cantar junto. Merece um capítulo à parte nessa seção. Para entendê-la bem, algumas informações:

- Antonello Venditti (Roma, 8 de março de 1949), cantor e compositor, autor desta canção.

- Gorgio Lo Cascio (Roma, 18 de junho de 1951 – Roma, 25 de fevereiro de 2001), cantor, compositor e jornalista.

- Francesco De Gregori (Roma, 4 de abrio de 1951), cantor e compositor.

- Ernesto Bassignano (Roma, 4 de abril de 1946), cantor, compositor, jornalista e condutor radiofônico.

- “I pini di Roma” que não se quebram são os pinhos de um dos poemas sinfônicos da Trilogia Romana, de Ottorino Respighi (1879-1936).

- Folkstudio era o atelier e estúdio do pintor e músico americano Harold Bradley, situado no porão de uma casa no bairro de Trastevere, em Roma. Como muitos artistas se reuniam ali, transformou-se num círculo cultural (uma espécie de bar/restaurante só para sócios – onde qualquer um pode entrar, desde que compre (normalmente por um preço simbólico) a cateira da associação. Muitos músicos se apresentavam no local, como, por exemplo, um jovem desconhecido que se apresentou em 1962 para umas quinze pessoas presentes, um certo Bob Dylan. Venditti, De Gregori, Lo cascio e Bassignano cantavam no Folkstudio.

- Maturità é o correspondente italiano do vestibular.

- A canção fala de uma noite de verão, com o tempo que viaja em lembranças e épocas diversas. Os quatro rapazes citados no início são os quatro amigos, saindo de algum local onde se apresentaram, carregando os instrumentos. “Un pianoforte sulla spalla” é a recordação dos amigos quel he ajudavam a carregar o piano nas costas, após as apresentações, como o próprio Venditti contou em diversas entrevistas. “La vita non li spezza” – a vida não os quebra, referindo-se aos sonhos que perseguem. Conversam sobre banalidades, como as secretárias que se casam com advogados, e coisas sérias, como “le bombe delle sei”, referindo-se a duas bombas no atentado ao monumento Vittoriano (Altar da Pátria, sempre em Roma), em 1969.  A cena muda para um jovem casal que se encontra na noite da véspera do vestibular. Não se vêem há uma semana, ela desafiou o pai e o irmão para encontrá-lo. Na confusão de emoções que se misturam – o encontro proibido e o vestibular –, pai e irmão parecem Dante e Ariosto, dois poetas muito aproveitados nos vestibulares. Enquanto os jovens se amam (non fermare ti prego | le mie mani | sulle tue cosce tese | chiuse come le chiese | quando ti vuoi confessare), Roma vive a vida noturna de sempre: sons de sirenes, ambulância, polícia e – talvez – alguém que perdeu a vida (forse qualcuno te lo sei portato via), pais acordados  por bebês, avós insones nas janelas, atores jovens que acordam cedo para enfrentar a fila de provas de Cinecittà. Ele volta para casa e se lembra que é dia de vestibular, chora e reza, enquanto os aviões voam entre Nova Yorque e Moscou (que somente voando podia-se ultrapassar a cortina de ferro, durate a guerra fria) mas não consegue deixar de pensar a Claudia, sua amada. Nova cena, Venditti se vê adulto, cantor de sucesso e observa as luzes do palco.
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Notte prima degli esami

Io mi ricordo, quattro ragazzi con la chitarra
E un pianoforte sulla spalla
Come pini di Roma, la vita non li spezza
Questa notte è ancora nostra

Ma come fanno le segretarie con gli occhiali a farsi sposare dagli avvocati?
Le bombe delle sei non fanno male,
È solo il giorno che muore, è solo il giorno che muore
Gli esami sono vicini
E tu sei troppo lontana dalla mia stanza

Tuo padre sembra Dante e tuo fratello Ariosto
Stasera al solito posto, la luna sembra strana
Sarà che non ti vedo da una settimana

Maturità, t'avessi preso prima
Le mie mani sul tuo seno
È fitto il tuo mistero

Il tuo peccato è originale come i tuoi calzoni americani
Non fermare ti prego le mie mani
Sulle tue cosce tese chiuse come le chiese
Quando ti vuoi confessare

Notte prima degli esami, notte di polizia
Certo qualcuno te lo sei portato via
Notte di mamma e di papà col biberon in mano
Notte di nonno alla finestra
Ma questa notte è ancora nostra

