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Sunday, December 23, 2018

Neliz Fatal


Neliz era uma espevitada de trincar os dentes. Não deixava passar uma, tinha opinião própria desde pequenina. Peitava o povo todo, se precisava. Quando o prefeito foi na casa dela pedir a Dona Jacira para coordenar a ceia de Natal, cozinheira de mão cheia e respeitadíssima que era Dona Jacira, Neliz se meteu na conversa.
▬ Cês não vão fazer o povo passar mal de novo, como no ano passado, né?

         Armaria, Dona Jacira nem tinha um buraco pra se enfiar, de tão acabrunhada que ficou. Pálida, ainda olhou pra filha, tentando dizer alguma coisa. Saiu foi nada. E olha que a Neliz era filha dela, Dona Jacira já devia era de tá acostumada. Mas quem é que se acostuma com uma tirada dessa de uma mocinha de dezessete anos? Dá não. E o prefeito? O homem ficou como se tivesse levado um chute nos... No estômago. Estômago empachado e pescoço curto. Careca lustrando de suor.
▬ Quê isso, Neliz? O povo passou mal por causa da gula, que a comida tava ótima...
▬ Na, não, seu prefeito. O povo passou mal porque com um calorão da porra se encheu de comida pesada e foi dormir.
▬ Me respeite, minina! Tá botano defeito na minha comida, é?
▬ Quê isso, mainha? Deus o livre! Os prato é que não combinava com o calor. E eu sei que a sinhora só fez o que pediram pra sinhora fazê. Então, quem pediu, pediu errado.
▬ É o cardápio de Natal, tem nada de errado não, Neliz.
▬ Tem sim, seu prefeito. Quem é que come peru, pernil, salada russa e aquele monte de nozes no Natal aqui?
▬ Ué, todo mundo! Eu sempre comi isso no Natal...
▬ O sinhô, né? Deve ser por isso que tem esse barrigão e sua feito um cavalo... Com todo respeito, seu prefeito. O povo comeu porque era de graça e porque nunca tinha visto tanta comida junta.
▬ Vocês não comem porco e peru no Natal? Que estranho...
▬ Estranho é comer isso com esse calor. Aqui a gente vai de manhã cedinho comprá peixe dos pescadô na véspera e bota pra mariná e assá na folha de bananêra de noite. Depois, é só fazê uma salada, arroz e fruta, muita fruta. Quando Jesus nasceu eles eram pobres. Tinha essa fartura não.

         Dona Jacinta tava muda e muda ficou. Só balangava a cabeça, que sabia que num carecia discutir com Neliz, não. Era cria sua, sabia como era feita. E Neliz era feita assim, falava o que pensava e capaz que pensava errado!

▬ Mas é parte da nossa tadição...
▬ Né não, seu prefeito. Isso é tradição lá das Oropa. E lá agora é inverno, faz frio e tem neve. Não esse sol escancarado cozinhando as carne da gente.
▬ Então você sugere adaptar a nossa festa para o nosso clima?
▬ Ué, e vamo ficá imitano estrangêro até quando? Todo ano a prefeitura gasta dinhêro pra comprar e trazer uma árvore gigante e enfeitá ela pra parecê neve. Uma árvore que nem existe por aqui. Que nem a neve. Que ôtro lugá tem uma praça bonita como a nossa? E tem as duas palmeira mais lindas do mundo na frente da igreja. Põe umas luz alumiando as palmeira e a igreja, umas fita, bandeirinha, luzinha e pronto. Nem tem que pagar pra levá a árvore de volta e a bichinha vai vivê feliz lá no lugá dela. E no dia vinte e cinco, faz um bolo pra gente cantá “Parabéns”, bota música pro povo dançá...
▬ Bolo? Parabéns? Que ideia maluca é essa, meu Deus?
▬ Maluco é o sinhô, que num sabe que dia vinte e cinco de dezembro é o aniversário de Jesus. ...Com todo respeito, seu prefeito.

         O prefeito prestava atenção e matutava. Matutava e fazia conta e pensava na economia e lembrava da eleição. Sabia que da boca de Neliz não saía besteira. Dona Jacira tava ali, sentada na cadeira dela seguindo as ideias da filha. Ficava besta de tanta sabedoria na cria sua.

▬ Então, vamos combinar o seguinte: Dona Jacira vai ficar livre para criar um cardápio com base nas tradições locais, com produtos da estação e peixe fresco dos pescadores. Tudo coisa daqui. A senhora me prepare uma lista do que vai precisar e para quando, que a prefeitura providencia tudo. Vamos usar a cozinha da escola, como no ano passado. E vamos contratar você também, Neliz. Você vai organizar todas essas ideias e vamos fazer um Natal como você sugeriu. Anote tudo e passe na prefeitura para conversarmos.
▬ Seu prefeito, bora colocá isso preto no branco?

