Saturday, January 25, 2014

Partênope - II de IV



Acordei que o sol ainda num tinha. A cama perfumava de cidra, o resto da casa também. A morada tinha só dois cômodo: o quarto de dormir com u’a cama de viúva, um armário, u’a cadeira de balanço mais velha que ‘Na Pina, a tina de banho, u’a janela. O outro cômodo era maior, com u’a mesa comprida que se adornava com as cadeira, um banco comprido, a cristaleira, o armário aonde que ‘Na Pina guardava as erva, os óleo, os licor, os vridro vazio, os xarope, as cidra cristalizada. Os móvel era tudo du’a madeira só, capaz que encomendado dalgum marceneiro, que num tinha prego nenhum. Coisa de mestre experiente mesmo. O fogão de lenha ainda que tinha brasa, fiz um gole de café.

‘Na Pina chegou que o sol despontava. Parecia mais velha que no dia de antes. Deu água pro burrico, carregou ele com um cesto de ferramenta, moringa d’água, pão, um pedaço de queijo defumado. Disse pra eu seguir o burrico, refazer as cerca de palha que protege as cidreira do vento, pra limpar o terreno do mato, regar as planta, colher as fruta maior. Disse pra deixar que o burrico sabia o caminho de onde que tinha que ir, de só voltar à tardinha, depois de regar as planta pela segunda vez. ‘Na Pina pediu pra fechar o portão quando saía, fechou ela a porta da casa.

Andamo por coisa du’a hora até encontrar um cercado igual da casa de ‘Na Pina. O burrico empurrou a porteira com a cabeça, entrou. As cidreira ficava protegida no meio du’as árvore alta, que todo mundo sabe que cidreira num gosta de vento. A cerca de palha protegia a parte de baixo das árvore, mas carecia du’a ajustada. No Roncato o vento num pára e a plantação ficava bem no alto, de frente pro mar. O poço da plantação funcionava com u’a bomba manual; acho que tinha pra mais de duzento metro de cano, que o morro era alto mesmo. Bombeei água no coxo, aliviei o burrico da tralha; comecei o primeiro dia no campo com o sol nas costa, o cheiro do mar mais o cheiro da cidra, que era melhor que o cheiro de suor do porto de Nápoles.

A noitinha tava fresca no casebre, cheguei trazendo o cesto cheio de fruta; u’a fome que roncava, o cansaço do novo trabalho. ‘Na Pina tinha preparado peixe, azeitona, tomate, pão. Mandou eu tomar banho, comer, que ela tinha que voltar pro assistido dela. Falou que a criatura deveria partir naquela noite. Saiu com o burrico, mais velha que de manhã. Dia seguinte chegou que o sol brilhava já, cabeça baixa, véu cobrindo o rosto. Num disse palavra. Peguei o burrico, fui embora cuidar do campo. Voltei qu’anoitecia u’a noite de lua; senti no portão o perfume de pão fresco mais minestra. As lamparina de dentro da casa tava apagada, só o lampião pendurado na porta lutava com o vento do lado de fora.

Um punhado de lenha queimando no fogão bastava pr’alumiar a casa. ‘Na Pina saiu do quarto com u’a bacia na mão, falou pra eu ir tomar banho, a minestra tava quase pronta. A voz num era mais rouca, num era mais a mesma; a roupa branca alumiada pelo fogo exibia um corpo de fêmea nova. Tomei banho, esvaziei a tina. A minestra fumava em cima da mesa, ‘Na Pina tirava pão do forno. Comemo devagar enquanto que eu contava pra ‘Na Pina dos conserto que tinha feito, das fruta que tinha colhido, do mato que tinha limpado, do coxo que tinha arrumado. Ela espiava sorrindo, com uns dente branco de menina. Os osso do rosto tinham sumido por debaixo de u’a pele fresca, nova. ‘Na Pina pegou o garrafão de vinho na cristaleira, serviu duas caneca grande, sorriu mais com os olho que com a boca. Tava mais viva que sempre. Parecia um animal caçando presa, enquanto que seu corpo devorava o meu.

O tempo caminhava devagar no campo. ‘Na Pina vez ou outra me acompanhava pra explicar as coisa da plantação; vez ou outra eu tinha que esperar do lado de fora do portão fechado ela atender um vivente; vez ou outra ela ia na vila entregar os óleo,  os xarope, os licor, as cidra cristalizada; vez ou outra ela passava a noite assistindo um morrente. Aparecia mais nova no dia seguinte, com o garrafão de vinho, a roupa branca transparente, queimando como a lenha no fogão. 

