Sunday, September 25, 2016

Trilha sonora italiana - Renato Zero



Renato Fiacchini nasceu em Roma, em 1950. Artista poliédrico, caleidoscópico e versátil, é cantor, compositor, apresentador, bailarino, ator, dublador e produtor musical. Um dos poucos letristas capaz de aquecer o universo morno da música italiana.

Para quem achava que valia zero, assinou seu primeiro contrato com quatorze anos. Acabou adotando o Zero como pseudônimo (sim, o motivo foi esse). Do pouco que se sabe da sua vida privada – coisa raríssima num país tão fofoqueiro quanto o Brasil - é que o seu grande amor é Lucy Morante, sua secretária desde sempre (e até hoje), apesar de não estarem mais juntos; a outra namorada oficial foi Enrica Bonaccorti, uma paixão dos tempos da juventude. Teria tido affairs com algumas famosas, mas nada foi oficializado. Prefere manter a imagem ambígua e tampouco se importa com os boatos sobre a sua presumível homossexualidade. Seu único herdeiro é Roberto Fiacchini, seu ex segurança pessoal, que Renato adotou oficialmente como filho em 2003.

Renato Zero é um dos artistas mais populares e amados na Itália. Apesar do estilo extravagante – e talvez por isso mesmo – tem uma legião de fãs e já vendeu mais de quarenta e cinco milhões de discos. Compôs mais de quinhentas músicas (para si e para outros cantores) e lota todos os seus shows.

Não chego a ser fã de Renato, como também não chego a ser fã de Elton John, mas não posso negar uma certa admiração por artistas que fazem sucesso por muitos e muitos anos, com canções que aprendemos por osmose e assobiamos distraídos.

Certa vez estava de férias e viu na TV uma entrevista sua a um jornalista; logo se deu conta de jamais ter dado aquela entrevista e ficou curioso. Somente vinte minutos depois percebeu que na realidade se tratava do humorista Giorgio Panariello travestido de Renato Zero. Numa outra ocasião cômica envolvendo o artista, Tim Burton pediu a Johnny Depp para inspirar-se a Renato Zero para a sua interpretação de Willie Wonka, na refilmagem do filme “A fábrica de chocolate”. Mas o melhor dele é a música, que faz parte da trilha sonora cotidiana nas pizzarias da terra da pizza há mais de cinquenta anos.

Site oficial: http://www.renatozero.com












Saturday, September 17, 2016

Sem tradução



É comum encontrar palavras que não tenham tradução em outras línguas. Em italiano, por exemplo, tem “comunque” [komúnkue], que está para “de qualquer modo, de qualquer forma”. Acho divertidas as expressões “boh” [bôh] que pode ser traduzida como “sei lá” e “mah” [máh], com significados diferentes, dependendo da situação e da entonação de quem o pronuncia, demonstrando incredulidade, surpresa, pouco caso... Mas a que mais me fascina é “ovunque” [ovúnkue], que significa “em todo lugar, em qualquer lugar”. Estranho, não? Como uma palavra pode significar “em todo lugar, em qualquer lugar”? Uma antiga propaganda da Blu – a antecessora da empresa de telefonia móvel 3 – dizia: “ovunque sei, sei ovunque”, (em qualquer lugar que você estiver, vai estar em todo lugar). Achei a frase tão boa que não é a primeira vez que escrevo sobre ela.

Se a falta de correspondência entre línguas diferentes, mesmo quando a raiz é a mesma, não é uma novidade (como no caso entre português e italiano, ambas latinas) , um comportamento ou um sentimento desconhecido é mais difícil de assimilar. Às vezes, de compreender também.

Tem um sentimento italiano que ainda não consegui classificar, apesar das muitas tentativas. Não é exatamente inveja, nem vingança. Tampouco é apenas individualismo, egoísmo ou qualquer outra forma antônima da empatia. Como exemplo, uso duas cenas de agosto passado, o mês em que quase tudo fecha por aqui. Na primeira, estava no supermercado quando ouvi a senhora do caixa conversando com uma cliente. A cliente contava sobre o bronzeado adquirido na praia, dos passeios nas férias, do hotel. Quando a cliente perguntou à caixa quando ela sairia de férias, a funcionária respondeu num tom de voz bem mais alto, para que todo o supermercado pudesse ouvir:

▬ Ah, eu já fiz as minhas férias. Estive num lugar maravilhoso, muita praia, piscina e um panorama de tirar o fôlego. Não tenho que ter inveja de ninguém!!!

O segundo episódio aconteceu quando ouvia o rádio do carro. Na hora da mudança de condutores, os dois conversavam sobre férias (assunto dominante em agostos). O primeiro falava sobre as maravilhas de uma ilha no sul da Itália, da comida e da oportunidade de conhecer lugares fantásticos sem precisar viajar para fora. Quando terminou, comentou que sabia que o colega ainda não tinha saído de férias, ao que o outro respondeu que preferia tirar férias em setembro. O primeiro quis saber se tinha um motivo especial e ele respondeu:

▬ Sim, em setembro tem menos confusão, os preços são mais convenientes e as crianças voltam aos bancos de escola. Mas o maior motivo é que saindo de férias em setembro, posso gozar tranquilo imaginando as pessoas que já voltaram ao trabalho, com seus paletós e escritórios, conscientes de que estou de bermuda em algum paraíso fazendo nada!

