Tuesday, January 25, 2011

Quando o presidente é uma presidenta

Estive lendo a respeito do tratamento reservado à nova ocupante do Palácio do Planalto. Muita controvérsia e muitas bandeiras foram levantadas. Há quem prefira continuar usando o termo sem flexão, Presidente Dilma, com a mesma veemência de quem encontrou argumentos para adotar o termo flexionado, recém criado, Presidenta Dilma.

Uma língua é como um ser vivo, que se modifica e se adapta. Contudo, é preciso buscar a etimologia e evitar criar modismos ou expressões pouco convincentes. Mesmo assim, às vezes, basta a convicção de que uma nova expressão deve ser criada para suprir uma falta. Dos textos que andei lendo, cito apenas dois, ambos interessantes e escritos por mulheres, como a Dilma. O da Denise Arcoverde defende o uso de presidenta, enquanto o da Cláudia Antonini não deixa claro (mas sugere) o termo que adotou.

Decidi perguntar ao oráculo, que responde pelo nome de Aldo Pereira, jornalista, ex-editorialista e colaborador especial da Folha de São Paulo, com muitos, mas muitos anos de jornalismo sério, além de excelente redator. A resposta do Aldo à minha pergunta veio em um e-mail, que reproduzo abaixo:

“Meu caro Allan

Em minha opinião (que não vale nada), presidenta é extravagância desnecessária, mas -- que fazer? -- já acolhida em dicionários. Paciência.

Presidente deriva do latim, præsidens "[aquele ou aquela] que senta adiante, à frente"; "o/a que vigia"; "o/a que guarda". Por sua vez, præsidens é particípio presente do verbo præsideo, "presido". (Embora exista præsidere, flexão válida nos modos imperativo e infinitivo, os verbos são convencionalmente referidos, em latim, na flexão da primeira pessoa do presente do indicativo, e não, como os do português, no modo infinitivo.) Præsidens virou presidente porque, em geral, substantivos e adjetivos originários do latim entraram no português a partir da flexão do acusativo, caso correspondente ao objeto direto dos verbos transitivos. Ou seja, a rigor presidente não provém de præsidens, mas de præsidentem (forma do acusativo).

Lembro-me (um tanto vagamente, já faz aí uns 65 anos) de ter visto o "particípio presente" reconhecido numa gramática, se não me engano o Português Prático do Marques da Cruz, uma das edições da década de 1940, quando era bíblia gramatical de muitos ginasianos. Não me lembro tampouco de todos os paradigmas; apenas que, nessa gramática, ou nalguma outra da época, tenente era o particípio presente de ter, assim por diante. O particípio presente figurava ao lado do "particípio passado" (hoje meramente "particípio") e nada tinha a ver com gerúndio. (Gerúndios e gerundivos são duas outras urticárias da complicadíssima gramática do latim.) Mas os exemplos corresponderiam decerto, respectivamente, a "presidente", "presidido" e "presidindo".

Voltando ao latim, veja como seria declinado o particípio presente de præsideo (sim, particípios presentes dos verbos eram formas nominais, e, nessa condição, declinados como se fossem adjetivos da terceira declinação, com a importante diferença, note, de não ter formas de gênero distintas para o feminino e o masculino, apenas flexões correspondentes a gênero neutro, a caso e a número).


Número
Singular
Plural
Caso\Gênero
Masc. e fem.
Neutro
Masc. e fem.
Neutro
nominativo
præsidens
præsidens
præsidentes
præsidentia
genitivo
præsidentis
præsidentis
præsidentium
præsidentium
dativo
præsidenti
præsidenti
præsidentibus
præsidentibus
acusativo
præsidentem
præsidens
præsidentes
præsidentia
ablativo
præsidente
præsidente
præsidentibus
præsidentibus
vocativo
præsidens
præsidens
præsidentes
præsidentia








 Quod erat demonstrandum.

Do particípio presente das quatro conjugações de verbos regulares do latim provieram muitos substantivos e adjetivos do português. De particípios presentes da primeira conjugação latina (desinência do infinitivo presente ativo, are) temos adjetivos e substantivos terminados em ante. Da segunda e da terceira conjugações (desinências respectivas: ēre, no qual o mácron do primeiro e indica sílaba longa, e com isso torna o infinitivo paroxítono, e ĕre, no qual a braquia do primeiro e indica sílaba breve, o que torna proparoxítono esse infinitivo) provêm substantivos e adjetivos terminados em ente. E da quarta conjugação, desinência ire, provêm os poucos terminados em inte. Há exceções, porque, no passar dos séculos, as linhas de evolução etimológica se entrecruzaram, especialmente a da 2ª com a da 3ª, mas até mesmo na primeira: por exemplo, apesar do sufixo ente, demente e consulente derivam de verbos da 1ª conjugação, dementare e consultare. Mesmo nos derivados da primeira conjugação, portanto, a correspondência não é perfeita.

