
Hoje, 5 de junho, é o Dia Mundial do Meio Ambiente e a Itália tem muito pouco a comemorar.
Em 1987, um ano após a catástrofe de Chernobyl, a Itália decidiu, com um referendum, pelo abandono da energia nuclear. O novo velho governo, ignorando a vontade do povo, anunciou que irá retomar o caminho nuclear. Qualquer argumento a favor de usinas nucleares é ilegítimo quando se confronta com a vontade popular expressa. Nem mesmo a desculpa de que novas tecnologias tornaram esse tipo de energia mais seguro pode sobrepor-se à decisão do referendum. A minha opinião é que a decisão de uma consulta popular só pode ser anulada por outra consulta, após alguns anos. Neste caso, 22 anos pode ser considerado um período razoável, mas as supeitas do atual governo sobre o resultado de um novo referendum o levaram a decidir que vai ser na base do decreto lei, mesmo.
Muitas vezes ouço alguém perguntar o que os italianos fizeram com as florestas deles, como resposta às questões sobre a Amazônia. Sim, eles derrubaram as próprias florestas, mas faz tanto tempo que já não podemos culpá-los por isso. Mas podemos, sim, responsabilizá-los por não se preocupar com o reflorestamento, pela falta de uma política ambiental que recupere as muitas áreas devastadas, que continuem tranquilamente a poluir rios e nascentes – já tem gente pensando em garimpar a cocaína no rio Po. O escritor Roberto Saviano, autor do livro Gomorra, que virou filme de sucesso, vive escoltado e não consegue encontrar quem lhe alugue uma casa. Tudo porque no livro ele denuncia não apenas como a Camorra decide o destino de Nápoles e região, mas também por ter detalhado as operações de grupos que aterram, clandestinamente, resíduos tóxicos até mesmo em zonas históricas da cidade. São milhares de toneladas de produtos químicos contaminando o solo e afluentes. O desespero pelo lixo acumulado pelas ruas tem feito com que parte da população queime as montanhas de lixo não recolhido, liberando uma nuvem de dioxina que só piora a situação. Os casos de câncer têm aumentado muito acima da média italiana. Quem pode, está abandonando Nápoles com a promessa de não voltar. A única notícia positiva é a prisão recente de 25 pessoas envolvidas com a máfia dos aterros clandestinos em Nápoles, e outras 12 na Puglia.
As ações das ONGs verdes têm-se mostrado insuficientes para afrontar os problemas e muitas denúncias caem no vazio da corrupção. Os melhores resultados se encontram em medidas localizadas, com pouco impacto no conjunto ambiental. Mesmo os atos da administração pública produzem soluções paliativas, como os rodízios de placas e limitações do trânsito durante o Inverno, ou a criação de ZTL (Zona a Traffico Limitato), cuja finalidade é preservar os centros históricos. Tem antenas demais, carros demais, embalagens demais, desperdícios demais e falta, por exemplo, uma adequada rede de transporte coletivo entre as cidades e os vilarejos. Tem corrupção demais.
A imprensa italiana tem o hábito – outra denúncia caída no vazio – de combinar o que será publicado ou não. O italiano médio acaba só recebendo as informações filtradas e acredita viver em Shangrilá. Espero que o filme “Gomorra” sirva para chacoalhar um pouco a passividade de quem vive nas regiões mais ao norte. Entretanto, não será suficiente para mudar a impotência do povo contra o governo que ele mesmo continua a eleger.
Por que diabos a vida da gente acaba sendo decidida por gente incapaz ou corrupta?
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