Tuesday, September 11, 2018

Vivendo aqui fora


Jamais pensei em viver fora do Brasil e, no entanto, lá se vão 19 anos. A vida vai mudando e nós mudamos junto com ela. Mas que dá uma saudade, ah!, isso dá. Só não sei se um dia terei vontade de voltar.

Viver na Europa não é chique nem há glamour algum nisso. Sim, é diferente e existem muitos pontos positivos. Só sugiro nunca colocar na balança os prós e o contras para não se frustrar. Por aqui existe todo tipo de gente: culta, ignorante, amável, chata, educada, analfabeta e tudo o mais que precisar (mesmo que você não precise). Aquela sensação de viver no primeiro mundo passa logo; tem quem não aguenta e volta na primeira oportunidade. Quem fica, mata dois leões por dia.

Tenho uma amiga que morou por anos na Itália e escrevia “no interior do Zaire é assim”, quando contava sobre o dia a dia da cidade em que vivia. Voltou para o Brasil e prometeu que “na Vaticália só a turismo.” Diferenças à parte, sentimos falta dos costumes que nos acompanharam desde o nascimento. Talvez, o pior é a falta do calor humano, a distância de amigos e parentes, a cerveja gelada, a comida. E a língua. Porque – como disse Caetano – “minha pátria, minha língua”. Ou, para citar um escritor italiano que vivia seis meses por ano em Lisboa (e seis na Toscana), quando lhe perguntaram qual era a sua casa, respondeu: “a minha casa é a minha língua”. Antonio Tabucchi, escritor e professor de Língua e Literatura Portuguesa na Universidade de Siena, sentia-se à vontade na própria língua. Assim como eu me sinto confortável com o português.

Esse – da língua, da cultura – é um dos preços a pagar. O vocabulário, vai diminuindo, as novas gírias ou ditados são sempre novidade e os idiomas se misturam. No início até ouvia rádios brasileiras na Internet, mas o mau gosto de certas músicas, o pouco tempo livre, e um monte de motivos banais me fizeram perder o hábito. Por outro lado, aprendi a gostar de Lucio Battisti, Vasco Rossi, Zucchero; a reconhecer um Culatello di Zibelo, a distinguir o bom pisarei e fasò do ruim e a beber vinho bom.

Em um ano politicamente tão complicado (aqui como aí), lembro que uma caraterística que nos une é essa torcida ideológica agressiva e obtusa. A Europa xenófoba não será os Estados Unidos da Europa que muitos sonhavam. O Brasil corre o risco de se esfacelar, de deixar de ser o país cordial e tolerante que encantava o mundo. Nossos umbigos estão cada vez maiores. Aqui como aí. E nem isso assusta mais. 


Piasarei e fasò - prato típico de Piacenza de massa com feijão. Como sempre, é um prato pobre, feito com avanços e migalhas. A massa reaproveita o pão velho e a banha de porco; o feijão, ah, esse custa pouco e é resistente em qualquerlugar do mundo.

Tuesday, July 31, 2018

11 de janeiro


▬ Alô…?

▬ Alô, meu filho. Tudo bem aí?


▬ Tuudo, e você?


▬ Tudo indo. Alguma novidade?


▬ Saturno chegou.


▬ E quem é Saturno?


▬ Saturno é um planeta, mãe. 


▬ Ahn… Tá bom. Você tá sozinho em casa? 


▬ Sim. A Eloa e a Luiza foram prum spa, Terme di San Pellegrino.


▬ Ué, a Luiza não está em Londres?


▬ De férias. E como a Eloá também tá de férias, as duas estão aproveitando.


▬ E você, sozinho, se entupindo de Saturno.


▬ Mãe, Saturno é de ler, não è de comer, não. A Fal que me mandou.


▬ E você tá se alimentando direito, meu filho? Ou tá aproveitando pra se empanturrar de porcaria?


▬ Claro que estou me cuidando, mãe. Tenho quase 60 anos. Agora mesmo estou beliscando um pouco de ciccioli com uma cerveja.


▬ Bebendo a essa hora, meu filho?


▬ Mãe, tem o fuso horário de três horas. E ainda nem dei o primeiro gole na cerveja…


▬ E o que é “ciccioli”? E Saturno, como é?


▬ Tuu, tuu, tuu…



▬ Allan Robert, não se faça de besta comigo!!! 


▬ Tuu, tuu, tuu…


▬ Tuuuuuuuuuuuuu…


▬ …Mãe?


