Thursday, October 28, 2004

Gulodices

Caros e Caras,
Paz e saúde!

Giovanni é uma daquelas pessoas simples mas especiais. Fala pouco e come muito. Pensando bem, há muito que não saímos juntos. Ele está fazendo uma dieta para emagrecer e manter sob controle o mal que herdou da mãe: o estômago dilata até começar a pressionar outros órgãos. Quando atinge esse ponto, precisa da ajuda de remédios para fazê-lo voltar ao normal, sob risco de impedir o coração de funcionar. Deve ter um nome médico, um termo técnico, mas prefiro não saber. Já questionei porque ele não pára de comer antes de atingir tal limite, mas como presidente honorário da confraria Santo Cibus (“santo alimento”, com direito a fardão, chapéu e um enorme babador com um garfo bordado), ele argumenta não se conter diante de um prato de qualquer coisa. Certa vez levou-me ao mercado de Piacenza, onde são comercializados a maioria dos produtos agrícolas que abastecem os supermercados e quitandas da região. Era pouco antes das nove da manhã e fazia um frio de assustar pingüin. Entramos no bar do mercado para um café e encontramos um fornecedor que fazia o seu lanche: um homem de seus sessenta e cinco, setenta anos, forte, alto e que deveria pesar uns cento e vinte quilos. Cumprimentamo-nos e Giovanni, rindo, alertou-o sobre o papel alumínio que ele distraidamente comia junto com a fatia de gorgonzola. O sujeito deu um bom gole do vinho tinto no copo e respondeu no mesmo tom: “Ho pagato pure la carta stagnola!” (Eu paguei pelo papel alumínio, também!).

Takeo também falava pouco, mas esse comia pouco. Além de típico pintor japonês, produzindo desenhos minimalistas, foi ele quem me ensinou algumas curiosidades da língua japonesa: “As palavras it, ni, san, shi, go, ditas assim, de forma pausada, são traduzidas como: um, dois, três, quatro, cinco. Mas se você falar depressa elas serão traduzidas como: tem cinco formigas.” Foi ele, também, quem primeiro me falou sobre macrobiótica, que pratiquei por um breve período. No livro “Sois Todos Sanpakus” colhi as primeiras informações. A moda (mais que um estilo de vida) que se espalhou por Sampa naquela época, tornava tudo mais fácil. Mas a experiência não durou mais que alguns meses: Eu não resistia ao perfume do churrasco que cobria o ar nos fins-de-semana. San (três) + paku (branco), sanpaku (três brancos) é uma referência à íris que não toca a parte inferior do olho, formando, assim, três partes brancas: as laterais e embaixo, o que alerta para uma alimentação inadequada. Desde então aprendi a controlar no espelho a qualidade da minha alimentação. Às vezes tenho a impressão de que o olho ficou todo branco, lembro da degustação dos novos salames e queijos marcada para aquele dia, desvio o olhar para a lâmina e termino logo de fazer a barba. Além do bem-estar e da calma que a macrobiótica proporciona, me chamava a atenção a completa inutilidade do papel higiênico.

Sexta e sábado são dias de comer cedo, em Salvador. Levanta-se às cinco, cinco e meia (geralmente acordado por algum amigo voltando da noite) e vai-se comer no mercado de Itapoã, ou no Rio Vermelho. Aliás, endereços não faltam, pois toda a cidade tem esse hábito. É óbvio que os mercados não fecham nunca e são sempre uma opção aos notívagos, inclusive nos outros dias, mas até o meu aparelho digestivo tem limites. Comer um sarapatel, uma rabada, ou um prato de mocotó às seis da manhã, acompanhado de uma cerveja estupidamente gelada, permite ter o resto do dia livre de compromissos para almoçar, pausa para o acarajé ou beliscar tira-gostos. Também dá uma preguiça danada, que os turistas acham pitoresco e batizaram de “malemolência baiana”.

