Tuesday, January 21, 2014

Partênope – I de IV



Salvatore é meu nome. Prefiro Sávio, que é como todo mundo me chama. Napolitano sou. Vivo o destino, que cada um deve se conformar com o destino que arrecebeu. Me conformo e vou avante, que napolitano num s’arreda pra traz, a num ser que num arrecebe um balaço nos peito, que aí num tem modo de cair pra frente. Mas quem chegou a 30 ano nessa terra é porque aprendeu a num ficar de bobeira avante um revólver. Anda a vida toda no fio da navalha sem escorregar.

Quando era pequenino de leite, eu vi a luz. Era u’a luz branca com um buraco em cima, tão forte que num se via nadica de nada do que tinha depois. Só as pessoa na entrada da luz, que me sorria e me chamava e que eu conhecia mas num alembrava. Estiquei os braço, que eles chamava sorrindo com os braço esticado, mas num fui. Eu sabia. Eu sabia tudo e num fui com eles porque num tinha volta. Escolhi o meu destino e fiquei.

Mimmo, meu irmão Massimiliano, era endereçado na vida. Estudava qu’estudava. O pai mandou ele pra casa duns parente em Ostia, um distrito de Roma. Mimmo passava o dia em Roma, trabalhando e estudando, só voltava pra Ostia pra dormir e trocar de roupa. Criou família, trabalha nu’a empresa como supervisor. Nas festa de fim de ano e no verão, traz a família pra visitar a gente. Mas comigo teve jeito não. A escola num m’interessava, eu vivia na rua. Só voltava pra casa pra dormir e levar bronca.

Então que eu tinha uns vinte ano quando que o pai ficou com medo que eu arrumava encrenca grossa, que encrenca pouca tinha todo dia. O pai dirigia caminhão pr’u’a família da Camorra, os Della Smorfia, enquanto que eu tava de amizade com os filho du’a família rival, os Peperoncini. Um dia, por causa dum comerciante novo que tinha aberto comércio nu’a zona entre as duas família, os Peperoncini levaro a melhor. Briga de nada, coisa pouca, mas eu tava presente. Os outro juraro vingança.

O pai achou melhor eu passar uns tempo com ‘Na Pina, u’a espécie de benzedeira que vivia sozinha lá pras banda de Roncato di Massa Lubrense. Massa Lubrense nem é tão longe de Nápoles, mas num tinha nadica que interessava a gente da Camorra lá. O Roncato, então... ‘Na Pina era a única pessoa que conseguia plantar e colher cidra naquelas parte e precisava de alguém pr’ajudar, que a idade dela começava a pesar. O pai deu um pouco de dinheiro, dois saco de farinha, um saco de fubá, tabaco. O tio Ludovico, que num é meu tio de verdade, também dirigia caminhão pros Della Smorfia, me acompanhou de carro até Roncato. Na saída do vilarejo, parou na frente du’a trilha no meio dos arbusto, explicou como chegar na casa de ‘Na Pina. Ajeitei a farinha mais o fubá nos ombro, parti pela picada, que só se transitava a pé ou em lombo de burro, que era o único jeito que tinha pra chegar na casa de ‘Na Pina.

Da cidade pro campo dum dia pro outro, pensei. Caminhava devagar com o sol que esquentava a farinha mais o fubá nos ombro, ajeitando o ritmo da caminhada pra num cansar. Sacudi a cabeça, me convencia que a vida seria diferente dos ano vivido. Caminhava devagar pro meu destino. Porque a vida é isso: destino. E destino seja.

Cheguei qu’anoitecia quente, com os ombro arrebentado, a fome dum mendigo. ‘Na Pina morava num casebre de pedra com u’a cerca que arrodeava todo o quintal. Nadica de vizinho ou de plantação, era só mato mesmo. Tinha um burrico pastando, u’as galinha ciscando perto de onde que tinha u’a horta protegida com a mesma madeira seca do cercado, um poço coberto. O pai disse que se o portão tava fechado tinha que esperar em silêncio. Tinha um banco de madeira pra quem precisava esperar, mas o portão tava aberto, fui entrando. Quando passava pelo portão ouvi u’a voz rouca de fêmea: “Avante, Sávio! Tava t’esperando.”

‘Na Pina tinha o rosto seco, seco, que os osso parecia querer sair. Os cabelo grisalho amarrado nu’a trança, as mão com os dedo fino comprido. A pele que era que nem da gente que trabalha no cais, com o sol no couro o di’inteiro. Fiquei avante dela, parado na porta da casa enquanto que ela me cortava com os olho preto, de cima até os pé. “Entra, homem. Arreia esses peso antes que te falte respiração.” – ela falou sorrindo c’os dente amarelo. Pedi licença, entrei, ajeitei o fubá e a farinha na mesa comprida. Antes que abrisse boca, ‘Na Pina avisou que precisava dar assistência a um morrente, que só voltava no dia seguinte. Disse que tinha preparado u’a minestra, que tinha pão novo no forno. Mandou eu tomar banho, dormir na cama. Mostrou o registro pra esvaziar a tina de banho. Depois ela ofereceu tabaco e palha, pegou o burrico, sumiu na noite de estrelas muita.

Tomei banho com a água da tina; lavei a roupa da poeira, botei perto do fogão pra enxugar; esvaziei a tina, comi a minestra com pão quente; pitei um cigarro de palha, fui deitar, que as costa queimava do peso dos saco. Ainda era cedo, mas o corpo pedia trégua. E trégua seja.


Continua...
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11 comments:

myra said...

estou gostando muito, CONTINUA!!!
um gde abraco
nao pude abrir o video!

author casulo-online said...

Que mix bacana você fez no vocabulário... quero ver a "virada" que o "destino" vai dar nessa estória, e que Salvatore não se canse!

Ge Bolognani said...

gostei... esse vocabulário está engraçado, parece meio nordestino com não sei o quê, kkkk
faço cor: continua!

Amantikir said...

Também gostei! Estou esperando os próximos capítulos.Inté!

Allan Robert P. J. said...

Myra, Casulo-online (Cris), Ge Bolognani e Cirlei, obrigado pelo incentivo! Não percam os próximos capítulos.

:)

denise rangel said...

Allan, sempre nos surpreendendo. Estou animada com a narrativa e prevejo mais encrencas para nosso protagonista.
abraço, garoto

Dayanne Guerra said...

Allan adorei o aconchego desta prosa caipira! Conta mais para nós! : )

Allan Robert P. J. said...

Denise, Encrenca é o sobrenome dele. :)

Dayane, continue seguindo. Já, já tem outro capítulo. :)

Sissym Mascarenhas said...

Allan,

a sequencia final por ser tão descritiva me fez ver cada cena.

sobre a tina, fez-me lembrar das historias de meu cunhado no pós guerra na Alemanha, ele era o caçula e por isso o ultimo a se banhar. imagine só a agua! e reclamamos tanto de bobeiras.

Bjs

Léia Silva said...

Boa tarde Allan!
Nossa adorei e estou indo ao outro post, pois estou gostando muito dessa prosa!
Até mais!
Léia

Lúcia Soares said...

Muito bom! Vou ler o II.
Abraços.