Monday, July 20, 2020

Diário de um mundo novo - parte 9


Quanta água você toma por dia?
Toma um gole aí.
“Os subsídios da pandemia não resolvem o problema do crescimento.”
“A economia precisa crescer sempre, não pode parar. Mais forte é, mais benefícios tem a serem distribuídos.”
“Um crescimento rápido leva à estagnação, enquanto um crescimento mais lento pode permitir uma redistribuição maior. O que acontece quando todo mundo tiver uma Ferrari, morar em Forte dei Marmi e possuir milhões no banco?”
“Quando as fábricas não tiverem a quem vender, pra quem elas irão produzir? Que fim fará a mão de obra? Ou seremos todos milionários? E quem vai fritar peixe na praia pra eu comer?”
Gente, e eu preocupado com a guia do Shiva que tá velha.
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Foiba” é uma palavra cheia de amargura. Foibe, no plural, como se usa por aqui, são abismos em zonas rochosas, úteis para fazer desaparecer grandes massas. O termo se difundiu após o fim da Segunda Guerra, quando começaram a descobrir os locais de desova dos corpos de prisioneiros, em algumas localidades da região Friuli, Venezia-Giulia.

Hoje o presidente italiano Sergio Mattarella encontrou-se com o presidente esloveno Borut Pahor diante da foiba de Basovizza, distrito da cidade de Triestre, que um dia pertenceu à Eslovênia. Basovizza era uma antiga mineira profunda que se encheu com os corpos de quem não era simpatizante do marechal Tito, a partir de maio de 1945.

Em 1992 o então presidente Oscar Luigi Scalfaro inaugurou um monumento para recordar a tragédia, declarando-o monumento nacional. Ao visitarem juntos o monumento, os dois presidentes deram-se as mãos. “Visita histórica, pois foi o primeiro aperto de mão depois do lockdown e Pahor é o primeiro estadista da ex-Iugoslávia a visitar o monumento.”
“A história não se cancela. Podemos cultivá-la com rancor ou fazer dela um patrimônio comum na lembrança”.

Agora tome um gole de vinho.

Diário de um mundo novo – dia 58
Eu preciso desabafar, me desculpem.
Tem anos que me incomodo com a qualidade das dublagens brasileiras. Cresci ouvindo “versão brasileira, AIC, São Paulo” e a variante mais importante “versão brasileira, Herbert Richards”. Mesmo com o fechamento da AIC, em 1976, a qualidade se manteve alta. Acho que foi a partir de 2009 (quando já morávamos fora), com o encerramento das atividades da Herbert Richards que a coisa tomou o pior caminho possível.

Uma dublagem ruim pode acabar com uma obra. A cada retorno ao Brasil essa certeza fica mais veemente. Há muito decidi a só assistir filme em português quando se trata de filme brasileiro. Uma dublagem feita sem interpretação subtrai uma parte importante do impacto ensaiado e repetido pelos atores e diretor. Alguém me disse certa vez que era uma decisão do mercado para privilegiar a linguagem falada pelo povo, que as produções eram muito elitizadas e a cultura local sofria. Essa ideia de nivelar por baixo sempre me irritou.

Buscando um filme ambientado na Primeira Guerra, fora dos catálogos de Netflix e Amazon Prime, a única opção segura que encontrei era dublada em português. Parei o filme duas vezes para pesquisar se realmente eu não tinha escolha. E fui até o fim passando raiva pela linguagem chula, fora da ambientação do filme (que era sobre a Primeira Guerra, cazzo!) e sem interpretação alguma. Vozes e personagens não combinavam, faltava modulação nas vozes, sonoplastia catastrófica. A impressão era que o estúdio abriu a porta e perguntou ao primeiro que passava: “qué ganha cinquenta conto? Lê essas coisa aqui pra mim.” Foi a primeira vez em muitos anos e, juro, foi a última.

Diário de um mundo novo – dia 59
— ...Allan?
— ...
— Allan!
— ...
— Allan, Allan!
— Hm…
— Allan! Allan! Allan!
— HMMMMMMM!!!
— Você tá acordado?
— Agora tô, né.
— É que você tava rindo.
— Eu devia estar sonhando, ué!
— Com o que? Do que você tava rindo?
— Sei lá!
— Não lembra?
— Shiva, filho da mãe! Acorda e morde o nariz dela.
— Ai, desculpa. Não precisa fazer uma tragédia.
— Num era tragédia, era sonho.
— Aonde você vai?
— Vou aproveitar que vou refletir porque os caras constroem paredes grossas pra esconder dinheiro de falcatruas pra tomar um copo d’água.
— Deita aqui, tem água na minha cabeceira. Volta a dormir.
— Não era mais fácil ter me deixado dormir, antes? Cachorro imprestável, a essa hora era pra você dar uma segunda mordida no nariz dela, invés de tá aí roncando.
— Tem água aqui.
— Quente. Quero, não.

Pego a garrafa da geladeira e encho um copão d’água trincando de gelada. Uma sombra preta se arrasta atrás de mim e vai para o sofá da sala. Bebo a água devagar, caminhando até a sala escura. Sento, acaricio o Assombração, coloco o copo vazio na mesinha e me aproximo dele.
— Preto, eu vou voltar pra cama. Você vem?
— Grrrrrrrrrrrr!

