segunda-feira, junho 25, 2007

Casazul


Piacenza, como a maioria das cidades emilianas (a parte leste da Emília-Romagna, longe do mar da Romagna), tem um padrão definido para as cores externas das edificações. O interno das casas costuma surpreender: tetos antigos restaurados, decoração moderna ou sóbria, mas sempre de bom gosto. As pinturas das paredes internas revelam os verdadeiros gostos dos moradores, com patinas e cores vivas. Mas as áreas externas são muito discretas. As chamadascores quentes”, em tons pastéis, dominam a arquitetura urbana, criando um efeito cromático relaxante e monótono.

Com exceção do verão e de parte do inverno, a neblina não é coisa rara nas cidades às margens do rio Po, aqui na Planície Padana.

Piacenza fica a 68 metros acima do nível do mar, numa região circundada por colinas e montanhas. Isso cria um permanente centro de baixa pressão atmosférica. O vento que sopra acima das montanhas dificulta a permanência de nuvens de chuva. Chove pouco, o verão é quente e abafado. O inverno, frio e húmido. A falta de ventos baixos na vasta planície contribui para a presença da neblina por longos períodos.

A impressão que se tem é que a neblina opacificou as cores das casas. São casas laranjas, marrons, beges, rosas e amarelas, mas sempre em tonalidades claras. Algumas são verde-claras, brancas ou cinzas, mas nunca azuis. Azul seria uma cor fria.

Uma casa azul seria como um ato de rebeldia; como se o mar subisse em ondas o rio calmo; como se o vento soprasse cores africanas na apatia visual destas ruas; como se a escassa chuva, uma vez por ano, caísse colorida.

Tenho a impressão de que os moradores da única casa azul da cidade são pessoas muito interessantes. Melhor não conhecê-los.

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sábado, junho 23, 2007

quarta-feira, junho 20, 2007

O lado B

Já fui meio machista, mas um dia fiz 16 anos e passou. Também era meio estourado, pavio curto. Com meus 1,73 mts. nunca intimidei ninguém, até que alguém levantava a voz e eu mostrava a que servia ter praticado judô, box e capoeira. Comia pimenta – muita – com farinha por puro deleite. Lia tudo a que tinha acesso e bebia conhaque em doses triplas. Tinha uma pressa danada de viver.

Mas eu mudei. Mudei muito. Deixei de lado todas as minhas opiniões formadas e me desfiz das regras que formavam a minha lei. Aprendi a ser diplomático e a selecionar leituras. Aprendi a tomar cerveja e beber vinho com moderação, mas ultimamente tenho preferido água à cerveja.

Não mudo de opinião com facilidade. É preciso argumento convincente. Mas hoje as minhas opiniões são somente uma trilha, não um trilho. Sou da paz.

Este blog tem um leitor (que prefere permanecer anônimo) que é um verdadeiro guardião, que me aponta erros gramaticais e ortográficos, que critica e elogia e escreve e-mails quilométricos. Foi ele quem insistiu para que eu colocasse contadores no blog (ele queria 4, coloquei 2), a licença da Creative Commons e o link do Copyscape, depois de ter lido sobre o plágio que sofreu a Sandra. Com os contadores me divirto vendo a quantidade de pessoas que vêm parar aqui procurando a “receita de arroz piemontez” (prometo um post), mas nunca tinha usado o Copyscape. Até que o zeloso leitor insistiu para que eu fosse conferir um texto meu plagiado.

(Há algum tempo o Rafael Galvão me impediu de cometer uma gafe, por um post publicado em outro blog, onde o autor teve a gentileza e correção de dar o devido crédito e o link.)

Quem me conhece sabe que hoje sou paciente, tranquilo e cordial. Acostumei a ouvir dizerem que tenho sangue frio durante as crises. Só que, às vezes, aquelas fúria e ansiedade juvenil ressuscitam e dominam a situação, estragando anos de treinamento. Desde a morte de meu pai não tenho atravessado os melhores momentos da minha vida. Não lembro de um período pior.

Se o fato – do plágio – tivesse acontecido em uma outra ocasião, provavelmente teria deixado um comentário no post plagiado: “Ei, este texto é meu” e acho que teria bastado.

