Thursday, November 25, 2004

Vinho ou Cerveja?

Caros e Caras,
Paz e saúde!

O fim do ano se aproxima, e junto com ele as festas, confraternizações, brindes, jantares… Um perigo à saúde e uma ameaça à balança.

Um amigo convidou-me para um almoço na sua casa de montanha. O local fica na província, o que significa que não é longe. Aliás, Bettola nem chega a ser na montanha, como imaginamos nós, com neve o ano inteiro e uma paisagem bucólica. É somente um dos muitos pontos altos desta terra de geografia acidentada. Porém, no inverno tem neve pra xuxu, um vegetal que não existe por aqui e que é difícil de explicar.

Pecorino com pimenta (queijo de leite de ovelha), presunto e salames de montanha, salada de fungos frescos, alcachofras cozidas e grelhadas e torta de gorgonzola. Como em qualquer filme italiano, tem sempre alguém que enche o meu prato e diz: “Come…!” Quando achei que tinha feito bonito, provando um pouco de cada coisa e que havia deixado um espaço para a sobremesa, lá vem a massa: ravioli de erbette, um vegetal que não existe por aí e que é difícil de explicar. A massa, na realidade, é para dar uma pausa no rodízio de sabores e preparar o espírito para o prato principal, polenta com javali. Depois doces, licor, café e muita conversa.

Tudo isso já não é uma maratona para mim. Afinal, estou treinando há cinco anos. A novidade é que não consegui convencer o meu amigo que o acompanharia com muito prazer na bebida escolhida, e não tive como recusar a cortesia que a sua preocupação me reservou. Não sabendo que cerveja iria me agradar, comprou vários tipos e colocou para gelar. Serviu-me na temperatura justa, que, para mim, significa estar perto do congelamento e procurou não deixar o meu copo abaixo da metade nem um minuto. A prova da cerveja também não chegou a ser uma dificuldade. Porém o italiano bebe vinho, o meu amigo é italiano e eles não admitem que você não prove o vinho deles. Pior: o meu amigo é um conhecedor de vinhos e faz questão de demonstrar. E fez questão que eu provasse todos. E eram muitos. Italiano é assim, doido para agradar e receber bem. Você vai, come, bebe, elogia, conversa um pouco e vai embora. E depois convida para pagar a gentileza.

Na Itália? Fique com os vinhos. Deixe a cerveja para a intimidade de casa ou beba quando estiver sozinho.

Terra de sabores delicados, Piacenza produz embutidos (salames, copas, etc.), queijos e vinhos. Alguns são tão leves que precisam de uma certa experiência e insistência para serem apreciados. Só não consegui deixar-me convencer pelo vinho tinto frisante e de sabor muito suave, que é a tradição local. Só me satisfaço com um vinho com personalidade. E muita! Até o tortelli di zucca já consigo apreciar. Tortelli é qualquer tipo de massa com recheio (capeleti, ravioli, etc.), à exceção de lasanha, caneloni e gnocchi. Zucca é abóbora em italiano.

Aprendi que do boi só se perde o mugido. Nesta nossa experiência italiana descobri que o porco tem o mesmo valor. As patas são aproveitadas para fazer o zampone, embutindo-as com a carne que seria descartada, mantendo a aparência de uma pata crua, mas que deve ser cozida. Quem já comeu fiambrada conhece o sabor. Pernil? Nem pensar! Ele é a parte mais cara do animal. Serve para o presunto cru. Aliás, estamos nos habituando a dizer presunto quando nos referimos ao produto cru, como é a regra italiana. Cotecchino é uma outra forma de embutido que se come cozido e o sabor fica nas imediações do zampone com mais gordura, ambos consumidos nesta época do ano. Lardo é outra iguaria, ou a mais temível agressão aos níveis de colesterol. Trata-se simplesmente da capa de gordura externa do porco, preservada a pele, levemente salgada, condimentada e curtida em ambiente escuro. Come-se revirando os olhos, sobre uma foccacia ou fatia de pão e um bom copo de vinho tinto. A última curiosidade que consegui desvendar é como produzir briccioloni, que parecem lascas de pedra escura mas que na realidade são restos de carne e gordura prensadas, salgadas e fritas. O torresmo italiano. Os nutricionistas afirmam que uma porção de briccioloni e um copo de cerveja compõem um almoço completo. Eu adoro esses nutricionistas!

Esta é também a época em que os amigos, clientes, fornecedores e bajuladores trazem o vinho caseiro para ser degustado e aprovado. A regra é mais ou menos assim: se o produto precisa de aprovação, aprove-o. E depois cuspa. O sujeito chega com cinco garrafas? Hummm…! O “amigo” traz a garrafa e vai logo esclarecendo que a safra do ano passado não era tão boa como ele esperava e… Invente uma desculpa urgente e só volte à empresa no fim do dia, quando as outras vítimas já tiverem feito o trabalho sujo de virar a garrafa até o fim (no copo ou na pia).