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Para quem não conhece: Ciccioli (tchítchioli) - aquele treco estranho na tigela - é "um produto alimentar obtido a partir da gordura de porco. A gordura cortada em pequenas partes, permanece sobre o fogo lento a fim de permitir que a água evapore e a gordura se funda. Quando a gordura fica amarelada, coa-se com um pano, onde a gordura é espremida. A parte líquida é a banha, a parte sólida é salgada, temperada e novamente espremida, ganhando a aparência de lascas de pedra". Ciccia (tchítchia) é carne de animal; na gíria, pessoa gorda. Ciccioli, então, é o resíduo sólido da preparação da banha de porco, saudável como comida do macdoni. Cada 100 gramas de ciccioli contém 6.039.423,8 calorias. O ciccioli é plural (cicciolo, no singular), mas ninguém compra um cicciolo. Agora chega que a explicação tá ficando longa demais; só falta contar o romance da porquinha com o ciccione do namorado dela, que resultou no leitão que forneceu a gordura pra esse ciccioli. Depois que cresceu, né. Porque ninguém é besta de abater um leitãozinho muito levinho...

Saturday, June 02, 2018

Feriado italiano - 2 de Junho Festa della Repubblica



Festa della Repubblica.
Nos dias  2 e 3 de junho de 1946 os italanos participaram do referendo que escolhia entre a manutenção da monarquia e a implantação da república. Venceu a república, com 12.717.923 votos a favor contra os 10.919.284 obtidos pela monarquia, que sustentava o sistema ditatorial vigente. No dia 10 de junho do mesmo ano, a corte suprema italiana declarou o nascimento da República Italiana.

 
Cédula eleitoral do referendo

Umberto II di Savoia, então rei da Itália, para evitar uma guerra civil entre monarquistas e republicanos, aconselhado a deixar Roma “por pouco tempo”, esilou-se em Portugal. Umberto II assumiu o trono em 9 de maio de 1946, quando seu pai, Vittorio Emanuele III, abdicou. Foi o reinado mais breve da história italiana (um mês) o que lhe valeu o apelido de “Rei de Maio”. Por aqui instalou-se a Assembleia Constituinte, encarregada de redigir a nova constituição, promulgada e publicada em edição extraordinária em 27 de dezembro de 1947. Com a entrada em vigor em 1º de janeiro de 1948, a constituição proibia a entrada na Itália dos descendentes do sexo masculino de Umberto II. Tal decisão foi revista e cancelada em 2002.


 Manifestante festejando a República

Alcide De Gasperi, Primeiro Ministro desde 1945, foi declarado chefe de Estado, mandato que durou até 28 de junho, quando a Assembleia Constituinte elegeu Enrico De Nicola como Primeiro Ministro. De Gasperi foi o último Premier da monarquia e o primeiro da república.

Como em qualquer lugar no mundo, muita gente por aqui continua monarquista, mas a maioria é por acreditar ter o rei na barriga. A verdade é que o país é dividido em pequenos borgos, onde castas não se misturam e a juventude prefere viver no exterior que enfrentar os dogmas herdados da monarquia. O país sempre enfrentou – e enfrenta, ainda – problemas como racismo e xenofobia (como nós, brasileiros), mas não chega a ser um problema. Há a esperança de que um dia as novas gerações voltem a viver aqui e ensinem a tolerância e a compreender diferenças. Até lá, pode-se esconder tudo sob o tapete. Como nós…

Tem quem diga que o melhor do 2 de Junho é o fato de ser feriado. Prefiro me divertir e achar curioso como esses caras (Corpo dei Bersaglieri) conseguem correr e tocar ao mesmo tempo. E aonde vão com tanta pressa.



Sunday, May 27, 2018

Eles estão entre nós



 Era o ano de 1959.
 Turi percebeu que algo passava entre ele e o Sol, mas não abriu o olho. Não sentia cheiro de comida, e isso descartava a necessidade de se levantar da rede. Ninguém o importunaria, podia voltar ao que mais gostava de fazer: nada. Sentir a brisa do mar era mais que suficiente para um nobre como ele.

Minutos depois, o que quer que fosse voltou a esconder o Sol. Turi se espreguiçou, coçou calmamente a barriga, levantou a cabeça e só então abriu os olhos. Sobre o mar calmo, um silensioso objeto circular fazia manobras aéreas. Às vezes quase tocando a água, noutras, numa altura que não se podia enxergar. Curioso mas não assustado, Turi apenas observava, pensar não era um hábito. Finalmente o objeto parou acima da areia da praia, a uns dez metros de distância de Turi e esticou um cilindro de uns três metros até o chão. De lá saíram três seres que pareciam camarões (não na cor, mas na forma), que se dirigiram ao sorridente Turi.

▬ Olá! Viemos em paz. Gostaríamos de fazer uma proposta ao seu povo…
▬ Que proposta? – interrompeu Turi, enquanto se ajeitava na rede.
▬ Bem, gostaríamos de propor uma troca. Mas antes, deixe-nos explicar o que temos a oferecer.