         Já passaram quarenta e dois anos. Os filhos do prefeito se revezam na poltrona da prefeitura, que o velho bateu as botas com as veias entupidas. Dona Jacira ainda acompanha tudo da cadeira de balanço, que a parte dela já fez. Agora é a Laura, sobrinha da Dona Jacira, que cozinha a ceia da véspera e os quitutes do dia vinte e cinco. Aliás, Dona Laura. Criada na casa da Dona Jacira, aprendeu com a tia todos os truques da cozinha. Neliz organiza grandes eventos por toda a região e é a funcionária da prefeitura responsável pelas festas da cidade. Sim, cidade. Deixou de ser conhecida como vilarejo de pescadores para se tornar uma cidade turística, famosa pela preservação da cultura, da geografia local e pelas festas. Os moradores alugam quartos para turistas, que os dois hoteis construidos não comportam todo o movimento. Neliz criou uma cooperativa para produzir e divulgar a arte e o artesanato local, promover cursos que permitiram expandir o comércio e melhorar a qualidade de vida dos habitantes. São eles os novos pequenos empresários e funcionários dos estabelecimentos. Inclusive o mais famoso restaurante da região, que leva o nome da proprietária: Restaurante da Jacira.

         Aquele primeiro Natal – o segundo patrocinado pela prefeitura – popular, chegou a sair na televisão. A igreja e as duas palmeiras enfeitadas e iluminadas; o mastro na frente da prefeitura, onde Neliz mandou colocar uma imensa rede de pesca esticada em baixo e presa na areia que os caminhões levaram, imitando uma árvore de Natal tradicional, cheia de conchas, estrelas do mar, ouriços e luzes azuis, foi um espetáculo de se ver. Todo ano falta espaço para o povo que chega de longe, que vem participar e admirar a festa mais tradicional da região.

         E nunca mais passaram mal com a comida estangeira.

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Tuesday, September 11, 2018

Vivendo aqui fora


Jamais pensei em viver fora do Brasil e, no entanto, lá se vão 19 anos. A vida vai mudando e nós mudamos junto com ela. Mas que dá uma saudade, ah!, isso dá. Só não sei se um dia terei vontade de voltar.

Viver na Europa não é chique nem há glamour algum nisso. Sim, é diferente e existem muitos pontos positivos. Só sugiro nunca colocar na balança os prós e o contras para não se frustrar. Por aqui existe todo tipo de gente: culta, ignorante, amável, chata, educada, analfabeta e tudo o mais que precisar (mesmo que você não precise). Aquela sensação de viver no primeiro mundo passa logo; tem quem não aguenta e volta na primeira oportunidade. Quem fica, mata dois leões por dia.

Tenho uma amiga que morou por anos na Itália e escrevia “no interior do Zaire é assim”, quando contava sobre o dia a dia da cidade em que vivia. Voltou para o Brasil e prometeu que “na Vaticália só a turismo.” Diferenças à parte, sentimos falta dos costumes que nos acompanharam desde o nascimento. Talvez, o pior é a falta do calor humano, a distância de amigos e parentes, a cerveja gelada, a comida. E a língua. Porque – como disse Caetano – “minha pátria, minha língua”. Ou, para citar um escritor italiano que vivia seis meses por ano em Lisboa (e seis na Toscana), quando lhe perguntaram qual era a sua casa, respondeu: “a minha casa é a minha língua”. Antonio Tabucchi, escritor e professor de Língua e Literatura Portuguesa na Universidade de Siena, sentia-se à vontade na própria língua. Assim como eu me sinto confortável com o português.

Esse – da língua, da cultura – é um dos preços a pagar. O vocabulário, vai diminuindo, as novas gírias ou ditados são sempre novidade e os idiomas se misturam. No início até ouvia rádios brasileiras na Internet, mas o mau gosto de certas músicas, o pouco tempo livre, e um monte de motivos banais me fizeram perder o hábito. Por outro lado, aprendi a gostar de Lucio Battisti, Vasco Rossi, Zucchero; a reconhecer um Culatello di Zibelo, a distinguir o bom pisarei e fasò do ruim e a beber vinho bom.

Em um ano politicamente tão complicado (aqui como aí), lembro que uma caraterística que nos une é essa torcida ideológica agressiva e obtusa. A Europa xenófoba não será os Estados Unidos da Europa que muitos sonhavam. O Brasil corre o risco de se esfacelar, de deixar de ser o país cordial e tolerante que encantava o mundo. Nossos umbigos estão cada vez maiores. Aqui como aí. E nem isso assusta mais. 


