Wednesday, February 13, 2008

As fronteiras de cada um

Uma lição que se aprende com o tempo é que o racismo não poupa nenhum grupo social, mesmo os mais evoluídos. Conheço em Salvador muito mulato com preconceito contra os negros. cantava Caetano: “A terra do branco mulato, a terra do preto doutor…” È um argumento delicado e difícil. Na maioria das vezes a pessoa nem se dá conta de ser racista. Outras vezes, bate no peito e reafirma seu preconceito como se fosse a maior das qualidades. Um ser superior que me faz temer que as sementes deixadas por Hitler e semelhantes tenham germinado pelas bandas de .

Na TV: O repórter entrevista um italiano em um bairro de Milão dominado por estrangeiros. O senhor afirma não saber mais o que fazer, que se sente estrangeiro no próprio país e que os extra-comunitários que moram ali não são gente de bem. O repórter encerra a entrevista afirmando que o cidadão não tem o direito de lamentar-se tanto, afinal de contas, o jornalista percebeu pelo sotaque, o cidadão é napolitano.

No trabalho: “Eu sou da filosofia do ‘viva e deixe viver’, mas jamais sairia com uma romena ou uma napolitana. Aliás, se o sujeito é honesto e trabalha, não me importo de que país venha: deve ser tratado com respeito. não admito um africano ou albanês fazendo serviço na minha casa

Tomando uma cerveja. O amigo: “Piacenza também era muito bonita e tranquila até uns vinte anos; você iria se apaixonar pela cidade. Na época habitavam somente os piacentinos, não tinha esse mar de estrangeiros.” A amiga, mãe de uma colega de escola da Bia antes de uma excursão a Veneza: “Mas por que eles não escolhem uma outra data? Precisava ir quando tem essa exposição de arte islâmica? Não quero minha filha visitando essas coisas, não.” A excursão, planejada com seis meses de antecedência, era exatamente para aproveitar a data da exposição.

Algumas cidades do norte italiano aceitam a permanência de estrangeiros que comprovem uma renda mínima e uma habitação digna. Há coisa de dois, três meses, por pouco o parlamento italiano não aprovou a toque de caixa uma lei para expulsar milhares de ciganos romenos. Os guetos vão se formando sob a pressão de uma situação econômica que assusta os próprios italianos. Os projetos de integração começam a dar espaço às acusações mútuas que fazem prever o início de uma convulsão social. Muitos culpam os estrangeiros pelos baixos salários. Imigrantes clandestinos trabalham sem contrato e sem recolher impostos para os mesmos italianos que se lamentam, mas a culpa é sempre do outro.

No hemisfério norte há uma tendência inversa àquela a que estamos acostumados no Brasil. Ou seja, a parte pobre costuma ser a região sul. Em Piacenza, cidade situada no centro-norte da Itália, de costumes antigos e um resistente orgulho por ter pertencida à Áustria e à França, imaginando que o país comece nas fronteiras com Áustria, Suiça e Alemanha, diz-se em alto e bom som: “A Itália termina em Monza!”

Que saudades daquele Carnaval suado de Salvador.
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16 comments:

Claudio Costa said...

Há muita gente que nega ter preconceito 'por preconceito contra a palavra preconceito'. Entretanto, o pre-conceito habita em todos nós, tanto no sentido de 'conceitos adquiridos anteriormente, inoculado em nós pela cultura em que formos criados' quanto no sentido de 'intolerância à diversidade, ao estrangeiro, ao estranho'. Por isso deixamos escapar comentários preconceituosos sem nos atinar para tal. É preciso que o Outro nos advirta, dê o alerta, aponte-o. Tal como seu post.

Sandra said...

Complementando o comentário do Dr... O preconceito é tão enfronhado em nós que basta ver o que seu amigo disse para você: "aqui era bom sem estrangeiros" sem se dar conta de que vc É estrangeiro.

Se temos dentro de nosso próprio país o que dirá dos de "fora".

Beijos.

Georgia said...

Eu sou preconceituosa com pessoas que nao trabalham e querem receber o dindin do imposto que eu pago.

Muito bom o seu texto e a Sandra escreveu bem sobre o comentario do seu amigo.

Abracos em vocês

Milton Ribeiro said...

O preconceito é uma coisa terrível, mas acho que o termo deveria ser dividido em dois ou três: há o desconforto, há a ofensa e há a agressão ou prejuízo. A palavra preconceito é muito ampla e indulgente para quem o exerce.

Publiquei isto, dia desses:
http://www.verbeat.org/blogs/miltonribeiro/arquivos/2007/06/confessando_o_p.html

Ou seja, não estou livre.

Abraço.

Ana Maria said...

quando visitei salvador pela primeira vez, aconteceu um lance inusitado. eu caminhava pela praia (acho que porto da barra) distraidamente, olhando a paisagem e pensando na morte da bezerra quando alguém me segura o braço e aperta a meu pulso. levei um susto e retirei a mão meio que no reflexo. quando olhei pra trás, vi que era um rapaz negro que começou a fazer um mini-discurso sobre o preconceito racial na bahia. eu saí de fininho. nem vi quem tinha me segurado. achei que estava sendo assaltada.

Angela said...

Oi Alan, o carnaval suadado também é preconceituoso, a começar pelo preço do abadá. E é a história da humanidade, defender seu espaço, sua família, temer o diferente.
Mas lembro de minha mãe contando que, ao chegar em Napole, a família do meu pai não a cumprimentou, foram efuzivos e carinhosos com aquele parente distante, mas não com a agregada.

javi brasil said...