Diário de um mundo novo – dia 60
Acordei de madrugada, abri a janela da sala e fui observar a cidade que se espreguiçava. Do outro lado da rua, uma das janelas da igreja de Santa Clara, que suspendeu as duas missas semanais por tempo indeterminado, já não tem a luz acesa que me chamou a atenção o início da quarentena. Está vazia, não há ninguém lá desde março. O barulho dos caminhões na estrada longe, precisa de um pouco de concentração para ser percebido, mas está presente como sempre. A geladeira, essa malvada da madrugada, tremia e ronronava convidativa. Alguns gatos passeavam pelos jardins e quintais alheios. Não, não vi gato algum, mas sei que eles estão lá. Gatos são silenciosos, sorrateiros, invisíveis. Os gatos estarão sempre lá. O cão, que roncava na cama com ela, não demorou a sentir a minha falta e foi roncar no sofá da sala. Me aproximei e ele entreabriu os olhos. Rosnou. Ele rosna quando quer carinho. Ele não sabe da janela e dos gatos. Mas eles estarão sempre lá.

Os dias estão quentes, o sol nasce mais cedo, mas menos cedo que há um mês. Ela vai tirar a próxima semana de férias pra ficar com a Lu, que vem de Londres. Mandou comprar cerveja, vinho e coisa gostosa pra comer. A igreja de frente de casa sem missa? Faz parte da paróquia da outra igreja, a cem metros dela e com missas normais. Acho que vou passar a noite na janela. Quem sabe eu vejo um gato.
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O diário de hoje é a cópia atualizada do “Diário do fim do mundo – dia 2”, para comparação entre as duas fazes. Um trabalho de autoplágio que ninguém pode me culpar nem processar.

Diário de um mundo novo – dia 61
“Depois de Ferragosto, acabou o verão”, é o que se diz por aqui. Dia 15 de agosto é o feriado mais esperado do calendário italiano e marca, na cabeça do povo, a mudança do clima. E não é que às vezes é isso mesmo? Calor em junho, calorão em julho e inferno do fim de julho até 15 de agosto. Depois os temporais e as chuvas de granizo refrescam o ar. Até que julho nem está tão quente, o que pode indicar que o inferno vai chegar mais tarde. Coisa que, quando os meteorologistas preveem, falha miseravelmente.

Vamos levando esse calor suportável entre bermudas, chinelos havaianas, bicicletas e shorts minúsculos com todo o direito do mundo. Se não usar agora, quando? Muitas mesas ao ar livre, coquetéis, cervejas e bate-papo para tirar o atraso da quarentena. Se é pra morrer, pelo menos vamos curtir o último verão.

Diário de um mundo novo – dia 62
Para continuar funcionado dentro da lei, todos os estabelecimentos comerciais devem exigir o uso de máscaras. Nenhum supermercado permite a entrada sem elas. Nossa sobrinha – que fugiu da situação estressante no Brasil e está aqui – disse ter visto gente sem máscara ou usando abaixo do nariz numa loja. Quem usa máscara abaixo do nariz ou no queixo é quem deixou o cérebro do lado de fora. Ou usa, ou não usa. Quanto tempo vai demorar pra inventarem de usar máscara na testa como óculos de sol?
E aí eu me assusto ao ler que um motorista de ônibus morreu por exigir a máscara, na França. O mundo é um ovo, é a mesma coisa em qualquer parte dele. Somos os gafanhotos da Terra.
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O CBD que estou dando ao Shiva está funcionando que é uma beleza. Depois de muitos testes, encontrei um que o deixa relaxado sem perder a vivacidade. Ou seja, não fica drogado. Aproveitei pra morder o Jamaicano como nuca. É só parar de morder que ele rosna. No final desses dias longos, ele pede pra eu ir fumar lá fora, deita ao meu lado e, se não faço carinho, dorme com a cabeça sobre meu pé. “Ele adora ser seu amigo.” Será que ela só descobriu isso agora?

Diário de um mundo novo – dia 63
Vivemos uma liberdade em vigilância. Procuramos viver o dia-a-dia da maneira mais leve possível, com um olho nos dados sobre o vírus. Os novos casos confirmados viajam numa média de cento e cinquenta por dia, com as vítimas sempre abaixo de vinte. Hoje foram três. É pouco? Não, quando não teremos mais óbitos o número ainda será alto, considerando todos os que perdemos, mas acabamos aprendendo a conviver com os números. Os erros ensinaram o caminho e hoje estamos melhor preparados para uma possível nova onda de contágios. O governo não irá titubear em tomar todas as medidas em modo muito mais tempestivo do que ocorreu no início. Salvar vidas é mais importante que salvar a economia. O sistema sanitário foi ampliado, novos procedimentos, equipamentos, diagnósticos e tratamentos foram testados e desenvolvidos nesse período. É a dor ensinando a gemer. A parte mais difícil é sempre o fator humano. A maioria das pessoas não irá perder tempo debatendo o que é certo ou errado, apenas cumprirá o que for determinado. O treinamento foi duro, triste e aprendemos. A resistência de algumas pessoas não será um problema, só preferimos não ter que passar por uma nova quarentena. E é aí que os resistentes estão pesando. Custa usar máscara quando sair na cidade? Tenho receio de que algo maior possa aparecer, de descobrir que nada servirá o sacrifício que passamos com tanta dificuldade.
Vamos em frente.

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1 comment:

Lucia Freitas said...

eita que alegria ler essas linhas Allan. mesmo. me dá algum alento pra voltar a escrever, coisa que ando evitando com força.
beijo querido