Tio Ludovico apareceu num fim de tarde. Trouxe mantimento, vinho, tabaco, roupa, dinheiro. ‘Na Pina num precisava de nadica de nada, mas muito agradeceu, como fazia com todo mundo que pagava como podia quando precisava dela. Tinha feito pão fresco, peixe frito que bastava prum time, mais azeitona, tomate, vinho, como se adivinhava a visita do tio. Comemo, saímo prosear no banco do lado de fora, admirando a ilha de Capri, as luz no mei do mar. O tio falou que as duas família tava em guerra, que os Peperoncini levava a pior, que os Della Smorfia matava todo mundo que tinha ligação com os Peperoncini. Disse pra ter cuidado. Disse que eu parecia mais novo, a pela mais fresca, que já tinha passado três ano que eu tava no Roncato sem ninguém descobrir. Pitamo do tabaco do tio até tarde. ‘Na Pina arrumou duas esteira na sala, como se eu dormia sempre lá. O tio partiu de manhã, antes da chuva cair. Recomendou muito cuidado, pra num ficar de bobeira não.

Num dia que ‘Na Pina tinha que levar as coisa na cidade, apareceu u’a gente que precisava urgentemente de urgência de ser benzida, de massagem com óleo, das cura de ‘Na Pina. Ela me deu orientação precisa de quem encontrar em Massa Lubrense, o que tinha que levar, as coisa de comprar no mercado. Carreguei o burrico, parti que ainda era cedo de sol. O burrico conhecia o caminho, a passada certa pra num escorregar com as ferradura nas rua de pedra. Sabedoria de jumento é lenteza. E lenteza seja.

Entreguei a mercadoria, passei no mercado de feira, cheguei no armazém aonde que ‘Na Pina comprava o tabaco que a manhã ainda num tinha acabado. Foi saindo do armazém que dei de cara com um dos homem dos Della Smorfia. O susto foi mais dele que meu, mas logo que ele arrecuperou a cor, começou a me cortar com os olhos, prestou muita atenção no burrico, na carga no lombo dele. Fiquei ali, sem desafiar com os olho mas sem medo, sem arredar pra trás. O quebra-milho entrou no carro estacionado ali perto, partiu sem fazer quizomba. Meu destino tava pra mudar de novo, era só o que eu sabia.

 ‘Na Pina esperava agoniada na entrada da trilha, nos arbusto, com u’a viatura estacionada. O vivente dentro da caminhonete suava um nervoso que tremia. ‘Na Pina pegou as rédea do burrico das minha mão, me deu u’a sacola que ela tinha preparado, um envelope com dinheiro, um beijo na testa que mais parecia de extrema unção, disse: “Vai!” Nem tive tempo de ver a lágrima molhar a pele seca e cansada de ‘Na Pina. O cidadão da caminhonete partiu, dirigindo como se tava apostando corrida com o vento. Hora e meia depois, me deixava na frente da estação de Caserta. Durante a viagem apavorada, só falou u’a coisa: “Num quero saber seu nome, quem você é, nem o que aconteceu. Te largo na estação, você vai pra onde quiser. Quanto meno a gente souber do outro, melhor.” Só tinha um destino possível: pra frente. E pra frente seja. 


Continua...

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12 comments:

Denise Rangel said...

Estou encantada com tua arte, Allan! Uma descrição machadiana e uma linguagem Roseana. Muito bom!
Curiosíssima!
Abraço, garoto

Luma Rosa said...

Oi, Allan!
Que proseado bonito! :) Pena Sávio ir embora da casa de Na Pina...
Aguardando os próximos capítulos!
:)
Beijus,

myra said...

ah, Allan voce e mesmo um escritor, continua, continua!!! amei, adorei
abracossssssssssssssssss!

Anonymous said...

tio,

...hã?

pedro luis

Allan Robert P. J. said...

Denise, misturar estilos sempre foi o meu problema, mas às vezes funciona. Espero que essa seja a vez boa. :)

Luma, o Savio é jovem, ele resiste. :)

Myra, Sempre incentivando. Obrigado. :)

Pedro Luis, :P

Sissym Mascarenhas said...



Allan,

seu texto tem uma linguagem simples e cativante, não cansa. fiquei pensando como seria delicioso ler um livro assim, bom para sentar a tarde, relaxar e se distrair.

sorri ao encontrar "nadica de nada", difícil de ler e ouvir isso atualmente.

Bjs

Thaís Helena said...

Estou adorando!
Avise-me quando sair o livro, sim?
Abraços!

Allan Robert P. J. said...

Sissym, se tivesse tido coragem, o conto teria sido um livro. :)

Thaís, leia o comentário acima. :D

author casulo-online said...
This comment has been removed by the author.
Léia Silva said...

Estava tão boa aquela vidinha de Salvatore com Na Pina!!!!
Sentia daqui o cheiro do pão com a minestra e recordava da minha infância, quando ia pra fazenda e os caseiros fumavam cigarro de palha!
Vou sair agora, mas volto assim que puder para saber onde o destino irá levar Salvatore!
Parabéns pelo trabalho e até breve!
Léia

Lúcia Soares said...

Parte III. Ansiosa.
Abraço.

Dayanne Guerra said...

Allan, conta mais! *_*