Caros e Caras,
Paz e saúde!
O problema com as pessoas arrogantes é que elas acreditam conhecerem todas as respostas, e, portanto, não têm necessidade de fazer perguntas. O imbecil, para essas pessoas, é o outro, que não precisa ser questionado. Apesar de achar que todo arrogante é, na realidade, um pobre coitado necessitado de ajuda para emergir de uma obtusidade fantasiada de auto-confiança, tenho dificuldade de lidar com eles. Meus encontros com esse tipo de pessoa criam as poucas oportunidades em que perco o meu auto-controle.
1986. Eu e meu irmão Dawidson voltávamos das férias em Salvador. Eu havia vendido a minha moto pouco antes do Carnaval, na esperança de comprar uma maior. Como o dinheiro era insuficiente e a oferta de motos usadas diminui naquele período, acabamos viajando na sua CB 400. A viagem estava quase no fim quando paramos por um problema no cubo da roda traseira. O borracheiro que montou a roda garantiu conhecer bem os mistérios que envolvem pneus de motocicletas. Mentiu. Cinqüenta quilômetros depois o pneu estourou no início de uma curva, após uma ultrapassagem a cento e quarenta por hora. A moto balançou. Numa fração entendi que iríamos cair e planejei rolar para fora da estrada, torcendo que o motorista logo atrás não decidisse sair da estrada também. Esperei a moto perder velocidade e cair desequilibrada, apesar da tentativa do meu irmão em mantê-la em pé até fora da estrada. Rolei tranqüilo, levantei-me, tirei o capacete, coloquei o boné que estava dentro da jaqueta e fui ajudar meu irmão a levantar-se. Infelizmente ele serviu de proteção à moto e machucou cotovelo, mão e joelho. Nada de grave. Dois dias depois completei o resto da viagem de moto, depois dos necessários reparos e após ter despachado o Dawidson de ônibus.
1993. Fui com um amigo a uma daquelas agências bancárias para clientes super especiais em Salvador. Edifício discreto, sem placa na entrada. Sistema de vigilância com câmeras, gorilas treinados para sorrir dentro de ternos que não combinavam com o clima local. A agência ficava num dos andares altos do prédio e, à saída, o elevador teve uma pane. Desceu alguns andares solto, em queda livre. O pânico provocou gritos, enquanto eu procurava uma fresta que me permitisse elevar-me do piso do elevador, reduzindo os efeitos do impacto. Decidi que treparia no apoio à altura das mãos, caso o freio de emergência não funcionasse até… funcionou! Permaneci imóvel desde o início, tranqüilo. Todos saíram apavorados do elevador e pude notar algumas calças molhadas. Meu amigo apenas sussurrou: “Preciso de um café!” Pedi um conhaque no bar próximo e dei a ele. De um gole só ele esvaziou o copo e, ainda branco, pediu: “Pegue a chave no meu bolso e dirija você.”
1995. Ainda em Salvador, ia pela orla com um amigo. O semáforo do antigo aeroclube, pouco distante, fechou. Os dois carros à minha frente pararam, ocupando as duas faixas. Enquanto diminuía a velocidade, observei o chevete que voava no meu retrovisor. Procurei uma guia rebaixada e parei vizinho a ela, de modo a subir na calçada vazia, caso a frente do chevete não abaixasse antes de um determinado ponto, sinal de que haveria freado. Como o limite foi superado, subi na calçada e observei o distraído voador tentando frear aquele pequeno e ultrapassado representante da tecnologia nacional, que indomável, deu um cavalo de pau antes de bater no meio-fio alto, bem ao lado de onde eu me encontrava estacionado e a uns cinqüenta centímetros do carro à frente. Tudo aconteceu em poucos segundos e eu sequer interrompi a conversa com o amigo, que me observava sem entender o que acontecera.
2004. Dia dezoito de novembro, aniversário do amigo Cássio. Eu me encontrava nas câmaras frigoríficas do departamento de queijos e salames, que ficam no fundo do imenso depósito da empresa onde trabalho. O telefone toca e eu atendo. O gerente do depósito, que tem uma fala de difícil compreensão para mim (e completamente incompreensível para os italianos) me pede para levar os funcionários para a frente. Pergunto “pra frente, onde?” e ele responde “pra cá, no meu escritório.” Chamo os funcionários e transmito-lhes a orientação. O telefone toca e eu o atendo novamente. Era o mesmo gerente, que repetia a solicitação de modo impaciente. Digo-lhe um desaforo e apresso o pessoal. Quando atingimos o meio do depósito, ouvimos o estouro de algumas garrafas do depósito e só então notamos a fumaça. Era um incêndio. Os funcionários, capitaneados pelo “Grande”, um homem de um metro e noventa e cento e trinta quilos, correm em direção a saída. Lembro-me dos outros funcionários das câmaras de frutas e verduras e volto para evacuar o local. Saímos pela imensa porta, nos fundos do depósito, a dez metros das câmaras. Contornamos o depósito e eu pergunto ao gerente porque ele simplesmente não avisou que havia um incêndio. Meia hora depois, quando os bombeiros já haviam apagado o fogo e controlavam a situação, voltei ao meu escritório para responder o e-mail de uma amiga com dificuldades na tradução de um texto, apesar da confusão.
2004. Vinte e cinco de novembro, quinta-feira passada, uma semana depois do incêndio. Na realidade a quinta-feira havia apenas começado, pois eram meia-noite e cinco minutos. Dormíamos todos quando acordei com a cama que balançava e a cabeceira batia na parede. Olhei para a janela e ela também balançava. Achei um absurdo a natureza mandar-nos um terremoto em uma zona livre desse tipo de advento. Pulei da cama e pensei nas meninas e no beliche enquanto a Eloá acordava com o meu movimento. “Que foi?”, perguntou. “A casa tá balançando”, respondi. “Eu ouvi alguém batendo na parede, assim: tum, tum, tum.” Mas o terremoto havia parado e ela voltou a dormir. Fui para a sala, separei uns casacos, bolsas, carteiras e destranquei a porta, liberando o percurso para o caso de um segundo terremoto. Depois, tomei um chá, li um pouco e voltei pra cama. De manhã os jornais informavam: cinco vírgula dois graus na escala Richter.
Apesar do sangue frio, confesso ter assustado com o terremoto. Impotente, decidi que vou descarregar no primeiro arrogante que encontrar pela frente.
Ciao.
A Itália vista por um brasileiro. As diferenças culturais, descobertas e sabores, com uma pitada de bom humor (às vezes).
domingo, novembro 28, 2004
quinta-feira, novembro 25, 2004
Vinho ou Cerveja?
Caros e Caras,
Paz e saúde!
O fim do ano se aproxima, e junto com ele as festas, confraternizações, brindes, jantares… Um perigo à saúde e uma ameaça à balança.
Um amigo convidou-me para um almoço na sua casa de montanha. O local fica na província, o que significa que não é longe. Aliás, Bettola nem chega a ser na montanha, como imaginamos nós, com neve o ano inteiro e uma paisagem bucólica. É somente um dos muitos pontos altos desta terra de geografia acidentada. Porém, no inverno tem neve pra xuxu, um vegetal que não existe por aqui e que é difícil de explicar.
Pecorino com pimenta (queijo de leite de ovelha), presunto e salames de montanha, salada de fungos frescos, alcachofras cozidas e grelhadas e torta de gorgonzola. Como em qualquer filme italiano, tem sempre alguém que enche o meu prato e diz: “Come…!” Quando achei que tinha feito bonito, provando um pouco de cada coisa e que havia deixado um espaço para a sobremesa, lá vem a massa: ravioli de erbette, um vegetal que não existe por aí e que é difícil de explicar. A massa, na realidade, é para dar uma pausa no rodízio de sabores e preparar o espírito para o prato principal, polenta com javali. Depois doces, licor, café e muita conversa.
Tudo isso já não é uma maratona para mim. Afinal, estou treinando há cinco anos. A novidade é que não consegui convencer o meu amigo que o acompanharia com muito prazer na bebida escolhida, e não tive como recusar a cortesia que a sua preocupação me reservou. Não sabendo que cerveja iria me agradar, comprou vários tipos e colocou para gelar. Serviu-me na temperatura justa, que, para mim, significa estar perto do congelamento e procurou não deixar o meu copo abaixo da metade nem um minuto. A prova da cerveja também não chegou a ser uma dificuldade. Porém o italiano bebe vinho, o meu amigo é italiano e eles não admitem que você não prove o vinho deles. Pior: o meu amigo é um conhecedor de vinhos e faz questão de demonstrar. E fez questão que eu provasse todos. E eram muitos. Italiano é assim, doido para agradar e receber bem. Você vai, come, bebe, elogia, conversa um pouco e vai embora. E depois convida para pagar a gentileza.
