quinta-feira, fevereiro 24, 2005

San Valentino

Caros e Caras,
Paz e saúde!

14 de Fevereiro é Dia de San Valentino, o equivalente ao Dia dos Namorados por aqui. E pra minha sorte, a televisão, os jornais, rádios e out doors não me deixaram esquecer. Encomendei as flores e providenciei algo para marcar a data. Se dependesse somente da minha memória estaria em maus lençóis, pois, ao contrário daquela gastronômica, tenho facilidade em esquecer certas coisas: datas, nomes, fisionomias e óculos.

Quando é uma novidade, então, nem se fala. Fevereiro, pra mim, é mês de Carnaval, uma festa que costuma separar antigos namorados e aproximar desconhecidos. Dia dos Namorados deve ser comemorado muito depois, quando a relação estiver consolidada. Italiano tem cada uma…

Quando o assunto é comer é que eles são bons. Deveriam inventar o Dia do Jantar, em Fevereiro. Assim, teriam o que festejar, já que em matéria de Carnaval eles só sabem ficar babando, vidrados nas nossas mulatas que a TV mostra neste período.

Dia do Jantar. A italianada iria adorar! Eles saem o ano inteiro para comer fora. Quando tem uma data especial para fazê-lo, é somente um pretexto a mais. Talvez um jantar diferente, uns amigos ou a casa de parentes distantes. Basta ter um motivo. Às vezes, a falta de pretexto é suficiente: “Vamos experimentar aquele restaurantezinho para ter uma opção a mais para a festa da Fulana?” Nem importa se a Fulana faz aniversário daqui a três meses. Não que eles tenham necessidade de desculpas para jantar fora. Com o salário inicial de um operário em torno de € 950,00, todos podem sair para jantar fora vez ou outra. E o fazem; com exceção dos montanaros (os que moram nas montanhas) que são muito econômicos. Mãos de vaca mesmo.

Um das diferenças que considero quando penso em voltar para o Brasil, é o hábito que estamos desenvolvendo de comer bem. E o fato de ver, hoje, as minhas filhas tratando verduras e legumes com certa naturalidade e intimidade. Chegam a cobrar quando falta a salada da estação em casa. Um bom hábito desenvolvido na escola, onde almoçam; planejado de modo a estimular a socialização, espírito de equipe e a responsabilidade, além da boa alimentação. O refeitório da escola é dividido em mesas e cada criança tem um lugar fixo. Ninguém pode recusar nada, incluído frutas, legumes e verduras, sob pena de a mesa perder pontos e não ganhar a estrela no final do mês, ou coisa que o valha. São respeitadas as orientações pessoais dos pais, como não comer carne vermelha ou frutas ácidas, por exemplo. Mas recusar abobrinha ou outro legume neutro pode levar a mesa ao pelotão de fuzilamento.

De resto, pode-se dizer que a dieta mediterrânea é muito inteligente, com muito legume, uma base de carboidratos pouco calórica, pouca carne vermelha, frutas e muito peixe. Infelizmente a TV e os Mac Donald’s começam a influenciar as novas gerações, mas há uma distância abissal entre a obesidade italiana e aquela americana, tão famosa. Todos, sem exceção, obedecem à regra de um copo de vinho a cada refeição para salvar-se de doenças do coração. Alguns se empolgam com o remédio.

A única coisa que não me convence é o café da manhã: café e um brioche! Mesmo nos hotéis ou nos bares, não existem opções. As lanchonetes costumam abrir depois das nove, assim, se você quiser um pão com manteiga ou mesmo um misto quente, deve programar-se no dia anterior e comê-lo em casa. Quando alguém me ouve contar que comi um ovo frito ou mesmo as sobras do jantar, no meu desjejum, costumam perguntar se realmente não existem índios armados com arco e flecha, passeando pelos centros das nossas metrópoles.

Dia do Jantar. Se consigo vender essa idéia à federação de bares e restaurantes, talvez fique rico. Se bem que “dia” não combina muito com jantar. Talvez “Noite do Jantar”. Não… Poderiam me gozar: “Só pode ser jantar! Ou você almoça às oito da noite?” Devo repensar melhor essa idéia. E uma outra que está começando a aquecer os meus neurônios: que argumentos poderia usar para convencê-los a tornar importante a data de aniversário do meu casamento? Com a TV, rádios, jornais e out door anunciando, não correria o risco de esquecê-la novamente, o que teve como excelente atenuante o fato dela também ter esquecido, nas duas vezes que não comemoramos a data, em dezoito anos.


