Tuesday, September 25, 2012

Saudades de Itaquira


Meus avós viviam na roça, quando a roça era um lugar longe, inascessível e de escassos recursos. A casa não tinha luz, água encanada ou chaves; as portas eram trancadas com tramelas. O único rádio era ligado uma vez por dia, à noitinha. Tudo era feito em casa, da farinha ao sabão; só o querosene dos lampiões e lamparinas, o sal e pouca coisa mais, eram comprados no armazém em frente à parada do trem. Muita coisa era adquirida num sistema de trocas com os vizinhos, nem sempre tão vizinhos.

Os piacentinos consideram Piacenza “um grande vilarejo”, e não uma cidade. Mais pelos costumes que pela arquitetura. Em apenas cinco minutos de bicicleta, vou do centro – onde moramos – à zona urbana. Mais cinco minutos e a paisagem é de autêntica campagna (roça), com rolos de feno nos campos e tratores no lugar de carros. Mas os tempos são outros e a roça é cada vez menos roça nesse mundo de modernidades.

O italiano médio tem que se esforçar muito para não perder a forma física. As bicicletas tradidionais estão perdendo espaço para aquelas elétricas; todos os modelos de automóveis são desprovidos de manivelas para os vidros, hoje elétricos, mas possuem ar-condicionado, aquecedor e GPS. Nas casas as máquinas tomam conta dos afazeres e poupam tempo para que todos possam se descobrir sem tempo. Robô para varrer a casa, máquina de lavar e secar louça, de lavar roupa e uma ucraniana, filipina ou sulamericana para passar; ar-condicionado, ventilador e aquecedor, tudo com timer; micro-ondas, geladeiras, gás encanado ou fogão elétrico; batedeira, mixer, liquidificador; máquinas para fazer pão, sorvete, massas, arroz; interfone com vídeo, portão automático, elevador. E a comunicação, então? Computador, lap top, tablet, smart phone, wi-fi, wireless, sms, e-mail, fones de ouvido. Para não ir da cozinha ao quarto, trocam sms: “o almoço está pronto”; tv, rádio, internet, 3D, HD, painéis luminosos espalhados pela cidade, que também oferece zonas wireless free; nas escolas calculadoras, quadro-negro interativo e até a velha cola é eletrônica.
…Ufa!

Cada um vive o próprio tempo, mas creio que meus avós não conseguiriam apertar tantos botões, com todos os afazeres da velha casa de Itaquira.
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18 comments:

denise rangel said...

Alan,
Que coisa, esta noite sonhei que estava na roça, como era antes, sem tecnologia.
Não sei se viver com tantos botões é o ideal, mas temo que um dia, as máquinas pifem e não saibamos como substituí-las.
abraço, garoto

Thais Miguele said...

um mundo sem botões seria como uma sobremesa salgada.

Georgia Aegerter said...

É por essas e outras que quando saio de férias nao levo nada, nenhum botao, se calhar nem os botoes da roupa, rs.

Belíssimo o texto. Parabéns!

Um lindo restinho de semana pra você.

Um grande abraco

myra said...

ah como eu gostaria de viver como antes na roça!!!!!
beijao

lili said...

Romanceamos a vida na roça, mas a vida ali não era muito fácil.

maray said...

depois que me aposentei, passei a viver eu também na roça aqui de casa. Tento seguir a receita da minha mãe, que morreu lúcida e ativa aos 90: cozinhando, lavando, passando. tirando mato do quintal, ajoelhada na grama. Não sei se a receita funciona, mas trabalhando como trabalho, pelo menos não tenho tempo de ficar (muito) preocupada com esta vida selvagem de hoje...

abração

Flavia said...

É uma outra época, mas as lembranças são deliciosas esse "Não tão vizinho" foi ótimo isso ainda fica nos dias de hoje rs!!!Mas essa nossa vida moderna é muito boa também nos ajuda e muito.Me vi pensando agora o que será que minha filha vai falar do tempo que vivo hoje hein, fiquei pensativa.Quando ela tiver uns 30 rs.Beijocas.

Anonymous said...

Não sou ludista ou tecnofóbico, tampouco tecnocrata.
Adoro café expresso, mas hoje mesmo preparei um molho em que usei tomates frescos, tirando-lhes a pele, fervendo-os, peneirando-os, temperando-os até obter um molho espesso e saboroso; o resultado foi bom, porém não me atrevo a afirmar que quem usa um vidro de Bolognese, Napoletana ou Basilico da Barilla não tenha um molho tão bom.
O que me agonia é ver as pessoas usarem máquinas para ganharem tempo e utilizarem o tempo que ganham da forma que utilizam.
Manoel Carlos

Meire said...

Eu to cansada de tanta modernidade, queria uma casinha, uma hotinha e 2 galinhas...isso com certeza iria me fazer muito feliz.
bjs

Anonymous said...

Tio, tio, tio, tio, achei itaquira no mapa. fica em carapebus né tio? tio, tio, tio, tio, tio?

pedroluis

Luma Rosa said...

Concordo com a Lili... romanceamos a vida na roça. Tem que haver um equilíbrio. Eu gosto da modernidade, mas não gosto de comida industrializada. Gosto de simplicidade aliada ao conforto.
Dizem que só sentimos falta daquilo que já temos. No passado, as pessoas se contentavam com o que tinham por que não tinha outro jeito.
Beijus,

Luma Rosa said...

Allan, ainda usam pessoas para passar roupas por aí? (rs*)

Inaie said...

e quanto mais botões, menos tempo a gente tem!! mas me conta onde eu arrumo o robo que varre a casa???? to precisando muito de um desses...kkk
A Filipina eu já tenho! Amen.

Léia Silva said...

Caro Allan
Lembrei-me da minha avò, que esquentava a àgua para tomar banho na bacia e o cheiro de querosene antes de dormir! No interior do Goiàs, onde morava, era assim e tenho certeza que fui muito mais feliz do que os meus sobrinhos hoje que sò ficam na frente do video game:(
Meu sogro passou a infància na "roça" em Nàpoli e quando ele conta como viviam eu "viajo"! O carro dele só fica na garagem, pois ele anda de bicicleta até mesmo para ir ao tribunal na cidade vizinha - hehehe!
Léia

Anonymous said...

Procurei no mapa e não encontrei. No Google maps existe apenas um ponto. pesquisei e descobri que não sobrou quase nada de Itaquira. E eu nem vou poder conhecer pra sentir saudades.
:(

Mayra

Sissym said...

Eu já estou lhe seguindo por email...la la la la la la! :)

Beijos

Reflexos Espelhando Espalhando Amig said...

Ei Linda sexta pra nós!
Venho conhecer esse espaço maravilhoso, vou passear entre suas palavras
e depois sim, venho comentar,
combinado?
Enquanto isso passa la no Espelhando pra conhecer a escrita do Palhaço poeta e de outro comunistas que postam comigo
nesse espaço democratico.
Ja seguindo aqui,
bjs entre sonhos e delírios
Catiaho Reflexo d'Alma

Anonymous said...

muito legal Itaquira...Maria