Saturday, January 28, 2012

25 Anos Depois




Eu voltaria àquela mesa de bar às duas da manhã para dizer, mais uma vez, que coleciono pintas e para pedir aquelas nas suas costas, oferecendo-me para arrancá-las com os dentes. Refaria o curso de joalheria com você, deixaria novamente você aprender a pilotar a minha moto e passaríamos outras tardes de sábado em São Paulo. O Black Horse Tavern Inn seria novamente um refúgio; o file do Tatu seria uma redescoberta; eu ensinaria e aprenderia com você.

O salto de paraquedas que você não me deixou fazer nunca fez falta, ao contrário dos domingos na barraca Oxalá, do acarajé da Cira e do Olodum. Sorrio ao lembrar daquela madrugada: “Liga pro Menezes e avisa que estou com contrações.” “Dor nas costas não é contração. Contração é…” “Eu sei o que é uma contração: estou tendo várias! Liga pro Menezes e avisa que estamos indo pro hospital.” Andaríamos descalços em Arembepe e lhe obrigaria a comer ostras cruas. Pularia o portão fechado à noite para comprar cachorro quente.

Mudar toda a vida tornou-se cíclico, para nós. E já que chegamos até aqui, vamos em frente. Com novas receitas, planos infalíveis e alguns sonhos. Não sei o que nos marcou mais nesses anos, mas vou continuar descobrindo e dividindo com você. Aprendendo e ensinando. As duas princesas um dia conhecerão o mundo e não nos sentiremos sós: nós sempre nos bastamos; a nossa casa somos nós. Aquela mesa de bar não existe mais, o que resta são as risadas ecoando nos dias felizes que vivemos hoje. É tudo o que precisamos.

Não temos raízes, só sementes. Refaria quase tudo o que fizemos, com o cuidado de evitar ser tão diplomático com os arrogantes. Mudaria de país outra vez, mesmo sem conhecer a língua. Levaria os anos nessa terra na bagagem, mas desfaria as malas ao chegar. Nada se perde, tudo é memória. Como a noite chuvosa de 25 anos atrás, combinando perfeitamente meu terno branco com seu sorriso. Eu casaria de novo. E você?
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Sunday, January 22, 2012

Distraído

▬ Quer comprar uma casa? Fachada amarela, dois quartos?

▬ …Hein?

▬ Uma calça. Quer comprar uma calça? Aquele tipo de calça de bombeiro, amarela?

▬ …Calça?

▬ Capa, capa! Uma capa amarela com dois bolsos imensos.

▬ E o que eu vou fazer com uma capa? Faz três meses que não chove.

▬ Cabra. Uma cabra meio amarela, com dois filhotes. É de raça.

▬ Cara, do que a gente ‘tá falando, hein?

▬ Bom, eu queria saber a sua opinião sobre as novas medidas do governo e o que você acha dessa história de governo técnico.

▬ ‘Cê virou jornalista agora, é?

▬ Não, mas estou me sentindo meio perdido com todo mundo criticando, até mesmo quem declarou apoio. Depois, se o Kaká for mesmo para o Paris Saint Germain…

▬ ‘Cê quer me deixar maluco, é? Capa, governo técnico, Kaká e PSG...? Afinal, você é contra ou a favor desse governo técnico que ‘tá aí?

▬ Eu não sou nem contra, nem a favor, muito antes pelo contrário: eu sou a favor de que alguém seja contra, porque em termos de certas coisas eu acho que não tem nada a ver, tipo, sei lá!, sabe?

▬ ‘Bora tomar outra cerveja?

▬ Hmm…

▬ ‘Bora tomar outra cerveja? Eu pago.

▬ Garçom, outra cerveja!

▬ Mas tem uma condição: vamos mudar de assunto.

▬ …! (suspiro)

▬ …‘Cê tem mesmo uma casa amarela pra vender?
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Saturday, January 14, 2012

Gossolengo

Inspirado nas fotos de Gaspar de Jesus, do excelente blog Arte Fotográfica, resolvi fotografar, também eu, um crepúsculo. Por sorte o dia estava bonito, apesar do frio que parece estar chegando, nesse atípico Inverno italiano.

Gossolengo é a cidade da província de Piacenza que alguns amigos escolheram para morar, a máquina fotográfica estava impaciente e o Sol despedia-se do prédio da prefeitura. O click foi puro reflexo.

Wednesday, January 11, 2012

Trilha sonora italiana - Lucio Dalla

Lucio Dalla é um dos monstros sagrados da música italiana. Em quase 50 anos de carreira, depois de já ter feito de tudo e com diversos parceiros, Dalla chegou a ser acusado de ter deixado de lado a música de qualidade para investir num produto comercial, anos atrás. Indiferente à polêmica já esquecida, cultivo o hábito de ouvi-lo frequentemente. E não me diga que você jamais ouviu falar em Lucio Dalla, pois certamente você conhece a versão brasileira de um de seus primeiros sucessos, feita por nada mais, nada menos que Chico Buarque sob o título “Minha História”. A versão original? Aqui.

