Wednesday, January 29, 2014

Partênope - III de IV



Peguei o primeiro trem pra Roma, cheguei q’a tarde acabava. Dali pra Ostia foi um pulo. Antes que o sol deitasse, batia na porta da casa de meu irmão. Mimmo nem se assustou quando abriu a porta, disse que sabia que cedo ou tarde eu tinha que sair da toca. A família me arrecebeu como se deve, com alegria e acolhença. Mimmo mostrou a casa, trouxe u’a toalha de banho, mostrou onde que eu ia dormir, que era no cômodo que ele usava como escritório, aonde que tinha um sofá-cama. Dia seguinte fomo até aonde que tavam construindo o porto turístico de Ostia. Mimmo conversou com um amigo dele que tinha essa empreiteira que fazia u’a parte das obra. O cidadão era amigo mesmo: me ofereceu trabalho e moradia sem fazer pergunta. A morada era num container ajeitado, tinha até ar-condicionado, televisão. Mimmo me abraçou forte, deu um pouco de dinheiro, disse pra ir passar os domingo com ele, pra procurar por ele sempre que precisava.

Os trabalho precisava de quatro ano, que niguém tinha interesse que ficava pronto logo. Fazia tudo o que dizia sem resmungar, o chefe era muito contente de mim. Virei o homem de confiança dele. Mimmo sempre passava pra trazer alguma coisa: tabaco, roupa, comida. Eu num precisava de nadica, mas apreciava que ele se preocupava comigo. Nos dias de domingo ia almoçar com ele mais a família, escutava as notícia do pai, da mãe, das coisa como andava em Nápoles. Os Della Smorfia tinha exterminado toda a família dos Peperoncini, os agregado, até um juiz. Mandaro caçar um que tinha fugido pra França, sumiro com tudo, num rinha sobrado ninguém. Os Della Smorfia tinha virado u’a família poderosa. A faida tinha acabado, ninguém falava mais.

Quando a parte da obra do empreiteiro em Ostia findou, ele perguntou se eu queria ir pra Lampedusa, na Sicília. Eu nem imaginava aonde que ficava, pensava que a Sicília era u’a ilha só, até que ele explicou que Lampedusa é u’a ilha no meio do mar, mais perto da Tunísia que da Itália, mas que era lá que ele tinha que começar outra obra, um novo centro de acolhença pros deseperado que se aventurava no mar, pra fugir da vida difícil no norte da África. O destino me apontava Lampedusa. E Lampedusa seja.

A primeira viagem de avião me deixou com u’a vontade louca de num arrepetir a experiência mais nunca. Lampedusa parecia u’a pérola no meio do mar, u’a luz pros desinfeliz. A gente de lá era acostumada com gente de fora, mas reclamava muito dos político que fazia nadica de nada pela emergência dos imigrante, que a ilha tinha que enfrentar praticamente sozinha o problema, que o dinheiro nunca bastava.

Como em Ostia, eu morava no container. O alojamento dos operário formava u’a fila de container onde que dormia oito em cada container. O meu era separado, ficava do lado do escritório. Eu que comandava quando o chefe num tava. Os operário me respeitava, eu tratava todo mundo com autoridade, mas com respeito. Comigo tinha quizomba não, estávamo todos lá pra trabalhar e sustentar a família no continente. Vez em quando o chefe esticava o fim de semana, ficava a semana inteira resolvendo as coisa em Roma; vez em quando a mulher do refeitório passava a noite no meu container; vez em quando eu tinha que despachar alguém depressa deprecíssima pro continente; vez em quando a praia acolhia os corpo dos imigrante meno afortunado.

Já tinha pra mais de dois ano que eu tava em Lampedusa que a mãe adoeceu. O chefe me deu a paga, todo o dinheiro que ele me tinha guardado, u’a passagem de avião pra Salerno, que chegar direto em Nápoles era arriscado. Desejou boa sorte, disse que se eu queria voltar, o meu lugar tava garantido. O destino voava comigo pra onde que eu num esperava voltar tão cedo, mas a gente num comanda o próprio destino, só obedece.Cheguei no aeroporto de Pontecagnano que as perna tremia. O tio Ludovico me esperava e seguimo viagem rumo a Nápoles. Paramo na casa de um seu parente em Nocera Inferiore, pra esperar a noite anoitecer. Tava cansado daquela vida de jurado de morte, queria ser jurado de vida outra vez, mas na vida a gente aprende a se conformar. E jurado seja.


Continua...

8 comments:

Ge Bolognani said...

Está ótimo!!!
Cadê o próximo?

Denise Rangel said...

Este Romeu num tem Julieta não, moço?
Abraço, garoto

Allan Robert P. J. said...

Ge, o último capítulo já, já chega.

Denise, o Salvatore é um exemplar típico da raça (humana, masculina, jovem... escolha). Giulietta é que não falta. :)

Denise Rangel said...

Imagino que sim, Allan. Mas refiro-me à uma menina da família rival, tal qual a clássica história, hehe.
Abraço, garoto

author casulo-online said...

E que não se conforme pra ver! ra ra

Talvez se ele se sentisse um "jurado de vida", o destino seria outro, ele teria forcas e um novo projeto de vida seria traçado. Mas algumas vezes somos apenas levados pelo vento...

Adoro a expressão idiomática da sua redação.

Léia Silva said...

Hoje teu post me fez voltar para uma realidade já bem esquecida por mim, o dos extermínios da máfia! Esquecido, pois onde vivo não se escuta falar muito disso, mas é uma dura realidade!
Outra dura realidade que com o dia dia acabamos por esquecer é o descaso para com aqueles imigrantes que vivem pior do que animais naqueles centros de acolhença!
Somos muito fortunados com a vida que temos!
Voltando ao fascinante Salvatore... espero que ele seja realmente jurado de vida!
Aguardo o próximo capítulo:)
Bjim
Léia

Allan Robert P. J. said...

Denise, A vida do salvatore está mais para Andrea Camilleri que para Sheakspeare. :)

Cris (Casulo-online), o problema é se conformar, acreditar que tudo está escrito e não tentar mudar. Acho que o Savio é do tipo que se conforma. Ou não? :)

Léia, vivemos longe de muitas realidades e devemos agradecer por isso. O Salvatore, não. :)

Lúcia Soares said...

Inevitável pensar que ele se acomodou. O que faz o medo, não?
Enquanto isso, pelo menos não se meteu em encrencas.
Como será o desfecho?
Abraço.