Na Itália? Fique com os vinhos. Deixe a cerveja para a intimidade de casa ou beba quando estiver sozinho.
Terra de sabores delicados, Piacenza produz embutidos (salames, copas, etc.), queijos e vinhos. Alguns são tão leves que precisam de uma certa experiência e insistência para serem apreciados. Só não consegui deixar-me convencer pelo vinho tinto frisante e de sabor muito suave, que é a tradição local. Só me satisfaço com um vinho com personalidade. E muita! Até o tortelli di zucca já consigo apreciar. Tortelli é qualquer tipo de massa com recheio (capeleti, ravioli, etc.), à exceção de lasanha, caneloni e gnocchi. Zucca é abóbora em italiano.
Aprendi que do boi só se perde o mugido. Nesta nossa experiência italiana descobri que o porco tem o mesmo valor. As patas são aproveitadas para fazer o zampone, embutindo-as com a carne que seria descartada, mantendo a aparência de uma pata crua, mas que deve ser cozida. Quem já comeu fiambrada conhece o sabor. Pernil? Nem pensar! Ele é a parte mais cara do animal. Serve para o presunto cru. Aliás, estamos nos habituando a dizer presunto quando nos referimos ao produto cru, como é a regra italiana. Cotecchino é uma outra forma de embutido que se come cozido e o sabor fica nas imediações do zampone com mais gordura, ambos consumidos nesta época do ano. Lardo é outra iguaria, ou a mais temível agressão aos níveis de colesterol. Trata-se simplesmente da capa de gordura externa do porco, preservada a pele, levemente salgada, condimentada e curtida em ambiente escuro. Come-se revirando os olhos, sobre uma foccacia ou fatia de pão e um bom copo de vinho tinto. A última curiosidade que consegui desvendar é como produzir briccioloni, que parecem lascas de pedra escura mas que na realidade são restos de carne e gordura prensadas, salgadas e fritas. O torresmo italiano. Os nutricionistas afirmam que uma porção de briccioloni e um copo de cerveja compõem um almoço completo. Eu adoro esses nutricionistas!
Esta é também a época em que os amigos, clientes, fornecedores e bajuladores trazem o vinho caseiro para ser degustado e aprovado. A regra é mais ou menos assim: se o produto precisa de aprovação, aprove-o. E depois cuspa. O sujeito chega com cinco garrafas? Hummm…! O “amigo” traz a garrafa e vai logo esclarecendo que a safra do ano passado não era tão boa como ele esperava e… Invente uma desculpa urgente e só volte à empresa no fim do dia, quando as outras vítimas já tiverem feito o trabalho sujo de virar a garrafa até o fim (no copo ou na pia).
Mas, às vezes, o vinho consegue demonstrar toda a sua superioridade sobre a cerveja. O grande momento do Natal italiano é o almoço do dia vinte e cinco. Em Piacenza a tradição nos oferece uma massa in brodo, que vem a ser um tortelli de carne sem sal, boiando em um caldo conseguido a partir da fervura de um pedaço de carne, um galo capão, uma cenoura inteira, uma cebola inteira, um talo de salsão e uma pitada de sal (que pode ser conseguido de forma mais saborosa com um simples cubinho de caldo Knor). No final deve-se comer também a carne usada no caldo. O sabor é idêntico a escaldado de peru ou salada de xuxu. Nestes momentos, a única salvação é a garrafa de vinho tinto que nos lembramos de levar. Depois, é cair no assado de porco com farofa e vinagrete, também nosso e que faz nossos anfitriões revirarem os olhos como num lardo di colonnata. E a cerveja estupidamente gelada.
Ciao.
Paz e saúde!
O fim do ano se aproxima, e junto com ele as festas, confraternizações, brindes, jantares… Um perigo à saúde e uma ameaça à balança.
Um amigo convidou-me para um almoço na sua casa de montanha. O local fica na província, o que significa que não é longe. Aliás, Bettola nem chega a ser na montanha, como imaginamos nós, com neve o ano inteiro e uma paisagem bucólica. É somente um dos muitos pontos altos desta terra de geografia acidentada. Porém, no inverno tem neve pra xuxu, um vegetal que não existe por aqui e que é difícil de explicar.
Pecorino com pimenta (queijo de leite de ovelha), presunto e salames de montanha, salada de fungos frescos, alcachofras cozidas e grelhadas e torta de gorgonzola. Como em qualquer filme italiano, tem sempre alguém que enche o meu prato e diz: “Come…!” Quando achei que tinha feito bonito, provando um pouco de cada coisa e que havia deixado um espaço para a sobremesa, lá vem a massa: ravioli de erbette, um vegetal que não existe por aí e que é difícil de explicar. A massa, na realidade, é para dar uma pausa no rodízio de sabores e preparar o espírito para o prato principal, polenta com javali. Depois doces, licor, café e muita conversa.
Tudo isso já não é uma maratona para mim. Afinal, estou treinando há cinco anos. A novidade é que não consegui convencer o meu amigo que o acompanharia com muito prazer na bebida escolhida, e não tive como recusar a cortesia que a sua preocupação me reservou. Não sabendo que cerveja iria me agradar, comprou vários tipos e colocou para gelar. Serviu-me na temperatura justa, que, para mim, significa estar perto do congelamento e procurou não deixar o meu copo abaixo da metade nem um minuto. A prova da cerveja também não chegou a ser uma dificuldade. Porém o italiano bebe vinho, o meu amigo é italiano e eles não admitem que você não prove o vinho deles. Pior: o meu amigo é um conhecedor de vinhos e faz questão de demonstrar. E fez questão que eu provasse todos. E eram muitos. Italiano é assim, doido para agradar e receber bem. Você vai, come, bebe, elogia, conversa um pouco e vai embora. E depois convida para pagar a gentileza.
Na Itália? Fique com os vinhos. Deixe a cerveja para a intimidade de casa ou beba quando estiver sozinho.
Terra de sabores delicados, Piacenza produz embutidos (salames, copas, etc.), queijos e vinhos. Alguns são tão leves que precisam de uma certa experiência e insistência para serem apreciados. Só não consegui deixar-me convencer pelo vinho tinto frisante e de sabor muito suave, que é a tradição local. Só me satisfaço com um vinho com personalidade. E muita! Até o tortelli di zucca já consigo apreciar. Tortelli é qualquer tipo de massa com recheio (capeleti, ravioli, etc.), à exceção de lasanha, caneloni e gnocchi. Zucca é abóbora em italiano.
Aprendi que do boi só se perde o mugido. Nesta nossa experiência italiana descobri que o porco tem o mesmo valor. As patas são aproveitadas para fazer o zampone, embutindo-as com a carne que seria descartada, mantendo a aparência de uma pata crua, mas que deve ser cozida. Quem já comeu fiambrada conhece o sabor. Pernil? Nem pensar! Ele é a parte mais cara do animal. Serve para o presunto cru. Aliás, estamos nos habituando a dizer presunto quando nos referimos ao produto cru, como é a regra italiana. Cotecchino é uma outra forma de embutido que se come cozido e o sabor fica nas imediações do zampone com mais gordura, ambos consumidos nesta época do ano. Lardo é outra iguaria, ou a mais temível agressão aos níveis de colesterol. Trata-se simplesmente da capa de gordura externa do porco, preservada a pele, levemente salgada, condimentada e curtida em ambiente escuro. Come-se revirando os olhos, sobre uma foccacia ou fatia de pão e um bom copo de vinho tinto. A última curiosidade que consegui desvendar é como produzir briccioloni, que parecem lascas de pedra escura mas que na realidade são restos de carne e gordura prensadas, salgadas e fritas. O torresmo italiano. Os nutricionistas afirmam que uma porção de briccioloni e um copo de cerveja compõem um almoço completo. Eu adoro esses nutricionistas!
Esta é também a época em que os amigos, clientes, fornecedores e bajuladores trazem o vinho caseiro para ser degustado e aprovado. A regra é mais ou menos assim: se o produto precisa de aprovação, aprove-o. E depois cuspa. O sujeito chega com cinco garrafas? Hummm…! O “amigo” traz a garrafa e vai logo esclarecendo que a safra do ano passado não era tão boa como ele esperava e… Invente uma desculpa urgente e só volte à empresa no fim do dia, quando as outras vítimas já tiverem feito o trabalho sujo de virar a garrafa até o fim (no copo ou na pia).
