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Monday, May 05, 2014

Sei lá, sabe?



Tem dias que estou meio estranho, mas não é esse o caso. Quem anda estranho mesmo é o clima. Esse costumava ser o período da primavera, dos dias frescos e noites amenas. O problema é que parece que nada funciona como deveria.

Normalmente os aquecedores já teriam sido desligados antes do meio de abril, mas maio avança e eles continuam acesos. Ainda bem, pois dormir com o frio dessas noites seria complicado. Nem os pernilongos deram as caras, ainda. Tenho certeza de que o verão vai começar de repente, sufocando todo mundo com a umidade da Planície Padana.

Acho que eu preferia como era antes, com as estações definidas e o clima sem essa indecisão. Hoje foi difícil entrar no carro antes que ele esfriasse. O Sol começa a se por e o frio já me dá boa noite. Tá tudo errado. E nem é só com o clima.

Quer saber? Vou abrir um vinho.

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Sunday, April 20, 2014

O ovo de Páscoa



O hábito de presentar ovos é antigo. Os persas já trocavam simples ovos de galinha para comemorar a primavera no hemisfério norte. Logo depois, os egípcios, que consideravam o início da estação como o início do ano. Também gregos e chineses tinham o costume de presentear com ovos no início da primavera, ocasionalmente decorados com pinturas rudimentares. Na Beócia (antiga região grega),  foram encontradas estátuas de Dionísio com um ovo na mão, como símbolo do retorno à vida. Sim, o ovo é o símbolo da ressurreição e da fertilidade: parece uma pedra, sem vida, quando – na realidade – está abrigando a metamorfose que se revelará em uma nova vida. Pelo mesmo motivo, representa o renascimento, o início de um novo ciclo. De dentro para fora.

Os ovos coloridos da Páscoa remetem às cores da primavera, mas a ideia de fazê-los de chocolate é o que mais me fascina. Melhor de tudo: nos últimos anos já chegam aos supermercados com ofertas e descontos – crise? Decidi que vou guardar as notas deste ano e comparar com os preços do ano que vem. Os empresários italianos estão descobrindo o ovo de Colombo. A cada ano novos produtores de ovos de Páscoa apresentam ao mercado os produtos “exclusivos” a preços especiais. O que eles fazem com as sobras é um dos mistérios do Universo.

Junte ao ovo as muitas lendas sobre o chocolate: o deus azteca Quetzcoalt – assim como Prometeu fez com o fogo – teria roubado dos deuses as sementes para dar aos homens uma bebida energética e, por isso, teria sido banido. Outras lendas contam de uma princesa ou serpente. O chocolate ainda teria sido usado pelos astecas como elixir, oferenda em sacrifícios, moeda de troca e afrodisíaco. Montezuma bebia uma infusão de sementes de cacau torradas e moídas, pimenta, canela e baunilha, antes de ir para o seu harém. A mesma bebida que ofereceu ao conquistador espanhol Hernando Cortez, confundindo-o com um deus.

O ovo tem a forma de um olho. O olho que vê a vida dentro de si, vê o futuro. Que a Páscoa seja cada vez mais um momento de renascimento. A oportunidade para ressurgir numa nova vida, com as curvas amenas de um ovo, com o doce amargo cheio de energia do chocolate.

Boa Páscoa!
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Thursday, June 13, 2013

O fim dos natais com neve



O Giro d’Italia é a segunda competição ciclistica europeia em importância, atrás somente do Tour de France. São três semanas com circuitos de até trezentos quilômetros, entre provas curtas de cronômetro e de longa distância, com “escaladas” em cidades de montanha. O evento acontece sempre na primavera, respeitando o calendário das provas na Europa, estabelecido em função do clima: durante o verão a temperatura exigiria muito dos atletas nas etapas de longa distância; no inverno, seriam as baixas temperaturas e a neve a impedir a corrida. O vencedor da edição de 2013 foi o italiano Vincenzo Nibali.