Como prefiro “a liberdade do ‘e’ à tirania do ‘ou’”, me recuso a ter uma lista de músicas preferidas e viajo com sucessos como Piazza Grande que esteve entre as finalistas do Festival de San Remo em 1972, a deliciosa L’Anno Che Verrà, a melancólica Qualle Allegria, Tu Non Mi Basti Mai, Tutta La Vita que ganhou versões em diversos países, a divertida homenagem à sua cidade Dark Bologna e muitas, muitas outras. Sou aquele sujeito que compra cd e ouve no carro; tenho alguns cds de Dalla.

Dois grandes sucessos que acredito que você já ouviu. Boa audição:






Visite o Site oficial do artista e prestigie a música de qualidade.

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Friday, January 06, 2012

Canhoto SA

Waldemar é com L ou com U?

Como assim?

Depois de W, A, L ou U?

L, é claro! Pra que você quer saber como se escreve meu nome?

Pra botar como vicepresidente da Fundação dos Canhotos, !

E quem disse que eu quero participar?

Somos amigos, somos canhotos e eu serei o presidente

Acho sem sentido fundar um movimento dos canhotos. Vamos acabar criando um estigma que não existe; vamos formar um gueto e auto excluir-nos da sociedade. Além disso, uma fundação precisa ter um patrimônio ou uma fonte de renda e eu não vou contribuir de jeito nenhum.

Boa ideia! Em vez de fundação, Movimento dos Canhotos

Porque não um partido político?

Genial!

Ou uma nova religião?

Isso! Um movimento que tenha representação política e base religiosa. Deus é canhoto!

Cara, eu tava brincando!

Eu não. Imagine se conseguimos convencer todos os canhotos a participar de uma confraria para difundir as nossas ideias…

E que ideias seriam essas?

Ainda não sei, mas com poder, dinheiro e religião juntos, podemos mudar o curso da história. Ou, pelo menos, reivindicar os nossos direitos. Os nossos esquerdos, quero dizer.

Com exceção das tesouras e dos abridores de lata, eu estou bem assim, não preciso reivindicar nada.

Picasso, Beethoven, Chaplin, Hendrix, Leonardo da Vinci, Nietzsche: o mundo está cheio de canhotos com muito talento. As pessoas precisam saber disso.

Hitler, Osama Bin Laden, Bush, Maradona e os ursos polares também estão nesta lista, mas não sei se seriam diferentes se fossem destros.

Ursos polares…?

Sim, os ursos polares são canhotos. Todos.

Beleza! Será o símbolo do nosso movimento. posso ver as imensas bandeiras com o urso polar fazendo sinal de “positivocom a mão esquerda, as pessoas bebendo cerveja no desfile do  “Left Handers Pride”…

Peraí, camarada, ' tá delirando! Eu vou continuar tomando minha cervejinha aqui no boteco e não vou participar de alucinação social nenhuma. Muito menos de desfile. Left Handers Pride é o escambau!

Todos devem participar e mostrar a cara. Não seria justo você o Jack Estripador do nosso movimento. Jack era canhoto, sabia?

E você é um urso polar bebedor de cerveja!

Isso mesmo, urso polar. Canhoto com muito orgulho. Garçom, outra cerveja, por favor!
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Sunday, January 01, 2012

Feliz 2012!


Às favas paz e serenidade!
Desejo a você que não faça porra nenhuma e ganhe um monte de dinheiro;
Que faça sexo todas as vezes que quiser e com quem quiser;
Que ganhe na loteria com um bilhete roubado;
Que as piores coisas que desejou a quem te enche o saco aconteça.
E se repasse esta mensagem a 10 amigos
Não acontecerá nadacomo sempremas pelo menos alguém irá sorrir.
Feliz 2012!
;D 
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Sunday, December 18, 2011

Ali di farfalla


Pelos idos dos anos oitenta, era moda dizer que o bater de asas de uma borboleta poderia causar um vendaval no outro lado do mundo. Um modo para ilustrar como todas as coisas estão relacionadas. Hoje sabemos que não é exatamente assim. Na realidade não são apenas as borboletas que têm essa capacidade: tudo e todos somos delicadamente interligados, responsáveis uns pelos outros e pelos acontecimentos em todo lugar, presentes e futuros. A passividade, a anuência e a indiferença causam vendavais.

Do mesmo modo que viajantes do tempo não interferem no passado pela consciência das consequências, quando observamos nosso próprio passado podemos apenas reviver as emoções, pois não podemos modificá-lo para não modificar todo o presente e colocar em risco todo o futuro. O nosso passado é o passado de todos. Os nossos presente e futuro são presente e futuro da história. Somos todos asas de borboletas, frágeis e responsáveis pelo destino do universo
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