Mas, às vezes, o vinho consegue demonstrar toda a sua superioridade sobre a cerveja. O grande momento do Natal italiano é o almoço do dia vinte e cinco. Em Piacenza a tradição nos oferece uma massa in brodo, que vem a ser um tortelli de carne sem sal, boiando em um caldo conseguido a partir da fervura de um pedaço de carne, um galo capão, uma cenoura inteira, uma cebola inteira, um talo de salsão e uma pitada de sal (que pode ser conseguido de forma mais saborosa com um simples cubinho de caldo Knor). No final deve-se comer também a carne usada no caldo. O sabor é idêntico a escaldado de peru ou salada de xuxu. Nestes momentos, a única salvação é a garrafa de vinho tinto que nos lembramos de levar. Depois, é cair no assado de porco com farofa e vinagrete, também nosso e que faz nossos anfitriões revirarem os olhos como num lardo di colonnata. E a cerveja estupidamente gelada.
Ciao.
domingo, novembro 21, 2004
Luz d'Oeste
Caros e Caras,
Paz e saúde!
Outono. Essa é a estação dos mais belos pores-do-sol. Não que eu sofra da síndrome de Poliana, apenas gosto de aproveitar os momentos poéticos que a vida oferece de modo democrático e grátis. Pode parecer pieguice, mas sou capaz de parar em meio ao trânsito mais caótico, estacionar e admirar um pôr-do-sol que julgue especial. As cores e os efeitos cromáticos provocados nas nuvens me fascinam. Mas não o suficiente para descuidar-me da carteira.
Ainda garoto, gostava de ir à Pedra do Arpoador observar o pôr-do-sol. O Mexicano sempre me encontrava por lá para explicar a movimentação das ondas e ensinar técnicas de mergulho. Ele não era exatamente um experiente mergulhador, era até um ano mais jovem que eu, mas seu pai participava de campeonatos mergulhando dos mais altos rochedos do México. Com ele aprendi a identificar o momento justo de mergulhar da Pedra, quando o volume da onda provocava o aumento do nível d’água no ponto de contato, amenizando a entrada na água e diminuindo o risco de esfarelar-se nas pedras. Tudo aquilo era uma desculpa para ficarmos sentados observando o sol desaparecer aos poucos, colorindo o céu, as nuvens, a água, e os prédios. Nunca tínhamos mergulhado.
Segundo uma minha teoria, ainda a espera de ser comprovada, acredito que quanto mais velha é a sociedade, mais distante das coisas simples e da natureza ela será. Nós, no Brasil damos muita importância a coisas simples e gratuitas, como observar a lua, o pôr-do-sol, ou caminhar pela manhã somente pelo prazer. Percebo um certo pouco caso nos meus amigos italianos com qualquer coisa que não necessite de pagamento ou de fila. Além dos astrônomos, ninguém por aqui sabe quando é lua cheia ou minguante. E me olham com um ar condescendente se comento a beleza do dia ou do poente. Aqui é “tá chovendo” ou “tá fazendo so!”. E chega! Algumas propagandas até exploram esse lado frio do europeu. Numa propaganda do Mini, (aquele…) tinha um rapaz com cara de idiota que levava a namorada em um parque para observarem juntos o pôr-do-sol. Ela mostrava-se impaciente e levantava-se tão logo o sol se punha: “Acabou?” e caminhava decidida para o carro. O rapaz mantinha a cara de idiota, só que decepcionado, enquanto a garota dirigia o carro toda ontente.
Sempre preferi viver perto do mar, e quando isso não foi possível, sempre dava um jeito de viajar para a praia. Meu pai foi obrigado a providenciar autorização permanente de viagem para mim e meus irmãos, tão logo completávamos quatorze anos. Em São Paulo sabia de cor os horários de ônibus para o Rio. Viajar de carona era uma opção somente nos feriados prolongados ou nas férias. Na estrada vi muito pôr-do-sol inesquecível. Em Rio das Ostras, Ubatuba e Ilha Bela. Aliás, quando tínhamos casa em Ilha Bela, conhecia os melhores pontos para observar o pôr-do-sol em cada estação. Isso apesar dos borrachudos. Na Macaé de hoje deve ser mais arriscado sair para observar o que quer que seja, mas na pacata cidade do início dos anos setenta em que moravam meus avós (e onde metade da cidade eram primos meus, e a outra metade, tios), vi um dos mais belos poentes da minha vida.
Falar do pôr-do-sol do Farol da Barra, em Salvador, é um exercício auto-destrutivo para alguém tão distante como eu. O cheiro convidativo do acarajé, o burburinho da cidade que começa a despertar para a noite, a presença às vezes exagerada de casais, nada disso consegue interferir no êxtase solitário de observar o espetáculo, que termina sempre com uma vigorosa salva de palmas.
Apesar do gosto pelo mar e pelo clima quente de cidades como Rio e Salvador, devo confessar que o pôr-do-sol que mais me impressionou foi em São Paulo. Atravessava a passarela sobre a Rubem Berta, indo em direção ao aeroporto de Congonhas e parei (é uma passarela, não um viaduto. Eu estava a pé). Fiquei ali até que o céu começasse a recuperar um azul-escuro e as primeiras luzes se acenderam. Era outono de oitenta e um, oitenta e dois, e começava a fazer frio.
Nesse outono frio de Piacenza, voltava para casa quando, do alto do viaduto que atravessa a linha do trem, reencontrei o mesmo pôr-do-sol de vinte anos atrás. Para minha sorte o trânsito parou quando eu estava no ponto mais alto (é um viaduto, não uma passarela. Eu estava de carro). Durante curtíssimos dois minutos pude rever os mesmos tons de roxo, verde, amarelo, colorindo a silhueta escura da cidade. As únicas construções altas que se vêem daquele ponto são as torres das igrejas. E o excesso de cruzes me lembrou um passeio ao cemitério da Consolação, em São Paulo, para algumas fotos para o curso de fotografia.
O único problema com o pôr-do-sol não é o fato de ser efêmero, pois basta aguardar o dia seguinte que ele estará lá de novo. O verdadeiro problema, pra mim, é que me faz recordar de um daqueles pores-do-sol na Pedra do Arpoador. O último. O Mexicano, como fazia sempre, levantou-se e disse: “Olha, está vindo uma das grandes. Se eu pular você pula?” E eu, repetindo o ritual, levantei-me, observei a onda que se formava e se aproximava da rocha e respondi (como sempre): “Claro! Se você pular, eu pulo.” O filho-da-puta mergulhou como um profissional, como o pai dele. Antes que ele tocasse a água entendi que teria que mergulhar e que aquele era o momento. Mergulhei. Nadamos até a praia e o Mexicano dava gargalhadas enquanto fugia do jovem capoeirista enfurecido. E era outono.
Ciao.
Paz e saúde!
Outono. Essa é a estação dos mais belos pores-do-sol. Não que eu sofra da síndrome de Poliana, apenas gosto de aproveitar os momentos poéticos que a vida oferece de modo democrático e grátis. Pode parecer pieguice, mas sou capaz de parar em meio ao trânsito mais caótico, estacionar e admirar um pôr-do-sol que julgue especial. As cores e os efeitos cromáticos provocados nas nuvens me fascinam. Mas não o suficiente para descuidar-me da carteira.
Ainda garoto, gostava de ir à Pedra do Arpoador observar o pôr-do-sol. O Mexicano sempre me encontrava por lá para explicar a movimentação das ondas e ensinar técnicas de mergulho. Ele não era exatamente um experiente mergulhador, era até um ano mais jovem que eu, mas seu pai participava de campeonatos mergulhando dos mais altos rochedos do México. Com ele aprendi a identificar o momento justo de mergulhar da Pedra, quando o volume da onda provocava o aumento do nível d’água no ponto de contato, amenizando a entrada na água e diminuindo o risco de esfarelar-se nas pedras. Tudo aquilo era uma desculpa para ficarmos sentados observando o sol desaparecer aos poucos, colorindo o céu, as nuvens, a água, e os prédios. Nunca tínhamos mergulhado.
