Monday, June 01, 2020

Diário de um mundo novo - parte 2


Diário de um mundo novo – dia 8
A mão vai bem, obrigado. Meu remédio caseiro de alho com plutônio é uma bomba.
Hoje eu consegui comer como uma pessoa normal. Não que nos outros dias eu pareça um anormal. Não, longe disso. É só que eu costumo comer por três dessas pessoas normais. A comida aqui até que é boa, tem repeteco e cerveja gelada. Vinho, às vezes. Mas também tem chocolate, um mundo de cerveja, besteirinhas, frios pra comer com pão, frutas, chocolate. Dá pra passar o dia inteiro comendo sem perceber.
Tem goiabada – não aquela caseira, mas tem – doce de leite, Nutella, chocolates escondidos e chocolates que nunca mais vou achar.
Acabou a grappa, acabou o conhaque.
Café com Nutella é um trem de bão demais. Grana com cerveja, também.
Fiz pão de queijo e comemos tudo. Eu e ela.
O feijão que fiz pra durar uma semana? Durou dois dias.
É época de pêssego e tem pêssego de tudo quanto é tipo. Cereja, nêspera e damasco também.
Preciso comprar vinho branco e prosecco pra refrescar o calor.
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Trabalhar, trabalhar, trabalhar. Prefiro o barulho do mar.
Se eu disser que estou com saudades do isolamento, alguém se ofende?

Diário de um mundo novo – dia 9
Comecei a identificar algumas habilidades que vão estar em alta e outras que vão cair, quando essa zorra acabar. De cara posso afirmar que muitos produtores de fermento para pães na Itália vão falir. Eles deram mole quando deixaram de entregar o produto nos mercados. Em qualquer supermercado italiano era possível comprar fermento fresco. Quando iniciou o isolamento eles deixaram de entregar. Os moinhos de farinha de trigo começaram a distribuir “pasta madre” (a massa azeda cultivada pelos panificadores. Algumas, com dezenas de anos) em pó. E funciona! Ou seja, já tem muita gente familiarizada com o processo caseiro que não vai voltar a usar o fermento fresco. Os produtores de fermento fresco vão enfrentar não somente a antipatia dos novos padeiros, abandonados em meio à crise, mas concorrentes de peso. E consumidores idem.
Profissional de Marketing Digital (MD) deverá ser o profissa mais ocupado daqui pra frente. Até banca de jornal está usando plataforma digital que nunca pensou que seria útil. Se você quer ganhar dinheiro agora, leia tudo o que puder sobre MD e já comece treinando – grátis, é claro! – com a microempresa da prima, montando um site para o crochê da tia-avó, fazendo calendário com fotos do totó, promovendo a divulgação de aniversário de boneca da filha da vizinha da cunhada do seu irmão. Daqui uns meses aquela padaria grã-fina pode ser sua cliente. Mas comece logo, empreendedores aprendem rápido e podem não precisar mais dos seus serviços.
Uma fábrica de bambolê pode dar super certo. O que tem de gente treinando jogo de cintura não tá em gibi nenhum.
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Que fique registrado que, não obstante a língua, enquanto viva, vá mudar, não concordo com termos e ditos populares em português por mim não usados até 1999, quando saí do Brasil. Coxinha é um salgado, não um status social; Nutella está para a Itália assim como Sandália Alpargatas está para o Brasil; no Brasil eu pago as contas, na Itália, le bollette; copo meio cheio ou meio vazio (bicchiere mezzo pieno o mezzo vuoto) é coisa de pinguço.
Bando de cambada!
Blé, blé, blé!

