Tuesday, July 19, 2016

Passageiro Garcia - parte II





Ah, Garcia. Se você soubesse...


Da alegria que sinto ao passearmos juntos, mesmo precisando ajudar você a caminhar,

Que você fala e resmunga como humano,

Dessa responsabilidade cúmplice em cuidarmos um do outro,

Desse seu pelo branco que engana a todos, que se assustam ao saber-te idoso,

Como a sua reação destruidora quando saímos à noite e te deixamos sozinho, parece tão humana,

Da paz que me dá quando brincamos ou quando você pede carinho,

Que esse seu olhar profundo chega a ser constrangedor,

Da dificuldade em aceitar as suas limitações crescentes,

Como me divirto quando você me expulsa do sofá,

Que a dona da farmácia – onde compro os seus remédios – me deu vinho no Natal,

Que a Eloá é a sua tutora legal e não sua propriedade, como você acredita,

Do seu senso de humor superior ao de muitos humanos,

Que a nossa lata de lixo não precisa ser destruída... agora é tarde,

Do espaço que ocupa hoje nas nossas vidas,

Da saudade futura que já me dói.

...E tenho a impressão que sabe, sim.




Sunday, July 10, 2016

Receita de ragú branco – molho à bolonhesa branco



O molho à bolonhesa, na verdade, chama-se ragù. O tradicional molho das macarronadas do domingo brasileiro, sofre modificações nas diferentes regiões da Itália, podendo ser mais rico ou mais leve, cozinhar horas ou só quarenta minutos, levar todo tipo de carne – inclusive linguiça – ou apenas carne de vaca, e por aí vai. Arrisco a dizer que é menos consumido aqui que no Brasil. O ragú branco, então...

Acontece que a Bianca adquiriu alergia a tomate cru ou muito cozido – como no caso do ragú clássico – mas meio cozido, pode. A saída foi fazer um ragú branco, que não leva tomate.

Ingredientes:
Papparedlle (não tinha, usei spaghetti)
Cenoura
Salsão
Cebola
Carne moída mista (usei carne de vaca moída e de porco em pedacinhos)
Pancetta defumada (que – tímida – não saiu na foto) ou bacon
Brodo (não usei, conto mais adiante)
Vinho branco (bebi antes)
Água
Sal
Pimenta do reino
Azeite de oliva
Queijo ralado na hora
Óleo de girassol (não tem na receita original)
Louro (não tem na receita original)
Canela em pó (não tem na receita original)



Corte bem fininho um ou dois talos de salsão (sem as folhas), a cebola e a cenoura; ponha uma frigideira grande com um fio de óleo de girassol e refogue bem tudo junto; adicione um pouco d’água, as folhas de louro, o sal, a pancetta cortada fininha e a pimenta do reino.


Deixe reduzir por alguns minutos e reserve. Na mesma frigideira, ponha um pouco – pouco! – de óleo de girassol, deixe aquecer e coloque a carne moída e a carne de porco em cubinhos; frite bem e deixe secar.


Caso forme um pouco de água no fundo da frigideira, recolha com uma colher e ponha no soffritto preparado antes (sim, refogado em italiano é soffritto), temperando no lugar do brodo.


Quando a carne estiver bem frita, adicione o soffritto reservado, um pouco d’água, corrija o sal e deixe cozinhar por quarenta minutos em fogo baixo. Antes de servir, adicione um fio longo de azeite de oliva e uma pitada de três dedos de canela em pó.


Sirva com um punhado generoso de queijo ralado na hora.


E a Bianca ficou feliz (mas ela preferiria não ter adquirido a alergia e comer o famoso ragú do papi, que costuma cozinhar por três horas).

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Tuesday, June 28, 2016

Allan x Garcia



Quem me ensinou a latir foi o Chopp, um daschund que nos fez companhia muitos anos atrás.

Já o Garcia não se incomoda se eu latir, basta deixá-lo em paz. Aliás, ele não dá a mínima para latidos alheios, sequela do longo período qeu passou no canil municipal.

O que ele gosta mesmo é de atenção, de brincar e de destruir o lixo quando saímos. E do sofá.

Sunday, June 19, 2016

Pedágio na Itália



Algumas vezes nos encontramos em uma situação difícil por falta de informação. Pode ser um pequeno detalhe, mas que naquele momento acreditamos ser um grande problema. Como pagar o pedágio em um país que não conhecemos, com uma fila quilométrica de motoristas impacientes buzinando atrás. Se você estiver de carro na Itália e ainda não está familiarizado com o pedágio das estradas italianas, o vídeo abaixo pode ser de ajuda.

