sexta-feira, junho 27, 2008

Duas da madrugada


















O calor está sufocante. Não tenho um bom relacionamento com o ar-condicionado, mas quando entro no quarto fresquinho sinto um alívio e durmo bem. O problema é convencer a minha insônia crônica que ela deve deixar-me, que o nosso relacionamento acabou e que posso viver sem ela. É uma discussão longa e complicada. Aproveito para espiar a lua minguando na janela da sala...
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Como usar a cafeteira italiana

Se você veio parar neste blog em busca de como usar a cafeteira italiana (moka), você está no blog certo mas no post errado. Para saber como usar corretamente a moka, clique aqui.

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segunda-feira, junho 23, 2008

Tudo muito mal desorganizado

Imaginem que primeiro mundo é esse: há uma semana fazia frio, chovia e as pessoas dentro dos suéteres ou jaquetas de outono eram brancas como uma mozzarella e tristes como um leão enjaulado. Hoje faz um sol de rachar, o calor está abafado e as pessoas, bronzeadas, sorriem saltitantes como cabritos na primavera.

Acabaram com a meia estação.


Dito italiano: "Piove? Governo ladro!" (Chove? Governo ladrão!)

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quarta-feira, junho 18, 2008

Toró

A chuvinha ainda não parou. Engrossou em algumas regiões, inundando vilarejos, campos, casas e vidas. É a primavera italiana mais chuvosa dos últimos duzentos anos. Em Piacenza, é chuvinha mesmo. o rio Po deixou a cidade em estado de alarme, ameaçador como o estouro de uma boiada. Mas foi o Trebbia que fez mais estragos na província, deixando na bela Rivergaro, às suas margens, uma marca da maior cheia da história do rio.


Bolzano é quase Austria, numa região em que as culturas se misturam. Assim como as línguas. O garçon do restaurante observa os fregueses e decide em que língua atendê-los. Ficou na dúvida comigo; arriscou o alemão e, diante da minha expressão emblemática, ofereceu-me uma mesa em italiano. Não errou mais nenhum cliente. Deve ter estranhado um italiano com um guarda-chuva naquele dia ensolarado. Apesar de ser a 270 km de Piacenza, decidi ir de tremnão repitam isso em casa, sem a presença de um adulto. Cheguei na estação às 7:30 h., pedi um bilhete, entrei no trem e comecei a ler. Meia hora depois o trem parou e todos desceram. Assustado com a rapidez, desci e descobri que estava em Cremona, 30 km ao norte de Piacenza e que deveria pegar um outro trem, que por sinal estava saindo e eu tive que correr. Brescia, Verona e finalmente Bolzano. Por que consultei a internet para informar-me sobre o tempo em Bolzano, mas não consultei o site da Trenitalia ainda não entendi. Quatro trens e quase cinco horas de viagem.


Não sei se acontece com você, mas, às vezes, me arrependo de ter aberto os olhos pela manhã. Claro que se soubesse, teria virado para o lado e ficado na cama.


A pessoa que eu deveria encontrar às duas teve um contratempo e nos encontramos às quatro e meia. Controlava o céu e olhava o relógio, imaginando que teria que enfrentar outras conco horas para voltar. Conversamos e não gostei muito do que ouvi, pois as regras mudaram sem que eu soubesse e a negociação não caminhava na direção esperada. Um aperto de mão e a promessa de que nos falaríamos em breve para dar tempo de absorver as mudanças propostas por ambos.


Seis e meia daquela tarde ensolarada. Voltei à estação de Bolzano e descobri que a viagem duraria um pouco mais. Não havia trem para Piacenza via Brescia e eu teria que ir até Milão e depois voltar a Piacenza. Ao menos economizei uma conexão. Quase meia-noite desço na estação de Piacenza. O calor abafado anunciava chuva. Orgulhosamente exibi meu guarda-chuva aos poucos passageiros que cochilavam na estação, mas ninguém me notou.