Ciao.

domingo, fevereiro 20, 2005

Ajeitando a Economia Italiana

Caros e Caras,
Paz e saúde!

De nada serviu minha intervenção antes advento do euro. Ninguém me deu ouvidos. A Europa estava acostumada a não dar valor às moedas e isso desconsiderado no lançamento da nova moeda nos doze países da área euro. Na realidade, o euro baseou-se no marco alemão, a unidade monetária forte da CEE. Durante anos a Itália valeu-se do artifício de desvalorizar a própria moeda para atrair investimentos e exportar. Um euro corresponde a quase duas mil liras. As moedas italianas que circulavam à época apresentavam valores entre cinqüenta e mil liras, mas ninguém sabia exatamente o que isso representava. Um café custava mil e quatrocentas liras e todos rejeitavam o troco: só fazia volume. Mesmo os apelos do ministro da economia Giulio Tremonti foram ignorados. O euro foi lançado com moedas de diversos valores e sem as notas de um ou dois euros. A menor nota é a de cinco euros.

O hábito de desprezar moedas ajudou na falta de escrúpulos comerciais em ajustar os preços em até mais de cem por cento. A confusão causada pela troca das moedas locais com a adoção de uma moeda única, igualando preços historicamente diferentes, obrigou a uma atenção especial dos governos para adaptar a população à nova realidade. E ninguém considerou o efeito psicológico das moedas. Hoje, um produto que custava cinco mil liras – aproximadamente dois euros e cinqüenta centavos – é vendido por cinco euros.

Como os salários não acompanharam essa matemática, o poder de compra foi reduzido à metade. E quando o consumo cai, a produção obriga empresas a reduzirem custos. Nessa equação, devemos considerar a complicadíssima lei do trabalho italiana, que protege o empregado em qualquer situação. O resultado é que algumas empresas preferem fechar ou transferir a produção para países onde a flexibilidade da mão-de-obra e os baixos salários, ofereçam uma vantagem que não existe mais por aqui. A atual desvalorização do dólar em relação ao euro tem contribuído para a redução das exportações, obrigando empresas e executivos a lidar com uma situação desconhecida pela geração pós guerra.

Uma das saídas para recuperar parte do lucro das empresas, pode ser a redução dos gastos com mão-de-obra. A maioria dos postos de gasolina, por exemplo, oferece serviço self-service vinte e quatro horas por dia, além do serviço tradicional, mesmo quando o posto está fechado. A única contra-indicação é que a redução (ou mesmo eliminação) da mão-de-obra provoca desemprego e queda do poder aquisitivo, com conseqüente redução do consumo. E aí o posto não vai servir para nada. Talvez fosse melhor adotar o exemplo do Japão, que distribuiu incentivos para a aquisição de bens duráveis. Vou pensar melhor.

Um outro serviço self-service que funciona muito bem é o da venda de cigarros. A maioria das tabacarias tem uma máquina que vende cigarros quando o comércio está fechado. O curioso é que esse sistema permite a venda a menores, impedidos de comprar cigarro dentro da tabacaria. Felizmente não oferecem o terrível charuto toscano. Espalhar as tais máquinas nos países de onde partem os clandestinos que desembarcam na Sicília, poderia ser uma forma de iniciar a integração de futuros habitantes. Aliás, o governo italiano poderia cobrar um pedágio aos clandestinos que entram na Europa através da Itália, mas que acabam indo para a França ou Alemanha. O pedágio seria pago pelo país que acolhesse o clandestino, porque mão-de-obra mais barata que clandestino não existe.

Outra colaboração que posso oferecer, é a idéia de globalizar o Festival de San Remo, assim como os baianos fizeram com o Carnaval. A única dificuldade será encontrar um lobista que consiga convencer outros países de que isso é bom.