Não conheço tentativas de diferençar os gêneros de adjetivos que descendem do venerável particípio presente latino. Que eu saiba, ninguém ainda tentou dizer que Fulana não fica *eleganta em sua roupa aliás *chocanta" etc. Entre substantivos, o neologismo especioso presidenta talvez tenha tido inspiração no vernáculo e necessário infanta. Mas não me lembro de outras analogias afora essa e, ainda, governanta, e parenta. Afora isso, a língua parece dar-se muito bem sem *gerenta, *comandanta, *almiranta etc. E, que eu saiba, ainda não há lugar para uma *centro-avanta no futebol feminino.

Veja na listinha que preparei abaixo como predominam substantivos de dois gêneros terminados em ante, ente e inte (muitos deles também adjetivos, quando o contexto determina). Nenhum deles requer flexão anta, nem enta e nem inta. Tanto faz dizer o adolescente ou a adolescente, assim por diante.
adolescente, agente, almirante, amante, ambulante, assaltante, assistente, atacante, atendente, comandante, combatente, concorrente, confidente, consulente, convalescente, correspondente, crente, crescente, delinquente, demente, dependente, descendente, diletante, dirigente, dissidente, docente, estudante, figurante, fumante, gerente, ignorante, infante, informante, manifestante, militante, mutante, nubente, ouvinte, palestrante, participante, pedinte, penitente, pretendente, regente, remanescente, remetente, repetente, representante, residente, retirante, simpatizante, sobrevivente, suplente, tenente, tripulante, viajante, vidente, vigilante, visitante, volante.

E como foi que aprendi todo esse latim? Ora, nunca aprendi, juro, mea culpa, mea culpa.

Por fim, você me perguntará se não tenho mais o que fazer de meu tempo. Tenho sim, uma lista de tarefas que, acabei de rever, está em 132 itens, e que continua espichando, enquanto o tempo disponível encolhe preocupantemente. Mas estudar ainda não saiu da lista. Nem divertir-me com gracinhas como estas. No lado sério, que toda piada tem, /.../ acredite em quem vive de escrever há umas cinco ou seis décadas: conhecer a língua ajuda, mesmo que não baste nem se esgote.

Abraço avuncular*,

A.

*(avuncular: "referente a tio ou tia"; avunculus, "irmão da mãe", era diminutivo de avus, "avô").”

***

Acho um absurdo que em italiano os títulos e tratamentos sejam quase todos sem flexão e no masculino: avvocato, medico, arbitro, etc. (o meu “advogado” é uma mulher), mas confesso que não gosto do termo “presidenta”. Vou continuar usando “presidente”, a não ser num eventual e nada provável encontro com a Sra. Dilma Roussef, quando usaria “presidenta” sem nenhum problema. Respeito a vontade dela em ser tratada assim e prefiro tratar as pessoas como elas gostam. Os argumentos do Aldo, porém, me fazem sentir aliviado. Afinal, oráculo é oráculo.
:)

.

14 comments:

Marco said...

Allan, o que você escreve é mesmo interessante e divertido, e inclusive mostra como a inteligência é outra coisa da erudição, e a cultura não é por si mesma chata: algumas pessoas que se acham "cultas", sim, podem ser, mas com certeza não é o seu caso.
Para entender as palavras precisa mesmo ir ao máximo até a origem, e a sua analise do latim me convenceu. Agora, não quero defender minha língua, mas é fato que o italiano encontrou uma solução para alguns dos substantivos derivados do "participio presente" (que na gramatica italiana ainda existe: a gente não joga fora nada mesmo antes de uns 2000 anos): o feminino destas palavras vai em -essa. Em italiano a Dilma poderia ser "presidentessa", assim como o feminino de studente é "studentessa". A maioria dos nomes em -ente, todavia, tem forma invariavel entre masculino e feminino, respeitando assim o latim, como você explicou tão bem. Ora, eu sou muito sensivel às tematicas feministas, e reconheço que tem uma ligação profunda entre a língua e a sociedade e seus preconceitos milenários, mas acho que tem um equivoco: com certeza a linguagem é "machista", e é por isso, por exemplo, que, como você notou, não existe em italiano a forma feminina de profissões historicamente consideradas "masculinas". Mas, para mudar as coisas, precisamos (desculpe a tautologia) mudar as coisas, e não as palavras que falam das coisas. Se, no movimento histórico, os contextos mudarão e os preconceitos desaparecerão, a linguagem, como sempre fez, evoluirá também. Sem precisar da nossa ajuda.

