Monday, February 03, 2014

Partênope - IV de IV



Chegamo na casa do pai que a noite já dormia quieta. O pai tinha deixado a porta sem trancar, cochilava na sala, esperando a gente. Falou que a mãe tinha voltado do hospital, tava fraca mas tava melhor. Subimo até o quarto que era de Mimmo mais eu, fomo dormir. Dia seguinte o tio foi trabalhar com a manhã amanhecendo. O cheiro de café da napolitana fazia as coisa parecer como tudo tinha sido um dia. Levei o café pra mãe no quarto, ela chorava e abraçava. Tava muito fraca, precisava curar u’a infecção pra poder operar o coração, que de fraco sempre foi. Ia passar uns dois, três mês em casa com assistência de u’a enfermeira, até ter força pra aguentar a cirurgia. Tudo pago  pelos Della Smorfia, que a Camorra cuidava dos seu.

O pai disse que era arriscado ficar lá, mas eu precisava esperar que a mãe sarava pra ficar em paz. Prometi que assim que a mãe sarava eu voltava pra Lampedusa, o pai se conformou. Fui pro porão antes que a enfermeira chegava. Depois que ela chegou, subiu pra ver a mãe, o pai me levou pra u’a oficina de torno e solda dum amigo em Pozzuoli, nu’a ruela sem saída. Fui deitado dentro da cabine do caminhão pra ninguém ver. O pai tinha colocado um scooter no baú. O dono da oficina num tinha certeza se era o caso de se meter nu’a situação assim perigosa, mas parece que ele devia muitos favor pro pai. O pai ainda argumentou que Pozzuoli num era zona dos Della Smorfia, que depois do acerto de conta com os Peperoncini, essa história de zona e limite era muito respeitada. O pai deixou o scooter mais u’a cópia da chave de casa comigo. Recomendou pra eu só visitar a mãe de madrugada, pra voltar antes do sol nascer, de usar sempre o capacete pra esconder o rosto. Num adiantou argumentar que era mais estranho usar capacete em Nápoles, que ia chamar mais atenção: o pai falou que a suspeita era melhor que a certeza. Ficou combinado que na oficina me chamaria Salvo, que é parecido com Sávio, que eu ia dizer que tinha vindo de Ostia.

O chefe era pouco simpático, num facilitava muito a minha vida. Também num chegava a atrapalhar, mas mostrava que a situação deixava ele ansioso. Eu dormia no cômodo que tinha em cima da oficina, que um dia tinha sido o escritório mas que tava abandonado. Tinha dinheiro que bastava pra mais de dois, três ano. Almoçava na trattoria, que ficava longe de metro uns cem, da oficina, junto com os pouco operário que trabalhava por ali. Garrei amizade com um soldador da oficina, de nome Roberto, que me dava guarida no trabalho, ensinava a soldar. Trabalho num faltava, que a oficina servia a família que comandava a área, pagava o pizzo com devoção. O chefe num me via parado nem um minuto, eu ainda limpava a oficina de noite, mas o ar de incomodado ele num tirava da cara de jeito nenhum.

Roberto insistia pra eu sair tomar um vinho mais ele, de noite, mas o melhor mesmo era ficar quieto no meu canto. Inventava cansaço ou preguiça. De tanto em tanto eu ia com o scooter visitar a mãe; de tanto em tanto o pai telefonava pra saber notícia de mim; de tanto em tanto a filha da vizinha esperava a oficina fechar pra pedir algum favor, ficava até tarde; de tanto em tanto Roberto esticava o almoço no sábado, nós enxugava o vinho da trattoria; de tanto em tanto o chefe fechava a cara.

Quatro mês avante da minha chegada, a mãe foi operada. Os médico dizia que era mulher forte, que o coração tinha ficado novo, novo. Em quinze dia ela voltou pra casa. A enfermeira pagada pela Camorra também voltou. Foi com ela que topei nu’a madrugada que o pai num tinha. Por causa du’as entrega que tinha urgência urgentíssima, a enfermeira passou a noite com a mãe. O susto durou pouco, que ela já desconfiava de alguma coisa. Fomo pra cozinha, que ficava nos fundo da casa, escondida do movimento que quase nem tinha na rua. Ela me chamou pelo nome, disse que esperava muito me conhecer, que tinha ouvido falar de mim. Acabamo nos amando ali mesmo, na cozinha. Ela jurou que guardava segredo, mordia, queria me encontrar de novo. Fui embora sem ver a mãe pro pai num saber que tinha topado com a enfermeira.

Setembro chegou que o verão ainda comandava. Mimmo tinha passado três semana em casa, já tinha levado a família de volta pra Roma. A filha da vizinha da oficina tinha sempre algum favor pra quando a oficina fechava. O pai lembrou de ligar nas outra vez que tinha que passar a noite fora, com medo da enfermeira. Eu ia também naquelas noite, mas não pra ver a mãe. Roberto convidou pra festa de San Gennaro, que eu adorava, mas a ideia de desfilar pelas rua de Nápoles como se fosse o rei da pizza napolitana, num chegava nem perto do meu cérebro. Inventei que num gostava de quizomba. O dia da festa chegou, o feriado tinha cheiro de cidra. Nem a trattoria abria. Por volta das dez da manhã escutei os mais de vinte tiro de canhão de Castel dell’Ovo, anunciando que o milagre tinha ocorrido, o sangue do santo nas ampola tinha ficado líquido outra vez, que era um bom sinal. Quando que o sol ia cedendo lugar pra lua, a filha da vizinha se materializou com um capacete. Queria porque queria ir pra festa, nem que fosse pra dar u’a espiada só. Nem precisou muito pra me convencer. Decidi arriscar, ver de novo aquela festa que era a mais importante, mas que eu num participava da tempos. Depois, de capacete...