Algumas cidades, como Florença, cobram pedágio dos ônibus de turistas (daí a minha idéia do pedágio aos clandestinos). Outras, cobram pedágio dos carros de quem não é da cidade: podem poluir, mas têm que pagar. Em pouco tempo, pagar pedágio pelo simples fato de possuir um automóvel não será um absurdo, o que não chega a ser uma má idéia. Mas alguém precisa lembrá-los de que os salários também devem aumentar, ou vai faltar dinheiro para o pedágio, para o carro e para o resto. E quando não tem consumo… o cão morde a cauda.

Falando em automóveis, as medidas de combate à poluição incluem o rodízio de carros, mas os postos de gasolina têm se lamentado. Isso sem considerar as seguradoras, que estão recebendo uma avalanche de protestos solicitando redução dos preços, uma vez que os carros devem ficar parados alguns dias por mês.

Curiosidade: os saldos têm dia certo para começarem. É lei. Em Milão, por exemplo, começam dia seis de janeiro. Uma alternativa seria a de antecipar os saldos para o início da estação, mas isso obrigaria a comerciantes a abrirem mão de uma parte substancial dos próprios ganhos, e eles também precisam viver. O meio-termo seria vender com um preço menor o ano todo, evitando as promoções que oferecem até setenta por cento de desconto. Mas existe o risco que algum espertinho decida fazer promoções sobre os preços já descontados, reiniciando a dança das cadeiras.

Toda essa minha ansiedade na busca por alternativas econômicas viáveis, nasceu de uma notícia local: Um engenheiro recém-formado ganhou um prêmio por oferecer a idéia vencedora num concurso realizado pela prefeitura, buscando melhorar a viabilidade do trânsito em Piacenza. Após uma pesquisa de um mês, o jovem engenheiro provou que o consumo de combustível e do próprio carro, provocado pelas horas paradas em semáforos é maior que no tempo perdido com rotatórias. Demonstrou, ainda, que o trânsito flui melhor nas rotatórias que nos cruzamentos com semáforos. Óbvio que as rotatórias só funcionam onde a educação no trânsito também funciona. As obras já iniciaram. Na saída para Milão que liga Piacenza a um grande supermercado, o semáforo foi substituído por uma rotatória, assim como outros pontos da cidade. O problema é que isso elimina o ganha-pão de muitos clandestinos, pois ninguém para em rotatória para dar esmolas. E como clandestino é parte integrante da economia italiana…

Ciao.

sábado, fevereiro 19, 2005

Rafael Galvão

Caros e Caras,
Paz e saúde!

Engraçado essa onda de comunidade virtual, internet e informação instantânea. Costumo precisar de mais tempo que os outros para me convencer e me habituar a esse tipo de novidade. Depois, quem me garante que toda essa história não é apenas mais um programa dessa geringonça tecnológica de chips e bits? Seja como for, às vezes deixo-me convencer e descubro novidades que possuem a capacidade de me encantar. Uma dessas novidades (para mim) foi conhecer o blog do Rafael Galvão.

Nunca conheci ninguém que fosse cem por cento. Todos temos qualidades e defeitos, somos formados por um conjunto de coisas boas e coisas ruins, yin e yang, essas coisas. Pois bem, no caso do Rafael, até os defeitos dele tornam-se qualidades (a contrapartida é que algumas qualidades…). Enfim, nosso amigo tornou-se referência na blogosfera.

Hoje, 19 de Fevereiro, o Rafael completa 35 anos. Parabéns, mano Rafa! Auguri! Feliz Aniversário e Buon Compleanno! Como não gostei da novidade da garrafinha de alumínio da Heineken (que deixa um sabor residual na cerveja) vou brindar com um tinto especial essa noite. Afinal, se você for somente um invenção virtual do meu computador, será uma daquelas virtualidades pelas quais nos deixamos convencer.
Tin, tin.

Ciao.

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

Querida Flávia

Cara Flávia,
Paz e saúde!