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domingo, junho 15, 2008

domingo, junho 08, 2008

Mudanças

Todos os anos, mais ou menos na segunda metade de abril, acontece a “limpeza de primavera”. É o momento de guardar as roupas de frio, edredons e tudo o que foi necessário no inverno, mas que agora ocupa espaço. E é quando os maridos tiram uma semana de férias para pintar a casa, fazer pequenos consertos e comprar as plantas que sobreviverão nos apartamentos até a metade do outono.


Nestas manhãs um pássaro preto (merlo) canta insistentemente no telhado do convento, que fica a uns 30 metros do balcão do meu quarto. A cidade é cheia deles e me sinto em paz por vê-los livres a fazer algazarra e não em gaiolas, como é costume no Brasil.


Outra parte da cidade. No telhado do depósito, cinco ou seis merli - plural de merlo – construíram seus ninhos. Passam o dia a agitar as asas, caçar insetos para alimentar os filhotes e refazer os ninhos após uma chuva ou vento. A empresa fechou. O pátio onde antes circulavam caminhões em operação de carga e descarga, agora é usado como campo de batalha pela disputa de ramos secos. E eles não param o dia inteiro, sempre cantando, indiferentes à ausência dos trabalhadores e à falta de movimento.


administração ou dolo. Ou os dois. O certo é que a empresa foi morrendo nos últimos seis meses, o número de funcionários foi diminuindo até não restar mais nenhum. Aliás, no sobrado ao lado, onde funciona o setor administrativo, ainda tem algum movimento, além do diretor (que deve cumprir um ano de aviso prévio), da Guardia di Finanaza e fiscais que vêm verificar possíveis fraudes. Quando as acharão, o diretor certamente irá desaparecer, mas os funcionários se foram. Na época em que funcionários e merli se misturavam, a algazarra era maior. Limpeza de primavera


Uma hora da tarde. O sol enxuga pequenos ramos no pátio vazio. Dou uma baforada no charuto entre os dedos e observo os pássaros na incansável atividade de alimentar, limpar e refazer. Cantar. Não sei se conseguirão alugar o imenso depósito a alguma outra empresa nesses tempos bicudos da economia italiana, mas os pássaros pretos estarão aqui, no próximo ano, a reconstruir seus ninhos e alimentar seus filhotes. São pássaros e é primavera.

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quinta-feira, junho 05, 2008

O Meio Ambiente Italiano




Hoje, 5 de junho, é o Dia Mundial do Meio Ambiente e a Itália tem muito pouco a comemorar.

Em 1987, um ano após a catástrofe de Chernobyl, a Itália decidiu, com um referendum, pelo abandono da energia nuclear. O novo velho governo, ignorando a vontade do povo, anunciou que irá retomar o caminho nuclear. Qualquer argumento a favor de usinas nucleares é ilegítimo quando se confronta com a vontade popular expressa. Nem mesmo a desculpa de que novas tecnologias tornaram esse tipo de energia mais seguro pode sobrepor-se à decisão do referendum. A minha opinião é que a decisão de uma consulta popular só pode ser anulada por outra consulta, após alguns anos. Neste caso, 22 anos pode ser considerado um período razoável, mas as supeitas do atual governo sobre o resultado de um novo referendum o levaram a decidir que vai ser na base do decreto lei, mesmo.

