Sunday, May 02, 2010

Flores, rinites e bicicletas

Antigamente a cidade era protegida por muros altos e vigilância constante. Os peregrinos passavam por fora dos muros e não tinham permissão para entrar, evitando que novas doenças contaminassem a população. Os inimigos também encontravam dificuldades para invadir a fortaleza formada pelos muros altos. Naquela época, a cidade sucumbia quando o proprietário era derrotado. Mas os moradores eram poupados, apenas passavam a obedecer a novos senhores. A parte da corte que não conseguia fugir era eliminada ou, nas ocasiões menos cruéis, passava o resto da vida nas masmorras. É o que eu chamo de eleição medieval, onde não existiam eleitores e os candidatos decidiam a vitória na porrada. Geralmente, quem perdia não se candidatava às eleições seguintes.

Hoje a cidade não há confins. A periferia vai se transformando em novos bairros, centros comerciais e anéis viários, que não deixam de ser como os antigos muros, evitando que parte dos viajantes entrem na cidade. A única coisa que não muda – ou muda em um ritmo muito, mas muito mais lento – é a zona agrícola que circunda Piacenza. Preciso de apenas cinco minutos em bicicleta para começar a ver os campos de alfafa. Se pedalo por mais cinco minutos tenho a impressão de estar no interior de um lugar qualquer, na roça, tendo que desviar de cachorros e galinhas que ocupam as ruas de terra.

Mas não sou o único a passear de bicicleta. Com o fim do frio as bicicletas vão tomando conta da cidade. As manhãs e noites frescas revigoram da jornada de trabalho e prometem mais um dia ensolarado. Quem sai cedo da cidade, ainda tem o privilégio de encontrar bandos de faisões que ciscam os campos à beira do asfalto. As flores começam a desabrochar aqui e ali, numa tímida amostra do que será o meio da primavera, dentro de mais alguns dias. Tímida mesmo, pois chega um momento em que a visão é de assustar, com painas, pólen e pedaços de plantas que flutuam encobrindo tudo. Campo ou cidade. [Quando começarem as corridas de Fórmula 1 na Europa, prestem atenção na quantidade de matéria flutuante no ar.]

Mesmo estando apenas no início da estação, minha rinite já deu sinais de vida. Justo eu, que me sentia imune a qualquer tipo de alergia. E não adianta se fechar dentro de casa e só sair de carro com os vidros fechados. Esses invasores não respeitam nem os antigos muros da cidade.

Sentindo-me uma abelha carregada de pólen, vou pedalando em meio à multidão de ciclistas que cresce a cada dia, tentando me aproximar dos precavidos faisões que não sabem diferenciar uma máquina fotográfica de uma espingarda. Observando as flores tímidas sorrio: A julgar pela situação atual, seria oportuno que pelos próximos quatro anos fossem restabelecidas as eleições medievais. Uma a cada seis meses e estaríamos purgados das velhas doenças. Depois, tornaríamos à democracia. Como um muro que resiste a tudo.

12 comments:

myra said...

oi, meu amigo, realmente voce escreve e principalmente descreve tao bem, o que esta, o que foi, e esta primavera, - mto fraca aqui - mas o que traz como alergia...
otimo!
abraços

Carlos Medeiros said...

Sofri muito de renite quando jovem. Felizmente, isso melhorou um pouco, ou aprendi a lidar com ela. Parecia muito difícil viver nas épocas antigas.

Georgia said...

Allan, pois essa é a parte que mais me fascina; a de viver numa cidade mas rodeada do campo. Por aqui tb é assim; há plantacoes de morangos e festa no mes de maio e junho pela colheita.

Qto a rinite, meu marido tb a tem e sofre muito nessa época, nós achamos na fármacia um remédio bom mesmo, posso te enviar talvez exista por ai e nao precisa receita.

Abracos

Maria Augusta said...

Pois é, a primavera traz o sol e as flores, mas como nada é perfeito a rinite e outras alergias vem junto, é uma pena.
Por aqui não temos faisões, mas nos parques temos patos e cisnes (sempre me lembro que no parque do Carmo em São Paulo os cisnes foram para a panela dos moradores rs), é muito agradável passear a pé ou de bicicleta.
Abraços e uma boa primavera para você.

Jussara Gehrke said...

é isso Allan, paraíso perfeito não existe, na sua bela paisagem tem as partículas flutuantes, por aqui as chuvas aumentam as muriçocas.

mas vivemos em paraísos, e sabemos aproveitar isso, não é?

beijo
Juju

Lili Detoni said...

Olá, meu amigo! Que belas fotos! Que delícia deve ser passear de bicicleta pelo campo, sentindo a primavera chegando e poder ver de pertinho os faisões medrosos. É claro que as alergias atrapalham a paisagem, mas, fazer o que, né? Aqui também sofremos com os pernilongos, mosquitos da Dengue que parecem cada vez mais imbatíveis...!!! O outono ainda parece tímido aqui em minha cidade, mas, parece que daqui há alguns dias o friozinho vai começar a ganhar forças. Continue passeando e nos presenteando com essas fotos e textos adoráveis! Abraço da Lili!

ines bachiega said...

Amigo, quando você escreve dá para visualizar cada cena...rs
Aqui em Campinas a rinite ataca na estiagem do inverno (seca, queimadas) e quando chega a primavera também (pólen).
Não tem jeito...tem que usar muito soro no nariz e aprender a exercer cidadania denunciando quem põe fogo no mato, pois é crime.
abraço

Lunna Guedes said...

Acabei de me lembrar de uma coisa que me deixava louca, sim, o cheiro de flores que vinham do lado norte. Gente, como eu sofria. rs
Não tinha jeito, começava com aquela coceira no nariz, depois ia para o ouvido e por fim a garganta. Tudo coçava. E lá ia eu andar de bike pelos cantos e espirrar numa espécie de ritual e mesmo com tudo isso ainda sinto saudades, mas agosto se aproxima. eeeee
Bacio

Francy´s Oliva said...

Deixando a alergia de lado(rs) adorei o seu post. Tive vontade de estar no campo, pois, adoro o cheiro de flores. Vem me importo em parecer uma abelha.

Ana Maria said...

Que texto bem escrito! Me deu vontade de andar de bicicleta, apesar de que, se eu pedalar cinco minutos, dou de cara com um ponto de ônibus cheio de fumaça. ;-)

Beta de Felippe said...

"Sentindo-me uma abelha carregada de pólen" - isso ficou ecoando na minha cabeça. Um beijo, amigo!

Sissym said...

Rinites... eu me lembrei quando estive pela ultima vez em Berlin, a minha mae tem uns sprays para quem tem alergia a polen, felizmente, sobrevivi numa boa, mal acreditei.

Bjs