Saturday, August 27, 2016

Minha História - Gesù Bambino



Houve uma corrente literária italiana chamada Verismo, cujo maior expoente foi Giovanni Verga, autor do ápice verista “Rosso Malpelo”. Li todas as novelas de Verga e posso afirmar que a obra é tão impressionante quanto triste. Morre todo mundo, ou nunca se encontram, ou vivem e morrem na miséria absoluta. Enfim, uma triteza só. Tenho a impressão de que a pesquisadora e professora de História da Arte Paola Pallottino é (ou foi) uma grande apreciadora de Verga, Luigi Capuana, Renato Fucini e demais autores veristas, além de ter sido amiga de Lucio Dalla.

Lucio Dalla continua sendo um dos grandes nomes da música italiana, quatro anos após a sua morte. E um dos que mais gosto de ouvir. Bolonha, 4/3/1943; Montreux, 1/3/2012.

Em 1971 Dalla chegou em terceiro lugar no Festival de Sanremo, com a música “4/3/1943”, composta com Paola Pallottino, autora da letra. Acontece que o título original foi considerado inadequado pela censura da RAI, que impôs a substituição do nome e de partes do texto, para que pudesse ser veiculada na TV. A data de nascimento de Dalla acabou se tornando o título de uma das canções mais apreciadas na Itália, mas todos se referem a ela com o título original, Gesù Bambino (menino Jesus).

Na versão italiana, a canção fala sobre uma garota de 15 anos que engravida de um soldado estrangeiro, morto pouco depois. A letra é comovente e muitos artistas italianos enchem os olhos d’água quando a interpretam. O próprio Lucio Dalla confessava ser a única canção que o emocionava cada vez que cantava.

As partes do texto original que sofreram alterações foram:
- “mi riconobbe subito proprio l'ultimo mese”[a menina só teria entendido que estava grávida no último mês (?)] modificada em “mi aspettò come un dono d'amore fino dal primo mese” [aguardava o filho como um dom de amor desde o primeiro mês],

- “giocava alla Madonna con il bimbo da fasciare” [fingia ser Nossa Senhora com o menino a ser coberto] ficou  giocava a far la donna con il bimbo da fasciare” [fingia ser uma mulher com o menino a ser coberto]

- “e ancora adesso mentre bestemmio e bevo vino... per i ladri e le puttane sono Gesù Bambino” [e ainda hoje quando blasfemo e bebo vinho… aos ladrões e as putas sou Jesus Menino] foi adaptado em “e ancora adesso che gioco a carte e bevo vino, per la gente del porto mi chiamo Gesù Bambino” [e ainda hoje quando jogo carta e bebo vinho… para a gente do porto sou Jesus Menino]

Mais para a malandragem que para o melodrama, mais para Gregório de Martos que para Giovanni Verga, Chico Buarque teria ouvido a música uma única vez. Pouco depois apresentou ao amigo a versão dele, adaptando a letra à cultura brasileira e batizando com o título “Minha História”. Dalla começava a tomar consciência de quão grande fosse a obra.

A letra adaptada de Chico Buarque todo mundo conhece. Segue a letra da versão que ficou famosa na Itália, com a tradução (minha). Mais abaixo, os vídeos com a versão original apresentada durante o Festival de Sanremo, a versão do Chico e os dois juntos.

Lucio Dalla adorava a versão brasileira do amigo Chico.

4/3/1943
(Gesù Bambino)
Lucio Dalla – Paola Pallottino

Dice che era un bell'uomo e veniva,
veniva dal mare
[Dizem que era um homem bonito e vinha
Vinha do mar]
parlava un'altra lingua,
pero' sapeva amare
[Falava uma outra língua
Mas sabia amar]
e quel giorno lui prese a mia madre
sopra un bel prato
[Naquele dia pegou minha mãe
Sobre um campo]
l'ora piu' dolce prima di essere ammazzato
[No momento mais doce, antes ser morto]

Cosi' lei resto' sola nella stanza,
la stanza sul porto
[E ela ficou só, no quarto
No quarto do porto]
con l'unico vestito ogni giorno piu' corto
[Com seu único vestido cada dia mais curto]
e benche' non sapesse il nome
e neppure il paese
[E apesar de não saber o nome
E nem mesmo o país]
mi aspetto' come un dono d'amore fin dal primo mese
[Me esperou como um dom de amor desde o primeiro mês]

Compiva 16 anni quel giorno la mia mamma
[Completava 16 anos naquele dia a minha mãe]
le strofe di taverna,
le canto' a ninna nanna
[As cantigas de cabaré
As cantou como acalanto]
e stringendomi al petto che sapeva,
sapeva di mare
[E apertando-me ao peito que cheirava
Cheirava de mar]
giocava a fare la donna con il bimbo da fasciare.
[Fingia ser uma mulher com o menino a ser coberto]

E forse fu per gioco o forse per amore
[E talvez de brincadeira ou por amor]
che mi volle chiamare come nostro Signore
[Quis me chamar com o nome de Nosso Senhor]
Della sua breve vita e' il ricordo piu' grosso
[De toda a sua vida a maior lembrança]
e' tutto in questo nome
che io mi porto addosso
[Está toda nesse nome
Que carrego nas costas]

E ancora adesso che gioco a carte
e bevo vino
[E ainda hoje quando jogo carta e bebo vinho]
per la gente del porto
mi chiamo Gesu' bambino
[Para a gente do porto
sou Jesus Menino]
e ancora adesso che gioco a carte
e bevo vino
per la gente del porto
mi chiamo Gesubambino
e ancora adesso che gioco a carte
e bevo vino
per la gente del porto
mi chiamo Gesubambino




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Monday, August 22, 2016

Rio 2016




Gambiarra. Essa deveria ser a palavra a ser difusa pelo mundo como sinônimo dos Jogos Olímpicos deste ano. Uma palavra que qualquer brasileiro conhece bem e que sintetiza o jeitinho brasileiro para seguir em frente, aprender a se arranjar com o que tem e ser feliz assim.

