Sunday, May 30, 2010

Com a psicanálise fora de moda, quem salvará a Itália?

Toda generalização comporta uma dose de preconceito. Todo preconceito comporta uma dose de racismo. Por outro lado, cada grupo social desenvolve características que se tornam mais ou menos comuns a todos. Nós, brasileiros – por exemplo – costumamos ser educados e servis. Esse tipo de comportamento encanta meus amigos italianos que visitam o Brasil e é esse “sentir-se em casa” que os faz voltar.

Do lado de cá está nascendo um novo modelo. Manifestar conhecimento através de referências insinuadas, ser espirituoso, ter sempre uma piada pronta na ponta da língua, demonstrar uma leveza no viver que impeça de levar qualquer coisa a sério (principalmente a si mesmo) e uma dose infinita de ironia, são as regras as quais todos devem se adaptar. Acontece que os costumes adquiridos com a endocultura apresentam-se naturais, espontâneos, enquanto aqueles absorvidos através da observação consciente carecem de graça nos movimentos e no ritmo. Há que se treinar muito, mas o resultado ainda assim poderá soar falso.

Há muito deixei de desdenhar as pessoas que diferem dos meus valores ou que vêem o mundo de um modo que não é o meu, mas existe uma mania nessa terra que faz com que eu duvide da capacidade individual do pensar: a necessidade de etiquetar qualquer pessoa ou situação para compreender os fatos. Sim, eu sei que temos níveis diferentes de compreensão e que o discernimento é uma característica distribuída aleatoriamente e em doses homeopáticas, mas nem isso justifica um comportamento tão homogêneo quanto enfadonho em toda uma geração. Às vezes acho que os replicantes já estão em produção há muito tempo e não nos demos conta. Tem sido muito chato e previsível observar os jovens italianos. Tenho sempre a impressão de que estão todos recitando o mesmo papel, ensaiado por anos de clichês nos programas de tv, no cinema e na literatura juvenil.

O problema é que todo jovem um dia cresce. E descobre que as piadas sem graça já não fazem rir, que a vida é guiada pelo trabalho, um ambiente que há regras próprias diferentes e onde a formalidade não dá espaço para falsos simpaticões. E é aí que a porca torce o rabo, pois o jovem-já-não-tão-jovem-que-precisa-trabalhar descobre que os modelos seguidos devem ser descartados sem um novo modelo em troca. Você já deve saber se comportar em um ambiente profissional. É isso que todos esperam de você e o reprovarão se a adaptação não for imediata. Mas a tv continua martelando o clichê do simpaticão espirituoso, da leveza do viver e de rir de si mesmo.

Incrédulo da nova realidade, o jovem-não-tão-jovem-que-se-sente-perdido refuga como um cavalo diante de um obstáculo mais alto que os usados nos treinamentos. E insiste no velho modelo ensaiado à exaustão sem se dar conta de que é preciso mudar.

…Às vezes cansa.

15 comments:

Juliana Rossa said...

Alla, parabéns!
Achei este um dos teus melhores textos!
Um assunto com argumentos muito bem amarrados e fundamentados.
Infelizmente, não tenho muitas perspectivas de melhoras quanto a essa juventude. Espero estar enganada.
Bjs!

myra said...

é sim, quem sabe quem e quando mas é preciso e com muita pressa, cambiar!
otimo texto, querido amigo!
abraçO!

denise rangel said...

Allan,
em meu cotidiano, trabalhando com jovens e adolescentes, vejo-me dando murros em ponta de faca para incutir nestas mentes frívolas que crescer é preciso e que o mundo lá fora requer seriedade. É difícil, mas, quando ou três demonstram um pouquinho de maturidade, já me dou por satisfeita.
Obrigada pela dica à receita, já atualizada lá no blog :)
abraço, garoto

Georgia said...

Allan, que texto belíssimo, ms cheio de preocupacao nas entrelinhas.

Já desde crianca que ouco que "a juventude de hoje nao tem juízo". Haverá sempre uma outra geracao para dizer tal coisa. Eu acredito que quem recebeu uma certa educacao mais rígida, vai crescer dentro desse padrao mas nao vai deixar tb de querer fazer as suas próprias experiências como nós a fizemos. Acredito tb que aquele que nao recebeu uma educacao mais rígida, vai caminhar tb, vai aprender tb, talvez vai sofrer mais por nao ter aprendido às regras cedo. Ms infelizmente, vai haver tb aqueles que foram criados ao deus dará e ao deus fará, e esses infelizmente estao em maior número. O caso é acreditarmos que a educacao que demos aos nossos filhos em algum momento vai falar mais alto ao coracao.

Boa semana

Silvia said...

