Tuesday, November 02, 2004

Abobrinhas

Caros e Caras,
Paz e saúde!

Poucas coisas caracterizam tão bem a região em que moramos como a abobrinha. Ela está presente em todas as casas e em quase todas as ocasiões do quotidiano no Centro-norte italiano. Mas não nos dias de festa. Por ser considerada popular, de baixo preço, não é utilizada nas ocasiões solenes. Mesmo nas pouco solenes. O destino da abobrinha está relegado à intimidade das casas, sem pompas ou circunstâncias.

Na maioria das vezes vem misturada a massas, acompanhada de outras verduras ou sozinha, comandando os hábitos de um batalhão de famintos na hora do almoço, que podem voltar para casa almoçar. Mas não espere encontrá-la nos restaurantes ou mesmo bandejões espalhados nas zonas industriais. É, definitivamente, um vegetal a ser consumido às escondidas. Seu uso não se restringe ao tradicional prato de macarrão com abobrinha, sendo servida também como acompanhamento de um prato de carne ou como prato principal. A regra será sempre a mesma: jamais estará desmanchando ou cozida além do ponto. Estará sempre crocante, quase crua. E para quem ainda estranha essa história de massa com legumes, informo que na Itália até se come o tradicional sugo à bolonhesa, mas fazer disso uma regra está longe dos costumes locais.

A receita de massa com abobrinha ofereci em uma outra ocasião, mas não custa lembrar que não há nada de difícil ou especial na receita. Apenas cortar em cubinhos (ou o mais próximo disso) e deixar refogar ligeiramente em uma frigideira com azeite e sal, fazendo-a “saltar” com um movimento da frigideira. A massa deve ser adicionada após escorrida, misturada sem mexer (fazendo-a saltar, ora essa!) e servida em seguida. O mesmo tipo de cozimento é utilizado caso se decida servi-la como acompanhamento de um prato de carne.

A abobrinha italiana é colhida antes do tempo e é de uma variedade diferente daquela brasileira. Deve ser pequena, verde escura e de um sabor delicado. Para demonstrar seu frescor, pode ser encontrada em algumas quitandas ainda com a flor. Encontrar somente a flor é uma outra curiosidade, pois a flor se come, assim como folhas de sálvia. Eis a receita, que serve mais como curiosidade, pois fritar produtos de sabores delicados é como sanduíche com katchup: tem tudo o mesmo sabor.


Flor de abobrinha frita

Prepare no liqüidificador uma receita de creme para empanar (leite, ovo, sal e farinha).
Aqueça uma frigideira com óleo em abundância (fritadeira elétrica é melhor!).
Mergulhe a flor de abobrinha no creme e frite-as uma a uma.
Sirva como entrada ou acompanhamento.

Com a chegada do frio, que, na realidade, só ameaçou e está deixando de cabelo em pé os proprietários das estações de esqui, inicia-se a temporada de alimentos mais pesados, gordurosos. A opção de hoje no nosso programa especial de feriado (o feriado aqui é no dia primeiro de novembro) aconselha um prato típico de montanha, ou, na falta delas, das colinas piacentinas. Ideal se acompanhada de um bom vinho tinto, mas de sabor delicado, como um Barbera D’Oltre Po Pavese, um vinho DOC - Denominazione D’Origine Controlata - que mistura aromas de flores silvestres e um sabor ligeiramente frutado (sugestão de um amigo enólogo).


Abobrinhas ao forno

Corte as abobrinhas na metade, em sentido longitudinal (de comprido mesmo!).
Retire delicadamente parte do miolo, em toda a extensão e reserve.
Coloque as metades de abobrinhas em uma forma ou pirex.
Recheie-as com pedaços pequenos e finos de bacon e cubinhos de mozzarella de búfala (ou mozzarella normal, se preferir mais seca).
Cubra com a parte da abobrinha reservada.
Não use palitos para evitar que o líquido que se forma escorra pelos furos.
Leve ao forno pré-aquecido à temperatura de cento e oitenta graus e deixe até dourar.
Sirva como segundo prato, após um risoto ou uma massa de sabor suave.
Não convide minhas filhas, ou faça uma porção reforçada: elas adoram!

