Wednesday, November 25, 2009

Às minhas filhas

Queridas Bianca e Luiza,
Paz e saúde!

O sonho das gotas transparentes na escuridão que vão formando uma transparência gigantesca vira pesadelo. Tenho a impressão de que o sonho começou na fase uterina e me acompanha pelos primeiros anos de vida, fazendo-me acordar assustado, ter medo de voltar a dormir, até adormecer e sonhar de novo, e de novo, e de novo…

Na casa de Petrópolis deito encolhido de frio no tapete na frente da lareira acesa e adormeço. Acordo suado sob o olhar da minha mãe, que conversa com uma amiga encostada no batente da porta da cozinha. Tento - com muita dificuldade - mostrar nos dedos os três anos que estou para completar. Um bolo em forma de navio pirata é o que mais me impressiona na festa e não fico feliz quando é o momento de cortá-lo. Na corrida com os irmãos, primos e amigos pelo bairro do Cremerí, o tio vira e me grita: “corre, molenga!” Todos riem e eu rio também, mas as pernas do caçula da turma não conseguem acompanhar o grupo lá na frente. É o tio predileto e por isso dói. Aquela dor que vai ficar para sempre. Como ficará para sempre a primeira imagem do meu irmão de apenas três meses, enrolado como uma múmia naquele quarto escuro. O bebê que virou advogado.

Fecho os olhos e sinto a areia quente de Copacabana sob os pés, o cheiro do querosene usado no fogareiro Jacaré que alguém sempre leva à praia, da mariola Lula sob o sol. O sol e o vento brincam com os meus curtos e quase brancos cabelos. Sinto o cheiro do mar. A temperatura fria da água cada vez que me aventuro em pegar jacaré, mas já não há o fogareiro ou a mariola. Biscoitos Globo e mate gelado misturam-se aos meus longos e dourados cabelos. Brinco com a língua no dente que está para cair e descubro que a vida começa a mudar quando o último dente cai. Ou é arrancado com barbante.

Aos 16 anos me apaixono todos os dias, mas basta o coquetel de hormônios se diluir e a perfeição vira ideologia a ser alcançada. Melhor matar aula e perder-se com a turma e os cachorros pela mata atrás da Fonte. Agua Mineral Embu. Melhor jogar capoeira. O difícil de crescer não é abrir mão do infantil, mas ter que tomar decisões e conviver com as próprias escolhas. Não seria tão difícil se soubesse onde essas escolhas vão me levar e vou ter que esperar anos para saber. Gozar ou me arrepender. Vez ou outra aperto ligeiramente os lábios e balanço negativamente a cabeça. Um ato quase imperceptível, que há muito aprendi a não externar sempre as minhas emoções.

Olho no espelho e não me reconheço no senhor de 50 anos que vejo. Passo a língua e confiro: nenhum dente está para cair, mas a juventude está aqui. A mesma curiosidade, a mesma energia e a vontade de jogar tudo de pernas pro ar, mudar o mundo. As ideias brotam como sempre brotaram, são as escolhas e a incapacidade para identificar a ocasião justa a criar impasse. Mas eu vou em frente. Sempre. Só a dificuldade de fazer o “três” com os dedos voltou, culpa do acidente. Aprendi a aceitar as pessoas como são. Também não tenho certeza se vou me conformar com a calvície e os cabelos quase brancos.

Boas intenções não bastam, mas no fim são os propósitos que contam. Cresçam cometendo os próprios erros. Lutem pelos próprios sonhos. E vivam desesperadamente, que a vida é breve demais para se arrepender de tudo. Revivo cada emoção e a impossibilidade de mudar o que já aconteceu. Por isso vou em frente.

Vivam tudo, mesmo que sejam sonhos pequenos ou projetos malucos. Indispensável é a oportunidade de se arrepender. E sejam felizes.

Com amor,

Papai.

13 comments:

Milton Ribeiro said...

Muito bonito, Allan. Parabéns!

Maria Augusta said...