D. M. said...

Olá Allan, tudo bem? Tenho acompanhado suas postagens há um tempo. Muito bacana esse texto do Aldo. Concordo com o texto, porém concordo com você que a língua muda inevitavelmente. Mas nem tudo precisa mudar assim... Veja essas regras de acentuação novas! Nem sei escrever mais! houve um inversão: quem não sabia agora "sabe" e quem sabia não "sabe" mais... Tem coisas que só acontece no Brasil mesmo. Abraços!

PS: Sei que a Alemanha também passa por reformas na língua, mas nem se compara com o que teve por aqui.

Allan Robert P. J. said...

Marco,
Quanta erudição! :D
Imagino que, assim como a minha filha Bianca, você tenha cursado o liceo classico. O Latim ensina a raiz de muitas palavras, assim como o grego, e eu aproveito do meu dicionário ambulante. :)


D.M.
Bom saber que tenho leitores fiéis, apesar de eu não retribuir sempre à altura e com a frequência que gostaria. Infelizmente seu perfil no Blogger não está acessível, ou teria prazer em visitar seu blog, caso você tenha um. Obrigado pela visita cortês. :)

Menina no Sotão said...

Eu sou uma pessoa que aprecia a sonoridade da palavra e por isso mesmo não consigo ligar algumas palavras em portugues ao seus objetos como "borboleta e beijo". Não me dizem nada, ou ainda amor por exemplo. Pra mim são e serão sempre "farfalla, bacio e amore". É o som, sabe? E a presidenta me soa tão feio, desagradável e pior mesmo são as justificativas infundadas que seguem os discursos feitos acerca do tema. A mulher do Saramago chegou a dizer que apenas os ignorantes a chamam por presidente. Na minha humilde opinião ignorante é ela que não respeita a posição de quem pensa diferente dela. Mas, afinal, ela tem a sua importancia e quem somos nós, não é mesmo? Cansativo isso.
Enfim, acho que se discute de fato o que menos importa. Se presidente ou presidenta, espero mesmo é que essa senhora faça valer o cargo que ocupa e dê a importancia necessária a condição que representa. nada mais.
bacio

Ps. tenho lido algumas coisas sobre o senhor Berlusconi. Será que vamos nos livrar dele ou a justiça italiana continua afundando na lama?

Dawidson said...

Esta postura da Presidente nada mais é que uma forma de desviar a atenção do povo, trazendo uma discussão inutil e tola, com o intúito de desviar a atenção do que realmente importa: A continuidade, no (des)governo, daqueles que nunca deveriam ter entrado - Elenice Guerra, Genoino, Zé Dirceu, etc..., todos na Cerimonia de posse !

Dawidson said...

PS
BRILHANTE a analise do Sabio Aldo !

Franco said...

Ciao Allan.
Colgo l'occasione, oltre che a salutarti, per avvisarti che hai ricevuto un selinho de qualidade per il tuo blog. Passa da me per vedere come funziona (ammesso che io abbia capito).
Abraços

D. M. said...

Allan,

ainda estou sem blog. Tenho uma idéia mas preciso elaborar mais. Quando estiver pronto aviso!

denise rangel said...

Fascinante, Allan! Vi-me novamente nos bancos da faculdade, nas aulas de Latim.
Penso que ambas as formas são perfeitamente compreensíveis.Desnecessárias? Creio que não. Sempre que ouço Presidenta, vejo implícita toda uma história de luta de mulheres por ter seus direitos e conquistas reconhecidos.
É assim que percebo a Língua, como uma forma de comunicar sentimentos, ações, desejos, projetos, lutas, etc. Absolutamente adequado, em se tratando da trajetória de Dilma.
abraço, garoto

Jussara Gehrke said...

Para mim "Presidenta" soa pejorativo, e é assim que uso.
Muito bom o texto, gostoso de ler!

obrigada pela visita, respondi lá, mas colo aqui agora.

Allan,

A Cira de Itapuã é imbatível, de longe o melhor acarajé da Bahia.

Os outros que vc comenta eu não conheço, vou procurar saber.

O Iemanjá é aqui perto de casa, vamos sempre lá quando temos visitas em casa, até já fiz um post nesse blog há um tempinho.

Gosto muito do Mistura em Itapuã, a lagosta e os peixes grelhados são excelentes.

Tenho indicações de alguns bons lugares, quando tiver oportunidade de ir coloco no blog.

bjs
Ju

Inaie said...

ler o seu blog e sempre um prazer!!! Mas da nossa (nossa???) presidente eu nao quero saber nao..

Bjs do deserto

Meg said...

:-)
Allan,
sinceramente, não sei o que diga, ou melhor sei o que diga, não sei é se é *necessário* ou vale a pena dizer.
Um beijo
emg dizer.

Rosa said...

Super aula! Adorei! Bjs!

Anonymous said...

Olá trata-se a 2ª vez que encontrei o teu blog e adorei muito!Bom Projecto!
Adeus