Monday, October 15, 2007

Meio ambiente

O apresentador da tv mostra o prêmio do concorrente e explica que a cama – o prêmio é uma cama – possui todas as partes de madeira, nada de pregos, parafusos ou cola e que, por isso, é uma cama ecológica. Apresso-me em esclarecer às minhas filhas que o conceito está errado, que a cama seria ecológica se produzida com material reciclado e que o apresentador é uma besta.

Há um ano e meio vou trabalhar de bicicleta. São só quinze minutos de pedaladas contra os dez minutos que levaria se fosse de carro. No caminho, são seis rotatórias construídas para eliminar os semáforos. Passo por um viaduto ou uso uma passagem subterrânea para atravessar a linha do trem. Cruzo com carros, motos, ônibus e caminhões enquanto atravesso a cidade de concreto e asfalto. Os aviões deixam um risco branco, silenciosos no alto do céu. Ouço, lá longe, um apito de fábrica chamando a boiada operária.

Fica difícil imaginar como era Piacenza antes que o bicho cidade tomasse conta do lugar. O cinturão verde em volta dela é um conjunto de terrenos agrícolas onde se planta feno, tomate e girassol. Os córregos foram domados em canais usados para irrigar a plantação. Um agricultor faz os últimos ajustes no trator e toma um gole d’água da garrafinha plástica.

Foram muitos os escritores, artistas, cineastas, cientistas, que imaginaram como seria a vida humana na Terra após uma imensa catástrofe natural ou provocada. Lemos os livros, apreciamos as obras, assistimos os filmes e nos informamos sobre as conclusões científicas. Nos divertimos e nos julgamos conscientes. Mas continuamos a abater árvores demais para fabricar camas; construímos rotatórias demais; andamos de carro demais e existe asfalto demais; circulam trens demais e viajamos em aviões demais; temos fábricas demais e usamos garrafas plásticas demais.

Transformamos o planeta em um formigueiro humano, com viadutos e passagens subterrâneas, ignorando e extinguindo outras espécies. Abatemos as florestas e plantamos monoculturas lucrativas. Caminhamos inexoravelmente para uma catástrofe provocada, mas a arrogância humana nos faz acreditar que, no fim, acharemos uma saída. No fim.

O apresentador da tv é o fiel representante do bicho homem que habita as cidades. Este ser capaz de criar músicas, livros, obras de arte, filmes, e de estudar cada milímetro deste mundo sólido, líquido e gasoso, mas incapaz de evitar a própria extinção. O apresentador da tv não está sozinho: somos todos umas bestas.

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12 comments:

Yvonne said...

Allan, o final foi demais, pois somos todos bestas mesmo com tudo que tem direito. Beijocas

luma said...

Por mais que um faça, se os demais não fizerem, não adianta nada! Beijus

Lenissa said...

Aqui no Rio, além de conviver com tudo isso que você comentou, ainda convivemos no meio do lixo gerado por nós bestas. É tanto lixo que parece que um dia seremos dominados...aqui onde as prais são lindas, tem dias em que o que mais me chama atenção é a quantidade de lixo espalhado por elas... infelizmente. Meu post do 15/10 já está lá conforme sua sugestão. Depois quero comments! Abraço
Lenissa
http://centelhasdeideias.blogspot.com

Sonia said...

Para muitos ecologia é apenas um modismo. Camiseta com frases de efeito e jogando lixo nas ruas.

Georgia said...

Oi Allan, eu deveria ontem em edicao extraordinário "ter feito a minha parte", mas uma enxaqueca daquelas nao me deixou ligar a telinha e hoje, como sabia que vc nao falharia, estou aqui para ler o seu post. Concordo mesmo: Somos uma bestas.
Apesar de tudo tem post novo na Saia hoje.

Boa semana

Manoel Carlos said...

Esta semana houve uma apreensão de madeira extraída ilegalmente de uma reserva, as toras seriam suficientes para encherem cerca de mil carretas. A Amazônia foi entregue, pelo desgoverno Lula, à proteção de empresas transnacionais travestidas de ONGs, Organizações Neo Governamentais... tá feia a coisa.

Alline said...

Amei o post, Allan. Tô sem tempo pra nada, nem escrevi nada sobre o tema. Mas visitei os blogs atrás de informações.
Qto ao post ali debaixo, menino, eu achei que era só eu que não tinha a sede "morta" com a água daqui...
E dois meses de Itália já me fizeram reaparecer as malditas predinhas nos rins.
Ninguém merece.
Beijos

Dentro da Bota said...

Oisss...
Afff... foi um alerta...rsss

Entao... estou pegando leve.... hoje quase desmaie no onibus... de tanta gente e o cheiro insuportavel... isto tambem é Roma....
Mas vou manerar em alguns aspectos .. rssss....
Mas nao da para alimentar as ilusoes de muitos brasileiros... estou assistindo o anno zero e estao discutindo os problemas relacionados com a crise do trabalho aqui na Italia, ta feia a coisa....
Bom... é maninha de pessoa formada na area humanistica e, principalmente, profissional da educaçao mostrar os dois: coisas boas e ruins..... é dificil ficar "quieta"....

aquele abraço....

Gioconda, Roma

João Rosa Neto said...

Oi, Allan,

Agradecendo a visita e o comentário, respondo a sua pergunta: a foto é da Lagoa Paulino, no Centro de Sete Lagoas, a 70 km de BH. Abraço.

Ana Maria said...

adoraria ir pra todo canto de bicicleta, mas o trânsito caótico e assassino da cidade de são sebastião me fez desistir da idéia. por enquanto.

Milton Ribeiro said...

É uma merda, Allan. Como é que eu com este calor todo que se faz em Porto Alegre, iria me deslocar de outro modo (vou de ônibus)?

Moro há mais de 10 Km do trabalho com subidas e descidas.

O apresentador é uma besta mesmo. Até eu - outrabesta quadrada - sabia que ele estava errado.

Rafael Reinehr said...

Allan, passo aqui para deixar-te um convite. Me diga o que pensas, e diga se tens interesse em ajudar.

http://opensadorselvagem.org/images/pre/carta_convite.pdf

Um abraço,

Rafael Reinehr