Turi olhou atentamente aqueles três camarões imensos e não conteve o sorrisinho.
▬ Do quê você está rindo? – perguntou o camarão chefe.
▬ Desculpem, foi involuntário. É que eu… Bem, er… Aprecio camarões.

Instintivamente os três bichões deram um passo para trás.
▬ Continuando – prosseguiu o suculento e enorme camarão chefe – nós viemos de uma galáxia muito distante. Exploramos o Universo em busca de planetas como o seu para incubar as nossas futuras gerações.
▬ Não tem motel por lá? …Ou praia? Na praia, se não estiver ventando, também dá para produzir novas gerações.
▬ Não, o problema é a temperatura. Com o tempo, o nosso planeta está se aquecendo, o que interfere na incubação dos ovos, matando-os antes da eclosão. O subsolo de vocês tem a temperatura ideal e vai continuar assim por mais uns cinco milhões de anos.

Turi ouvia com atenção. Salivando.
▬ Hum…
▬ Bom, a nossa civilização é muito evoluída, resolvemos todos aqueles problemas que para vocês ainda parecem insolúveis, preservamos a natureza do Universo, vivemos em paz com outros povos, aumentamos a qualidade de vida e atingimos uma longevidade de cinco mil anos...
▬ Hum…
▬ Sim, imagino que você gostaria de saber qual é a nossa proposta, não?
▬ Hum… – coçava a barriga.
▬ Bom, assim como fizemos com outros planetas, gostaríamos de instalar algumas colônias aqui. Tudo muito discreto, seu povo não vai nem ver.
▬ Hum…
▬ Não, não se preocupe, sabemos ser invisíveis. Pode acontecer algum incidente, mas nada que prove a nossa presença no seu planeta. Em troca, oferecemos um dos nossos planetas onde reproduzimos o seu habitat. Quer dizer, o habitat dessa parte do planeta onde você e o seu povo vivem.
▬ Hum…
▬ Pode confiar. Estudamos a composição dessa região e já a reproduzimos em todos os detalhes. Não falta nem mesmo o ar característico daqui. Só não adicionamos nada de tecnológico, como avião ou telefones, pois entendemos que você prefere não se envolver com essas besteiras.
▬ E como foi que me escolheram?
▬ Milhões de anos de experiência nos ensinaram que o povo que vive melhor é aquele comanda o planeta. Sabemos que a qualidade de vida de vocês é invejada pelos outros povos do seu planeta, que a música é a melhor, que deixam o trabalho duro para os outros, que estão longe dos conflitos de poder subalterno, que se alimentam basicamente do que o habitat de vocês oferece. E dentre o seu povo, descobrimos que você é o ser mais relaxado. Portanto, você é o monarca.
▬ Hum…
▬ Claro que não vamos levar todos de uma vez, isso provocaria alarme no resto da população e chamaria a atenção. O modo como agimos funciona do seguinte modo: nós monitoramos cada pessoa; quando alguém estiver para morrer, levamos para o novo planeta e, no caminho, curamos a pessoa e a deixamos na nova casa pronta para os próximos cinco mil anos. Tudo o que pedimos em troca é a possibilidade de incubar nossos filhos no subsolo do seu planeta. Uma incubação que dura de vinte a vinte e dois anos, pelo tempo de vocês. Não vamos interferir em nada, a menos que alguém descubra uma das nossas colônias. Nesse caso – e somente nesse caso – a pessoa ou pessoas envolvidas serão eliminadas.

Turi estalou a boca, limpou a saliva com as costas da mão, sentou-se na rede, se espreguiçou novamente e falou (com uma fome dos diabos):
▬ Tá bom.

Estamos em 2018. O pacto funciona perfeitamente até hoje.
Enquanto as colônias dos camarões gigantes são cultivadas há anos, na Terra, em algum lugar no Universo, o preguiçoso filho de pescador Turi e boa parte do seu povo vivem tranquilamente num planeta exatamente igual à Samoa, onde os grandes camarões, por precaução, jamais colocaram os pés.

Friday, April 27, 2018

Trilha sonora italiana – Antonello Venditti: Notte prima degli esami

Essa música está entre as mais belas e mais conhecidas da Itália. Todo e qualquer italiano – de qualquer idade – conhece e não consegue não cantar junto. Merece um capítulo à parte nessa seção. Para entendê-la bem, algumas informações:

Os quatro amigos:

- Antonello Venditti (Roma, 8 de março de 1949), cantor e compositor, autor desta canção.

- Gorgio Lo Cascio (Roma, 18 de junho de 1951 – Roma, 25 de fevereiro de 2001), cantor, compositor e jornalista.

