Sunday, July 14, 2013

Enquanto isso...


“O povo novo quer muito mais do que desfile pela paz” (Tom Zé)

Um amigo – comerciante de carros – exprimia a admiração dele pelos protestos no Brasil: “nós, italianos, jamais iríamos pras ruas exigir as mudanças de que tanto precisamos. Eu mesmo, me lamento dos efeitos da crise, tenho consciência de que a classe política poderia fazer muito, sou contra toda essa corrupção cuspida na cara da gente todos os dias, mas não teria coragem de ir às ruas. Prefiro ficar aqui, reclamando que as vendas caíram, reclamando dos políticos e botando a culpa no governo. Fazendo de conta que não sei que somos nós a escolher o governo.”

Italiano é capaz de mover o mundo para defender a receita tradicional da massa de todo dia, mas não move uma palha para tentar mudar o que realmente afeta a vida de todo dia. “Cambiare tutto per non cambiare nulla” [mudar tudo para não mudar nada]. Basta que algum político apareça na imprensa gritando palavras de ordem e dando socos na mesa. Aplausos, tapinhas nas costas, holofotes e a consciência de que no dia seguinte tudo continuará como antes.

Neste mês de Julho-verão, três assuntos dominam os noticiários e as conversas de bar: “Será que dessa vez o Berlusconi vai ter que se exilar pra não ir em cana?”; que jogador cada time comprou, está comprando, se interessa ou está fingindo que não interessa; como sair de férias sem gastar o dinheiro que a crise não permitiu ganhar.

A classe política vive num mundo virtual, no qual é obrigatório falar muito para não esclarecer nada. As leis se adaptam às necessidades dos legisladores e a aparência é de que tudo vai bem, obrigado; o futebol europeu está sendo vendido aos sheiks árabes e uns poucos jogadores fortunados começam a ganhar cifras estratosféricas. Diante de um cheque em branco, os astros do futebol trocam de time jurando amor eterno, até o próximo árabe; entre o delírio dos políticos e os salários futebolísticos, o italiano comum se envergonha em dizer que não tem dinheiro para viajar durante as férias e se esconde nas piscinas públicas longe de casa. Depois do verão, quando todos voltam à dura rotina de ter que se virar para sobreviver até o ano seguinte – quando (juram os políticos) tudo vai melhorar – , a regra é fingir não ter visto o colega de trabalho no mês anterior, escondido na mesma piscina de todos.

Quando chegará a hora dessa gente esbranquiçada mostrar seu valor? Será que o primeiro passo seria um desfile pela paz?

10 comments:

Franco Brasil-Italia said...

"Italiano é capaz de mover o mundo para defender a receita tradicional da massa de todo dia, mas não move uma palha para tentar mudar o que realmente afeta a vida de todo dia."

Cosa dire? Come italiano non posso che darti ragione. Non so, forse non siamo molto diversi da voi brasiliani (o da quello che eravate). Avendo passato due Guerre Mondiali, fame e problemi vari, abbiamo imparato a convivere con i nostri problemi, qualunque essi siano e andare avanti in ogni modo. In Italia vedo manifestazioni fatte, per la maggior parte, da sindacati (e chi vive a Roma sa bene questo). Ma al di lá di un aumento di stipendio non chiedono. Sarebbe ora che anche noi facessimo qualcosa per migliorare la nostra situazione e spero che queste varie lotte che succedono in Brasile ma anche in altri Stati, possano incentivare alcune persone.

Roseane Viana said...

Ah os e as italianas...pessoas especiais neste mundão de meu deus.
Passei 12 dias em Lido/Giudeca... foi um bom período.
Comidinha italiana muito boa também.
Os gelatos...ah...maravilhosos no calorzão que tava.
Bom domingo!

Carolina (Bichinha na Italia) said...

Verdade... Os italianos se lamentam mto... Mas nao arregacam as mangas.. Vao aceitando aceitando... E olha ai!
Espero profundamente q todas essas manifestacoes, nao so as do brasil ( q parecem ter esfriado os animos, ou me engano?) inspirem o povo italiano p sair nas ruas e limpar toda essa sujeirada!
Merecemos viver em uma italia melhor, mas isso depende de uma mudanca de mentalidade... Quem sabe...

Claudinha ੴ said...

Olá Allan!
Então essa gente alegre e esbranquiçada não sai às ruas... Eu acho que o povo aqui se cansou, mas tenho visto os aproveitadores e os infiltrados atrapalhando tudo... Isso não é bom!

:)

*Venha para uma visita especial ao TP. Estamos fazendo 10 anos!

Minha vida na Italia... said...

Falou bem Allan...não vou entrar no mérito da questão, mais a amiga ai falou, gente alegre???? onde???? o que vejo aqui, é gente pessimista e fria ao extremo...só se for no sul da Itália?

myra said...

sim, sim, um caminho par a paz!!!!
precisa muito!!
abraco querido amigo Allan!

Léia Silva said...

Boa noite Allan!
A prova maior que os italianos não movem uma palha para mudanças, foram as últimas eleições! Após tantos escândalos e bunga-bungas, o povo ainda votou no tal "Cavaliere"!
Realmente esses são os assuntos que tem dominado o nosso tedioso noticiário e na verdade parece que estão simplesmente repetindo as notícias do ano passado:(
Léia

Celia na Italia said...

Ir as ruas manifestar ... se não fossem as depredações e a falta de objetivos concretos, acho que teria chance de dar certo.
Vamos ver as cenas dos próximos capítulos!

Thais Miguele said...

Convenhamos que o que aconteceu no Brasil também foi uma surpresa. Assim como os italianos, também éramos de reclamar muito, fazer nada, e o pior: dar risada afirmando que "tudo acaba em pizza".

Anonymous said...

Nao sei se ouviu falar ou viu o filme "Diaz" http://www.adorocinema.com/filmes/filme-201913/ (pesquisei rapidamente) ... Vale a pena assistir... Ah, eu tava no meio dos confrontos e vi a policia deixar os "black block" destruirem parte da cidade, e sò intervir no momento errado, ou seja quando tenha o desfile dos manifestantes pacificos , uma bela merda, volta a colocar a atençao do publico na violença (seja dos NO-GLOBAL, seja das forças da (DES)ORDEM ) e nunca mais se falou sobre as propostas do forum social...