Mas, às vezes, o vinho consegue demonstrar toda a sua superioridade sobre a cerveja. O grande momento do Natal italiano é o almoço do dia vinte e cinco. Em Piacenza a tradição nos oferece uma massa in brodo, que vem a ser um tortelli de carne sem sal, boiando em um caldo conseguido a partir da fervura de um pedaço de carne, um galo capão, uma cenoura inteira, uma cebola inteira, um talo de salsão e uma pitada de sal (que pode ser conseguido de forma mais saborosa com um simples cubinho de caldo Knor). No final deve-se comer também a carne usada no caldo. O sabor é idêntico a escaldado de peru ou salada de xuxu. Nestes momentos, a única salvação é a garrafa de vinho tinto que nos lembramos de levar. Depois, é cair no assado de porco com farofa e vinagrete, também nosso e que faz nossos anfitriões revirarem os olhos como num lardo di colonnata. E a cerveja estupidamente gelada.

Ciao.

11 comments:

Claudio Costa said...

Putz, ainda são 9,30h da manhã, nestas montanhas de Minas. Hoje amanheceu mais claro, após uns dias de céu nublado e, imagine, quase frio, apesar do verão batendo às portas... Mas isso é digressão, voltando ao início, ainda é cedo e já estou babando de tanto salivar com sua descrição das iguarias típicas do inverno-natal italiano.... nhamm. nhammm.

Anonymous said...

Às vezes eu te odeio...você, o Fred ( meu médico)e aquele maldito laboratório que insiste em me taxar o colesterol lá em cima!
Mas aposto que aí não tem caipirinha com camarão no espeto na beirada da praia, certo?

maray

cadê o ralo said...

Ciao Allan! Caí na bobeira de ler o post antes do jantar... babei o teclado. Tens razão com o lance da cerveja: vinhos a todo vapor (hoje tô beiçando um Salice Salentino que achei na LIDL pela metade do preço) e cervejinha no verão com churrasquinho no jardim de casa. Quanto ao chuchu, aqui pelas minhas bandas se encontra em alguns jardins, quase como planta selvagem e se chama zucchina spinosa. Este ano eu plantei um pé e comi até dizer chega.
Tremeu aí? Aqui sim.
Abração

Anonymous said...

Olha, minha sorte foi achar seu texto excelente. E meu azar também. Afinal, para controlar a salivação eu ficava repetindo mentalmente: "o texto é excelente, o texto é excelente..." O problema é que, sendo um texto desses que a gente vai saboreando, não consegui deixar de saborear esse banquete que você descreveu no post. E justo hoje, que tô perigosa. Aproveitei o dia para vadiar e tirei uma soneca. Sonhei que comia tudo quanto é coisa calórica que possa existir. Só de sorvete foram 3 durante o sonho, um de manga, um de chocolate e um de menta.
Beijos da Mônica.

Milton said...

Eu aqui na maior dieta e tu fazes isto! Quase engoli o monitor. Sou um daqueles raros brasileiros que são quase hostis à cerveja. (Não me deteste por isto, de resto sou um cara até legal.) Mas, provavelmente, beberia sem cuspir os vinhos dos bajuladores... Grande abraço.

leti said...

A Daiza tem razao! Aqui eu também tenho chuchu, so que se chama zucchina pelosa em vez de spinosa. Nao se acha pra comprar, porque, justamente, nao tem gosto de nada, mas parece que é um negocio que da assim em tudo que é lugar (aquela velha historia da menina que da mais do que chuchu na serra...), e volta e meia vejo um pé de chuchu no quintal de alguma casa.

Anonymous said...

Vinho e cerveja!
Cada ocasião pede a bebida mais adequada. Com comida italiana, vinho. Na praia, cerveja. E no Natal vale até caipirinha com champanhe. O importante é a companhia.
Abração,
Lenine

Anonymous said...

Oi Allan! Um tico mais velho hoje. E dia de ação de graças nos States.
Falo sempre sobre o livro de viagens, aí, hoje viajei mais na maionese: um livro de viagens sobre os sabores! Pelo menos o sabor da Bahia, da Italia. e de onde mais?
Seria fascinante!
Felicidades! (somos abstêmios mas entendemos que vinho na europa é outra história!)
Angela

Anonymous said...

Ei Alan,

Adorei seus comentários sobre as iguarias e estilo italiano de comer e beber. Estou aprendendo um pouco com você para quando for conhecer a Itália. Gosto muito dos seus comentários no meu blog de Lyon e queria dar um alô, mas só consegui entrar pelo anônimo. É bom demais apreciar os sabores! Até o próximo. Kátia

Leila Silva said...

Allan,
Vc e' dos meus, sempre a falar de comida....e italiana alem do mais. HUUUMMMMMMMM!
Abracao
Leila

rbkrbk said...

O fim do se aproxime, e junta com ele as festat, confraternizcoes, brindes, jantares.

???