Segundo uma minha teoria, ainda a espera de ser comprovada, acredito que quanto mais velha é a sociedade, mais distante das coisas simples e da natureza ela será. Nós, no Brasil damos muita importância a coisas simples e gratuitas, como observar a lua, o pôr-do-sol, ou caminhar pela manhã somente pelo prazer. Percebo um certo pouco caso nos meus amigos italianos com qualquer coisa que não necessite de pagamento ou de fila. Além dos astrônomos, ninguém por aqui sabe quando é lua cheia ou minguante. E me olham com um ar condescendente se comento a beleza do dia ou do poente. Aqui é “tá chovendo” ou “tá fazendo so!”. E chega! Algumas propagandas até exploram esse lado frio do europeu. Numa propaganda do Mini, (aquele…) tinha um rapaz com cara de idiota que levava a namorada em um parque para observarem juntos o pôr-do-sol. Ela mostrava-se impaciente e levantava-se tão logo o sol se punha: “Acabou?” e caminhava decidida para o carro. O rapaz mantinha a cara de idiota, só que decepcionado, enquanto a garota dirigia o carro toda ontente.
Sempre preferi viver perto do mar, e quando isso não foi possível, sempre dava um jeito de viajar para a praia. Meu pai foi obrigado a providenciar autorização permanente de viagem para mim e meus irmãos, tão logo completávamos quatorze anos. Em São Paulo sabia de cor os horários de ônibus para o Rio. Viajar de carona era uma opção somente nos feriados prolongados ou nas férias. Na estrada vi muito pôr-do-sol inesquecível. Em Rio das Ostras, Ubatuba e Ilha Bela. Aliás, quando tínhamos casa em Ilha Bela, conhecia os melhores pontos para observar o pôr-do-sol em cada estação. Isso apesar dos borrachudos. Na Macaé de hoje deve ser mais arriscado sair para observar o que quer que seja, mas na pacata cidade do início dos anos setenta em que moravam meus avós (e onde metade da cidade eram primos meus, e a outra metade, tios), vi um dos mais belos poentes da minha vida.
Falar do pôr-do-sol do Farol da Barra, em Salvador, é um exercício auto-destrutivo para alguém tão distante como eu. O cheiro convidativo do acarajé, o burburinho da cidade que começa a despertar para a noite, a presença às vezes exagerada de casais, nada disso consegue interferir no êxtase solitário de observar o espetáculo, que termina sempre com uma vigorosa salva de palmas.
Apesar do gosto pelo mar e pelo clima quente de cidades como Rio e Salvador, devo confessar que o pôr-do-sol que mais me impressionou foi em São Paulo. Atravessava a passarela sobre a Rubem Berta, indo em direção ao aeroporto de Congonhas e parei (é uma passarela, não um viaduto. Eu estava a pé). Fiquei ali até que o céu começasse a recuperar um azul-escuro e as primeiras luzes se acenderam. Era outono de oitenta e um, oitenta e dois, e começava a fazer frio.
Nesse outono frio de Piacenza, voltava para casa quando, do alto do viaduto que atravessa a linha do trem, reencontrei o mesmo pôr-do-sol de vinte anos atrás. Para minha sorte o trânsito parou quando eu estava no ponto mais alto (é um viaduto, não uma passarela. Eu estava de carro). Durante curtíssimos dois minutos pude rever os mesmos tons de roxo, verde, amarelo, colorindo a silhueta escura da cidade. As únicas construções altas que se vêem daquele ponto são as torres das igrejas. E o excesso de cruzes me lembrou um passeio ao cemitério da Consolação, em São Paulo, para algumas fotos para o curso de fotografia.
O único problema com o pôr-do-sol não é o fato de ser efêmero, pois basta aguardar o dia seguinte que ele estará lá de novo. O verdadeiro problema, pra mim, é que me faz recordar de um daqueles pores-do-sol na Pedra do Arpoador. O último. O Mexicano, como fazia sempre, levantou-se e disse: “Olha, está vindo uma das grandes. Se eu pular você pula?” E eu, repetindo o ritual, levantei-me, observei a onda que se formava e se aproximava da rocha e respondi (como sempre): “Claro! Se você pular, eu pulo.” O filho-da-puta mergulhou como um profissional, como o pai dele. Antes que ele tocasse a água entendi que teria que mergulhar e que aquele era o momento. Mergulhei. Nadamos até a praia e o Mexicano dava gargalhadas enquanto fugia do jovem capoeirista enfurecido. E era outono.
Ciao.
quarta-feira, novembro 17, 2004
Macarrão à Mediterrânea
Caros e Caras,
Paz e saúde!
Selecione e corte em cubinhos uma abobrinha, duas batas médias, o talo de uma folha de salsão e uma cenoura.
Gianni Agnelli se chamava Giovanni, que é como o nosso João e como o Papa. Ele era isso: uma espécie de papa. O Papa da Itália. Neto do fundador da Fiat, viveu empenhado em elevar a empresa da família à condição de potência internacional, além de ter sido um incentivador e grande responsável pela modernização da Itália.
Corte em porções pequenas um pedaço de couve-flor, um pedaço de brócoli e um pouco de vagem.
Por medo ou por respeito, a verdade é que ninguém tinha coragem de falar mal dele em público. Era uma pessoa de pulso forte. Capaz de manobrar legisladores e governantes para moldar as leis segundo suas vontades ou necessidades. Não se vangloriava disso, mas também não escondia tal realidade.
Ferva tudo com água e sal, separadamente. Adicione um pouco de grão-de-bico e feijão previamente cozidos.
Presidente de honra da Fiat, comandava o grande império que se formou a partir da fábrica de automóveis. Na verdade, a empresa andava mal, vítima da pouca atenção que dera nos últimos anos à modernização dos produtos num mercado tão competitivo. Presidente da Juventus e amante dos esportes, tinha um lugar especial entre os seus mimos para a Ferrari.
Se preferir e encontrar, utilize uma minestra de verduras congelada. Mas, atenção: os legumes devem ficar ligeiramente duros, sem cozinhar demais. Caso sejam congelados, verifique se são pré-cozidos. Se forem, não precisa ferver mais.
Advogado, Senador vitalício e empresário de sucesso. Temido, amado e odiado. Usava o relógio por cima da manga da camisa e tinha uma coleção de frases de efeito, piadas e ironias que disparava à queima-roupa. Quando o jogador Zidane saiu da Juventus para ir jogar no Real Madrid, da Espanha, um repórter perguntou-lhe o que ele teria achado do transferimento, apesar do bom relacionamento do clube com o jogador e do amor declarado da torcida. Ele respondeu sem pestanejar: “a passagem do Zidane pela Juve, foi mais divertida que útil!”
Cozinhe com água, um fio de azeite e sal, meio quilo de espaguete fino. Quando estiver pronto, escorra e coloque imediatamente em uma frigideira grande com uma colher de manteiga já derretida. Deixe a massa “al dente”.
Um grande temor se abateu sobre o mercado e sobre o futuro da Fiat. Muitos acreditavam que com a morte de Agnelli, a empresa não teria o mesmo poder nem a mesma serenidade para negociar o próprio destino com credores e acionistas. Há quem acreditasse exatamente no oposto. Milhares de funcionários das diversas fábricas da empresa estão na Caixa de Integração, que é um fundo do governo para sustentar grandes demissões. O que só aumenta a indignação dos que acreditam que a Itália fez mais por Agnelli do que ele teria feito pelo país: “Somos nós quem pagamos a caixa de integração da Fiat!”.
Junte os outros ingredientes e adicione um tomate sem sementes, cortado em cubinhos, umas folhas de manjericão e uma lata de atum sem o óleo.
Muitas pessoas preferem ter um carro de outra marca. “Para não dar dinheiro aos Agnelli”.
Aparecia pouco, o velho. Era um que se via pouco. À exceção das partidas da sua Juventus no Estádio Delle Alpi em Turim e das visitas ao box da Ferrari, nas corridas de Fórmula 1 espalhadas pelo mundo. No fim de 2002, fez uma viagem inesperada aos Estados Unidos para tratar a saúde. Aparecia cada vez menos.
Misture tudo, mexendo a frigideira como quem faz uma panqueca, para não despedaçar os legumes.
Assim como o Maracanã, as drogas, o Carnaval decadente e as praias são características fundamentais da cidade do Rio de Janeiro, a Fiat é a característica principal da cidade de Turim. A possibilidade de a cidade perder a empresa, soa como se Paris corresse o risco de perder a sua torre.
Macarrão e legumes ao dente demoram mais para serem digeridos, mantendo a sensação de saciedade por mais tempo.
Há quem, servindo-se da ironia do Advogado, pergunte: “E agora? O que irá acontecer com as leis que ele fez aprovar?”