Allan, eu acho que, numa certa fase da vida, já começando na infância e entrando pela adolescência, as crianças e jovens têm necessidade de serem iguais para serem aceitos. É cruel, mas era assim na minha época. E eu não era igual, então a coisa pegava às vezes. Eu entendo essa necessidade de padronização, pois eu só não era igual porque não tinha condições, mas eu queria ser aceita! E a gente acaba crescendo e aceitando que ser diferente também é bom. :-)

E eu procuro ensinar isso às minhas filhas já. E às vezes é difícil, porque faz parte dessa fase do desenvolvimento infanto-juvenil. Falo, falo, falo, e alguma coisa elas absorvem. Mas, na adolescência, acho que deve complicar. Por isso é importante a gente começar o "trabalho" enquanto são pequenos. E torcer que entendam que não precisam ser iguais para serem aceitas, e que devem exigir que sua individualidade seja respeitada, assim como devem respeitar a individualidade do próximo.

E aí a gente espera que cheguem ao "mundo dos adultos" com alguma bagagem que preste.

myra said...

obrigada pelo teu comentario!
e um gde abraço,

maray said...

tenho visto com espanto o crescimento dos shows stand-up por aqui. Isso sempre foi americano, mas não brasileiro. Tudo bem incorporarmos novas modalidades de humor, mas soa falso. Como diz vc, a adaptação às vezes cai no grotesco e no forçado. Fico vendo os jovens rirem das comedinhas e piadas sem graça para nós, do cara em pé no palco fazendo blague e também vejo os olhos dos jovens - e nem tanto - quando vêem um espetáculo de mamulengo, desses que a gente ainda encontra no nordeste e nos circos de periferia. O brilho nos olhos de um e outro não tem comparação. Acho que isso é o "jeito de ser" nosso.
Mas tudo muda. E as fronteiras bão se perdendo. Pena que eu não perceba dupla mão nisso aí. Parece que a coisa só vem, não vai nunca.
Devo estar ficando uma velha ranheta, é isso.

Roseane, said...

Parecem que os jovens são iguais em qualquer lugar do mundo.
Paciência!
Mas que cansa, cansa mesmo.
Bom feriado!!
Bjs

Ana Wants Revenge said...

tem muita gente que se diz madura e se comporta assim tambem.
parece a era das pessoas "rasas" sabe... onde tudo vira piada. sei la, mundo bizarro.

um gande beijo pra vc.
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Ana Wants Revenge said...

e agora to te seguindo viu! :)
mais beijos!
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Ana Maria said...

Crescer no meio de tanta violência e falta de perspectivas não é fácil.

Eu raramente vejo brasileiros educados, pelo contrário, só vejo gente empurrar, ninguém pede licença, nos bancos e lojas só dão informações erradas e atendem como se estivessem fazendo um favor. Antes de entrar em uma imobiliária para alugar um apartamento, por exemplo, a gente tem que se preparar psicologicamente porque sempre te tratam como um inimigo.

Claudio Costa said...

Prof. Allan, chamá-lo-ei de professor pela perspicácia, delicadeza, profundidade e precisão de suas observações. Em poucas palavras, você passeou pela sociologia e psicologia do comportamento, sem deixar de apontar a necessidade de uma "terapêutica" para o que costumo chamar de alien-ação (alien = o outro que não eu). Pois o que acontece é exatamente isso: cada vez mais as pessoas se distanciam de si mesmas, dos próprios desejos e caem na imitação/assimilação da mass media, subcultura vazia de conteúdos, prenhe de estereotipias. Abraços.

BOOTLEAD said...

Perfetto Professore!

São replicantes mesmo, uma manada liderada pela "deusa" TV. Qual a sua analise sobre os chamados "mammoni" aí na Itália? Aqui na "terra brasilis", onde os cinqüentões mais parecem "adolescentes senis", vamos de mal a pior, acho que estamos em um processo involutivo, engatinhando de regresso ao útero.

Arrivederci Allan,
Bootlead

Lunna Guedes said...

Vou ser sincera em dizer que acho que o problema está nos rótulos e na forma como as pessoas definem coisas simples como liberdade e libertinagem.
Eu não levo as coisas a sério lá fora, até porque não suporto pessoas e suas bobagens por mais de dois minutos e aprendi que é preciso respirar fundo e deixar elas serem o que querem.
Aprendi que rótulos servem apenas para as garrafas de vinho e que as pessoas precisam cair de cabeça pra acabar de ver ou ir mais adiante.
Quanto a crescer, não sei, essa palavra é um leque. Difícil dizer o que é o melhor. Eu sou uma eterna criança, mas há momento em que me sinto velha demais e não falo de idade viu? rs
Bacio

Nora Borges said...

Também canso. Muito.