Aqui, não. Aqui é diferente. Caso você tenha decidido vir à Itália, certifique-se antes do café da manhã oferecido pelo hotel em que ficará hospedado. Solicitar mais que uma xícara de café preto e um brioche, pela manhã, pode provocar um incidente diplomático. Como a maioria das lanchonetes abre mais tarde, por volta das dez, uma opção seria ir à padaria e comprar pão e um pouco de queijo e presunto. Mas coma escondido: eles se impressionam fácil com esse tipo de coisa. E têm memória curta: antigamente (no tempo do Onça), por estas bandas, acordavam no meio da noite, início da madrugada, e faziam uma ceia com os alimentos mais pesados e gordurosos. Depois, voltavam para a cama e dormiam até a metade da manhã. Só quem fosse miserável demais para poder comer de madrugada, estaria acordado logo cedo.

Hoje, a dieta mediterrânea é alardeada como aquela ideal. Baseada no consumo de pouca massa, verduras e legumes em abundância, azeite de oliva (na Bahia se diz “azeite doce”, para diferenciar daquele outro, o azeite de dendê), peixes e frutas, deixa pouco espaço para os excessos à mesa. O que não proíbe um copo de vinho tinto, que chega a ser benéfico. Apesar de tudo, os fast foods se multiplicam e a obesidade começa a ser discutida, mas de modo mais ameno que a obesidade norte-americana. Culpa da TV? Ou da nova realidade econômica que obriga às mães a trabalharem, transcurando os cuidados com a casa? Podemos considerar como uma pequena taxa a pagar pelos possíveis benefícios da globalização?

Os italianos são obstinados. A dieta mediterrânea realmente é muito saudável. E é de pequeno que se torce o pepino. Daí que eles adotaram (há muito tempo) a dieta nas escolas. Cada dia um cardápio diferente, respeitando e consumindo os vegetais da estação, pratos típicos da região e frutas produzidas localmente. Para vencer a resistência natural de toda criança por vegetais, dividem as classes em mesas de cinco ou seis crianças. Cada uma tem um lugar fixo, com o mesmo grupo de amigos por todo o ano. Todos precisam comer de tudo: primeiro prato, verdura, segundo prato e fruta, todos os dias. Caso contrário, a mesa não ganha a estrela do mês, colocada em um quadro de avisos ou algo parecido. Acaba estimulando o espírito de equipe, além de ter ensinado às minhas filhas a gostarem de verduras. As escolas não possuem uma cantina e boa parte proíbe a consumo de guloseimas industrializadas, permitindo apenas sanduíches e frutas como merenda. Coca-cola, nem pensar!

Talvez resida nesse hábito, das escolas, a tradição de reunir-se com amigos para almoçar ou jantar. Se for num domingo, melhor! É possível (e muito comum) alongar o almoço até a hora do jantar e passar o dia inteiro comendo. Depois, não há dieta mediterrânea que consiga colocar os olhos no lugar.

Ciao.

10 comments:

Leila Silva said...

Allan,

Como assim, 'a inutilidade do papel higienico?' :(
O texto esta otimo, uma boa reflexao sobre os nossos habitos alimentares....muitos dados culturais. Adorei ler.

Denise Arcoverde said...

Querido Allan, a gente passa uns diazinhos sem vir aqui e há tem um verdadeiro banquete de posts que a gente vai degustando pouco a pouco. Devo confessar que não sou muito sofisticada, no qu se refere a comida. No Nordeste, pelo menos lá em Pernambuco, as verduras são poucas (está melhorando, agora, nos bairros mais finos). Tenho uma tia que nunca comeu uma fruta na vida... minha mãe aprendeu a comer verdura comigo. Depois dizem que a família tem "tendência à constipação" hehehe... na minha opinião, come-se mal em Pernambuco. O que não significa que não temos magníficos restaurantes, mas reservados a poucos privilegiados.

Trabalhando numa comunidade, fizemos um diagnóstico nutricional. Você ai acha interessante. Estudantes de nutrição acompanharam, no dia a dia, o que as pessoas comem. Os resultados foram assustadores. Uma quantidade absurda de macarrão, pouquíssimas verduras, quase nenhuma, salsicha da mais barata, no lugar de qualquer tipo de carne, o abandono do feijão pelo preço... e muito, muito refrigerante que está sendo vendido muito mais barato que banana.