Diário de um mundo novo – dia 10
Outras duas áreas pra juntar à lista de ontem: saúde e criativos. Os da área da saúde vão estar em falta. Já tinha escrito aqui que serão veteranos de guerra, com uma série de problemas que os perseguirão para sempre, de um lado, e o esquecimento, por outro. Veterano de guerra é assim, herói durante as batalhas e desajustado à margem da sociedade, quando volta pra casa. Muitos se perguntarão “onde é a minha casa?” Quem vai querer ser médico/enfermeiro/operador sanitário daqui pra frente? Os criativos, ao contrário, terão futuro promissor. Todos os filmes, séries, livros, jogos infantis e tudo o que estiver relacionado com o que você lembrar que fez para se distrair durante o isolamento, foram vistos, lidos, youtuberizados, palestrado, seguido e sonhado. Vai escolhendo a profissão aí, o mundo precisa de atores, escritores, maquiadores, músicos, desenhistas, etc., etc., etc. para as próximas pandemias.
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Essa primavera, ora inverno, ora verão, cedo ou tarde vai chegar. A malha da primeira saída de manhã cedinho, tão necessária, causa repulsa ao meio-dia. Borboletas nuca vistas borboleteiam nos jardins e parques. O CSI está mais calmo, mas aposto que amanhã vais estar infernal. Não se pode elogiar.
A intrepidez juvenil ameaça a sensação de liberdade desses dias. Os grupos já preferem usar as máscaras nos pulsos, ciclistas as abandonaram definitivamente e os pais e avós podem pagar as consequências (gente, não me conformo com a abolição do trema).
O gato da galeria ficou parado na frente do ouriço, paciente. O ouriço, fechado em bola, aproveitou pra dar aquela dormida. 

Diário de um mundo novo – dia 11
As notícias que chegam do Brasil nesses dias, têm me deixado mais apreensivo que o normal. Me sinto distante, impotente e culpado por não estar lá. Não preciso de consolo ou preocupação, obrigado. Nada posso fazer senão torcer para tudo andar bem.
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Uma grande vantagem de ter ficado em casa nos meses de março e abril (e um pedacinho de maio) é ter ficado longe do pólen e da paina (pioppo) O meu período crítico já passou, os espirros de agora são só os de sempre, não se preocupe.
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Sabe aquelas coisas que você acha normal, que todo mundo faz, pensa ou sente, até que um dia você descobre que você está sozinho nessa história? (Pode fazer pergunta longa assim?) Pois comigo não foi diferente. Com os anos fui descobrindo que ninguém sente remorso por caminhar sobre plantas e, principalmente, flores. Como passear com o Covidão sem pisar em tudo, inclusive cocô de outros cachorros? Num dá, ele é um trator sem freio se aparece algum bichinho. Não gosto de matar sequer moscas e formigas. Não gosto de matar nada e me sinto mal sabendo que caminhando em parques ou matas é impossível não provocar uma hecatombe em miniatura. Pra ser sincero, só não me sinto mal esmagando pernilongos. Claro que eu preferiria que o ciclo natural deles se concluísse normalmente, mas sem contar com a minha participação. Sabe quanto passarinho está morrendo de fome nesse mundo enquanto eu desperdiço pernilongo?

Diário de um mundo novo – dia 12
Essa madrugada nosso quarto foi escolhido para ser o Armagedom. A chuva de trovoadas fez o marrom-quase-preto se apavorar. Não que ele nunca tenha enfrentado trovoadas, só que normalmente o ronco dele encobre qualquer barulho. O infeliz tinha ido fazer pipi no balcão e o primeiro trovão bateu na bunda dele quando já estava voltando. Passou as duas horas seguintes tentando cavar um buraco na cama dele, ao lado da nossa. Acabava empurrando a caminha pro corredor, desmanchou a espuma do colchão, jogou a almofada no inferno e destruiu tudo. Eu o pegava no colo, colocava na nossa cama (nossa, dele, dele, dele e o que sobra, minha e da Eloá), abraçava, fazia carinho, conversava. O bicho descia e recomeçava. Tive que trancar os trapos no outro quarto pra ele entender que não ia dormir nela, onde quase nunca dorme. Finalmente dormiu. Roncou e encobriu os trovões.
A manhã estava estranha, abafada, úmida e fria. Tava calor e frio tudo junto. Lembrei de um aniversário da Luiza em Londres, quando estávamos almoçando com um sol lindo e a neve que caía.
Trabalhei, visitei o chinês que está namorando meu celular (não deixa o trem sair de lá e, quando sai, volta em três dias), comi chocolate, tomei cerveja com grana.
Decididamente precisamos urgentemente de novos criativos. Assistir filme repetido no flix da net não dá. E também não dá pra colocar um filme sem escolher na hora de dormir, acreditando que não vou prestar atenção e dormir. Ontem, sem querer, vi um filme de três horas.
Terça é feriado. Eu nem lembro mais como é isso.