- Francesco De Gregori (Roma, 4 de abrio de 1951), cantor e compositor.

- Ernesto Bassignano (Roma, 4 de abril de 1946), cantor, compositor, jornalista e condutor radiofônico.
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- “I pini di Roma” que não se quebram são os pinhos de um dos poemas sinfônicos da Trilogia Romana, de Ottorino Respighi (1879-1936).
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- Folkstudio era o atelier e estúdio do pintor e músico americano Harold Bradley, situado no porão de uma casa no bairro de Trastevere, em Roma. Como muitos artistas se reuniam ali, transformou-se num círculo cultural (uma espécie de bar/restaurante só para sócios – onde qualquer um pode entrar, desde que compre (normalmente por um preço simbólico) a cateira da associação. Muitos músicos se apresentavam no local, como, por exemplo, um jovem desconhecido que se apresentou em 1962 para umas quinze pessoas presentes, um certo Bob Dylan. Venditti, De Gregori, Lo cascio e Bassignano cantavam no Folkstudio.
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- Maturità é o correspondente italiano do vestibular.
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- A canção fala de uma noite de verão, com o tempo que viaja em lembranças e épocas diversas. Os quatro rapazes citados no início são os quatro amigos, saindo de algum local onde se apresentaram, carregando os instrumentos. “Un pianoforte sulla spalla” é a recordação dos amigos quel he ajudavam a carregar o piano nas costas, após as apresentações, como o próprio Venditti contou em diversas entrevistas. “La vita non li spezza” – a vida não os quebra, referindo-se aos sonhos que perseguem. Conversam sobre banalidades, como as secretárias que se casam com advogados, e coisas sérias, como “le bombe delle sei”, referindo-se a duas bombas no atentado ao monumento Vittoriano (Altar da Pátria, sempre em Roma), em 1969.  A cena muda para um jovem casal que se encontra na noite da véspera do vestibular. Não se vêem há uma semana, ela desafiou o pai e o irmão para encontrá-lo. Na confusão de emoções que se misturam – o encontro proibido e o vestibular –, pai e irmão parecem Dante e Ariosto, dois poetas muito aproveitados nos vestibulares. Enquanto os jovens se amam (non fermare ti prego | le mie mani | sulle tue cosce tese | chiuse come le chiese | quando ti vuoi confessare), Roma vive a vida noturna de sempre: sons de sirenes, ambulância, polícia e – talvez – alguém que perdeu a vida (forse qualcuno te lo sei portato via), pais acordados  por bebês, avós insones nas janelas, atores jovens que acordam cedo para enfrentar a fila de provas de Cinecittà. Ele volta para casa e se lembra que é dia de vestibular, chora e reza, enquanto os aviões voam entre Nova Yorque e Moscou (que somente voando podia-se ultrapassar a cortina de ferro, durate a guerra fria) mas não consegue deixar de pensar a Claudia, sua amada. Nova cena, Venditti se vê adulto, cantor de sucesso e observa as luzes do palco.
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Notte prima degli esami

Io mi ricordo, quattro ragazzi con la chitarra
E un pianoforte sulla spalla
Come pini di Roma, la vita non li spezza
Questa notte è ancora nostra

Ma come fanno le segretarie con gli occhiali a farsi sposare dagli avvocati?
Le bombe delle sei non fanno male,
È solo il giorno che muore, è solo il giorno che muore
Gli esami sono vicini
E tu sei troppo lontana dalla mia stanza

Tuo padre sembra Dante e tuo fratello Ariosto
Stasera al solito posto, la luna sembra strana
Sarà che non ti vedo da una settimana

Maturità, t'avessi preso prima
Le mie mani sul tuo seno
È fitto il tuo mistero

Il tuo peccato è originale come i tuoi calzoni americani
Non fermare ti prego le mie mani
Sulle tue cosce tese chiuse come le chiese
Quando ti vuoi confessare

Notte prima degli esami, notte di polizia
Certo qualcuno te lo sei portato via
Notte di mamma e di papà col biberon in mano
Notte di nonno alla finestra
Ma questa notte è ancora nostra

Notte di giovani attori, di pizze fredde e di calzoni
Notte di sogni, di coppe e di campioni
Notte di lacrime e preghiere
La matematica non sarà mai il mio mestiere

E gli aerei volano in alto tra New York e Mosca
Ma questa notte è ancora nostra
Claudia non tremare
Non ti posso far male
Se l'amore è amore

Si accendono le luci qui sul palco
Ma quanti amici intorno
Mi viene voglia di cantare
Forse cambiati, certo un po' diversi
Ma con la voglia ancora di cambiare

Se l'amore è amore, se l'amore è amore
Se l'amore è amore, se l'amore è amore
Se l'amore è amore