Existe, ainda, uma variedade de abobrinha redonda como uma bola de ténis. É ideal para fazer ao forno, mas eu prefiro as longas mesmo. Cozinham de modo mais uniforme e são mais fáceis de cortar, quando no prato. A sugestão acima pode se aproveitada com outros vegetais, como pimentão, por exemplo. A sobremesa ideal é pêra cozida, mas deve ser pêra do tipo Kaiser, cozida (sem açucar, sem nada) em pé por duas horas, com o forno à temperatura de duzentos graus.

Comam!
E deixem de pensar abobrinhas.

Ciao.

15 comments:

Anonymous said...

Tenho tudo em casa, Vou comer agora mesmo!
Tinha até esquecido dessa mania italiana pelas abobrinhas.
Abração,
Diogo

Felicia Luisa said...

Sao pouco mais de 9 da manha, mal a acabei de tomar café e ja comecei a pensar no almoço! Me deu agua na boca, amo abobrinhas, especialmente quando refogadas com muito alho. Nossa, que delicia.
Allan, me diz se recebu o mail sobre postagem de fotos: testou? ajudou?
Um abraço,
Felicia

Anonymous said...

Como assim, flor de abobrinha? tem foto? como é o nome em italiano? em espanhol é zapalito.. Você tira a casca ao fazer?
Angela

Leila Silva said...

Que delicia esse seu blog, Allan! Isso ai e' o Zuchini? Eu adoro tudo isso e estou sentindo falta de uma boa 'pasta'. Ainda estou no Brasil, (interior)e sempre encontro a massa cozida demais e essas com legumes...nem em sonho. Eu sou pessima cozinheira, nao sei se conseguiria fazer, fico sempre insatisfeita. Vou tentar assim mesmo. Um abraco
Leila

Anonymous said...

Allan, também já estou com fome! Em casa, minha Amélia faz exatamente como você recomendou: nada de cozido demais, apenas "salteado". Prepara a massa "al dente" e "salteia" os cubos de abobrinha naquelas panelas afuniladas dos chineses, WOC, que você deve conhecer. Delícia, mesmo!

Mineiras, Uai! said...

Allan, aqui em casa, assim como disse o papai no comment de cima (em que ele esqueceu de assinar), temos muito costume de comer abobrinha com massa. Muitas vezes, fazemos com outros vegetais misturados e cozidos da mesma forma que vc descreveu, tais como: beringela, azeitonas pretas, cogumelo shitake, etc. Quando fazemos ela apenas refogada no alho e óleo, bem "al dente", costumamos acrescentar um pouquinho de gergelim torrado, pois fica muito crocante, e o saber combina bem! Agora, pelo o que vc descreveu o costume bem caseiro de comer a abobrinha às escondidas aí na Itália, me fez lembrar o nosso costume, pelo menos aqui em Minas, do chuchu! Ninguém admite que come e gosta, mas é comida de quase todo dia... Quantos aos vegetais recheados, adoramos! A beringela fica divina, e quase que qualquer coisa que vc colocar dentro e depois botar prá gratinar no forno, fica bom até!
Quanto à macrobiótica, não seu muito bem quais são os seus pilares, mas já li algo sobre o assunto, falando que se trata de uma dieta muito restritiva e radical. Já chega eu com meus ataques de vegetarianismo, me recusando a comer qualquer tipo de carne (gente,frango e peixe tb é carne, viu?), mas de resto me alimentando absolutamente normal, feijão com arroz nosso de todo dia nos dai hoje...
Um grande abraço a vc e suas meninas, q são garotas muito espertas (pois comem vegetais!)! Mais uma vez, parabéns pelo seu estilo, sempre quando venho aqui me enche os olhos o modo como escreve... Hj li 2 de seus textos, em voz alta, para mamãe, que mandou te dizer que deverias escrever um livro com as "Cartas da Itália", viu?
Ana Letícia
http://mineirasuai.blogspot.com

Manoel Carlos said...

Bredo.
O aspecto lembra um pouco o espinafre, apenas isto.
Até terreno baldio podia ter bredo.
Durante todo o ano, ninguém o come.
Contudo, na Semana Santa, torna-se prato obrigatório.
Uma delícia.
Bredo ao molho de coco.
Para acompanhar bacalhau, mulato-velho...

Anonymous said...

Gulodices e, logo depois, abobrinhas.
Acho que você vai acabar precisando de uma dieta. :)
Abração,
Lenine

Milton said...