Diário de um mundo novo – dia 13
Fui despachar um envelope no correio. Máscara obrigatória. Só pode entrar quando um outro cliente sai. E não adianta ficar impaciente porque a mulher bate papo com a funcionária do guichê sobre o almoço de hoje.
Fui comprar uma ferramenta. Fila do lado de fora, luvas, máscara, tomada de temperatura. Dentro da loja imensa a distância respeitada pelos clientes era “dá licença”, “ops!” e salve-se quem puder.
Fui cortar o cabelo. Agradeço à minha esposa pelos cuidados a mim dispensados durante a quarentena. Contudo é imperativo contribuir para a sobrevivência da economia, privilegiar o comércio e o setor de serviços oferecidos pela nossa comunidade. Imbuído de empatia e senso de civismo, optei por ir ao chinês. Esses foram os únicos motivos que me levaram a abrir mão dos valiosos préstimos da minha caríssima companheira e nenhum outro. O resultado estético da sua valiosa ação não interferiu em nenhum modo na minha escolha.
Feita a ressalva, deixo clara a minha estupefação. Onde costumam trabalhar quatrocentos e oitenta e dois cabeleireiros orientais, hoje só tinham três. Na entrada mediram a minha temperatura com um daqueles termômetros em forma de pistola. Das mil e cinquenta e trinta vinte onze cadeiras à disposição, só três podiam ser usadas, distantes dois quilômetros entre si. Luvas descartáveis para uso obrigatório e desinfetante para as mãos. Sem máscara não se pode nem entrar. Cada cliente escreve o próprio nome completo e o telefone numa relação diária com horário anotado. A lavagem do cabelo é obrigatória. Enquanto o rapaz lavava o meu, o sofá em que eu esperaria a minha vez secava da limpeza, feita depois de cada uso. E nada de produto desconhecido, limpavam tudo com o mais indicado por aqui, a Amuchina [amukína], que é a mais cara. Uma outra cliente entrou, lavou o cabelo e a fizeram sentar num outro sofá, lááá na padaria, longe de mim. Quando chegou a minha vez a poltrona só não foi encerada. Limparam como se fosse ser usada pelo imperador, assim como toda a área de trabalho (incluindo o espelho) e o ar recebeu uma boa borrifada de desinfetante. Não havia no salão nada que não fosse essencial. Todos os enfeites, quadros, artigos à venda, tudo, tudo, tudo desapareceu. A chinesa lavou as mãos com muito sabão três vezes antes de me tocar; toalhas e avental para os clientes dentro de sacos plásticos de lavanderia; tesouras, escovas e pentes devidamente esterilizados.  Na hora de pagar, a chinesa pediu que eu descartasse as luvas na lata de lixo logo ali e que passasse muito desinfetante nas mãos antes de sair. O corte custa dez euros, a lavagem, mais dois, doze euros em tudo. Não tenho a menor ideia de como farão para cobrir as despesas normais, imagina com os gastos anexos das novas regras. Nos salões italianos o preço é de vinte e cinco, trinta euros; nas barbearias, quinze; no cabeleireiro onde alguém que mora em Londres e vem aqui para cortar, duzentos euros, mas só para quem reservou com muita antecedência.
Tô com medo de passar outra noite acordado. Vai chover.
Agora a vizinha do terceiro andar – aquela anciã ranzinza – desce de pijama, cabelo despenteado. Não é crítica, mas a constatação de que ela está se sentindo confortável com o isolamento social.