Lembrando do Antônio Carlos Magalhães (ACM, para nós baianos), do desenvolvimento frenético da Bahia na época em que ele comandava parte do poder no Brasil e da fama dele como “Malvadeza”, não posso deixar de compará-lo ao Agnelli. São sentimentos contraditórios que se percebem quando falam deles: Foi terrível, porém útil (ou como o “imposto” do FHC: “se fosse voluntário ninguém tinha que pagar. Por isso que se chama IMPOSTO. Assim, todo mundo paga”). Mesmo entre os críticos mais ácidos todos concordam que a Itália perdeu o seu melhor advogado. Está fazendo falta, o velho.
Sirva ainda quente com queijo ralado, para quatro pessoas. Bom apetite!
Ciao.
Paz e saúde!
Selecione e corte em cubinhos uma abobrinha, duas batas médias, o talo de uma folha de salsão e uma cenoura.
Gianni Agnelli se chamava Giovanni, que é como o nosso João e como o Papa. Ele era isso: uma espécie de papa. O Papa da Itália. Neto do fundador da Fiat, viveu empenhado em elevar a empresa da família à condição de potência internacional, além de ter sido um incentivador e grande responsável pela modernização da Itália.
Corte em porções pequenas um pedaço de couve-flor, um pedaço de brócoli e um pouco de vagem.
Por medo ou por respeito, a verdade é que ninguém tinha coragem de falar mal dele em público. Era uma pessoa de pulso forte. Capaz de manobrar legisladores e governantes para moldar as leis segundo suas vontades ou necessidades. Não se vangloriava disso, mas também não escondia tal realidade.
Ferva tudo com água e sal, separadamente. Adicione um pouco de grão-de-bico e feijão previamente cozidos.
Presidente de honra da Fiat, comandava o grande império que se formou a partir da fábrica de automóveis. Na verdade, a empresa andava mal, vítima da pouca atenção que dera nos últimos anos à modernização dos produtos num mercado tão competitivo. Presidente da Juventus e amante dos esportes, tinha um lugar especial entre os seus mimos para a Ferrari.
Se preferir e encontrar, utilize uma minestra de verduras congelada. Mas, atenção: os legumes devem ficar ligeiramente duros, sem cozinhar demais. Caso sejam congelados, verifique se são pré-cozidos. Se forem, não precisa ferver mais.
Advogado, Senador vitalício e empresário de sucesso. Temido, amado e odiado. Usava o relógio por cima da manga da camisa e tinha uma coleção de frases de efeito, piadas e ironias que disparava à queima-roupa. Quando o jogador Zidane saiu da Juventus para ir jogar no Real Madrid, da Espanha, um repórter perguntou-lhe o que ele teria achado do transferimento, apesar do bom relacionamento do clube com o jogador e do amor declarado da torcida. Ele respondeu sem pestanejar: “a passagem do Zidane pela Juve, foi mais divertida que útil!”
Cozinhe com água, um fio de azeite e sal, meio quilo de espaguete fino. Quando estiver pronto, escorra e coloque imediatamente em uma frigideira grande com uma colher de manteiga já derretida. Deixe a massa “al dente”.
Um grande temor se abateu sobre o mercado e sobre o futuro da Fiat. Muitos acreditavam que com a morte de Agnelli, a empresa não teria o mesmo poder nem a mesma serenidade para negociar o próprio destino com credores e acionistas. Há quem acreditasse exatamente no oposto. Milhares de funcionários das diversas fábricas da empresa estão na Caixa de Integração, que é um fundo do governo para sustentar grandes demissões. O que só aumenta a indignação dos que acreditam que a Itália fez mais por Agnelli do que ele teria feito pelo país: “Somos nós quem pagamos a caixa de integração da Fiat!”.
Junte os outros ingredientes e adicione um tomate sem sementes, cortado em cubinhos, umas folhas de manjericão e uma lata de atum sem o óleo.
Muitas pessoas preferem ter um carro de outra marca. “Para não dar dinheiro aos Agnelli”.
Aparecia pouco, o velho. Era um que se via pouco. À exceção das partidas da sua Juventus no Estádio Delle Alpi em Turim e das visitas ao box da Ferrari, nas corridas de Fórmula 1 espalhadas pelo mundo. No fim de 2002, fez uma viagem inesperada aos Estados Unidos para tratar a saúde. Aparecia cada vez menos.
Misture tudo, mexendo a frigideira como quem faz uma panqueca, para não despedaçar os legumes.
Assim como o Maracanã, as drogas, o Carnaval decadente e as praias são características fundamentais da cidade do Rio de Janeiro, a Fiat é a característica principal da cidade de Turim. A possibilidade de a cidade perder a empresa, soa como se Paris corresse o risco de perder a sua torre.
Macarrão e legumes ao dente demoram mais para serem digeridos, mantendo a sensação de saciedade por mais tempo.
Há quem, servindo-se da ironia do Advogado, pergunte: “E agora? O que irá acontecer com as leis que ele fez aprovar?”
Lembrando do Antônio Carlos Magalhães (ACM, para nós baianos), do desenvolvimento frenético da Bahia na época em que ele comandava parte do poder no Brasil e da fama dele como “Malvadeza”, não posso deixar de compará-lo ao Agnelli. São sentimentos contraditórios que se percebem quando falam deles: Foi terrível, porém útil (ou como o “imposto” do FHC: “se fosse voluntário ninguém tinha que pagar. Por isso que se chama IMPOSTO. Assim, todo mundo paga”). Mesmo entre os críticos mais ácidos todos concordam que a Itália perdeu o seu melhor advogado. Está fazendo falta, o velho.
Sirva ainda quente com queijo ralado, para quatro pessoas. Bom apetite!
Ciao.
quinta-feira, novembro 11, 2004
Notícias De Um Outono Que Passou
Caros e Caras,
Paz e saúde!
A professora ensina a não chutar os montes de folhas que se formam pelas calçadas, no outono. Eles podem servir de ninho para quatis e outros roedores noturnos que se mudaram para as cidades. A caminho da escola, nenhum monte de folhas sobrevive à diversão predileta da garotada nesse período: chutá-los. É o início do outono italiano e as árvores ficam vermelhas. Depois marrons. Depois nuas, no inverno. E dormem letárgicas até a primavera.
O Etna se agitou um pouco mais que o habitual há três anos e foi notícia. De repente, explodiu e deu espetáculo. No dia seguinte, terremotos ao seu redor fizeram os especialistas declararem que os dois eventos não tinham relação entre si. Outra erupção seguida de mais terremotos. Os especialistas insistiram: não tem nada a ver. Os habitantes e a gente mais velha declararam que eram os especialistas que não tinham nada a ver. Esperava-se que o vulcão se fizesse vivo outra vez, mas ele voltou ao seu sono profundo, roncando e ameaçando, mas manso como um bebê no berço.
Pelas ruas, as pessoas já mudaram o guarda-roupa: no lugar das roupas claras e leves, jaquetas em meios-tons ajudam a mudar o clima interno da gente nos bares, que toma o café de forma sóbria e sombria. A alegria continua somente nas faces dos imigrantes com sotaques variados. É uma gente alegre, mas não feliz.
As notícias de guerra fizeram estremecer com a idéia de que estamos no meio do caminho entre o Oriente Médio e os EUA. O primeiro-ministro italiano reafirmava a necessidade da Europa apoiar incondicionalmente a “pacificação” do Iraque. Os no-global - preferem new global - acham que o primeiro-ministro não tem nada a ver.
Um cheiro de castanha assada (cald’arroste) invade as curtas tardes de sol e ouve-se a notícia de que a neve já está caindo nas cidades acima dos mil metros, além do frio presenteado pelo vento batizado com o nome da sua origem: Vento da Sibéria.
Há três anos, as cinzas do Etna alcançaram a Síria, como troco pela areia do Saara que chega a atingir Roma no verão (além dos laranjais na Califórnia) e a polícia aproveitava para apertar o cerco nas informações sobre os muçulmanos residentes na Itália, sem fazer alarde. Havia terminado o prazo para a regularização dos imigrantes clandestinos. A sanatória servia somente para aqueles que trabalham como domésticos. A quantidade de estivadores declarados como babás foi hilariante. Hoje, tudo parece ter voltado a ser como antes, diante da pressão por mais mão-de-obra barata, como alternativa para reduzir os custos das empresas italianas e manter a competitividade e o crescimento.
“O futebol mais bonito do mundo” (sic) fazia mais notícia pelo que acontece fora do campo que dentro. E dividia os noticiários com as matérias sobre os terremotos, deixando a crônica policial em segundo plano. Os desembarques semanais de clandestinos já nem eram noticiados.