Flávia,

Você me acusou de ser impessoal nas minhas cartas. Tem toda a razão! Às vezes me esqueço que a maioria dos destinatários das tais cartas, são pessoas que dividem com Jó a paciência universal, com a diferença de terem de me aturar há alguns anos. Jó não precisou. E aqui vai a minha defesa – que é sempre bom ter uma na manga: Quando decidi responder às indagações dos amigos sobre a nossa aventura na Itália, optei por esta impessoalidade por motivos de clareza (nem sempre com sucesso!), já que os amigos estão espalhados de Norte a Sul e nem todos se conhecem. Ocasionalmente mando algum recadinho como pé de página, mas prefiro responder os e-mails que recebo reservadamente, à excessão dos comentários e críticas que recebo sobre as “Cartas”. Então, ai vai…

As meninas estão ótimas. Estamos no meio do ano escolar – que aqui vai até junho – e elas têm sido aprovadas com boas notas. A avaliação escolar italiana considera: insuficiente, suficiente, bom, distinto e ótimo. A Luiza teve um bom, cinco distintos e três ótimos. Já a Bianca, nove ótimos. Tentei enviar-lhe fotos recentes delas, mas a sua mail box acusou estar no limite da capacidade. Vou tentar outra vez. A Bia irá mudou de colégio há dois anos, para fazer a scuola media, que seria o nosso antigo ginásio e deixou a antiga escola mais triste. Ela era o xodó deles. Por algum tempo – três anos, dos quais um e meio já passaram – terão que se contentar só com a Lu, que por sinal, lembra muito a tua Marília. Nós apostamos que a escola irá sucumbir, pois a Luiza está uma fera, no auge dos seus quase dez anos.

A Eloá também está numa ótima fase (e bota ótima nisso!), mas acho que ela já lhe atualizou sobre o assunto. Quanto a mim, estou atingindo uma serenidade típica dos falsos sábios: só externa. Mas tenho tido sucesso em convencer os outros. Continua valendo a minha máxima: “Há mais mistérios entre sanidade e a minha psicopatia, do que supõe a tua vã Psicologia.” Lembra…? Por falar em Psicologia (com P maiúsculo), como vão os teus malucos? E por falar em maluco, o Cássio (lembra dele?) continua em Sampa e vai ser pai no em maio. De vez em quando me escreve coisas interessantes; mas, recentemente, decidiu contar-me uma coisa profunda e escreveu que as fossas abissais chegam a onze quilômetros de profundidade abaixo do nível do mar. Sei não, mas acredito que a paternidade já começa a fritar-lhe os miolos…

Nessa terra tudo é diferente, a começar pela língua. Aqui, eles só falam em italiano e, às vezes, em dialeto. E eu lhes respondo em português. Pedem um capuccino, que nada mais é que uma xícara de café com leite, mas evitam a canela e o chocolate, pois são muito preocupados com a boa forma. Ainda não se conformaram com a união da Itália e vivem falando mal das outras regiões, das outras províncias, das outras cidades e até dos outros bairros. Por incrível que pareça, os verdadeiros caipiras dessa terra são os romanos. Comer macarrão com garfo e colher, como fazem os romanos, ou falar com sotaque romano, só é considerado chique em Roma; em qualquer outro lugar é muito cafona. Ainda existe essa palavra no dicionário?

Piacenza é uma cidade muito tranquila (talvez, até demais), de arquitetura e história muito ricas, numa região produtora de vinhos, salames e queijos. O lado positivo desta tranquilidade é não haver um traficante em cada esquina (aqui eles nem conhecem o crack.) Os moradores vindos de outras províncias costumam dizer que o piacentino é muito esnobe, com o nariz empinado; mas nós descobrimos que são amáveis e abertos a novos contatos. O preconceito é dos outros. Só uma correção: numa carta anterior errei a grafia do Giorgio Armani e escrevi Girogio; ele também não nasceu em Piacenza, mas em Bettola, um vilarejo da província de Piacenza. Parte da culpa é dele, pois, quem nasce in paese (vilarejo) costuma dizer o nome da província, que é o mesmo da città. A capital da Província de Turim é a cidade de Turim; a capital da Província de Pavia é a cidade de Pavia…

No verão, um calor de rachar; no inverno, um frio do cão. Daria pra continuar usando pleonasmos até o fim, mas a parcimônia é uma virtude. O problema é que, geograficamente, Piacenza foi fundada numa região que costuma castigar seus habitantes. O rio Po (se diz Pô) margeia toda a província, tornando o clima eternamente húmido (e quando a humidade baixa, as descargas de energia estática são inevitáveis.) Durante o Inverno, basta sair dois, três quilômetros da cidade para encontrar a neve; mas em Piacenza, necas de pitibiribas. No Verão, os meteorologistas informam que irá chover em toda a província, refrescando o calor sufocante; mas a chuva só cai mesmo quando nós vamos para a piscina. A Câmara de vereadores apresentou um projeto de lei que nos obrigue a ir à piscina, toda a vez que a temperatura ultrapassar os 32 ºC. Nós deixamos de frequentar as piscinas locais e ameaçamos mudar de cidade, caso a lei seja aprovada sem uma compensação financeira. O projeto está parado e acreditamos que será engavetado.