Piasarei e fasò - prato típico de Piacenza de massa com feijão. Como sempre, é um prato pobre, feito com avanços e migalhas. A massa reaproveita o pão velho e a banha de porco; o feijão, ah, esse custa pouco e é resistente em qualquerlugar do mundo.

Sunday, October 08, 2017

Call center na Itália

Se você não aguenta mais receber ligações de call center tentando lhe empurrar serviços – necessários e menos necessários –, planos de saúde/aposentadoria/férias em Marte, biscoitinhos da vovó, Internet barata que não cai nunca e abatjour de pele de camelo, venha para a Itália. Aqui não existe isso, confie em mim.

Ninguém vai ligar na hora do almoço para convencer você a trocar de gestor do serviço elétrico. Nunca, mas nunca mesmo, vai receber uma ligação às nove da noite oferecendo tratamentos de beleza. Nenhuma voz decidida e bem treinada vai lhe chamar pra tentar vender osso de baleia, não. Nem pra avisar que você está sendo roubado na conta de energia elétrica e pedir pra informar os códigos da conta de luz para saber que tarifa deveria estar pagando (aqueles que permitem mudar de gestor e depois proporcionar a surpresa de duas contas, a do antigo e aquela que você autorizou sem saber). Fique tranquilo, confie em mim.

Salão de beleza onde o Trump e o Kim cortam cabelo, clínica dentária prometendo banguela barata, cartão fidelidade de parque de diversões na Groelândia, agências de viagem organizando passeios em buracos negros... Qualquer atividade comercial ou charlatã utiliza aqueles serviços de telemarketing que descobrem todos os seus contatos. Mas na Itália, não. Esqueça as respostas mal educadas que você treinou, a ocasional paciência ao lembrar que a pessoa do outro lado da linha está tentando ganhar o pão de cada dia ou fingir que está roncando. Se os call center da vida são o inferno, isso aqui é o paraíso.

Muita gente tem cancelado a assinatura do telefone fixo, já que o celular virou o centro da vida. Em casa ainda temos. Serve para receber chamadas da minha mãe – talvez a única pessoa da Terra a não ter smartphone – e para, bem, er… Ligações para oferecer produtos e serviços aos quais não podemos abrir mão (mas que abrimos). A Eloá nem responde quando toca, se não for  nos horários habituais da dona Paula (a sogra dela). 

Sexta-feira, nove e vinte da noite. Cansado do dia cheio e doido por um banho, mas não antes de levar o Shiva, nosso pilantra de quatro patas, para passear. Toca o fixo e eu atendo:
«Alô.»
«Por favor, me passe a senhora.»
«Qual senhora?»
«A… como se chama?»
«A Pina, a Domenica ou a Maria?»
«A Pina.»
«Aqui não tem ninguém com esse nome.»
Deliciei-me com os quinze segundos de silêncio antes que ela desligasse.

Sunday, June 12, 2016

A Europa não é a Europa


Uma nova insatisfação vem ocupando as mídias sociais e alguns blogues nesses dias. São pessoas que desejam vir morar na Europa e pedem dicas e sugestões para quem já está aqui. Em troca, recebem conselhos negativos sobre a vida de expatriado.

Você está pensando em vir morar fora? Venha. Não importa se vai quebrar a cara e voltar ou se dar bem e começar uma nova vida: se não vier, não vai saber nunca. Informe-se sobre a burocracia para evitar ser barrado na alfândega, aprenda pelo menos o básico da língua local com antecedência, anote os conselhos bons e ruins e tenha a certeza de que a experiência dos outros conta pouco, o importante é viver você mesmo.

Notei que quem já mora fora, tem o hábito de achar que todo brasileiro é ingênuo e “não sabe o que está deixando pra trás”. Sim, a imagem que fazemos de um lugar que não conhecemos é diferente da realidade, mas é o tipo de coisa que só muda com a experiência. É óbvio que ninguém acredita que todos os europeus são cultos, educados, corteses e honestos. Diz um ditado italiano: “a mãe dos imbecis está sempre grávida”, ou seja, você vai encontrar gente estúpida, ignorante, mal educada, arrogante em qualquer lugar do mundo. Assim como pessoas cordiais, inteligentes, gentis...