Os herdeiros do trono da Itália, exilados na Suiça às custas do governo, receberam permissão para tornar à terra natal. Declararam que gostariam de ser tratados como cidadãos comuns, mas foram flagrados exigindo avião, carro e escolta oficial. Negaram tudo.
Do outro lado do oceano, Bush acendia o pavio do barril de pólvora que é a Europa. As pessoas se controlavam com o canto dos olhos pelas ruas. Os muçulmanos pediam respeito e tentavam, em vão, esclarecer que a religião deles não é sinônimo de fanatismo. Um prefeito de uma cidade italiana dizia que “a migração desse povo deve ser proibida, sob risco de se perder a pureza de uma raça.” Explicou que a Igreja ocidental é a única verdade que pode unir os povos, esquecendo-se da origem comum dos fundadores e dos Messias dessa e da outra igreja.
No verão o vento da Africa. No inverno, aquele da Sibéria. Durante todo o ano, desembarque de clandestinos no litoral. Africanos e europeus pobres. Os estivadores árabes são como os quatis, mas também não perdoam um monte de folhas. A Europa tornou-se um eterno terremoto e se prepara – há tempos! – para entrar em erupção, enquanto a maioria das pessoas acha que simpatizar com os no-global é suficiente. Letárgicos como as árvores no inverno.
E eu acho que o Bush por mais quatro anos não tem nada a ver.
Ciao.
Paz e saúde!
A professora ensina a não chutar os montes de folhas que se formam pelas calçadas, no outono. Eles podem servir de ninho para quatis e outros roedores noturnos que se mudaram para as cidades. A caminho da escola, nenhum monte de folhas sobrevive à diversão predileta da garotada nesse período: chutá-los. É o início do outono italiano e as árvores ficam vermelhas. Depois marrons. Depois nuas, no inverno. E dormem letárgicas até a primavera.
O Etna se agitou um pouco mais que o habitual há três anos e foi notícia. De repente, explodiu e deu espetáculo. No dia seguinte, terremotos ao seu redor fizeram os especialistas declararem que os dois eventos não tinham relação entre si. Outra erupção seguida de mais terremotos. Os especialistas insistiram: não tem nada a ver. Os habitantes e a gente mais velha declararam que eram os especialistas que não tinham nada a ver. Esperava-se que o vulcão se fizesse vivo outra vez, mas ele voltou ao seu sono profundo, roncando e ameaçando, mas manso como um bebê no berço.
Pelas ruas, as pessoas já mudaram o guarda-roupa: no lugar das roupas claras e leves, jaquetas em meios-tons ajudam a mudar o clima interno da gente nos bares, que toma o café de forma sóbria e sombria. A alegria continua somente nas faces dos imigrantes com sotaques variados. É uma gente alegre, mas não feliz.
As notícias de guerra fizeram estremecer com a idéia de que estamos no meio do caminho entre o Oriente Médio e os EUA. O primeiro-ministro italiano reafirmava a necessidade da Europa apoiar incondicionalmente a “pacificação” do Iraque. Os no-global - preferem new global - acham que o primeiro-ministro não tem nada a ver.
Um cheiro de castanha assada (cald’arroste) invade as curtas tardes de sol e ouve-se a notícia de que a neve já está caindo nas cidades acima dos mil metros, além do frio presenteado pelo vento batizado com o nome da sua origem: Vento da Sibéria.
Há três anos, as cinzas do Etna alcançaram a Síria, como troco pela areia do Saara que chega a atingir Roma no verão (além dos laranjais na Califórnia) e a polícia aproveitava para apertar o cerco nas informações sobre os muçulmanos residentes na Itália, sem fazer alarde. Havia terminado o prazo para a regularização dos imigrantes clandestinos. A sanatória servia somente para aqueles que trabalham como domésticos. A quantidade de estivadores declarados como babás foi hilariante. Hoje, tudo parece ter voltado a ser como antes, diante da pressão por mais mão-de-obra barata, como alternativa para reduzir os custos das empresas italianas e manter a competitividade e o crescimento.
“O futebol mais bonito do mundo” (sic) fazia mais notícia pelo que acontece fora do campo que dentro. E dividia os noticiários com as matérias sobre os terremotos, deixando a crônica policial em segundo plano. Os desembarques semanais de clandestinos já nem eram noticiados.
Os herdeiros do trono da Itália, exilados na Suiça às custas do governo, receberam permissão para tornar à terra natal. Declararam que gostariam de ser tratados como cidadãos comuns, mas foram flagrados exigindo avião, carro e escolta oficial. Negaram tudo.
Do outro lado do oceano, Bush acendia o pavio do barril de pólvora que é a Europa. As pessoas se controlavam com o canto dos olhos pelas ruas. Os muçulmanos pediam respeito e tentavam, em vão, esclarecer que a religião deles não é sinônimo de fanatismo. Um prefeito de uma cidade italiana dizia que “a migração desse povo deve ser proibida, sob risco de se perder a pureza de uma raça.” Explicou que a Igreja ocidental é a única verdade que pode unir os povos, esquecendo-se da origem comum dos fundadores e dos Messias dessa e da outra igreja.
No verão o vento da Africa. No inverno, aquele da Sibéria. Durante todo o ano, desembarque de clandestinos no litoral. Africanos e europeus pobres. Os estivadores árabes são como os quatis, mas também não perdoam um monte de folhas. A Europa tornou-se um eterno terremoto e se prepara – há tempos! – para entrar em erupção, enquanto a maioria das pessoas acha que simpatizar com os no-global é suficiente. Letárgicos como as árvores no inverno.
E eu acho que o Bush por mais quatro anos não tem nada a ver.
Ciao.
domingo, novembro 07, 2004
Essa Tal Tecnologia
Caros e Caras,
Paz e saúde!
Numa troca de e-mails com o Rafael, citei o livro “Zen e a Arte de Manutenção de Motocicletas”, do Robert M. Pirsig. Um daqueles livros que passavam de mão em mão na minha adolescência. Nele, alguns personagens se precaviam: “Ele sabe lidar com aquilo…”. “Aquilo” era a tecnologia da época. O livro vale apenas por essa citação. Se você não o leu, não perca tempo. Mas pode presenteá-lo ao seu sobrinho.
Às vezes me identifico com aqueles personagens, avaliando o quanto nos distanciamos da palavra animal para sermos cada vez mais próximos da outra: racional. Não, não será um papo natureba, incentivando a andar nus e a só comer verduras cruas. É mais um cair de ombros impotente. Além da constatação da minha dificuldade em lidar com tudo que tenha mais de seis botões (play, ff, rwd, stop, eject e on-off) ou possua conceitos abstratos. Tenho plena capacidade de compreender e avaliar conceitos concretos: um prato de feijoada é um prato de feijoada! Corolário: em dez minutos será um prato vazio. Taí um conceito do qual me orgulho em compreender como poucos! O curioso é que decidi estudar Economia, argumento abstrato que sempre me fascinou.
A Província de Milão espalhou milhares de câmeras em locais sob risco. Semáforos, bancos, consulados, prédios públicos e mais um monte de outros pontos de vigilância observando vinte e quatro horas por dia. Quem os controla? Como se não bastasse a sensação no cangote de estar sendo observado, a moda esquizofrênica big-brothiana foi parar no satélite: a partir do próximo ano, a mesma província estará medindo o volume de tráfego em tempo real, através da movimentação dos celulares. Mesmo os celulares desligados são captados e servirão para informar o fluxo de veículos em qualquer horário. Informações que serão fornecidas aos próprios usuários por preços realmente módicos. Então, tá!
Na versão italiana da revista Sport Week da semana passada, o esquiador Emilio Previtali dá algumas informações sobre o seu projeto de descer o Himalaia em snowboard. Com uma pequena mochila para acomodar alguns apetrechos tecnológicos que possibilitarão transmitir trechos da descida, espera atrair os tão necessários patrocinadores. Prancha de snowboard leve (menos de um quilo) e adaptada a qualquer tipo de neve; corda de kevlar de sete milímetros de diâmetro; Arva system, um instrumento que permite localizá-lo caso seja soterrado por alguma avalanche; telefone celular satelitário, com conexão a 19.6 bps; palm top para gerenciar a navegação via web e para descarregar imagens e vídeos; máquina fotográfica digital de 5 megapixel, capaz de registrar não somente fotos, mas filmes e voz. Tudo isso interligado para possibilitar transmissões ao vivo, com alimentação através de um painel solar e pesando menos de um quilo. Não sei se a aventura me impressiona mais que o equipamento.