Diário de um mundo novo – dia 14
Acabo de voltar do passeio com o Pic (de Pequeno). Uma mãe e a filha estavam sentadas na sorveteria do outro lado da rua tomando sorvete. Duas mulheres fazendo algo simples e corriqueiro. Coisa muito comum aos domingos, quando mãe e filha têm tempo para sair juntas, sem horário ou compromissos. Não fosse pela máscara na mão, seria uma cena anônima e sem importância. O adereço que se tornou comum acende uma luz de alerta, de vigilância. Só não tem o poder de impedir a vida e a presença daquelas duas é a prova da resistência. Aprender a conviver com a nova realidade sem deixar de viver.

O domingo chega ao fim. Vou sonhar com a normalidade, ainda que transformada.

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Tuesday, May 26, 2020

Diário de um mundo novo - parte 1


Diário de um mundo novo – dia 1
Segunda-feira, 18 de maio de 2020. Para nós, na Itália, começa um novo mundo. Ele não é igual a ontem, tampouco é igual aos dias de fevereiro, antes que o primeiro caso oficial de Covid-19 fosse registrado aqui. É um mundo diferente que iremos construir juntos, com a esperança de podermos voltar a tocar as pessoas em breve, apostando na confiança mútua. Sim, todos precisamos seguir as orientações para evitar uma segunda onda e tornarmos à quarentena.
O que vi pelas ruas hoje foi um gesto de responsabilidade coletiva. Pessoas procurando manter distância das outras pessoas, máscaras em todas as faces e poucos passageiros nos ônibus. Talvez uma cidade grande tenha mais dificuldade na aplicação do protocolo de prevenção, principalmente no transporte público, mas em Piacenza a obediência foi total.
Um amigo do Brasil me mandou uma matéria sobre a distribuição de cloroquina nas farmácias italianas. Gente, sério que ainda tem quem fique em dúvida com esse tipo de mentira? Sério?
Aproveitei o dia para cortar a mão. Nada de grave, só um pequeno corte numa parte incômoda na palma da mão, entre o indicador e o polegar. O legal é que quando alguém pergunta, posso inventar uma aventura qualquer.
Informo que esse diário irá resistir até que o Brasil consiga sair da quarentena que ainda nem entrou. Espero que seja muito em breve. Torço por vocês e não sei se gosto de escrever diários e terminei um ontem.

Diário de um mundo novo – dia 2
cêis num sabe o ki é sê dono desses bestão. eles num mim dá folga dia ninhum. primêro eles saía di manhã i mim dexava tomano conta da casa, dispois eles ficaro um tempão aki cumigu mim enxenu o saco (cêis sabe ki eu num tenho, né?) i agora eles mim dêxa sozinhu di novo. eu tô té gostanu di tê um pôco di paiz di novo, mais só ki eu tenhu ki toma conta di tudu. mais é tudu tudu tudinho mesmo.
magina ki tem us passarinhu ki vem aki pertinhu gritá nin nóis, gritá pra nossa casa. craro ki sô eu ki tenhu ki mandá eles imbora. eles vai mais dispois eles volta tudu di novo. i teim us cachrru sarnentu ki fica andano lá fora na rua pra kerê intrá nas casa dus ôtru. tamém sô eu ki tenhu ki briga preles si mijá notru lugá, ki aki sô eu ki manda. as vêiz eu tô durminu i u dylan fica latinu prus sarnento ki passa na rua i eu tenhu ki acordá pra inxotá eles.
u bestão num passia cumigu u dia intêru, comu ki eu pessu pra ele fazê. ele é muito burru mesmo. ele só mi passía um pokinhu i eu keru fica lá fora u dia intêro. dispois eles chega i ela fica cum u celulá té dá uma dormidinha. intão eu dô uma durmidinha cum ela, ca cabeça im cima das perna dela. isso eu gostu. u bestão só chega dispois i fica nu poncutadô i aí eu vô lá mordê ele mais ele mim mordi. i mim leva pra passiá tamém. é disso ki eu gostu, di passiá, cherá, corrê atraiz di passarinhu i num gostu si ôtru cachorro vem mim inchê as paciênça.
quanu ki eles sai eles tira um monte di coisa gostosa di mordê i eu fico só cus meus brinkedinhu, mais eu kiria era brinca di mordê u bestão, mesmu si ele mim mordi tamém.
peraí ki eu vô mijá la fora, tá?

