Friday, January 21, 2011

A Confraria

O Gordo estava tramando alguma coisa e fazia tempo. No trabalho, passava a pausa para o café ao lado da máquina de salgadinhos observando os colegas. Murmurava com seus botões, sacudia levemente a cabeça, franzia as sombrancelhas, dilatava as pupilas. E sorria. Na rua, observava as pessoas nos bares enquanto devoravam brioches recheadas no café da manhã, escolhiam produtos supérfluos hipercalóricos nos supermercados, empanturravam-se gulosamente nas pizzarias e restaurantes. Observava e acompanhava. Fast foods? Uma universidade.

Foi durante o jantar da empresa que ele reuniu os amigos mais chegados para apresentar-lhes a proposta. No início, todos esperavam uma notícia ruim ou um convite embaraçante. O discurso formal do Gordo foi recebida com um cair de ombros aliviado: sugeria a criação de um grupo de ajuda, os “Gulosos Anônimos”. Mais que sugestão, foi uma convocação. Que todos receberam com muito bom humor.

Passado o momento dos sorrisos e olhares trocados, o Gordo continuava a manter a atenção da turma com o ar solene de uma ideologia política proferida por um político profissional. Ele falava sério e as pessoas da roda começaram a perceber isso. Propunha reuniões semanais, convocações de urgência, atas, registros e estatuto. Tudo de forma anônima (acreditem). Ele falava sério!

Os amigos começaram a olhar a própria barriga e descobriram que o grupo estava fora de forma. Sim, todos concordavam que os prazeres da mesa exerciam forte atração e que algo poderia ser feito. “Poderia”, mas não necessariamente “deveria”. Ao menos não seriamente. Depois, quem está fora de forma tem sempre uma desculpa pronta, como se fosse um crime irreparável estar acima do peso. Algumas testas começaram a franzir e havia quem argumentasse contra a idéia de ser inserido em um grupo de auto-ajuda. Quem disse que os participantes queriam mudar? Mas o Gordo seguia adiante, rebatendo cada crítica com argumentos mais que válidos: ele tinha se preparado.

Quando, finalmente, o Gordo informou que havia descoberto uma possibilidade de ter a proposta financiada com dinheiro público, todos balançaram a cabeça. Ninguém se sentia em culpa com o próprio peso o suficiente para aceitar ser curado. Argumentaram que os psicólogos lhes fariam se sentir mal, que a felicidade típica dos gordinhos chegaria ao fim, que ninguém se submeteria a tratamentos medicamentosos e se recusaram a fazer regime. “Regime?”, perguntou o Gordo, olhos arregalados. “Eu estou buscando quem financie nossos jantares.”

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5 comments:

Menina no Sotão said...

Ao menos o assunto não era dieta. Oras. Mas que muitas pessoas comem mais que o necessário, isso é um fato. Não consigo me visualizar comendo tantas porcarias. Eu sou vegetariana e meu peso não sei. Mas sei que não engordo, tão pouco emagreço. Males da origem. kkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Mio babo era enorme, e na família nunca teve um que não fosse. O lado da mamma salvaria, mas herdei mais genes dele. Nunca me importei. Acho hilária as descobertas que fazem acerca da comilança. Outro dia um ser comeu 3 macs da vida na minha frente e eu lá com o meu suco natural passando mal só de imaginar as gorduras daquele "troço".
Essa mesma criatura foi parar no hospital com diabete explodindo na sexta-feira passada e disse ao médico que não comia nada demais. kkkkkkkkkkkkkkk
Acho que o problema das pessoas é comer demais, comos e o mundo fosse acabar amanhã e do jeito que está a comilança, não é difícil isso acontecer.
bacio

Ana Maria said...

AAAhhhhhh Adorei o final!

Inaie said...

me coloquem na lista!!! nao quero perder essa por nada!

maray said...

eu me tornei vegetariana nada ortodoxa. Ou seja, não tem nenhuma filosofia por trás disso, só meu colesterol elevado e família hipertensa e meu enorme medo de morrer. Tá, sei que um dia será inevitável, mas enquanto isso faço o que posso. E não me orgulho nem um pouco. Tudo que eu como e que acabei por me acostumar, é insosso, sem gordura e sem muito gosto, por mais que os vegetarianos convictos me digam que tenho que estar atenta às sutilezas do paladar. Eu entendo esse gordo. Entendo todos os gordos do mundo. E de sutilezas sei pouco.

Georgia said...

Tudo o que sei é que o mês de janeiro todomundo pensa em fazer dieta. Ao longo dos outros meses já nos esquecemos. Mas uma coisa é certa: muitas das vezes eu fico satisfeita só de ver muita gente comendo...

E prá variar este mês de janeiro estou na dieta;)

Boa semana