A conclusão final do evento olímpico é que gostei muito. Emoção foi o que não faltou. Claro que podemos criticar tudo, a partir da organização botando água no feijão, da limpeza social para inglês não ver, até a imensa indústria em que se transformaram os eventos esportivos.

Se temos que viver de pão e circo, que ao menos não falte pão e que o circo seja de qualidade. Não irei falar mal da Rio 2016 nem de nenhum outro evento esportivo. Deixei de criticar quando passei a entender competições esportivas como entretenimento, onde o importante não é vencer, mas emocionar. Nem mesmo os chatos diplomados com as críticas de sempre conseguirão diminuir a minha alegria. Daqui de longe, vi muito mais elogios que críticas dos estrangeiros. Os atletas entrevistados se mostraram ma-ra-vi-lha-dos. E é isso que irá marcar essa edição dos Jogos Olímpicos.

Esbanjamos criatividade, empatia, improvisação e simpatia. Pobres, lindos, gordos, negros, ricos, mestiços, magros, brancos, feios, elegantes e  indios. Somos todos nós, somos o povo brasileiro. Decepcionamos num dia e surpreendemos no outro. Perdemos onde era fácil e ganhamos no sufoco. Acho que, na soma final, merecemos medalha de bronze (que é para manter os pés no chão).

Para variar, o brasileiro deu um show: demos espetáculo dentro e fora da competição, demos vexame, alegramos o mundo, transformamos as arquibancadas em palco, mostramos nossas fraquezas e limites, fizemos emocionar e rir. Enfim, a Rio 2016 foi a cara do Brasil. Quem assistiu ou foi vai ficar com muita saudade. Não somos os melhores, mas somos muito bons. Somos vira-latas de raça.

A única coisa que realmente me incomoda é que o termo gambiarra não pegou por aqui; ainda vou ouvir gringos falando “saudagi”, quando me descobrem brasileiro. Que pena, preferiria ser associado a gambiarra.



Monday, August 15, 2016

Espírito Olímpico



Aproveitei o feriado na Itália (15 de agosto – Ferragosto) para dar uma volta de bicicleta na cidade vazia. Com o fone de ouvido, ouvia o rádio pelo celular. Música e notícias: “Usain Bolt venceu a terceira final dos 100 metros rasos pela terceira olimpíada consecutiva. Fez festa, foi simpático como sempre e até tirou selfie com as atletas do pentatlo feminino. Depois, foi embora, consciente de ter entrado para a história. Só então o público brasileiro deixou o estádio. Feliz porque venceu o esporte.”

É isso, um evento como os Jogos Olímpicos nos magnetiza porque nos faz viver as emoções como se fôssemos nós a competir. Torcemos e vibramos com os nossos eleitos porque nos lembram que podemos ultrapassar os nossos próprios limites. Porque nos confortam pelas nossas escolhas e por aquilo que perdemos para trilhar outro caminho.

O espírito olímpico perderia o brilho, não fosse pelas histórias dos que não ganharam medalhas, mas mesmo assim festejaram a participação – “o importante não é vencer, mas participar”. É fácil torcer pelo Bolt, pelo Phelps ou pelo keniano que aprendeu a lançar dardos pelo Youtube (e que, provavelmente, vai ganhar medalha). Mas como não se emocionar pela ginasta indiana que treinava em condições insalubres? Ou pelos anônimos que participaram das baterias e foram eliminados com um sorriso no rosto? Ou com o judoca que chora que foram “quatro anos em um dia”? São essas histórias que nos aproximam de Olpímpia, que nos fazem acreditar que também podemos ir além e vencer medalhas invisíveis. Quantos desses atletas olímpicos estarão trabalhando como vendedores, manicures, engenheiros ou cortadores de cana daqui a alguns anos? Serão anônimos como nós e terão filhos, alegrias e decepções. Como qualquer outro.

O esporte é uma metáfora sadia, pois ensina que com objetivos, disciplina e respeito – além de horas de sacrifício e treinamento – podemos conquistar vitórias. Mesmo que sejam vitórias humildes e sem medalhas.

A Rio 2016 está servindo para confirmar algumas coisas: que o esporte é o espetáculo mais agregador que existe; que os italianos são mais ufanistas que os brasileiros; que a RAI deveria investir na preparação dos jornalistas antes de grandes eventos; que o ser humano é – antes de tudo – emoção; que os Jogos Olímpicos vão continuar se renovando e atraindo cada vez mais público; que a mídia internacional está muito menos preocupada com os problemas do evento no Brasil que a mídia brasileira; que Bolt está feliz com o mundo a seus pés. E que o mundo está feliz aos pés de Bolt.


Saturday, August 06, 2016

Jogos Olímpicos Rio 2016



Acompanhar os Jogos de Rio 2016 requer insônia, mas vale a pena.

A mensagem que os Jogos Olímpicos transmite é de superação. Quem nunca praticou esporte não sabe que a competição maior é com os próprios limites. O esporte é para poucos e existem outros modos de se superar, mas é no esporte que a dedicação fala mais alto, física e mentalmente.

Daqui, o clima foi criado pelas competições que antecederam os Jogos, campeonatos e reportagens sobre o tema. E pela propaganda. O primeiro vídeo (abaixo) é da Procter & Gamble, mostrando quatro mães que acompanham os filhos rumo a Rio 2016. Os outros são as chamadas da RAI, com spots de três modalidades: esgrima, nado sincronizado, ciclismo e uma compilação de diversas modalidades.

Sugiro apreciar com som.
:)