Bom, espero que você tenha se contentada com o tratamento direto desta carta e, mesmo falando de generalidades, a carta foi escrita para você, Flávia. Os outros vão entender.

Fico aguardando notícias tuas e da Marília (linkei o fotolog dela, ali à direita), além de uma foto dela para completar a nossa coleção de primos sobre a cômoda da sala. Advirto, porém, que tudo que você escrever pode ser usado a seu favor. Ou contra.

Beijoca nas duas.

Ciao.

terça-feira, fevereiro 08, 2005

Domingo

Caros e Caras,
Paz e saúde!

John Kenedy dizia que para agradar a muita gente basta ser muito superficial. O leque das preferências pessoais se alarga ou se estreita de acordo com o grau da resistência a mudanças de cada um. Muitas vezes perde-se muito pelo simples fato de recusar-se a provar algo novo. Mas, o que os olhos não vêem…

Como todo carioca, feijoada pra mim deve ter rabo, orelha e pé de porco. E feijão preto! A feijoada baiana é feita com feijão fradinho e tem carne de vaca no meio. Já aquela sergipana tem de tudo: quiabo, abóbora… Podiam ao menos mudar o nome do prato, por respeito ou compaixão. Bem que eu tentei, mas não consegui gostar das modificações. Isso, apesar do feijão gordo da Toca do Sapo, em Lauro de Freitas (BA), que é servido nas manhãs de sábado. Tem lugar de honra na minha memória gastronômica e até medalha, pela cerveja estupidamente gelada que o acompanha, às sete da manhã.

É a tal resistência às mudanças que gera as tradições, às vezes para lembrar, outras para não deixar esquecer. No mundo inteiro, as famílias se encontram em pequenas reuniões informais (ou não, como diria o ministro Gil). Esses encontros costumam ocorrer nos dias de repouso, quando se aproveita para estreitar os laços entre parentes. Na Itália não é diferente. As famílias se reúnem aos domingos para o que podemos chamar de “pequena maratona gastronômica”.

Os mais antigos se lamentam do pouco tempo que os mais jovens têm dedicado à família, preferindo a companhia dos amigos e as intermináveis conversas ao celular. Dizem que o advento da televisão exterminou o hábito das conversas, que serviam para informar e formar os filhos. O dominical jogo da tômbola (bingo familiar) já não tem mais espaço nem graça e os jovens aprenderam a responder aos pais e idosos de forma pouco respeitosa.

Os mais jovens alegam que domingo é dia de recuperar as energias, até porque, vem logo após a noite de sábado. Entendem as conversas dos velhos como notas dissonantes na realidade virtual em que vivem e preferem os play station e game boys à tômbola. Encontraram um modo de se expressar que lhes permite maior auto-confiança e auto-afirmação e não pretendem abrir mão daquilo que consideram a conquista do próprio espaço.

…É! O choque entre gerações vem provocando estragos. Ou, como disse Rubem Braga: “Antigamente as coisa eram piores. Aí elas foram piorando, piorando...” Na Itália a expressão é: “As coisas eram melhores quando eram piores.”

Voltando ao tema do domingo, o que me agrada mesmo é a mania que eles têm de fazer um almoço lento, de horas. Nos outros dias funciona assim: uma entrada, que pode ser queijo (Grana Padano); primeiro prato, em geral uma massa ou risoto; segundo prato de carne com algum contorno (legumes) ou um prato com salames, copas e presuntos; sobremesa e... Grana Padano! No domingo a coisa muda. Toda tia, filha, sogra ou cunhada prepara um primeiro e um segundo prato, além da sobremesa. Cada uma capricha na própria especialidade. E você, nobre convidado, deve provar um pouco de tudo para não desagradar ninguém. Aconselho não aceitar mais de um convite por mês. O estômago pode até resistir, mas o fígado não. A ala masculina se preocupa em providenciar os mais raros e diferentes vinhos. E você, nobre convidado...