Não é um sentimento que aparece somente nas férias, só usei os exemplos mais recentes. Tem um nome para isso? 
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Sunday, September 04, 2016

Grazzano Visconti - Província de Piacenza




Na planície ao longo da “Strada Statale 654” do Vale Nure, Província de Piacenza, existe um distrito do município de Vigolzone às margens do rio Grazzano, onde surge o castelo de Grazzano Visconti.



O castelo (que não aparece nas fotos, escondido que é) foi construído em 1395 sobre uma estrutura pré-existente, para servir de residência a Giovanni Anguissola e sua esposa Beatrice Visconti, irmã de Gian Galeazzo Visconti. Permaneceu como propriedade da família Anguissola até 1870, quando o conde Filippo morre sem deixar herdeiros. O castelo passou, então, à esposa do conde Filippo, Fanny Visconti di Mondrone, família dos atuais proprietários.



No início de 1900, Giuseppe Visconti di Mondrone restaurou e ampliou as áreas anexas ao castelo, construindo um pequeno vilarejo em estilo neo-gótico-renascimentista. Provavelmente, o único edifício antigo além do castelo é a igrejinha dedicada a Sant’Anna, capela da família desde o século XVII. O grande parque que circunda a área fechada, privada e escondida por altos muros e densa vegetação do castelo, mede 150.000 metros quadrados. A visitação pública acontece em raras ocasiões e só a pagamento.




Em compensação, o vilarejo construído há menos de um século, transformou-se em um aglomerado de lojas, ateliers de artesãos, bares, restaurantes, oficinas de ferreiros e um museu de instrumentos agrícolas. O borgo de Grazzano Visconti atrai turistas e oferece opções diferentes de souvenirs, pois tudo evoca a Idade Média, com festas em trajes de época, músicas e danças.


Vale a pena o passeio, pelo comércio, pelas ruelas bem cuidadas e pelas festas promovidas para estimular o turismo, mas a sensação que fica do fato de ser um vilarejo construído – com tanto borgo autêntico mal aproveitado na região – faz vacilar sobre uma segunda visita.






Saturday, August 27, 2016

Minha História - Gesù Bambino



Houve uma corrente literária italiana chamada Verismo, cujo maior expoente foi Giovanni Verga, autor do ápice verista “Rosso Malpelo”. Li todas as novelas de Verga e posso afirmar que a obra é tão impressionante quanto triste. Morre todo mundo, ou nunca se encontram, ou vivem e morrem na miséria absoluta. Enfim, uma triteza só. Tenho a impressão de que a pesquisadora e professora de História da Arte Paola Pallottino é (ou foi) uma grande apreciadora de Verga, Luigi Capuana, Renato Fucini e demais autores veristas, além de ter sido amiga de Lucio Dalla.

Lucio Dalla continua sendo um dos grandes nomes da música italiana, quatro anos após a sua morte. E um dos que mais gosto de ouvir. Bolonha, 4/3/1943; Montreux, 1/3/2012.

Em 1971 Dalla chegou em terceiro lugar no Festival de Sanremo, com a música “4/3/1943”, composta com Paola Pallottino, autora da letra. Acontece que o título original foi considerado inadequado pela censura da RAI, que impôs a substituição do nome e de partes do texto, para que pudesse ser veiculada na TV. A data de nascimento de Dalla acabou se tornando o título de uma das canções mais apreciadas na Itália, mas todos se referem a ela com o título original, Gesù Bambino (menino Jesus).

Na versão italiana, a canção fala sobre uma garota de 15 anos que engravida de um soldado estrangeiro, morto pouco depois. A letra é comovente e muitos artistas italianos enchem os olhos d’água quando a interpretam. O próprio Lucio Dalla confessava ser a única canção que o emocionava cada vez que cantava.

As partes do texto original que sofreram alterações foram:
- “mi riconobbe subito proprio l'ultimo mese”[a menina só teria entendido que estava grávida no último mês (?)] modificada em “mi aspettò come un dono d'amore fino dal primo mese” [aguardava o filho como um dom de amor desde o primeiro mês],

- “giocava alla Madonna con il bimbo da fasciare” [fingia ser Nossa Senhora com o menino a ser coberto] ficou  giocava a far la donna con il bimbo da fasciare” [fingia ser uma mulher com o menino a ser coberto]

- “e ancora adesso mentre bestemmio e bevo vino... per i ladri e le puttane sono Gesù Bambino” [e ainda hoje quando blasfemo e bebo vinho… aos ladrões e as putas sou Jesus Menino] foi adaptado em “e ancora adesso che gioco a carte e bevo vino, per la gente del porto mi chiamo Gesù Bambino” [e ainda hoje quando jogo carta e bebo vinho… para a gente do porto sou Jesus Menino]

Mais para a malandragem que para o melodrama, mais para Gregório de Matos que para Giovanni Verga, Chico Buarque teria ouvido a música uma única vez. Pouco depois apresentou ao amigo a versão dele, adaptando a letra à cultura brasileira e batizando com o título “Minha História”. Dalla começava a tomar consciência de quão grande fosse a obra.