Muitas vezes ouço alguém perguntar o que os italianos fizeram com as florestas deles, como resposta às questões sobre a Amazônia. Sim, eles derrubaram as próprias florestas, mas faz tanto tempo que já não podemos culpá-los por isso. Mas podemos, sim, responsabilizá-los por não se preocupar com o reflorestamento, pela falta de uma política ambiental que recupere as muitas áreas devastadas, que continuem tranquilamente a poluir rios e nascentes – já tem gente pensando em garimpar a cocaína no rio Po. O escritor Roberto Saviano, autor do livro Gomorra, que virou filme de sucesso, vive escoltado e não consegue encontrar quem lhe alugue uma casa. Tudo porque no livro ele denuncia não apenas como a Camorra decide o destino de Nápoles e região, mas também por ter detalhado as operações de grupos que aterram, clandestinamente, resíduos tóxicos até mesmo em zonas históricas da cidade. São milhares de toneladas de produtos químicos contaminando o solo e afluentes. O desespero pelo lixo acumulado pelas ruas tem feito com que parte da população queime as montanhas de lixo não recolhido, liberando uma nuvem de dioxina que só piora a situação. Os casos de câncer têm aumentado muito acima da média italiana. Quem pode, está abandonando Nápoles com a promessa de não voltar. A única notícia positiva é a prisão recente de 25 pessoas envolvidas com a máfia dos aterros clandestinos em Nápoles, e outras 12 na Puglia.

As ações das ONGs verdes têm-se mostrado insuficientes para afrontar os problemas e muitas denúncias caem no vazio da corrupção. Os melhores resultados se encontram em medidas localizadas, com pouco impacto no conjunto ambiental. Mesmo os atos da administração pública produzem soluções paliativas, como os rodízios de placas e limitações do trânsito durante o Inverno, ou a criação de ZTL (Zona a Traffico Limitato), cuja finalidade é preservar os centros históricos. Tem antenas demais, carros demais, embalagens demais, desperdícios demais e falta, por exemplo, uma adequada rede de transporte coletivo entre as cidades e os vilarejos. Tem corrupção demais.

A imprensa italiana tem o hábito – outra denúncia caída no vazio – de combinar o que será publicado ou não. O italiano médio acaba só recebendo as informações filtradas e acredita viver em Shangrilá. Espero que o filme “Gomorra” sirva para chacoalhar um pouco a passividade de quem vive nas regiões mais ao norte. Entretanto, não será suficiente para mudar a impotência do povo contra o governo que ele mesmo continua a eleger.

Por que diabos a vida da gente acaba sendo decidida por gente incapaz ou corrupta?
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segunda-feira, junho 02, 2008

Manias

Uma das manias que tenho é plantar árvores.

No início de maio de 2000, três meses após a minha assunção na empresa, quando ainda não havia conseguido quebrar a barreira da desconfiança, plantei a primeira muda. Estava indo trabalhar e vi a mudinha nascendo na beira da rua, em um trecho muito movimentado. Sabia que ali ela não teria chance. Escavei com o canivete entre a terra e o asfalto. Plantei-a no pequeno gramado em frente à empresa, sob os olhares curiosos dos colegas que chegavam. Não sei o nome dela – ninguém soube me dizermas é uma árvore muito comum e que cresce pouco. Lembra um flamboyant e produz uma espécie de pinha.

Quatro anos depois, outra muda no mesmo lugar. Plantei-a ao lado da outra, que era uma arvorezinha. Hoje as duas fazem um pouco de sombra, no estacionamento saariano da empresa. Curiosamente, ninguém jamais ocupou a vaga sombreada pela primeira árvore. Aquela é a minha vaga, em um acordo tácito e divertido que duraoito anos. Nesta época do ano os ninhos são refeitos, sempre nos galhos mais altos da árvore. A gata observa…

Em 2006, no início do verão, descobri, nos fundos da empresa, uma muda de figueira brotando em uma fresta entre o asfalto e a parede do depósito. Seria arrancada assim que o senhor da manutenção a visse. Chamei-o e pedi-lhe algo para escavar a raiz. Plantei no trecho de mato que deveria ser um gramado – a poucos metros de onde havia brotado. Quando o invero chegou, protegi-a com um cercado e plástico para impedir que o frio matasse suas raízes ainda muito frágeis, mas o segundo inverno ela o enfrentou sozinha e vai se inclinando à procura do sol. Decidi não interferir, ela saberá crescer sozinha. Vai levar uns anos, mas um dia estará produzindo figos para os muitos pássaros que vivem por ali, como faz a sua mãe, do outro lado do muro.

E você? Que manias tem?






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