Diário de um mundo novo – dia 3
Gente, trabalhei como nunca e cheguei em casa ainda pouquinho. Tô podre. Já fumei um charuto, passei com o abestado do Shiva, e agora tô aqui tomando cerveja com grana, acarinhando o pilantra do meu cachorro. Me deixa.

u bestão mim pidiu pra iscrivinhá aki. eu dissi ki não, ki si o seu facecoiso num mim dexá mais iscrevê aki eu mordu todu mundu. mandei ele iscrevê di papel procêis, mais ele mim falô ki só vai iscrevê essas bosta ki ele iscrevi lá no coiso dele. mim isplicô ki si manda cartinha vai ficá sem dinhêro pra comprá papá pra mim. num sei u ki é dinheiro, mais num kero ficá sem papá. aí ele mim deu papá com muita carni, mim dexô mordê ele bastante e eu dexei ele usá u poquinho meu coiso.

Diário de um mundo novo – dia 4
Você tem ou já teve um cão? Você sabe oque é um cão? Pois bem, um cão é um mamífero quadrúpede que late – nem todos – e morde (absolutamente todos). Mesmo que seu cão nunca tenha mordido outros seres, ele sabe morder. Não o provoque. E você sabe o que é um molosso? Molosso é um tipo de cão de físico forte, normalmente usado para pastoreio, combate e guarda. Outra grande característica desses descendentes do Molossus grego é a quantidade de água necessária à disposição. No caso do abestalhado aqui de casa, são uns dez litros por dia. Não se preocupe, ele ingere menos de três litros por dia. O resto ele espalha pela casa ou, quando há alguém presente, para lavar as pernas do vivente. Ele adora beber água e apoiar o queixo no colo de qualquer um. De preferência, eu. Outra coisa, os cães soltam pelo, não importasse longos ou curtos. É possível que o tutor do cão encontre pelo em qualquer e todo lugar da casa. Aliás, mais que possível, é certeza.
Cães não deveriam ser comercializados. Nem todos os criadores são sérios e tem muito parasita vivendo de explorar até o osso o pobre animal. Animais sendo abusados por bestas quadradas. Não compre, adote. E antes de adotar, conheça bem as características do cão que você vai levar pra casa e veja se atende o que você espera dele. Beagles são dóceis, brincalhões e agitados, precisam de espaço. São ótimos para cavar buracos na sala, seja ela de cerâmica, madeira, mármore ou aço. O lado bom é que seu fornecedor de pisos irá presentear você com uma caixa de uísque todos os natais. Outra coisa, beagles levantam o focinho pra cima e avisam com um latido longo quando encontram alguma caça. Que pode ser um outro cão, gato, pássaros ou o brinquedinho que caiu do sofá. De tédio você não vai morrer. Akitas são sociáveis distantes. Quando você chegar em casa ele vai fazer uma festa danada por uns dez segundos. Depois vai cuidar da vida dele e pedir paz. São muito educados e higiênicos, você terá dificuldade em descobrir que parte do quintal ele escolheu como banheiro. E até sabe latir, mas é provável que você nunca ouça o latido dele. É do tipo intelectual e não como os doidos dos daschunds que latem pras andorinhas voando a quinze metros de altura e pulam tentando pegá-las, arrebentando as costas no chão. Pinscher é desaconselhado para quem tem vizinhos. Eles gostam de latir. Até dormindo. Se você não gosta ou não pode sair com o cão diversas vezes por dia, sugiro adotar um bulldog. Ele vai estar na mesma posição de quando você saiu. Arranje uma almofada para ele que subir em sofá não é o esporte predileto dele. Pra falar a verdade, ele não gosta de esporte nenhum, só de dormir. Já os pitbulls têm muita energia e necessitam de muito espaço. São ideais para quem vive em chácaras de superatletas. Aquele tipo de atleta que corre, anda de bicicleta, nada, pula de paraquedas, escala montanhas e é campeão de bung jump. Ele vai te seguir em todas. E depois vai querer brincar.
Muito importante: um cão não é brinquedo. Nunca dê animais de estimação de presente. Antes de ter um animal, lembre-se de que você será responsável por ele até o último dia de vida do bichinho. Os cães vão agir como criança sempre, não importa a idade.
Visite um abrigo, você vai se assustar com a quantidade de animais doidos para serem adotados. O pessoal do abrigo vai orientar você sobre as características do seu futuro amigo. Verifique se você tem condições de atender às necessidades dele (cuidados médicos, vacinas, comida decente, passear, espaço, tempo...). O abestalh... Er, o nosso amiguinho foi adotado no abrigo municipal. É um cão da raça American Pit Bull Terrier (ABPT), mas teria vindo conosco mesmo que fosse um vira-latas, a melhor do mundo. Doeu muito ver aquele pobre diabo desesperado dentro do box, com alambrado fechando tudo pelos lados e por cima, as patas machucadas por viver escalando na tentativa de sair, mal tratado e se automutilando. A voluntária nos alertou sobre a peculiaridade dele em destruir casas. O último que o levou e o devolveu depois de uns meses, teve um prejuízo de dez mil euros. Sempre foi uma empresa de demolição ambulante, não sobra nada. Mas nada mesmo. Mesmo assim o adotamos. Depois de destruir dois sofás, um computador, almofadas, objetos de decoração, cadeiras e outros móveis, uns dez controles remotos, o interfone e a cozinha toda (incluindo a geladeira de aço e o pinguim de cima dela), hoje ele está mais calmo. É diversão garantida. Daqui ele não sai de jeito nenhum!
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Temos um vaso de flor que desabrocha uma vez por ano. Nos primeiros anos, nada. Até que saiu a primeira flor. Acreditamos que a cada ano mais uma flor aparece. Temos cinco e um botão. Ou seja, se estamos certos, tem seis anos que a primeira brotou.