Na etapa do dia 23 de Maio, Nibali protagonizou uma espetacular vitória ao cruzar a linha de chegada bem antes dos demais corredores, sob uma tempestade de neve que obrigou os helicópteros e as motos que transmitem a corrida a permanecerem aos pés da montanha, no estacionamento. No dia seguinte, 24 de Maio, a etapa foi cancelada por causa do clima: muita neve, frio intenso e vento forte. No domingo, 26 de Maio, o Sol e o clima de verão emolduraram o passeio vitorioso de Nibali. [O equinócio de primavera antecipou a estação em um dia, iniciando-a em 20 de Março, mais de dois meses antes. Primavera, capisci?]

Vá tomando aulas de esquí, compre um camelo e aprenda a andar com meio guarda-roupa a tira-colo. E, se puder, adote um ex-meteorologista. Sim, “ex”, pois a profissão está em extinção por falta de colaboração das intempéries, cada vez mais instáveis e de humor variável. Na dúvida, construa um barco.

A imprevisibilidade do clima tem tido grande efeito sobre os insetos (os que sobreviveram, é claro). As formigas aqui de casa enlouqueceram e estão rejeitando açúcar e comendo água. Sim, comendo; eu não disse que elas enlouqueceram? Pernilongos? Todos congelados. Borboletas, abelhas e besouros? Preferiram a África e abandonaram as flores desesperadas que continuam a polinizar o ar e a rinite alheia. Até os ciclistas se mandaram.

Restaram-nos as noites frias e os dias saarianos. Dizem que o verão está chegando. Dizem.
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Sunday, April 14, 2013

Improvisa Primavera



“Cerco l’estate tutto l’anno e all’improvviso eccola qua”. Assim começa a célebre canção de Adriano Celentano “Azzurro” [procuro o verão o ano inteiro e improvisamente ei-lo aqui]. Assim foi com esta primavera: sexta-feira, 12 de Abril, seis e meia da manhã, 3 graus; mesma sexta-feira, às três da tarde, 28 graus. Paramos no Bar Americano para um chopinho no final do dia e decreto, para alívio dos outros clientes e do dono do bar: “a primavera começa agora!” A notícia se espalhou e os insetos chegaram todos de uma vez.

Vestir-se como uma cebola; estratos de roupas que serão descascados com o aumento da temperatura do dia. Andar de bicicleta com cachecol para não se resfriar. Portas e janelas que emperravam no inverno voltam a funcionar com folga. Dores musculares e nas articulações já não precisam de pomadas. E, assim como os insetos, os sorrisos aliviados voltam aos rostos carrancudos. Acabaram-se as dúvidas: é primavera.

Em “Azzurro” Celentano reclama que a tarde é azul demais, longa demais. Ainda não é verão, não há nada a reclamar. As sagras dos muitos lugarejos começam a esticar as noites em música, vinho e comida típica. Campos e gramados ganham cores com as primeiras flores brancas e amarelas sobre o verde fresco.

Voltamos ao bar na tarde seguinte para ouvir da senhora que morou anos na Argentina um comentário entusiasmado: “Até que enfim vejo alguém com uma blusa colorida! É bem no clima de praia.” A Eloá sorriu diplomaticamente e nem a fez notar que estamos longe da praia. Basta um pouco de espírito alegre para evitar a sobriedade anônima das roupas pretas, ainda tão comuns nesse início de primavera. Mas esse é um truque que não ensinamos, afinal, cada um carrega dentro de si a estação em que vive a alma.

Talvez quando o verão chegar eu também reclame do excesso das tardes e dos azuis (duvido muito); talvez Celentano seja melancólico em qualquer época doa ano; talvez a semana de frio que sempre ocorre no início da primavera, acabe com todos os insetos de uma vez. Mas a vida não é feita de talvez: com licença que vou ali aproveitar da primavera que chegou, e que combina direitinho com a minha alma.
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