A letra adaptada de Chico Buarque todo mundo conhece. Segue a letra da versão que ficou famosa na Itália, com a tradução (minha). Mais abaixo, os vídeos com a versão original apresentada durante o Festival de Sanremo, a versão do Chico e os dois juntos.

Lucio Dalla adorava a versão brasileira do amigo Chico.

4/3/1943
(Gesù Bambino)
Lucio Dalla – Paola Pallottino

Dice che era un bell'uomo e veniva,
veniva dal mare
[Dizem que era um homem bonito e vinha
Vinha do mar]
parlava un'altra lingua,
pero' sapeva amare
[Falava uma outra língua
Mas sabia amar]
e quel giorno lui prese a mia madre
sopra un bel prato
[Naquele dia pegou minha mãe
Sobre um campo]
l'ora piu' dolce prima di essere ammazzato
[No momento mais doce, antes ser morto]

Cosi' lei resto' sola nella stanza,
la stanza sul porto
[E ela ficou só, no quarto
No quarto do porto]
con l'unico vestito ogni giorno piu' corto
[Com seu único vestido cada dia mais curto]
e benche' non sapesse il nome
e neppure il paese
[E apesar de não saber o nome
E nem mesmo o país]
mi aspetto' come un dono d'amore fin dal primo mese
[Me esperou como um dom de amor desde o primeiro mês]

Compiva 16 anni quel giorno la mia mamma
[Completava 16 anos naquele dia a minha mãe]
le strofe di taverna,
le canto' a ninna nanna
[As cantigas de cabaré
As cantou como acalanto]
e stringendomi al petto che sapeva,
sapeva di mare
[E apertando-me ao peito que cheirava
Cheirava de mar]
giocava a fare la donna con il bimbo da fasciare.
[Fingia ser uma mulher com o menino a ser coberto]

E forse fu per gioco o forse per amore
[E talvez de brincadeira ou por amor]
che mi volle chiamare come nostro Signore
[Quis me chamar com o nome de Nosso Senhor]
Della sua breve vita e' il ricordo piu' grosso
[De toda a sua vida a maior lembrança]
e' tutto in questo nome
che io mi porto addosso
[Está toda nesse nome
Que carrego nas costas]

E ancora adesso che gioco a carte
e bevo vino
[E ainda hoje quando jogo carta e bebo vinho]
per la gente del porto
mi chiamo Gesu' bambino
[Para a gente do porto
sou Jesus Menino]
e ancora adesso che gioco a carte
e bevo vino
per la gente del porto
mi chiamo Gesubambino
e ancora adesso che gioco a carte
e bevo vino
per la gente del porto
mi chiamo Gesubambino




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Monday, August 22, 2016

Rio 2016




Gambiarra. Essa deveria ser a palavra a ser difusa pelo mundo como sinônimo dos Jogos Olímpicos deste ano. Uma palavra que qualquer brasileiro conhece bem e que sintetiza o jeitinho brasileiro para seguir em frente, aprender a se arranjar com o que tem e ser feliz assim.

A conclusão final do evento olímpico é que gostei muito. Emoção foi o que não faltou. Claro que podemos criticar tudo, a partir da organização botando água no feijão, da limpeza social para inglês não ver, até a imensa indústria em que se transformaram os eventos esportivos.

Se temos que viver de pão e circo, que ao menos não falte pão e que o circo seja de qualidade. Não irei falar mal da Rio 2016 nem de nenhum outro evento esportivo. Deixei de criticar quando passei a entender competições esportivas como entretenimento, onde o importante não é vencer, mas emocionar. Nem mesmo os chatos diplomados com as críticas de sempre conseguirão diminuir a minha alegria. Daqui de longe, vi muito mais elogios que críticas dos estrangeiros. Os atletas entrevistados se mostraram ma-ra-vi-lha-dos. E é isso que irá marcar essa edição dos Jogos Olímpicos.

Esbanjamos criatividade, empatia, improvisação e simpatia. Pobres, lindos, gordos, negros, ricos, mestiços, magros, brancos, feios, elegantes e  indios. Somos todos nós, somos o povo brasileiro. Decepcionamos num dia e surpreendemos no outro. Perdemos onde era fácil e ganhamos no sufoco. Acho que, na soma final, merecemos medalha de bronze (que é para manter os pés no chão).

Para variar, o brasileiro deu um show: demos espetáculo dentro e fora da competição, demos vexame, alegramos o mundo, transformamos as arquibancadas em palco, mostramos nossas fraquezas e limites, fizemos emocionar e rir. Enfim, a Rio 2016 foi a cara do Brasil. Quem assistiu ou foi vai ficar com muita saudade. Não somos os melhores, mas somos muito bons. Somos vira-latas de raça.

A única coisa que realmente me incomoda é que o termo gambiarra não pegou por aqui; ainda vou ouvir gringos falando “saudagi”, quando me descobrem brasileiro. Que pena, preferiria ser associado a gambiarra.