Sunday, December 18, 2011

Ali di farfalla


Pelos idos dos anos oitenta, era moda dizer que o bater de asas de uma borboleta poderia causar um vendaval no outro lado do mundo. Um modo para ilustrar como todas as coisas estão relacionadas. Hoje sabemos que não é exatamente assim. Na realidade não são apenas as borboletas que têm essa capacidade: tudo e todos somos delicadamente interligados, responsáveis uns pelos outros e pelos acontecimentos em todo lugar, presentes e futuros. A passividade, a anuência e a indiferença causam vendavais.

Do mesmo modo que viajantes do tempo não interferem no passado pela consciência das consequências, quando observamos nosso próprio passado podemos apenas reviver as emoções, pois não podemos modificá-lo para não modificar todo o presente e colocar em risco todo o futuro. O nosso passado é o passado de todos. Os nossos presente e futuro são presente e futuro da história. Somos todos asas de borboletas, frágeis e responsáveis pelo destino do universo
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Tuesday, December 13, 2011

Imbecilidade voluntária

Camillo Benso (Camillo Paolo Filippo Giulio Benso), Conde de Cavour, de Cellarengo e de Isolabella, conhecido como “Conte di Cavour”, ou simplesmente Cavour, é um dos artífices da unificação da Itália. É dele a frase “a loteria é um imposto voluntário, o imposto dos imbecis.” naquela época o governo italiano se esbaldava com o imposto do povo. A máxima de Cavour jamais se aproximou do ostracismo: Italiano joga pra xuxu. O governo, conhecendo bem o povo que o mantém governo, aproveita dessa situação como em nenhum outro lugar no mundo. A quantidade de loterias na Itália é tão grande que são duas as concessionárias licenciadas para geri-las. Ao contrário do que diz uma lenda local, a propriedade dessas empresas não é protegida por um segredo de estado. Os proprietários são muito conhecidos; alguns deles, velhos conhecidos dos noticiários internacionais, mas essa é uma outra história.

A maneira encontrada para garantir a fidelidade em algumas loterias, como a SuperEnalotto (algo como a Mega Sena brasileira), foi o subterfúgio de manter alto o prêmio desde a primeira extração após o pagamento de um prêmio acumulado. São três extrações semanais da SuperEnalotto. Mas existem loterias diárias e – haja dinheiro! – loterias que correm de hora em hora. Uma outra corre diversas vezes por dia, com cinco minutos entre as extrações. Todo tipo de loteria foi inventado e é possível apostar em eventos esportivos, na queda de governos (está pagando pouco, nesse momento), no jantar queimado ou na fralda do bebê. Bingos e máquinas caça-níqueis perenemente ocupados em todos os bares. As loterias instantâneas (raspadinhas) são um universo à parte, cheio de galáxias. Enfim, italiano joga pra xuxu. O governo aplaude e os concessionários gastam em publicidade oceanos de dinheiro. Maior é a crise, maior é o volume de apostas, maior é o prêmio e maior é o incentivo para jogar. O volume de jogo nesse momento de crise superou todas as expectativas.

O sarcasmo de Cavour não basta para aplacar a vontade de enriquecimento fácil e rápido dessa nação de jogadores. Talvez a solução para a economia italiana seja mesmo aumentar a quantidade de loterias. Aliás, hoje é dia de jogar. Dá licença que vou ali fazer uma fezinha.
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Saturday, December 10, 2011

Rafael Galvão

Não contem pra ninguém, mas o debochado, irreverente, polêmico e inteligente blog do Rafael Galvão voltou à ativa.
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Wednesday, December 07, 2011

Nebbia in Pianura Padana (neblina na Planície Padana)

Se você ainda não entendeu o quis dizer sobre a neblina no post abaixo, veja algumas imagens que fiz nesses dias. Somente em três ocasiões as imagens são noturnas, todas as outras foram feitas entre às 7:30 e 16:30.Como a neblina não estimula o meu humor, só lembrei de filmar quando os piores dias já tinham passado (espero). O consolo é saber que teria sido impossíel ver alguma imagem filmada naqueles dias.

video

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Sunday, December 04, 2011

Fábrica de neblina


Novembro chegou ao fim quase sem ver o Sol. Umas quatro ou cinco tardes e um único dia ensolarado. O resto do mês foi de completa neblina, o que não é novidade na Planície Padana. Assustou-me, porém, a intensidade e a quantidade de neblina. O Outono emiliano (a parte interna da região da Emilia-Romagna) costuma ser neblinoso, mas tudo tem um limite. Ou deveria ter. Em certos dias é impossível enxergar o outro lado da rua. Onde certamente teria visto alguém de mau humor. [“Em certos dias é” tempo presente. Novembro acabou, a neblina, não.] Pensei em ir às montanhas, onde o ar é limpo e de onde é possível ver a neblina cobrindo a região, mas com toda essa cerração não conseguiria achar o caminho.

Sorrisos escondidos, sentimentos opacos, pensamentos nebulosos, vidas esfumaçadas que se arrastam cuidadosamente neblina adentro. Parma, Piacenza, Cremona, Pavia e as cidades vizinhas se parecem e se confundem na névoa deste período, como uma premonição do Inverno que está chegando. A fumaça e o cheiro de caldarroste, as castanhas assadas pelas ruas, se fundem no nevoeiro urbano e trazem um pouco de alívio no humor italiano. As mesmas caldarroste que um tempo eram vendidas até o dia de Finados, mas queassim como os eventos meteorológicos – não respeitam limites ou calendários. Enquanto houver castanha, caldarroste; enquanto houver Outono, neblina.

Dirigir nesta época é perigoso. Andar a ou de bicicleta, mais ainda. Roupas fluorescentes estão fora de moda, que o período pede roupas pretas. O jeito é contar com a cortesia e a prudência dos motoristas para não ficar trancado em casa. E tomar vin brulé, outra tradição desta época (vinho quente). Moramos no centro, onde o trânsito de veículos é limitado. Caminho tranquilo pelas ruas que vão surgindo esbranquiçadas, em meio a estátuas e castelos silenciosos, perfume de castanhas assadas e uma caneca de vinho quente na mão. As pessoas passam sem sorrir, tentando não esfumaçar os próprios pensamentos e a lista dos afazeres no meio de toda essa neblina, ou tudo estará perdido e o que for perdido nestes dias se dissipará com a névoa úmida e fria da Planície Padana. Londres? Nem pensar!

Novembro, Novembro, mês da neblina. E a neblina é um estado de espírito.
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