Depois dos localizadores para automóveis, que permitem acompanhar a movimentação de caminhões, mas que não impedem o furto de cargas, chegou o tempo de localizadores de pessoas, com micro chips implantados sob a pele. Mas esses também são incapazes de livrar seus portadores da violência. No país da pizza margherita são os cães que utilizam micro chips implantados sob a pele, com um código de barras (outra tecnologia enraizada no nosso quotidiano) contendo todas as informações sobre a origem e propriedade do animal. O que também não evita que eles sejam abandonados pelos seus donos no início do verão. Outro micro chip: o que transmite sinais nervosos diretamente do cérebro e permite a paraplégicos pequenas ações, numa espécie de telepatia on-line, tecnologia weireless. Um amigo perguntou se poderá substituir o viagra.
Todas as grandes lojas distribuem cartões fidelidade, que oferecem descontos e ofertas exclusivas. Não somente para estimular o consumidor a concentrar suas compras, mas, também, para montar o perfil padrão da clientela e enviar malas diretas, além de vender os dados cadastrais a terceiros. Um maluco da cidade (dizem que é maluco, eu ainda estou na fase de observação) vive sem dados: Tem um trailler de sanduíches e atende pelo apelido de “Beppe”. Não possui telefone, conta em banco nem cartão de crédito. Só paga em dinheiro e olha atentamente antes de tocar um produto no supermercado: tem medo de deixar suas impressões digitais ou gotas de suor, que podem fornecer seu DNA. Compra todos os produtos que toca. Trabalha de luvas. Sempre.
O engenheiro eletrônico norte-americano Mitch Altman inventou um objeto interessante que ele batizou de “TV-B-Gone”. Na realidade é um controle-remoto capaz de desligar todos os televisores nas proximidades em, no máximo, sessenta e nove segundos. Altman afirma que “uma televisão ligada em local público é como o fumo passivo”. A engenhoca é pequena como um chaveiro e possui um único botão. Segundo o inventor, ninguém – até o momento – teria se lamentado das tvs desligadas. Por quinze dólares o brinquedinho pode ser adquirido pela internet. Descubram como e me mandem um de presente. Esse é fácil de usar.
Não bastasse a tecnologia invadir e facilitar nossas vidas, privando-nos de descobertas e curiosidades simples, transformando-nos em seres capazes de desenvolver obesidade mental, agora a tecnologia revolta-se contra ela mesma. A guerra entre robôs começou antes mesmo daquela entre máquinas e homens. Por via das dúvidas, vou desencaixotar minha Lettera 22.
Ciao.
Paz e saúde!
Numa troca de e-mails com o Rafael, citei o livro “Zen e a Arte de Manutenção de Motocicletas”, do Robert M. Pirsig. Um daqueles livros que passavam de mão em mão na minha adolescência. Nele, alguns personagens se precaviam: “Ele sabe lidar com aquilo…”. “Aquilo” era a tecnologia da época. O livro vale apenas por essa citação. Se você não o leu, não perca tempo. Mas pode presenteá-lo ao seu sobrinho.
Às vezes me identifico com aqueles personagens, avaliando o quanto nos distanciamos da palavra animal para sermos cada vez mais próximos da outra: racional. Não, não será um papo natureba, incentivando a andar nus e a só comer verduras cruas. É mais um cair de ombros impotente. Além da constatação da minha dificuldade em lidar com tudo que tenha mais de seis botões (play, ff, rwd, stop, eject e on-off) ou possua conceitos abstratos. Tenho plena capacidade de compreender e avaliar conceitos concretos: um prato de feijoada é um prato de feijoada! Corolário: em dez minutos será um prato vazio. Taí um conceito do qual me orgulho em compreender como poucos! O curioso é que decidi estudar Economia, argumento abstrato que sempre me fascinou.
A Província de Milão espalhou milhares de câmeras em locais sob risco. Semáforos, bancos, consulados, prédios públicos e mais um monte de outros pontos de vigilância observando vinte e quatro horas por dia. Quem os controla? Como se não bastasse a sensação no cangote de estar sendo observado, a moda esquizofrênica big-brothiana foi parar no satélite: a partir do próximo ano, a mesma província estará medindo o volume de tráfego em tempo real, através da movimentação dos celulares. Mesmo os celulares desligados são captados e servirão para informar o fluxo de veículos em qualquer horário. Informações que serão fornecidas aos próprios usuários por preços realmente módicos. Então, tá!
Na versão italiana da revista Sport Week da semana passada, o esquiador Emilio Previtali dá algumas informações sobre o seu projeto de descer o Himalaia em snowboard. Com uma pequena mochila para acomodar alguns apetrechos tecnológicos que possibilitarão transmitir trechos da descida, espera atrair os tão necessários patrocinadores. Prancha de snowboard leve (menos de um quilo) e adaptada a qualquer tipo de neve; corda de kevlar de sete milímetros de diâmetro; Arva system, um instrumento que permite localizá-lo caso seja soterrado por alguma avalanche; telefone celular satelitário, com conexão a 19.6 bps; palm top para gerenciar a navegação via web e para descarregar imagens e vídeos; máquina fotográfica digital de 5 megapixel, capaz de registrar não somente fotos, mas filmes e voz. Tudo isso interligado para possibilitar transmissões ao vivo, com alimentação através de um painel solar e pesando menos de um quilo. Não sei se a aventura me impressiona mais que o equipamento.
Depois dos localizadores para automóveis, que permitem acompanhar a movimentação de caminhões, mas que não impedem o furto de cargas, chegou o tempo de localizadores de pessoas, com micro chips implantados sob a pele. Mas esses também são incapazes de livrar seus portadores da violência. No país da pizza margherita são os cães que utilizam micro chips implantados sob a pele, com um código de barras (outra tecnologia enraizada no nosso quotidiano) contendo todas as informações sobre a origem e propriedade do animal. O que também não evita que eles sejam abandonados pelos seus donos no início do verão. Outro micro chip: o que transmite sinais nervosos diretamente do cérebro e permite a paraplégicos pequenas ações, numa espécie de telepatia on-line, tecnologia weireless. Um amigo perguntou se poderá substituir o viagra.
Todas as grandes lojas distribuem cartões fidelidade, que oferecem descontos e ofertas exclusivas. Não somente para estimular o consumidor a concentrar suas compras, mas, também, para montar o perfil padrão da clientela e enviar malas diretas, além de vender os dados cadastrais a terceiros. Um maluco da cidade (dizem que é maluco, eu ainda estou na fase de observação) vive sem dados: Tem um trailler de sanduíches e atende pelo apelido de “Beppe”. Não possui telefone, conta em banco nem cartão de crédito. Só paga em dinheiro e olha atentamente antes de tocar um produto no supermercado: tem medo de deixar suas impressões digitais ou gotas de suor, que podem fornecer seu DNA. Compra todos os produtos que toca. Trabalha de luvas. Sempre.
O engenheiro eletrônico norte-americano Mitch Altman inventou um objeto interessante que ele batizou de “TV-B-Gone”. Na realidade é um controle-remoto capaz de desligar todos os televisores nas proximidades em, no máximo, sessenta e nove segundos. Altman afirma que “uma televisão ligada em local público é como o fumo passivo”. A engenhoca é pequena como um chaveiro e possui um único botão. Segundo o inventor, ninguém – até o momento – teria se lamentado das tvs desligadas. Por quinze dólares o brinquedinho pode ser adquirido pela internet. Descubram como e me mandem um de presente. Esse é fácil de usar.
Não bastasse a tecnologia invadir e facilitar nossas vidas, privando-nos de descobertas e curiosidades simples, transformando-nos em seres capazes de desenvolver obesidade mental, agora a tecnologia revolta-se contra ela mesma. A guerra entre robôs começou antes mesmo daquela entre máquinas e homens. Por via das dúvidas, vou desencaixotar minha Lettera 22.
Ciao.
terça-feira, novembro 02, 2004
Abobrinhas
Caros e Caras,
Paz e saúde!
Poucas coisas caracterizam tão bem a região em que moramos como a abobrinha. Ela está presente em todas as casas e em quase todas as ocasiões do quotidiano no Centro-norte italiano. Mas não nos dias de festa. Por ser considerada popular, de baixo preço, não é utilizada nas ocasiões solenes. Mesmo nas pouco solenes. O destino da abobrinha está relegado à intimidade das casas, sem pompas ou circunstâncias.