E as crianças, assim que podem comem o maior símbolo de status entre a opulação mais pobre: yogurte! abandona-se o peito que é o alimento perfeito e "gratuito", pra comer farinha com água, biscoito e... yogurte. :(

No Brail, temos um loooooooooongo caminho a percorrer. Não basta lutar para que se tenha alimentos, mas para que se saiba o que comer, né?

Beijinhos!

Anonymous said...

Oi allan!
Minha enteada estava triste essa semana falando sobre a falta de assunto das amigas. Aí, ponderamos sobre o tema, incentivamos a ela puxar os assuntos, etc, aquele papo longo. Bem, aí, sempre que venho aqui, e venho sempre, me deparo com a pluralidade de temas, mesmo que baseados no simples cotidiano, como o ato básico de comer. O que faz suscitar o desenvolvimento do tema, e daria pra escrever uma enciclopédia! Ok, o cara come papel alumínio, tive um empregado que fazia sanduiche de bolo, passarinho que come pedra ;-) pois é. Ea Denise fala sobre a alimentação do brasileiro: é esse o resultado da tal cesta básica!

Manoel Carlos said...

Isto é uma postagem ou "A festa de Babete"?
Eu que já jantei, fiquei com vontade de beber um copo de vinho: saúde!

Anonymous said...

FFF - www.ficcionista.blogger.com.br - Olá. Achei vc e mergulhei em suas descrições humanas, culturais e gastronômicas!!! Perdido na Itália? Hummm... muito bom, instigador. Me lembrou quando zanzei pela Alemanha, sem eira nem beira. Ah, e sobre a pergunta que vc fez no blog do Manoel Carlos (sim, achei vc lá) 0 haikai é uma estrutura poética que não tem ligação alguma com o cordel, ambos são originários de manifestações culturais regionais, sim, mas a esturtura é diferente, apesar de contar rimas e versos. Abs sangrentos!

Felicia Luisa said...

Allan,
rapaz, que sorte, você tem o melhor cappucino do mundo!! Eu pedi pra repetir no café da manhã, e não teve nenhum incidente, não!! Mas teve também o "Dia da Fome": super cansado, voltamos pro hotel lá pelo meio-dia - sem almoço - e só nos levantamos as 3 da tarde. Fomos pra rua, e quem disse que tinha restaurante aberto? Quase que eu apelei pro Mc Donalds, mas perá lá, fui corajosaa e esperei até as 18:00. Fiz muito bem: comi muuuuuuito, (mas não muito saudavelmente) e acho que que meus olhos devem estar 100% branquinhos até agora...Um abraço,
Felicia

Anonymous said...

adorei esse espaço. vc vive na Italia? como aprendeu a ama-la? Carla
http://purviance.zip.net

Anonymous said...

Você me fez lembrar do casamento de um amigo, há uns 30 anos atrás. Ele é italiano, de Milão. Casou-se aqui, no Brasil e na festa havia de entrada copa italiana, transparente, rosada, deliciosa. Fazem 30 anos já, eu esqueci onde foi a festa, o amigo esse já está em outro casamento, eu já não posso comer copa, nem salames, nem nada muito bom por conta de colesterol e pressão, mas aquela lembrança ninguém me vai tirar.
Deve haver uma ligação afetiva entre estômago e coração, algum canal ou veia ou artéria ainda não detetado que estabelece essas conexões. Como as bruxas. Posso não acreditar, mas sei que elas existem...
Abraços

maray
www.gardenal.org/checaribe

Anonymous said...

Allan,
Incrível notar como algumas pessoas passam pela vida sem reparar nos detalhes, sem aproveitar o que a vida lhes oferece pelo simples motivo de não estarem atentos aos ensinamentos e prazeres. Ao mesmo tempo é incrível notar como existem pessoas que não perdem absolutamente nada. A cada texto seu aprendemos a estar alertas e não desperdiçar nossa capacidade de viver. Obrigado!

Frank & Gaia

Roberto Iza Valdes said...
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