Thursday, July 29, 2010

A Natureza na gaiola

Tenho uma concepção meio ampla sobre o termo “natureza” que envolve o cosmos. Creio que tudo seja parte de um equilíbrio frágil e delicado, porque tudo que é frágil é delicado e precisa muito pouco para quebrar a harmonia da biosfera. Também acredito que é tudo uma questão de ação e reação: quando nos empenhamos em destruir ou pôr limites, modificando o meio ambiente para satisfazer as necessidades humanas, a natureza reage. É como cuspir contra o vento e o cuspe nos tornar na cara. Mas somos perseverantes nas nossas decisões e insistimos em mudar tudo, esquecendo que também nós somos parte desse equilíbrio frágil e delicado.

Na Europa o Inverno foi longo e frio, e terminou uma semana antes do verão mais quente dos últimos tempos. As tulipas não floresceram, as borboletas simplesmente não apareceram, as abelhas desorientadas não estão produzindo nem polinizando como antes, os pernilongos demoraram a chegar, mais de 700 pessoas morreram por causa da onda de calor na Rússia em pouco mais de um mês. Em Trieste, no nordeste da Itália, foi registrada há dez dias a noite mais quente do país: 31 ºC no horário mais fresco. Quinze dias antes a meteorologia ainda anunciava neve. Algumas árvores não floresceram, o que aliviou um pouco a minha rinite alérgica adquirida no ano passado, mas um monte de outras plantas reagiram desesperadas e ao mesmo tempo, provocando verdadeiras nuvens de pólen, painas e afins, que quase me convenceram a comprar uma máscara. Fiquei com as pílulas, mais eficazes, apesar de detestar tomar remédios. O Caruso parou de cantar e o encontrei escondido na garagem, no subsolo, um lugar fresco e reparado do sol. Me aproximei e ele não voou, mas caminhava apressado, como a dizer para deixá-lo em paz naquela tarde quente e abafada deste verão italiano.

O segundo rio mais longo da Itália e o quarto em volume d’água, o rio Adige na altura de Verona, foi domesticado por margens artificiais que o impedem de invadir a cidade no caso de cheias. Até um túnel foi construído mais ao norte, ligando o rio ao lago de Garda, para eventualmente desviar os excessos do rio, mas por causa da diferença de temperatura e qualidade da água o túnel só foi utilizado em duas ocasiões, em 1966 e em 2000. Já os habitantes chineses que neste momento enfrentam catástrofes anunciadas me lembram São Paulo, com seus córregos e rios canalizados em armadilhas que, mais dia, menos dia, transformará a cidade em um imenso lago. Como fazia o Adige com o seu vale e que, tenho certeza, voltará a fazê-lo um dia. Porque é assim que a natureza reage à nossa teimosia em não nos adaptarmos a ela. Ou alguém tem dúvidas de que no próximo verão haverá uma nova catástrofe em Salvador, por causa das construções nas encostas? Talvez mude a cidade, Rio ou uma outra, pois os erros são sempre os mesmos em qualquer lugar.

A minha sugestão? Que as pessoas decidam mudar-se das megalópoles, transformando-as em cidades menores e que os bairros abandonados sejam devolvidos à natureza. Que os rios sejam desencaixotados e que deixem de ser usados como rede de esgotos. Vão viver nas colinas, respeitando o manto verde que as protege; vão viver em cidades menores, procurando não interferir no ambiente, quebrando quintais de cimento e plantando árvores e jardins; sentindo-se privilegiado se tiver que dividir o espaço com alguma lagartixa, aranha, sapo, morcego ou passarinho. Sem alpiste nem gaiolas. Quem sabe a natureza nos dê uma trégua e aprendemos de uma vez por todas que somos tão frágeis e delicados como qualquer outro ser da Terra, e reconquistamos a harmonia do equilíbrio há muito perdido. Utopia? Fé no ser humano.

8 comments:

myra said...

sim, somos culpados desta destruçao do equilibrio...mas tenho fè que um dia tudo vai se equilibrar outra vez, pelo menos è o que espero...
um gde abraço,

ines bachiega said...

Amigo, você toda razão. Eu me sinto tão feliz com minha casa velha com jardim e quintal floridos, com meu caramanchão de maracujá, 'meus' pássaros que berram ao amanhecer e que se revezam nas estações; com as folhas que caem do Oiti que tenho na calçada, cuja sombra abriga dois carros na rua, mas que o chato do vizinho detesta por causa da sujeira e varre sua calçada todo dia...rs
Viver com a natureza é tão simples e 'natural'...rs
abraço

Ágatha Alves said...

Concordo com tudo nesse texto Allan,
axo q está na hora, (ja passou da hora) de nos adaptarmos ao ambiente e não fazer com que ele se adaptem as nossas necessidades.
Cada catastrofe que vejo na tv em todo lugar od mundo, eu sei que toda a culpa é de nós Seres humanos.
Seremos engolidos pelo os nossos proprios erros...

Beijos

Brasil na Italia said...

Oi Allan,
Eu sou uma daquelas que decidiu escapar da vida na megalopole para ter um pouco de paz nas colinas da Toscana. Pelo menos quando chego em casa, posso respirar... ;-)

denise rangel said...

"sentindo-se privilegiado se tiver que dividir o espaço com alguma lagartixa, aranha, sapo, morcego ou passarinho. Sem alpiste nem gaiolas."
Allan, envergonho-me de dizer que sou fascinada por cidades e não saberia viver no campo. Talvez por isto tente compensar este 'pecado' fazendo meu cotidiano mais sustentável.
Creio que seja um caminho sem volta. Abdicar dos prazeres da vida moderna é algo que só vemos nos filmes, infelizmente.
Mas, não creio que seja de todo utopia. Ainda há esperança.
abraço , garoto

Sissym said...

Pois é, as pessoas são responsaveis pelas mudanças na natureza o que reflete no clima. Mudar? E se mudar o problema de lugar?! Eu vivi em cidade menor, é outra coisa, mas um dia esta cidade pequena recebeu a Petrobras e passou a ser uma cidade problema, perdeu a paz e graça de outrora.

Jussara Gehrke said...

por que será que as pessoas vão viver amontoadas em grandes cidades?
aqui no Brasil tem tanto espaço, e vão se apinhar nos morros em favelas, nunca entendi isso.
tá bem, dizem que é por causa do trabalho, pela sobrevivência, mas será isso não é uma questão de educação? de orientação? dos governos? de colocar limites?
as catástrofes em São Paulo, Rio e Salvador se repetem a cada verão de forma mais intensa, e as pessoas continuam se pendurando em morros e vivendo a beira de rios, riachos, esgotos a céu aberto.
parece que existe uma necessidade das pessoas se aglutinarem, vivem em prédios enormes em apartamentos minúsculos, enfrentam o inferno para viver numa cidade grande, será que pensam que vale a pena?

muito bom te ler sempre Allan, e refletir.

beijo
Ju

Ana Maria said...

Também prefiro os pássaros no campo, livres, sem gaiola. Não entendo como cães conseguem sobreviver em apartamentos tão pequenos.
Viver em uma cidade bem menor é um dos meus projetos para os próximos anos.