u bestão mim pediu pra iscrivinhá aqui di novo. eu ia pidí um negóço pra ele mas isquiçí. si lembrá, eu peço aminhã
atençãu: us comentário aí imbáxo num representa a pinião du dono desse coiso.
assinado, eu, u shiva

Diário de um mundo novo – dia 5
Como é bom cruzar com pessoas que não tive notícias durante a quarentena. Sabe como é, ambos com medo de ligar, mandar mensagens ou perguntar e descobrir que o vírus andou aprontando. Sim, encontros casuais, obedecendo a distância de segurança e de máscaras. Hoje foi um desses dias. Gente que eu não via há mais tempo do que seria saudável e até um que vi cedo demais. E foi pro Shiva também. O pilantrão encontrou com vários amigos e amigas. Tá ficando mais sociável. Eu sabia que a soma da minha paciência com a idade dele iam acabar fazendo efeito.
A propósito, mais alguém respira com a boca aberta quando sai de máscara?
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— Ô Allan, como é esse negócio de “café suspenso”?
— Olha, Ademar, não é em todo lugar, não. Em algumas cidades é normal, mas nem todos os bares aceitam participar. Tem que fazer a notinha na hora do pagamento e dar a quem tomar no momento do consumo. Pode acontecer de a nota ter sido impressa de manhã, o cara do bar coloca num lugar separado e só tira de lá quando serve a pessoa que entrou e perguntou “tem um café suspenso aí?” Claro que o bar pode ir trocando a cada hora, mas ninguém presta mita atenção nisso. E aí, se tiver um controle, o bar pode se encrencar por entregar uma notinha de horas antes do consumo, apesar de estar fazendo o certo.
— E como funciona?
— É assim: você toma um café no bar e, espontaneamente, deixa um outro pago, para quem não puder pagar.
— Pra um amigo ou pra qualquer um?
— Não, pra qualquer um. Um mendigo, alguém com o dinheiro contado...
— E por que não um pão, então?
— Porque muitas vezes a pessoa tem que escolher entre o pão e o café. Escolhe o pão pra parar em pé, mas morre de vontade dum café.
— Legal, isso! Italiano adora café, né?
— Ô! Italiano sem café, sem pizza e sem vinho não é italiano.
— Todo italiano toma vinho, Allan?
— Rapaz, pode até existir italiano que não beba vinho, mas grazadeus eu não conheci nenhum.