Allan, por acaso você está aniversariando e completando 50 anos? Se for o caso te mando uma grande abraço e parabéns pelo percurso que você esboçou neste texto, assim como pelas lições que tirou e está passando para as suas filhas. E o mais importante é isto mesmo, manter intacto este entusiasmo pela vida.
Mais um abraço.

Izabel said...

Ah! que lindas as suas palavras!
que imagens maravilhosas elas me trouxeram!
E veja só, acabei sem querer, derrubando algumas lágrimas saudosas, que teimosas, acabaram brotando sem que eu percebesse, trazidas pela força do texto bonito e sensível.

Parabéns às filhas, que são tão queridas pelo pai poeta.

Um grande abraço

Georgia said...

Allan, que beleza essa sua narrativa, das suas experiências e saudades.

Fazendo 50? Parabéns! Eu vou esperar uns 2 anos mais, rs. Mas estamos indo na mesma direcao.

Acho que suas filhas ficaram emocionadas ao ler o que você escreveu ou ainda nao leram?

Abracos

Anonymous said...

Evocações com seu toque de lirismo.

Sobre o conselho final, há o dito popular "a oportunidade é careca, quando passa não dá pra segurar pelos cabelos".

Manoel Carlos

Silvia said...

Uau. Intenso. Queria saber escrever assim também. Aliás, cada vez que vejo alguém escrevendo uma carta pros filhos, fico pensando que deveria fazer o mesmo, ao menos uma vez por ano. E nunca faço. :-( Porque agora elas podem não entender o que queríamos dizer, mas mais para frente será uma lembrança linda, será uma lição aprendida (ou não).

Parabéns atrasado! Cento di questi giorni! :-)

Anonymous said...

Obrigada!
Ti amo.

Luma Rosa said...

Allan, confesso que depois do começo da carta para as suas filhas, esqueci completamente que era para elas que se destinava.

Depois me deu uma angústia em lembrar de sonhos recorrentes - dizem que todas as crianças têm e eu sonhava que quase morria, todas as noites. Fui passeando pela sua vida e as figuras me arrancando emoções.

Dizem que os bons escritores, são aqueles que nos resgatam coisas esquecidas em nosso labirinto interior. Se coisas boas, adoramos o livro; Se ruins, odiamos! No caso em questão, me fez ir de um extremo ao outro, pois o que era angústia virou uma calibração, uma medida deste sentimento e constatar que, foi enterrado!

Bons conselhos! Beijus,

Jussara Gehrke said...

Allan,

a Luma escreveu aí "Dizem que os bons escritores, são aqueles que nos resgatam coisas esquecidas em nosso labirinto interior."

pois foi o que senti ao passear por suas palavras, algo familiar acontecia, a infância, a adolescência, a juventude, cada um vive a sua maneira, mas na essência os sentimentos são parecidos.

e lá dentro de nós somos os mesmos, mudamos e continuamos nós mesmos.

uma vez minha filha então com 15 anos conversava no jardim de casa com minha tia que estava com 80 anos (hoje ela tem 94 e é a mesma), pois bem, eu na sala ouvia a conversa das duas, minha tia contava fatos da vida de mocinha dela e disse uma frase que nunca esqueci: "a gente faz anos, fica mais velha, mas lá dentro eu sou a mesma de quando tinha 15 anos"

é isso Allan, olhamos no espelho e nos estranhamos, não é mesmo?

mas vou te contar que fazer 50 anos é muito bom, eu já passei por eles há 7 anos!

parabéns pelo texto, pelas filhas e pelos 50 anos!

beijo
Ju

Vivien Morgato : said...

Allan, bellíssimo texto.

Georgia said...

Allan, 10 mil camelos. Será que tem algum valor isso? rs.

Boa semana

Luma Rosa said...

Allan, sobre o texto no "Luz" não me ofenderam. Ofenderam a menina Flávia, a que está em coma. Totalmente nonsense!
Não deixei isto claro no texto porque ainda esperamos o destrinchar de tudo. Boa semana! Beijus,

Segunda impressão said...

Amei o seu post! Lindo demais!