Ora, ora, o mesmo ocorre comigo... Só consigo falar abobrinhas em ocasiões muito íntimas e simples. Nas solenes, sou como os italianos, escondo minhas receitas do dia a dia e só falo belas frases. Não, estou brincando, é claro, e aproveito para te deixar um abraço. (Na verdade, gosto mesmo é de discutir futebol!)

Anonymous said...

Allan, para enriquecer teu receituario te mando uma receita de risotto de abobrinhas que è uma delicia:

RISOTTO DE ABOBRINHA E CAMARAO


Dica: A medida de arroz por pessoa eu calculo por punhado, 2 punhados por pessoa.
Rendimento: 2 porçoes
Ingredientes:
4 punhados de arroz para risotto
1 abobrinha italiana (pequena e novinha)
1 flor de abobora
3 camaroes grandes
50 gr de queijo ralado
1 colher (sopa de manteiga)
sal
oleo
porro
caldo de legumes e caldo de peixe.
Pimenta do reino branca moida na hora

Preparo:
Preparo o caldo de legumes, ou o comprado ou prepare voce mesma.
Prepare o caldo de peixe, com cabeças de peixe, de camarao, tomates bem maduros amassados, extrato de tomate, sal, coe e reserve.
Pique e refogue as abobrinhas, mas deixeas um pouco dura, para estar um pouco crocante no risotto.
Coloque o porro no oleo ainda frio e leve ao fogo. Quando esquentar, refogue o arroz, coloque caldo de carne fervente um pouco por vez. Quando o arroz estiver quase pronto coloque a abobrinha, deixe terminar o cozimento, acrescente a manteiga, 1 colher de azeite extra virgem de oliva, o queijo ralado, misture rapidamente e tire do fogo, coloque pimenta moida na hora e esta pronto o risotto.
Enquanto esperava o risotto, ferva agua e coloque os camaroes inteiros com casca e cabeça, quando levantar fervura espere 2 minutos e tire.
Tire a casa do camarao deixando a cabeça.
Limpe uma flhor de abobora, tirando apenas o cabinho, sem furar o fundo e o pistilho de dentro. Com uma colher coloque o risotto dentro, deite a flor no prato, coloque os 3 camaroes, onde seria o cabo da flor, aqueça a salsa de peixe e coloque cuidadosamente sobre os camaroes (umas 3 ou 4 colheres) e està pronto.
E’ um prato delicioso e bonito de apresentar.

Meire
http://pensamentosepoesias.blog.tiscali.it

Anonymous said...

Abobrinhas são sempre bem vindas!!! Embora as abobrinhas-palavras talvez sejam as que mais se proleferam, nascem em qualquer língua e preencehm qualquer boca!!!! Obrigado pela visita. Abs ensanguentados.

Nora Borges said...

Seu blog é mesmo uma delícia...
Estou aprendendo a gostar das abobrinhas aqui e já guardei as suas receitas.
Depois venho e te mando uma de cebolas doces pra acompanhar uma carne, de "ter que amarrar as suas filhas"... eu amarro a minha.
Beijo

Anonymous said...

Gostei da receita, vou experimentar. E, sabe, Na minha infância, interior de SP, a gente já comia as flores da abobrinha.Mas nada de coisa de gente grande não. Era nas nossas casinhas de boneca. Colhiamos, para terror da minha avó, todas as flores, depenávamos o " abobral" e as fritávamos no fogaozinho. Engraçado, isso estava perdido na minha memória. Foi um prazer danado ler teu blog.
inquieta - rosebud.rose.bud@uol.com.br www.rosebud.rose.bud.zip.net

Anonymous said...

Puxa vida... Eu adoro abobrinhas! O curioso é que, pelo menos aqui em Belo Horizonte, abobrinha virou ingrediente de pizza de restaurantes chiques. Jamais imaginei que fossem arroz-com-feijão na Itália. Comentário pra lá de óbvio esse meu, já que não sei nada sobre a Itália. Vou ver se aprendo um pouco aqui no seu blog.
Aliás, já salvei aqui as receitas para experimentar. Minha mãe cozinhava divinamente mas, sei lá por quê, sempre achei que não levava jeito pra coisa. Felizmente, tô descobrindo que levo jeito sim! E assim que fizer suas abobrinhas eu te conto se dei conta do recado. ;)
Abraços,
Mônica. (do Monicômio)

Anonymous said...

Aliás, só agora vi que a Meire colocou uma receitinha também! E com camarão! Ai... assim eu não emagreço nunca! ;)