Em algumas situações iremos nos surpreender. Como caminhar pela suja Paris, ou lembrar para sempre do mau cheiro do metrô local, proveniente de alguns parisienses. Noutras vezes ficamos indignados, como quando algum criminoso VIP italiano consegue obter prisão domiciliar por ser considerado “incompatível com a vida da prisão”(!!!), ou a curiosidade mórbida que faz o italiano médio acompanhar os crimes de sangue por anos a fio. Temos, antes de tudo, que aprender a nos adaptarmos: Em Londres a maioria dos banheiros (a esmagadora maioria) e pias de cozinha tem duas torneiras separadas, uma de água quente e outra de água fria. Lavar a louça ou as mãos com água fervendo ou gelada. Escolha.A Suíça seria neutra e um lugar muito civilizado? Muitos europeus veem os suíços como os caipiras da Europa. Além disso, é preciso recordar que o país aceitou depositar nos próprios bancos o ouro roubado dos judeus na Segunda Guerra, numa lavagem de dinheiro consciente e lucrativa. E isso tem nome: crime de guerra. Claro que existe o lado bom, mas pouca gente espera encontrar cenas de terceiro mundo na Europa.

Enfim, um mundo de gente e hábitos diferentes. Mas é isso que você quer, não? Outra coisa: saiba que, assim como a sua visão sobre a Europa não corresponde à realidade, a deles sobre nós, também não. Para a maioria o Brasil é um país em algum lugar do litoral sul americano, onde todos somos mulatos e andamos semi nús, sempre disponíveis ao sexo e ao futebol. Samba de manhã à noite, sorrisos abertos e nenhum motivo para o mau humor. Mas não maltrate seu fígado ficando com raiva; aproveite para viver a sua nova aventura e não perca tempo tentando mudar o que não depende de você.

No final da viagem a bagagem vai estar cheia de experiências novas, grandes amizades e nenhuma ingenuidade. E se você for uma pessoa aberta, terá se transformado em cidadão do mundo.


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PS - pensando em vir para a Itália e gostaria de dicas? Tem algumas no meu livro "Carta da Itália - um passeio pelo dia a dia italiano".
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Monday, February 22, 2016

Villa Bramasole - Sob o Sol da Toscana

Villa Bramasole - Cortona

Villa Laura - Cortona



A Villa Bramasole, do filme Sob o Sol da Toscana, acabou virando uma atração à parte.

Baseado no best seller homônimo autobiográfico da escritora Frances Mayes, no qual ela conta como o divórcio acabou trazendo-a à Itália, onde comprou uma casa na Toscana, reformou e onde passa diversos dias por ano, o filme se liberta da versão original para alcançar um dos objetivos da Walt Disney, atrair público.

Cheio de estereótipos que tanto agradam o público americano, foi recheado de situações que o turista espera encontrar: o latin lover que tem um affair com a escritora, mas que acaba escolhendo a selvagem local; a velha louca que aumenta o preço da casa para quem ela não gosta e acaba vendendo – por uma série de coincidências – à escritora, que não tinha o dinheiro suficiente; o velho que todos os dias passa silencioso com as flores em memória de alguém (interpretado por Mario Monicelli!); o empreiteiro italiano que explora estrangeiros; uma versão leve e atual de Romeo e Giulietta; Pores do Sol de cores quentes; as paisagens rurais da Toscana; praias semi desertas; e reencontro do amor com um outro americano...

A casa que aparece no filme, na realidade não é a Villa Bramasole, casa da escritora, mas a uma outra, usada como cenário. Sim, a Villa Bramasole existe e muita gente vai visitar Cortona para poder conhecê-la. Na maioria, turistas americanos.

A villa (tradução italiana para casa independente) fica a três quilômetros do centro de Cortona, foras dos muros da cidade, em uma daquelas estradinhas estreitas típicas da Itália, circundada por ciprestes plantados em memória aos mortos da Segunda Guerra. Cada árvore tem uma placa velha com o nome do homenageado, que a escritora tem planos de mandar refazer. Cortona é muito agradecida à escritora por projetar a cidadezinha no mundo.

A Villa Laura – também nas proximidades de Cortona – foi o cenário das filmagens. Restaurada, está disponível para temporadas. Piscina, forno para pizza, churrasqueira, 10 quartos e uma vista privilegiada da Toscana rural. Mas não é a casa da escritora, a Bramasole. Esta só pode ser apreciada por fora, pelos turistas.

Outras locações interessantes do filme foram o centro de Cortona (a fonte não existe, era somente parte do cenário do filme); Positano na esplêndida Costa Amalfitana, onde ela conhece Marcello (Raoul Bova) o garanhão italiano; Roma.

Bem, se você estiver na Toscana e quiser passar por Cortona para visitar a Villa Bramasole, tomara que seja durante o verão italiano. Quem sabe encontra com a Frances Mayes fazendo compras no mercadinho local e acaba recebendo um convite para saborear uma das receitas toscanas, que a escritora aprendeu e que treina com afinco?

Site e blog oficial da escritora AQUI