Domingo é dia de missa, futebol e ressaca. Mas é, também, dia de passear na beira do rio, tomar sorvete napolitano e provar sabores diferentes. As roupas são preparadas cuidadosamente no sábado, para perderem o cheiro de armário. Tudo precisa ser meticulosamente planejado, para que não se perca a menor oportunidade de gozar a folga. Os parques de diversão funcionam em ritmo de Carnaval na Bahia: frenéticos, elétricos e sonorizados. Museus, restaurantes, cinemas e todos os pontos turísticos, das cidades turísticas ou não (ops! Tá parecendo implicância com o pobre do Gil) trabalham com horário e pessoal extras. Domingo é o dia das festas das cidades e vilarejos, que, geralmente, se resumem a uma feira monstruosa com todo tipo de mercadoria, de malhas peruanas a trator, além de muita comida e vinho.

Já havia escrito que não basta aprender a língua para integrar-se ao novo país. É preciso entender, conhecer e aceitar a cultura local. Pois somente vivendo como romano você poderá ser aceito pelos romanos e entender realmente toda a riqueza de um povo. Talvez por isso sempre fui visto com certa desconfiança pelos baianos, pois fazia questão de ser carioca ou paulista, como se isso me fizesse superior. Na realidade, me identifico mais com o povo baiano que com qualquer outro, mas sempre gostei de pirraçar, provocar. E sempre critiquei a feijoada baiana.

Aliás, agora que me recordo, John Kenedy era extremamente popular entre os americanos. Fazia questão de esconder sua frágil saúde para mostrar-se como ícone de uma nação e tinha uma (quase) unanimidade de aprovação em todos os seus atos. Agradava muita, muita gente.

Ciao.

sexta-feira, fevereiro 04, 2005

Participem!

Caros e Caras,
Paz e saúde!

Quando o Rafael criou o Balada do Louco fiquei entusiasmado com a idéia. É um blog aberto e coletivo contando histórias de loucos. Qualquer um pode mandar uma história, mesmo quem não tem um blog. Ao contrário de outros blogs coletivos, onde só participa quem é convidado, o Balada do Louco não tem restrições. Um escritor profissional acaba tendo que enfrentar certos desafios, como ter que escrever um texto com determinado número de toques, ou determinado argumento, por exemplo. Mesmo não sendo escritor (sou um blogueiro, ou bloguista, e olhe lá!), tomei a idéia como desafio e escrevi algumas histórias sobre loucos, vasculhadas na minha memória. Mandei-as ao Rafael com a orientação de que ele as usasse como reserva técnica, caso houvesse algum buraco a ser tapado. Os meus textos publicados não serão publicados aqui. Infelizmente o novo blog não está tendo a adesão que eu imaginava, considerando o fato de que o Rafael está usando minhas histórias com uma freqüência inesperada. A vocês, desavisado ou desavisada que caiu neste meu espaço, fica o convite para um desafio. Contem uma história sobre loucos (ou mais de uma história, se quiserem) e enviem para o Balada do Louco. Certa vez o Marmota escreveu sobre não escrever a primeira coisa que lhe vem à cabeça, como pré requisito a quem deseja escrever bem. Pois bem: se vocês têm alguma pretensão literária, essa é uma oportunidade a ser aproveitada. Entupam o e-mail do Balada do Louco com suas histórias; obriguem o Rafael a selecionar textos a serem publicados; transformem a vida dele num inferno com muitos textos a serem organizados. É um projeto democrático e coletivo, com o objetivo de questionar a loucura alheia e a nossa.
Enfim, Participem!

Ciao.

terça-feira, fevereiro 01, 2005

O Maravilhoso Mundo Das Filas

Caros e Caras,
Paz e saúde!

Em Salvador ocorre com freqüência: pessoas que entram numa fila e ficam ali o tempo suficiente para que chegue alguém atrás, pedem para guardar o lugar e saem, alegando ter alguma outra coisa a fazer. Tornam depois de vinte minutos e, com a maior cara de pau, retomam o que seria o seu lugar na fila. Não raro (direi até que com uma larga frequência) o sujeito que pensava ser o quinto da fila descobre-se o décimo-oitavo. No início você estranha, mas depois se habitua aos costumes locais e já não se importa. Depois de alguns poucos anos, resolvi quebrar a corrente: quando alguém à minha frente pedia para guardar o lugar, eu avisava que se saísse da fila não o deixaria voltar. E não deixava. No início as pessoas estranhavam. E depois, também.