Já não faço guerras pelas minhas opiniões. Aprendi a que a própria opinião é a única que conta. O mundo é repleto de opiniões divergentes e as pessoas envelhecem com elas.

Antes mesmo de ler os posts do Rafa de do Idelber eu já havia me arrependido pela reação excessiva. Só não abro mão de ter ficado chateado, de ter me sentido usurpado. Nem do meu direito de espernear, ainda que inútil e infantilmente. E justo com um post mal elaborado, sem qualidade e escrito às pressas? Com tanto intelectual dando sopa na internet, pra que plagiar um texto xinfrim como aquele? Só espero que o título do post tenha sido sarcástico o suficiente (“Finalmente, a fama”).

O único resultado positivo dessa história foi estimular o debate sobre direitos autorais na internet. Já é alguma coisa.

A partir do próximo post este blog retoma a sua habitual programação zen.
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segunda-feira, junho 18, 2007

Aonde foram parar meus comentários?

Nos últimos dias não tenho conseguido comentar nos blogs amigos do computador aqui de casa. Como não tenho tido tempo no trabalho, consigo apenas visitar os blogs alheios normalmente, mas necas de pitibiribas de comentar. Às vezes a caixa de comentário até abre e consigo escrever algum comentário, mas ele não aparece ou recebo uma mensagem de erro.

Como não entendo nada de Java ou qualquer outra ilha indonesiana, nessas horas costumo tomar uma atitude que resolve a maioria dos meus problemas informáticos: espero passar uns dias até que o santo padroeiro dos ignorantes e ingênuos resolva tudo por mim. Acontece que o tal santo deve estar muito ocupado com os outros ignorantes e ingênuos deste mundo.

Se alguém souber como sair dessa e me informar, prometo escrever uma carta ao Vaticano solicitando a canonização.

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quinta-feira, junho 07, 2007

Qualé a sua, bicho?

Aqui no primeiro mundo tudo é diferente. E, às vezes, é difícil convencer as outras pessoas do que acontece por aqui. Muita gente estranhou quando escrevi sobre um menino de uns cinco anos em carrinho de bebê (aquelas cadeirinhas sobre rodas). Pois bem, isso é normal pelas minhas partes. Mães que empurram crianças que caminham e correm normalmente, em carrinhos tamanho extra-large, quando decidem dar uma voltinha pela cidade. “Se ele fica cansado, quem é que carrega esse touro no colo? Assim, não enche o saco de ninguém.”

O Império Romano construiu estradas por toda a Europa, que foram modernizadas mas que servem até hoje como vias de ligação entre as diversas cidades, vilas e borgos (antigos vilarejos medievais, perfeitamente preservados e habitados). E é justamente essa longa convivência com as estruturas urbanas que os leva cada vez mais longe da natureza. Ao menos daquela parte da natureza que pode ser evitada. Pernilongos, moscas, abelhas e outros insetos e pequenos animais convivem, não sem conflitos, com os demais habitantes desse velho mundo.

Este ano, pela primeira vez, apareceram formigas na nossa cozinha. Mas são formigas bem-educadas. Vasculham a pia, o chão e o armário embaixo da pia, cheio de produtos de limpeza. Os bolos, tortas e doces deixados em cima da mesa não chegam a durar muito, mas são território poupado pelo pequeno exército das incansáveis marchadoras. Uma lagartixa tomou conta do balcão da cozinha desde março passado. No início, patinava desesperadamente cada vez que nos encontrávamos, mas, agora, não faz caso e apenas se recolhe em um canto para evitar uma pisada. Não é uma lagartixa de parede e isso me faz pensar que deve ter subido pelo elevador, junto com as formigas civilizadas. O melro que mora no convento, em frente ao balcão da cozinha, aprendeu que pode ir sossegadamente comer as migalhas de pão que as meninas deixam em volta das plantas, disputando com os pardais os pedaços maiores, numa convivência pacífica no balcão ensolarado.

Lembro que na nossa casa em Lauro de Freitas, às portas de Salvador, havia uma perereca que morava no box de um dos banheiros. A chamávamos Rui e nos divertíamos com seus olhos arregalados na hora do banho. Quando nos mudamos para uma outra casa, a Bianca, então com três anos, ficou feliz ao descobrir outra perereca no novo banheiro: “Olha, O Rui chegou!” Mas outro dia perdi a paciência: o melro estava dentro da cozinha ameaçando meus doces. Provar até pode, mas precisava fazer todo aquele escarcéu? !

