Monday, June 25, 2007

Casazul


Piacenza, como a maioria das cidades emilianas (a parte leste da Emília-Romagna, longe do mar da Romagna), tem um padrão definido para as cores externas das edificações. O interno das casas costuma surpreender: tetos antigos restaurados, decoração moderna ou sóbria, mas sempre de bom gosto. As pinturas das paredes internas revelam os verdadeiros gostos dos moradores, com patinas e cores vivas. Mas as áreas externas são muito discretas. As chamadascores quentes”, em tons pastéis, dominam a arquitetura urbana, criando um efeito cromático relaxante e monótono.

Com exceção do verão e de parte do inverno, a neblina não é coisa rara nas cidades às margens do rio Po, aqui na Planície Padana.

Piacenza fica a 68 metros acima do nível do mar, numa região circundada por colinas e montanhas. Isso cria um permanente centro de baixa pressão atmosférica. O vento que sopra acima das montanhas dificulta a permanência de nuvens de chuva. Chove pouco, o verão é quente e abafado. O inverno, frio e húmido. A falta de ventos baixos na vasta planície contribui para a presença da neblina por longos períodos.

A impressão que se tem é que a neblina opacificou as cores das casas. São casas laranjas, marrons, beges, rosas e amarelas, mas sempre em tonalidades claras. Algumas são verde-claras, brancas ou cinzas, mas nunca azuis. Azul seria uma cor fria.

Uma casa azul seria como um ato de rebeldia; como se o mar subisse em ondas o rio calmo; como se o vento soprasse cores africanas na apatia visual destas ruas; como se a escassa chuva, uma vez por ano, caísse colorida.

Tenho a impressão de que os moradores da única casa azul da cidade são pessoas muito interessantes. Melhor não conhecê-los.

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14 comments:

Rafael Reinehr said...

Hahaha! O "melhor não conhecê-los" foi a chave de ouro para sua história! Não poderia ser melhor!

Fico feliz que utilizes o Firefox, pois estou tomando um baile tremendo tentando deixar o site navegável no Internet Explorer. Estou inclusive procurando alguém que me ajude a fazê-lo. Poderia pagar até, se a ajuda fosse resolutiva. Se conhecer alguém que manja de CSS, faça-me saber!

Como lhe disse antes, uma das novas sessões do site foi inspirada em você. Quer dizer, a idéia nasceu enquanto visitava o Carta da Itália.

luma said...

Sem saber quem é esse povo que habita essa casa também fico a admirá-los. Noites azuis pra ti Allan! Beijus

Alline said...

Fiquei curiosa a respeito dos moradores da única casa azul...
Que cor é a sua casa?
beijos

maray said...

Acho que a última vez que você esteve em Sampa ainda não tínhamos a lei da "cidade limpa". Andam tirando os out-doors e placas do comércio. Agora têm que ser pequenas, de acordo com o tamanho da fachada e poucas. Acho ótimo. Mas o que está acontecendo é que as lojas, recém pintadas, estão adquirindo as cores mais berrantes e luminosas que existem. Pra chamar atenção pela cor. Nunca vi tanta loja vermelha nem verde-limão! Overdose!!
Um abração

Claudio Costa said...

Interessante sua consideração a respeito do clima e a escolha das cores das edificações... Pelo interior das Minas Gerais, são predominantes as casas caiadas de branco com marcos azuis (portas e janelas, mais alguns relevos). Será por que? Já os prédios das grandes cidades, construídos até mais ou menos a década de 70, são predominantemente cinza, cor-de-cimento ou branco: daí o skyline característico da metrópole. Em Salvador(BA), admirei vários edifícios em Ondina e outros bairros classe média alta com muito vidro fumê, granito rosa-salmão e uns emoldurados por faixas verdes, amarelas, vermelhas, azuis, formando um mosaico a la Mondrian (coitado dele...).

SACANITAS said...

voce transforma tudo em poesia allan... :)

beijoooo
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Sandra said...

Mas ficou bonita! Adoro pessoas que não se prendem às convenções! Ouse!

Ei, levei pinoli para o Afonso. Agora pode cobrar suas receitas!!!

Beijos

Manoel Carlos said...

Muito boa esta crônica, o arremate então...

Georgia said...

Allan, tudo bem?

Amei o texto, nostálgico, romântico. Amo esse tipo de casinhas em cores pastéis, toda essa arquitetura antiga envolta com o modernismo que chega.
Nao quer conhecer esse povo da casa azul, por quê? Acho que vocês moram exatamente nessa casa azul. Com certeza vistos pela cidade como "extra-terrestres", kakakakakaa


Bom fim de semana

Meg (Sub Rosa) said...

Uau!
Que belo, Allan

Olha, eu achei um barato(?) o comentário da Georgia.
Desmontou o meu;-)))
De toda a forma, eu vou dizer, é uma citação do Millôr que seu texto me fez lembrar: " Como são interessnates as pessoas que não conhecemos de perto"
Se forem você e sua família, direi que o Millôr não tem razão.
;-)))
beijos
M.

Meire said...

penso q seria interessante conhecer estes ilustres moradores....

Ana Maria said...

haha, eu faria questão de conhecer o povo da casa azul. muito poético o texto. :-)

Denise Arcoverde said...

Ando morrendo de vontade de ir a Italia... mas nunca no verão.

MAHAI said...

Em resposta a sua pergunta do blog Faça a Sua Parte:"As florestas finladesas crescem em ritmo alucinante para produzir pallets e embalagens longa vida, que são recicláveis através de tortuosos processos (que tal produzir pallets com elas?).
"

Eis meu comentário:
No RS já há uma empresa que fabrica pallets a partir de plástico reciclável.
O Brasil é pioneiro em reciclagem de tetrapak, o problema era separar o plástico do alumínio (a fibra de celilose sai contaminada com plástico e Al, mas tem uso).
Um brasileiro usa tecnologia de plasma para fundir o alumínio e destilar o plástico, separando muito bem ambos produtos. O custo é alto, pois usa muita energia, porém a pureza dos produtos e seus usos posteriores compensam. Lembrara que a industria do Alumínio é das que mais consome enregia, a reciclagem com plasma consome menos enregia que a do ciclo da bauxita->alumínio, logo é um processo sustentável, evita lavra de mais bauxita e mais petróleo para repor o que iria para um aterro.