A noite ainda num era inteira, tinha um resto de dia nela. A festa era a mesma de sempre, a mesma de antes. A cidade brilhava que molhava os olho. Parei o scooter nu’a rua perto da igreja, que nós quería ver a relíquia do santo. Depois ía encher a pança de macarrão, doce, vinho, que em San Gennaro se come, se bebe, se diverte. Entramo abraçado pra num se perder na multidão. A emoção enchia mais os olho a cada passo a passo até o sangue exposto. Rezei chorando pela graça, saímo mais espremido que abraçado.

Do lado de fora da igreja uns quebra-milho dos Della Smorfia esperava com a enfermeira. Ela apontava com raiva, os olho molhado de ciúme. Nem cinco minuto passaro que eu tava avante do chefão dos Della Smorfia. Ele me explicava que era muito agradecido ao pai, que a faida com os Peperoncini era coisa do passado, que tava disposto a esquecer que um dia eu tava do outro lado. Esticou a mão pra eu beijar o anel dele, em sinal de lealdade. Falei que eu tava fora daquela vida desde muito tempo, que só tava em Nápoles por causa da mãe, que ia desaparecer no dia seguinte. Quando me arrependi era passada a hora. Num ter beijado o anel dele era ofensa grave, o meu destino tava escrito.

A festa vai ficando pra trás, pouco a pouco que o barco vai entrando no mar. Os cinco me vigiam com ressentimento. A noite vai ficando mais escura e mais escura. Pedi pra que meu corpo fosse encontrado, pra família poder chorar, rezar pela minha alma. Ninguém responde, ninguém diz palavra. Me conformo, napolitano sou. Eu sabia. Desde o início eu sabia que a luz era pra ser o meu caminho, mas escolhi ficar, escolhi outro destino. E destino seja.
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12 comments:

Roseane Viana said...

Você tá escrevendo crônicas? Vou rpecisar voltar alguns posts para entender. Boa semana amigo e obrigada pela força!

Denise Rangel said...

Allan, desconfiei desde o princípio que o fim dele seria trágico, mas, ser dedurado por ciúmes? Pobre moço. Merecia um fim menos passional.

Luma Rosa said...

Oi, Allan!
Poxa... tanto sacrifício por nada?
Mas por certo será lembrado por ter desafiado o código de conduta.
O nome dos seus personagens fez-me lembrar de Roberto Saviano, o jornalista jurado de morte pela máfia napolitana.
Vi sua resposta aos comentários na postagem anterior. Coragem para escrever um livro... isso você já provou que tem!
Boa semana!!
Beijus,

Lúcia Soares said...

Gostei, embora não pensasse num final triste.
Linda história, gostei do jeito da escrita, tem muito "minerês" no meio. rs
Não sei pq a gente sempre espera um final feliz...
Abraço!

Mauro M. said...

Uno dei mio nonni era napolitano . Preciso pesquisar a arvore genealógica paralela para descobrir a qual famiglia fui indiretamente ligado .

Ótimo texto, Allan!

author casulo-online said...

Também pensei o final seria feliz. A gente espera um final feliz rs

Anonymous said...

tio,
vc fez eu ler toda essa coisa pra matar ele no final?
vc é mau, tio.

pedro luis

Allan Robert P. J. said...

Roseane, logo, logo o blog volta à programação normal. :)

Denise, "não existe razão nas coisas feitas pelo coração". :)

Luma, na realidade de Nápoles, acho que o Salvatore não seria lembrado. Já o Saviano, não será esquecido.

Lúcia, acho que o Salvatore já tinha decidido o destino dele lá no início do conto. :)

Mauro, quem sabe vocês não são parentes? :D

Cris (Casulo-online), a gente sempre espera o melhor da vida. :)

Pedro Luis, a Camorra é má, eu não. :P

Tati e Seus Nicola'S said...

Ia comentar, com a estrofe de uma música, o q vc acabou de dizer:

"... e quem um dia irá dizer que não existe razão nas coisas feitas pelo coração".

Lembrei de um Mimmo que conhecemos em Roma ... mas não tinha nada de romano, menos ainda de italiano. Era um Mimmo do Egito ;)

Léia Silva said...

Oi Allan
Não esperava por esse final!
Como sempre mulher com ciúmes é sinônimo de grandes problemas!
Salve Salvatore!
Léia

Inaie said...

:-)

tudo muito triste, mas muito bonito também. Tadinha da mae que depois de uma cirurgia de coraçao ainda perde o filho!

Thais Miguele said...

Ui, muito gostoso de ler. Muito bom esse conto. Trágico, mas bom. Me lembrou aquele livro clássico americano, sobre uma família bem pobre, daí a mãe morre e os filhos todos viajam pra enterrar. Sabe qual é? Um bem clássico? Não lembro o nome.