Na maioria das vezes vem misturada a massas, acompanhada de outras verduras ou sozinha, comandando os hábitos de um batalhão de famintos na hora do almoço, que podem voltar para casa almoçar. Mas não espere encontrá-la nos restaurantes ou mesmo bandejões espalhados nas zonas industriais. É, definitivamente, um vegetal a ser consumido às escondidas. Seu uso não se restringe ao tradicional prato de macarrão com abobrinha, sendo servida também como acompanhamento de um prato de carne ou como prato principal. A regra será sempre a mesma: jamais estará desmanchando ou cozida além do ponto. Estará sempre crocante, quase crua. E para quem ainda estranha essa história de massa com legumes, informo que na Itália até se come o tradicional sugo à bolonhesa, mas fazer disso uma regra está longe dos costumes locais.
A receita de massa com abobrinha ofereci em uma outra ocasião, mas não custa lembrar que não há nada de difícil ou especial na receita. Apenas cortar em cubinhos (ou o mais próximo disso) e deixar refogar ligeiramente em uma frigideira com azeite e sal, fazendo-a “saltar” com um movimento da frigideira. A massa deve ser adicionada após escorrida, misturada sem mexer (fazendo-a saltar, ora essa!) e servida em seguida. O mesmo tipo de cozimento é utilizado caso se decida servi-la como acompanhamento de um prato de carne.
A abobrinha italiana é colhida antes do tempo e é de uma variedade diferente daquela brasileira. Deve ser pequena, verde escura e de um sabor delicado. Para demonstrar seu frescor, pode ser encontrada em algumas quitandas ainda com a flor. Encontrar somente a flor é uma outra curiosidade, pois a flor se come, assim como folhas de sálvia. Eis a receita, que serve mais como curiosidade, pois fritar produtos de sabores delicados é como sanduíche com katchup: tem tudo o mesmo sabor.
Flor de abobrinha frita
Prepare no liqüidificador uma receita de creme para empanar (leite, ovo, sal e farinha).
Aqueça uma frigideira com óleo em abundância (fritadeira elétrica é melhor!).
Mergulhe a flor de abobrinha no creme e frite-as uma a uma.
Sirva como entrada ou acompanhamento.
Com a chegada do frio, que, na realidade, só ameaçou e está deixando de cabelo em pé os proprietários das estações de esqui, inicia-se a temporada de alimentos mais pesados, gordurosos. A opção de hoje no nosso programa especial de feriado (o feriado aqui é no dia primeiro de novembro) aconselha um prato típico de montanha, ou, na falta delas, das colinas piacentinas. Ideal se acompanhada de um bom vinho tinto, mas de sabor delicado, como um Barbera D’Oltre Po Pavese, um vinho DOC - Denominazione D’Origine Controlata - que mistura aromas de flores silvestres e um sabor ligeiramente frutado (sugestão de um amigo enólogo).
Abobrinhas ao forno
Corte as abobrinhas na metade, em sentido longitudinal (de comprido mesmo!).
Retire delicadamente parte do miolo, em toda a extensão e reserve.
Coloque as metades de abobrinhas em uma forma ou pirex.
Recheie-as com pedaços pequenos e finos de bacon e cubinhos de mozzarella de búfala (ou mozzarella normal, se preferir mais seca).
Cubra com a parte da abobrinha reservada.
Não use palitos para evitar que o líquido que se forma escorra pelos furos.
Leve ao forno pré-aquecido à temperatura de cento e oitenta graus e deixe até dourar.
Sirva como segundo prato, após um risoto ou uma massa de sabor suave.
Não convide minhas filhas, ou faça uma porção reforçada: elas adoram!
Existe, ainda, uma variedade de abobrinha redonda como uma bola de ténis. É ideal para fazer ao forno, mas eu prefiro as longas mesmo. Cozinham de modo mais uniforme e são mais fáceis de cortar, quando no prato. A sugestão acima pode se aproveitada com outros vegetais, como pimentão, por exemplo. A sobremesa ideal é pêra cozida, mas deve ser pêra do tipo Kaiser, cozida (sem açucar, sem nada) em pé por duas horas, com o forno à temperatura de duzentos graus.
Comam!
E deixem de pensar abobrinhas.
Ciao.
Paz e saúde!
Poucas coisas caracterizam tão bem a região em que moramos como a abobrinha. Ela está presente em todas as casas e em quase todas as ocasiões do quotidiano no Centro-norte italiano. Mas não nos dias de festa. Por ser considerada popular, de baixo preço, não é utilizada nas ocasiões solenes. Mesmo nas pouco solenes. O destino da abobrinha está relegado à intimidade das casas, sem pompas ou circunstâncias.
Na maioria das vezes vem misturada a massas, acompanhada de outras verduras ou sozinha, comandando os hábitos de um batalhão de famintos na hora do almoço, que podem voltar para casa almoçar. Mas não espere encontrá-la nos restaurantes ou mesmo bandejões espalhados nas zonas industriais. É, definitivamente, um vegetal a ser consumido às escondidas. Seu uso não se restringe ao tradicional prato de macarrão com abobrinha, sendo servida também como acompanhamento de um prato de carne ou como prato principal. A regra será sempre a mesma: jamais estará desmanchando ou cozida além do ponto. Estará sempre crocante, quase crua. E para quem ainda estranha essa história de massa com legumes, informo que na Itália até se come o tradicional sugo à bolonhesa, mas fazer disso uma regra está longe dos costumes locais.
A receita de massa com abobrinha ofereci em uma outra ocasião, mas não custa lembrar que não há nada de difícil ou especial na receita. Apenas cortar em cubinhos (ou o mais próximo disso) e deixar refogar ligeiramente em uma frigideira com azeite e sal, fazendo-a “saltar” com um movimento da frigideira. A massa deve ser adicionada após escorrida, misturada sem mexer (fazendo-a saltar, ora essa!) e servida em seguida. O mesmo tipo de cozimento é utilizado caso se decida servi-la como acompanhamento de um prato de carne.
A abobrinha italiana é colhida antes do tempo e é de uma variedade diferente daquela brasileira. Deve ser pequena, verde escura e de um sabor delicado. Para demonstrar seu frescor, pode ser encontrada em algumas quitandas ainda com a flor. Encontrar somente a flor é uma outra curiosidade, pois a flor se come, assim como folhas de sálvia. Eis a receita, que serve mais como curiosidade, pois fritar produtos de sabores delicados é como sanduíche com katchup: tem tudo o mesmo sabor.
Flor de abobrinha frita
Prepare no liqüidificador uma receita de creme para empanar (leite, ovo, sal e farinha).
Aqueça uma frigideira com óleo em abundância (fritadeira elétrica é melhor!).
Mergulhe a flor de abobrinha no creme e frite-as uma a uma.
Sirva como entrada ou acompanhamento.
Com a chegada do frio, que, na realidade, só ameaçou e está deixando de cabelo em pé os proprietários das estações de esqui, inicia-se a temporada de alimentos mais pesados, gordurosos. A opção de hoje no nosso programa especial de feriado (o feriado aqui é no dia primeiro de novembro) aconselha um prato típico de montanha, ou, na falta delas, das colinas piacentinas. Ideal se acompanhada de um bom vinho tinto, mas de sabor delicado, como um Barbera D’Oltre Po Pavese, um vinho DOC - Denominazione D’Origine Controlata - que mistura aromas de flores silvestres e um sabor ligeiramente frutado (sugestão de um amigo enólogo).
Abobrinhas ao forno
Corte as abobrinhas na metade, em sentido longitudinal (de comprido mesmo!).
Retire delicadamente parte do miolo, em toda a extensão e reserve.
Coloque as metades de abobrinhas em uma forma ou pirex.
Recheie-as com pedaços pequenos e finos de bacon e cubinhos de mozzarella de búfala (ou mozzarella normal, se preferir mais seca).
Cubra com a parte da abobrinha reservada.
Não use palitos para evitar que o líquido que se forma escorra pelos furos.
Leve ao forno pré-aquecido à temperatura de cento e oitenta graus e deixe até dourar.
Sirva como segundo prato, após um risoto ou uma massa de sabor suave.
Não convide minhas filhas, ou faça uma porção reforçada: elas adoram!
Existe, ainda, uma variedade de abobrinha redonda como uma bola de ténis. É ideal para fazer ao forno, mas eu prefiro as longas mesmo. Cozinham de modo mais uniforme e são mais fáceis de cortar, quando no prato. A sugestão acima pode se aproveitada com outros vegetais, como pimentão, por exemplo. A sobremesa ideal é pêra cozida, mas deve ser pêra do tipo Kaiser, cozida (sem açucar, sem nada) em pé por duas horas, com o forno à temperatura de duzentos graus.
Comam!
E deixem de pensar abobrinhas.
Ciao.
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