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domingo, junho 03, 2007

Pontos da cidade

A Geórgia me passou a incumbência de escrever sobre pontos da cidade que eu gosto. Sou avesso a correntes, mas toda regra tem exceção. Esta é uma delas. Como já havia escrito sobre Piacenza e ando meio atarefado, resolvi republicar o post, mesmo que o período do ano tenha sido outro. Afinal, com o clima enlouquecido, nem faz diferença se é primavera ou outono.


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Aproveitei a tarde de sol e, apesar do frio, saí para dar uma volta de bicicleta.


Na rua de casa, a uns cem metros, a chiesa di Santo Agostino, que foi desconsagrada depois que Napoleão invadiu-a com tropas e cavalos. Agora é um espaço para mostras e exposições.








Do outro lado da rua, os giardini di Napoleone, onde ele montou seu quartel-general. Volta para fazer outra foto na primavera e a palavra jardins ganhará outro sentido.






Segui pela Stradone Farnese (onde moramos) até o fim para observar a Lupa, cópia daquela famosa, de Roma. Mussolini presenteou-a à Piacenza em reconhecimento à importância da cidade nas guerras púnicas.



Chiesa di San Martino Episcopo, no centrão. Esse estacionamento foi o Foro Romano, berço da cidade.

Resolvi, então, mostrar a vocês uma parte da história que conta: chiesa di Santa Maria di Campagna, local de onde partiu a primeira Cruzada da história. Um policial não permitiu que eu ficasse no meio da rua com a bicicleta para fazer a foto, por causa do trânsito. Lembrei de Galileo e me conformei com essa perspectiva.


Voltei para o centro e passei em frente ao prédio dos correios. Mais à frente (onde bate o sol) a Piazza Santo Antonino. Reparem na arquitetura inusual do prédio


…E no que eu acredito ser a curiosa assinatura do arquiteto.


Na Piazza Santo Antonino, a basilica di Santo Antonino, impossível de ser fotografada de frente: a rua é muito estreita. A antiga basílica (século IV) em homenagem ao patrono da cidade perdeu o lugar de primeira igreja àquela da Duomo.





Saindo da
praça pela rua Giuseppe Verdi, o Teatro Municipale.









Sigo por uma rua estreita (todas são estreitas) para chegar à Piazza Duomo, onde a catedrale di Santa Maria Asssunta domina a paisagem. Ao lado, o Palazzo Episcopale. Reparem aquela sombra no meio da torre da igreja:





Na realidade é uma cela, onde eram colocados os presos mais rebeldes, em ocasião da visita de alguma autoridade (e naquela época todo mundo era autoridade). O preso ficava exposto naquela gaiola, morria, apodrecia e seus ossos podiam ser recolhidos após caírem no telhado e rolarem para o chão.





Aqui o Palazzo Episcopale em destaque.


Pego a Via XX Settembre até chegar à Piazza Cavalli, que italiano tem mania de chamar largo de praça. Na Via XX o trânsito é proibido inclusive aos ciclistas. O jeito é empurrar. A estátua do Farnese brinca de luz e sombra com o prédio da Banca Nazionale del Lavoro, que brinca de com a sombra do…





Palazzo Gotico, antigo centro do poder do ducado de Parma e Piacenza.

Ao lado do Gotico, naquele prédio laranja, ocre, salmão ou a cor que mais lhe convier, ofuscado pela luz, o gabinete do prefeito.





Saio pela Via Cavour e imagino que daquela sacada a vista deve ser formidável.


Aproveito para controlar se o Palazzo Farnese foi invadido. Não, não foi dessa vez. O prédio (palácio, castelo, escolha) jamais foi concluído. O projeto original foi modificado nas diversas vezes em que foi invadido. Dentro, parte da história da cidade jaz numa confusão de estilos arquitetônicos nos diversos museus que a construção abriga.





Antes de terminar o passeio, um detalhe do Palazzo Farnese.







Voltando para casa, à entrada da Piazza Cavalli, encontro uma banda de malucos dançando pelo meio da rua, divulgando o festival de jazz da cidade. Desço da bicicleta e vou atrás, curtindo um jazz de primeiríssima.





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