Diário de um mundo novo – dia 6
O pilantra mor tentou me chantagear. Disse que só me deixava publicar o diário na conta dele se pudesse provar uma cerveja. O quê??? Eu não preciso de outro sócio na cerveja aqui de casa. Já basta a Eloá e as meninas quando vêm aqui. Era só o que faltava! Fui na deep web e descobri que o Zucka está desenvolvendo um treco que permite interação 3D. Algo muito além do virtual. Liguei pro número dele – tem lá, só precisa procurar – e quando ele atendeu estiquei o braço pra fora, peguei na goela dele e berrei “me dá a minha página agora!” Ele ainda titubeou, mas quando o Shiva rosnou (não pra ele, mas porque não queria que ele me devolvesse o que conquistei com muitas horas de preguiça e quilômetros de besteiras escritas) ele se apavorou. Apertou um botão e voilà! É por isso que você tá lendo isso aqui agora. Rê rê.
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Dia de calor, de almoçar tarde, de passear com o nosso amigo, de tarde com vento fresco ameaçando chuva. Pelas ruas o que vi foi uma quase normalidade, e sorrisos por trás das máscaras.
Aproveitei pra concluir o conto que vou mandar pro concurso. “Concluir” significa que a primeira parte, o esqueleto, foi terminado. Agora só preciso editar, lapidar, editar, cortar, editar, colar, ficar doido com a quantidade de vezes que vou editar e editar e editar.
Agradeço a todo mundo que torceu pra minha conta no fêisbuk ser reabilitada e pra quem torceu pra que não fosse.

Diário de um mundo novo – dia 7
Bom dia de domingo de sol, de primavera de pássaros e flores, de baforadas de charuto e frango marinado no forno!
Ela acordou e tomou suco de pó de mico. Botou nós dois no balcão – eu e o CSI de Piacenza (cês precisam ver ele cheirando a rua procurando não sei o quê) – e passou aspirador r pano na casa toda. Aquele aspirador que comprei essa semana pra substituir o que quebrou no início do isolamento e que eu usava pra limpar a calha do balcão. Tem cinco dias que estou desentupindo aquilo. Como moramos no primeiro andar de um prédio de cindo andares, cai muito lixo na calha. Pregador de roupa, folhas e restos de plantas, pedaços de pano de chão, pó, papel e, vez ou outra, uma bituca de cigarro. Claro que o pelo do CSI também vai parar lá. E se não aspiro, acaba indo tudo pro tubo. Tentei com bicarbonato de sódio e vinagre, água fervendo, cabo flexível pra desentupir calhas, apelei pros produtos químicos e sertanejo universitário. A única coisa que está ajudando é o aspirador. Tá indo. Devagar e sempre, mas tá indo. Inda bem que parou de chover.
O corte na mão começou a infeccionar. Tirei o curativo, limpei com aquele trem laranja usado em cirurgia e coloquei um fiapo de algodão. Precisava de ar pra secar. Bem que podia ter dado uns pontos ou usar Super Bonder. Tá melhor e quase seco. Acho que o que está ajudando mesmo foi a minha receita caseira de dois dentes de alho com uma colherinha de plutônio.
A mulé fez almoço, passou umas roupas que precisam ser passadas, lavou toda a louça do dia, descascou e cortou abacaxi, cuidou de mim, se ofereceu para cortar o meu cabelo de novo e desistiu diante do meu olhar, brigou com o CSI, fez e aconteceu. Quanto tempo dura o efeito do pó de mico? Será que ele não vai dormir não, é?

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