Na Itália as pessoas são mais acostumadas às filas (resquícios do tempo da guerra, dizem) e, na maioria das vezes, respeitam quem chegou primeiro. À exceção dos pedágios nas estradas durante o verão. Nessas ocasiões, os fura-filas aparecem e provocam a revolta dos que aguardam a vez. Ocorre de os fura-filas serem obrigados a parar pouco mais adiante, por causa dos engarrafamentos que proliferam nas férias, e serem surrados por alguns motoristas menos pacientes. Ninguém se oferece como testemunha da agressão quando a polícia chega (ela chega sempre, ainda que tarde), pois todos têm vontade de fazer o mesmo.

As agências bancárias tem poucas filas, uma vez que é possível fazer quase tudo por telefone, fax, internet, etc. Mas também porque muita gente prefere guardar o dinheiro embaixo do colchão. Literalmente. Nos supermercados é como em qualquer lugar: filas, carrinhos pra todo lado, a família que faz compra unida, enfim, o inferno. Nenhum tem empacotador e na maioria deles você deve empacotar a própria compra. E pagar pelo saco plástico.

Nos museus, você não só deve enfrentar a fila em silêncio, como tem que pagar para entrar. E geralmente os museus são divididos em áreas, onde você terá de pagar novamente. Bilheteria de cinema e teatro: fila. Balcão da loja de material de construção: fila. Caixa de qualquer loja: fila. Caixa do café ao meio-dia: fila. Entrada da discoteca: fila. Correios (que também funcionam como banco): fila. Nos hospitais e órgãos públicos: fila.

Como a mão-de-obra custa caro por estas bandas (um operário que trabalhe oito horas por dia, cinco dias por semana, ganha, em média, mil euros), é normal encontrar pequenos bares, lojas, boutiques e até cinemas onde só trabalha uma pessoa. E você deve aguardar paciente e civilizadamente a sua vez. Ou ouvir um monte de desaforos do cliente que está sendo atendido e da pessoa que o atende.


Nos tempos da guerra-fria (agora parece que a guerra esquentou, né?) ouvi alguém contar que, durante uma viagem à Rússia, parou com os amigos à frente de um poste, formando uma pequena fila. Meia hora depois, cansados da brincadeira, tinham medo de ir embora, pois uma fila monstruosa se formara atrás deles. Os russos eram tão habituados às filas que entravam nelas sem perguntar. Aqui, as pessoas só não fazem fila pra comer, pois são acostumadas a fazer reservas nos restaurantes. Uma mania de gente civilizada.

Isso sem contar o trânsito das grandes cidades como Milão, ou das cidades turísticas como Florença. Ou, ainda, as estradas no período de férias. Mas para quem já enfrentou a fila da balsa para Ilhabela, em São Paulo, ou qualquer rua dos Jardins (Sampa) na hora do rush, isso aqui é fichinha.

A organização das filas não falha. Existe um emissor de ticket numerado, onde você pega um papelzinho assim que chega e fica aguardando. Um painel eletrônico mostra o número da vez e emite um sinal sonoro para chamar a sua atenção. O painel informa o caixa ou guichê a que você deve se dirigir. Não tem como furar a fila. Quer dizer, tem. Os brasileiros aprenderam a pegar dois, três tiquets e ficar esperando a chegada de algum conhecido para presentear. Da mesma forma, procuram pelos amigos nos órgãos públicos. Até o consulado brasileiro em Milão trabalha com os tais tiquets. O engraçado é que o consulado italiano em São Paulo, não.

Há coisa de três anos estive em Salvador e quase fui vítima de uma fura-filas. Naquele estilo baiano: “vou ali, volto já. Pode guardar o meu lugar…?”. Obviamente informei à senhora em questão que ela perderia o lugar e ela se indignou.
…E eu estava na fila do acarajé!
Sei não, estou pensando em vender máquinas de tickets a baianas de acarajé…


Ciao.