Novembro chegou ao fim quase sem ver o Sol. Umas quatro ou cinco tardes e um único dia ensolarado. O resto do mês foi de completa neblina, o que não é novidade na Planície Padana. Assustou-me, porém, a intensidade e a quantidade de neblina. O Outono emiliano (a parte interna da região da Emilia-Romagna) costuma ser neblinoso, mas tudo tem um limite. Ou deveria ter. Em certos dias é impossível enxergar o outro lado da rua. Onde certamente teria visto alguém de mau humor. [“Em certos dias é” tempo presente. Novembro acabou, a neblina, não.] Pensei em ir às montanhas, onde o ar é limpo e de onde é possível ver a neblina cobrindo a região, mas com toda essa cerração não conseguiria achar o caminho.
Sorrisos escondidos, sentimentos opacos, pensamentos nebulosos, vidas esfumaçadas que se arrastam cuidadosamente neblina adentro. Parma, Piacenza, Cremona, Pavia e as cidades vizinhas se parecem e se confundem na névoa deste período, como uma premonição do Inverno que está chegando. A fumaça e o cheiro de caldarroste, as castanhas assadas pelas ruas, se fundem no nevoeiro urbano e trazem um pouco de alívio no humor italiano. As mesmas caldarroste que um tempo só eram vendidas até o dia de Finados, mas que – assim como os eventos meteorológicos – já não respeitam limites ou calendários. Enquanto houver castanha, caldarroste; enquanto houver Outono, neblina.
Dirigir nesta época é perigoso. Andar a pé ou de bicicleta, mais ainda. Roupas fluorescentes estão fora de moda, que o período pede roupas pretas. O jeito é contar com a cortesia e a prudência dos motoristas para não ficar trancado em casa. E tomar vin brulé, outra tradição desta época (vinho quente). Moramos no centro, onde o trânsito de veículos é limitado. Caminho tranquilo pelas ruas que vão surgindo esbranquiçadas, em meio a estátuas e castelos silenciosos, perfume de castanhas assadas e uma caneca de vinho quente na mão. As pessoas passam sem sorrir, tentando não esfumaçar os próprios pensamentos e a lista dos afazeres no meio de toda essa neblina, ou tudo estará perdido e o que for perdido nestes dias se dissipará com a névoa úmida e fria da Planície Padana. Londres? Nem pensar!
Novembro, Novembro, mês da neblina. E a neblina é um estado de espírito.
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