Semprei pensei que todos nos, todos, sem excepçao, somo racistas. A maioria, por desconhecimentos, por um medo quase ingenuo. A unica diferença é que alguns, eu, tratamos de lutar contra nossos proprios preconceitos e outros muitos gostam de ficar bem cômodos dentro desses mesmos preconceitos.

Abraçao

Desculpe meu português ruim.

Anonymous said...

Fico imensamente grato pela solidariedade.
Conheci quem dissesse: sou preto, mas conheço meu lugar.
Por outro lado as políticas de "inclusão racial" são segregacionistas.
Manoel Carlos

Amandita said...
This comment has been removed by the author.
Amandita said...

Olá. Descobri teu blog navegando na Internet em busca de informações sobre a Itália. Sou de Goiás, vivo na Irlanda e tenho um "namorido" italiano. Angelo é enfático ao dizer que não é preconceituoso, mas está sempre reclamando dos "romenos". Adorei o texto. Excelente reflexão.

Anonymous said...

Uma das minha amigas foi alugar casa. Quando telefonou, com seu sotaque estrangeiro, a proprietária perguntou: "Mas a senhora é romena?". Ela disse que era brasileira, então a proprietária respondeu: "Tá bom, então pode vir ver a casa".

sigrid costa said...

Os italianos tem a cultura muito fechada. Nao estavam preparados para esta "invasao" de estrangeiros. Quando cheguei por aqui em meados de 2001, morei em Torino com meu namorado, que hoje è meu futuro marido... Eu odiava quando me chamavam de EXTRA-COMUNITARIO. Pelo fato de eu ser muito clara e alta, minha mae è alema, eles pensavam logo que eu era Romena, Bulgara, de algum pais do leste europeu. Quando dizia que era brasileira, logo mudavam de cara e eram mais receptivos... Eu nao suportava tambem o fato de que a Questura para os norte americanos e japoneses era em um endereço diferente da "Questura" pro "resto do mundo", que se nao me falha a memoria era ali na Via Ventimiglia... Uma vergonha como nos tratavam. O pior de tudo, è que os italianos sao preconceituosos com eles mesmos. Assisti uma briga dentro do Consulado Italiano em BH, de um italiano do norte que chamava o do sul de MERIDIONALE, uma ofença enorme pra eles. E pensar que eles estavam no Brasil, e moravam là ha anos... Muito legal teu Blog.

sigrid costa said...

é meu marido, nao meu futuro marido...RRRRSSSS....

Regiane Lima said...

Preconceito é ter medo do próprio preconceito que carregamos por nós mesmos, por aquilo que somos, e não aceitamos.
Preconceito é acreditar que somos diferentes (e pior: melhores), e que estas diferenças nos afastam, quando na verdade seria 'piu bello' nos admirarmos (e melhor: mudarmos).
Sou negra, e já sofri preconceito por diversas vezes (não só pela cor, mas pela inteligência, por ter um carro, morar sozinha, ser mulher, por ter uma doença incurável, por falar o que penso, no trabalho), e ao invés de me lamentar, aprendi como 'não quero ser' e como não quero que os meus filhos sejam um dia.
Preconceito se aprende... Não nasce com a gente.
Abs a todos.

samya said...

Oi Allan, tudo bem? Morei quatro anos na Italia, senti na pele o preconceito, a ignorância e a discriminação estupida que tantas vezes somos vitimas em todos os lugares deste mundo mas nunca tinha sentido com tanta força como senti na Italia.
Trabalhei como mediadora social (ou cultural, como você quiser) e foi uma experiência enriquecedora mas muito cheia de sofrimento, de raiva e profundo sentimento de impotência. E eu sou branca.
Agora vivo em Paris, não é perfeito mas eu esisto como cidadã a plenos direitos.
Um grande abraço e longa vida ao teu blog.

Anonymous said...

Oi Allan,
Adorei seu blog.Sou muito observadora e nesses 6 anos de Italia (2 morando definitivamente aqui) nao posso dizer que sofri preconceito.Nao creio que seja porque sou branca, mas pelo modo como me imponho.O italiano é um povo ignorante, ou seja, ignora o mundo la fora. Nao se interessa, nao sabe, nao estuda, nao discute...nao pensa. Tudo que seja diverso deles é automaticamente pior que eles...sò eles comem bem, sò eles fazem direito, sò eles..è um povo que nao conhece a sua historia de imigrante, nao se veem como os romenos da América, do Brasil, da Australia etc..O povo italiano rejeita. E basta. E' inclivel como eles, mesmo nao conhecendo um outro pais dizem que nao é bom, dao uma definiçao definitiva de tudo..Eu fico muito nervosa quando um deles faz uma viajem a Porto Seguro por 10 dias, no Carnaval, e voltam falando : o Brasil é assim "..." a verdade absoluta é a deles.. Mas eu nao deixo passar nada em branco...nem com meu marido, que nao é diferente.Nos brasileiro devemos nos valorizar mais, valorizar mais as coisas do Brasil, que sao maravilhosas, a nossa qualidade, nosso trabalho, a nossa gente. Nao sei como voces se comportam, mas eu me imponho, sou inteligente e nao deixo nenhum ignorante dizer besteira nem do meu pais nem dos outros.
Um abraço parabens pelo blog
Marcella