Se o automóvel ou caminhão dispuser de um dispositivo automático (Telepass, etc.), você só precisará prestar atenção ao entrar e sair da “Autostrada”, pois a velocidade máxima é de 30 km/h, mas o pagamento ocorrerá automaticamente, sem que precise parar, apenas passando lentamente pela passagem destinada ao Telepass. Caso não possua de um Telepass ou outro sistema, você deverá retirar um ticket à entrada da estrada e usá-lo para o pagamento, na saída. Conserve-o.

Se o veículo não possui um dos sistemas automatizados aceitos pelas estradas italianas – que lhe permitem passar pelo pedágio sem parar, com a respectiva cobrança debitada no cartão de crédito –, você terá três opções para pagar: usar um cartão de crédito ou de débito nos caixas automáticos habilitados, no próprio pedágio; pagar em dinheiro (euro, no caso) no caixa com atendente, que nem sempre está disponível; pagar com dinheiro no caixa self-service. Se pagar com cartão de crédito ou de débito, basta introduzir o ticket e, em seguida, o cartão e retirá-lo. No caixa com atendente, após entregar o ticket, aparecerá o valor do pedágio em um display. No caixa self service o ticket deve ser inserido para leitura e cálculo do valor a ser pago, em seguida aparecerá o valor a ser pago em um display e você deve introduzir o dinheiro, em nota ou moedas (sempre em euro), recolher o troco, solicitar o recibo – facultativo – e seguir em frente. É mais fácil fazer que explicar, basta ver o vídeo uma vez.

Boa viagem!

:)



Sunday, June 12, 2016

A Europa não é a Europa


Uma nova insatisfação vem ocupando as mídias sociais e alguns blogues nesses dias. São pessoas que desejam vir morar na Europa e pedem dicas e sugestões para quem já está aqui. Em troca, recebem conselhos negativos sobre a vida de expatriado.

Você está pensando em vir morar fora? Venha. Não importa se vai quebrar a cara e voltar ou se dar bem e começar uma nova vida: se não vier, não vai saber nunca. Informe-se sobre a burocracia para evitar ser barrado na alfândega, aprenda pelo menos o básico da língua local com antecedência, anote os conselhos bons e ruins e tenha a certeza de que a experiência dos outros conta pouco, o importante é viver você mesmo.

Notei que quem já mora fora, tem o hábito de achar que todo brasileiro é ingênuo e “não sabe o que está deixando pra trás”. Sim, a imagem que fazemos de um lugar que não conhecemos é diferente da realidade, mas é o tipo de coisa que só muda com a experiência. É óbvio que ninguém acredita que todos os europeus são cultos, educados, corteses e honestos. Diz um ditado italiano: “a mãe dos imbecis está sempre grávida”, ou seja, você vai encontrar gente estúpida, ignorante, mal educada, arrogante em qualquer lugar do mundo. Assim como pessoas cordiais, inteligentes, gentis...

Em algumas situações iremos nos surpreender. Como caminhar pela suja Paris, ou lembrar para sempre do mau cheiro do metrô local, proveniente de alguns parisienses. Noutras vezes ficamos indignados, como quando algum criminoso VIP italiano consegue obter prisão domiciliar por ser considerado “incompatível com a vida da prisão”(!!!), ou a curiosidade mórbida que faz o italiano médio acompanhar os crimes de sangue por anos a fio. Temos, antes de tudo, que aprender a nos adaptarmos: Em Londres a maioria dos banheiros (a esmagadora maioria) e pias de cozinha tem duas torneiras separadas, uma de água quente e outra de água fria. Lavar a louça ou as mãos com água fervendo ou gelada. Escolha.A Suíça seria neutra e um lugar muito civilizado? Muitos europeus veem os suíços como os caipiras da Europa. Além disso, é preciso recordar que o país aceitou depositar nos próprios bancos o ouro roubado dos judeus na Segunda Guerra, numa lavagem de dinheiro consciente e lucrativa. E isso tem nome: crime de guerra. Claro que existe o lado bom, mas pouca gente espera encontrar cenas de terceiro mundo na Europa.

Enfim, um mundo de gente e hábitos diferentes. Mas é isso que você quer, não? Outra coisa: saiba que, assim como a sua visão sobre a Europa não corresponde à realidade, a deles sobre nós, também não. Para a maioria o Brasil é um país em algum lugar do litoral sul americano, onde todos somos mulatos e andamos semi nús, sempre disponíveis ao sexo e ao futebol. Samba de manhã à noite, sorrisos abertos e nenhum motivo para o mau humor. Mas não maltrate seu fígado ficando com raiva; aproveite para viver a sua nova aventura e não perca tempo tentando mudar o que não depende de você.

No final da viagem a bagagem vai estar cheia de experiências novas, grandes amizades e nenhuma ingenuidade. E se você for uma pessoa aberta, terá se transformado em cidadão do mundo.


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PS - pensando em vir para a Itália e gostaria de dicas? Tem algumas no meu livro "Carta da Itália - um passeio pelo dia a dia italiano".
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