Notte di giovani attori, di pizze fredde e di calzoni
Notte di sogni, di coppe e di campioni
Notte di lacrime e preghiere
La matematica non sarà mai il mio mestiere

E gli aerei volano in alto tra New York e Mosca
Ma questa notte è ancora nostra
Claudia non tremare
Non ti posso far male
Se l'amore è amore

Si accendono le luci qui sul palco
Ma quanti amici intorno
Mi viene voglia di cantare
Forse cambiati, certo un po' diversi
Ma con la voglia ancora di cambiare

Se l'amore è amore, se l'amore è amore
Se l'amore è amore, se l'amore è amore
Se l'amore è amore


Wednesday, March 21, 2018

Em caso de neve



Março começou com neve. Não é normal, o inverno acaba em março, os dias se alongam e as roupas mais pesadas já estavam prontas para hibernar no armário. Nada mais é normal, nesse mundo. Onde já se viu, neve em março!

Aqui na região existe a obrigatoriedade de pneus de neve ou corrente a bordo, de quinze de novembro a quinze de abril. É a primeira vez que acho coerente o prazo em abril. E se você não está acostumado com a neve, aqui vão algumas dicas.

- Use pneus de neve (existe um tipo recente que permite o uso em qualquer estação). Montar correntes de neve pode danificar os pneus, atrasar seu compromisso, provocar nervosismo. Principalmente quando você acabar de montar as duas primeiras e descobrir que são só duas, mesmo. Pior: descobrir que montou nas rodas erradas. As correntes devem ser montadas nas duas rodas com tração, a menos que o seu carro tenha tração nas quatro. E aí vai precisar de mais duas correntes. Prefira pneus de neve.

- Se o seu carro fica em local descoberto, é prudente colocar algo cobrindo o parabrisa, para evitar ter que raspar o gelo dele. De qualquer modo, não use o limpador de parabrisa antes de aquecer o interior da carro. A borracha gruda no vidro, o limpador destaca-se dela e risca o parabrisa.

- Se a sua casa tem uma área externa (quintal, balcão, etc.) lembre-se de fechar o registro da torneira – se houver – para que o congelamento não estoure o cano. É chato descobrir que esqueceu só na primavera, quando o vazamento tiver alagado tudo, inclusive o apartamento do andar de baixo.

- Aproveite para guardar vassouras e esfregão dentro de casa. Esfregão molhado, congela.

- Ah, compre um rodo (esse equipamento desconhecido por aqui), para o caso de ter que lavar o pipí do cachorro do balcão. Enxugue bem, evite tombos em pipí ou água congelada.

- Nem pense em limpar a neve da frente da sua casa, se você nunca fez isso. O pronto socorro fica lotado de novatos da atividade. Mais do que nunca, é necessário fazer aquecimento antes de qualquer atividade física, em caso de temperaturas baixas. Os riscos de problemas musculares aumenta muito (mas muito mesmo). A roupa deve ser igualmente adequada. Dê preferência às roupas em microfibra, que permitem o suor de sair e impedem o frio de entrar. Quando se faz atividade física, o ritmo ventilatório aumenta. A consequência é respirar mais poluição, além do ar frio. Respirar pelo nariz é outra recomendação inteligente, pois o ar se aquece e não chega gelado nos pulmões, mas a tendência é começar a respirar pela boca, aumentando a certeza de que uma gripe vai tornar o seu inverno inesquecível. Alimentou-se bem? Se não, nem saia. Um exercício puxado (e limpar a neve é um exercício pesado, acredite) pode fazer com que até 75% do sangue seja transferido para os músculos. Isso exige uma seção de stretching após a atividade, sem parar de movimentar-se. O resfriamento brusco vai trazer aquela gripe de que falei antes. Já limpou a neve antes de ler esse post e está sentindo dores no peito, dificuldade em respirar, tontura e tem a sensação de estar morrendo? Sim, você vai morrer. Provavelmente não será agora, pois esses sintomas podem ser somente estiramento muscular múltiplo, gripe, sistema respiratório fatigado, desidratação e fadiga. Vá ao pronto socorro e lembre-se de contar a besteira que você fez. Contrate alguém experiente para limpar a neve e pratique esportes, mas só pela tv.

- Quando caminhar pela rua, evite pisar a neve amassada e congelada. Neve fofa molha mas não escorrega. Ao descer escadas com neve, use o corrimão. Pisos e degraus congelados são armadilhas traiçoeiras.

Bem, os primeiros passos são esses, mas não escorregue. A sensação de dor aumenta com o frio.