domingo, setembro 30, 2007

Água mineral


Nos primeiros quinze dias de Itália pensei que enlouqueceria e cheguei a considerar o retorno imediato ao Brasil. Tudo por causa da água. Não conseguia encontrar uma água mineral que matasse a minha sede e a da torneira é intragável, além de riquíssima em calcário. Depois de experimentar dezenas de marcas, acabei encontrando uma que conseguia beber sem adicionar umas gotinhas de suco de limão, como fazia com as outras. Com o tempo fui me acostumando, mas ainda prefiro a minha marca salvadora.

À época, lembrei do lançamento da água mineral da Brahma, quando ainda trabalhava lá. Durante a apresentação, o diretor ressaltou o enorme mercado a ser conquistado, comparando o consumo de água mineral entre Brasil e Europa. Ele só esqueceu de dizer que a água da torneira de boa parte da Europa, apesar de tratada, é desaconselhada para o copo. Serve para cozinhar macarrão, lavar frutas e verduras e tomar banho. Café, chá ou limonada, só com água mineral, que deve ser de montanha e pouco profunda para evitar o contato com os resíduos fósseis dos antigos habitantes marinhos da região.

O uso cotidiano de água desmineralizada e de produtos químicos impedem o acumulo de calcário em ferros de passar roupa, máquinas de lavar roupa, máquinas de lavar louça, aquecedores de água e radiadores. Certa vez esqueci um copo-d’água – que usei para molhar uma planta – no balcão da cozinha. Após alguns dias a água havia evaporado e o copo perdeu a transparência. Tinha ficado opaco e branco. Branco calcário.

Água mineral é o produto mais consumido na Itália, o que me faz refletir sobre o destino das garrafas plásticas, cuja reciclagem efetiva é drasticamente inferior do que gostariam os órgãos públicos e as organizações ambientais. Mesmo depois de acostumado a água mineral italiana, cheguei a pensar em importar do Brasil um filtro de barro (talha), mas quem o fez me garantiu que as velas se entopem completamente em cinco ou seis dias, e que o calcário que nelas penetra, endurece e impede a passagem da água, inutilizando-as completamente, destruindo o sonho da água com gosto de barro. É claro que existem processos eficazes de filtragem para uso doméstico, mas o custo dos equipamentos e a constante manutenção desanima qualquer ecologista que não pertença a uma classe economicamente privilegiada.

E, assim, vamos tocando a vida, tomando água mineral em nome da preservação dos nossos rins e fígados; torcendo pela reciclagem das embalagens que usamos; esperando que, no Brasil, as pessoas não caiam no engodo do uso da água mineral em casa e que continuem preferindo o filtro doméstico ou a boa e velha talha de barro. É só usar um pouco de açúcar para limpar as velas e a reciclagem estará feita. Sem o risco de sentir-se uma ostra.

Faça a sua parte.
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sábado, setembro 22, 2007

Fruta da estação - Mirtillo










Arbusto típico da Sardenha, o mirtillo é uma das frutas mais caras nos mercados e feiras durante o verão. Além de ser consumido in natura, em tortas e geléias, usa-se para produzir o Mirto di Sardegna, um aperitivo que é um dos orgulhos da ilha. Pequenas bolinhas que colorem tudo de um roxo vivo, e que faz os sardos se vangloriarem de possuírem a única fruta roxa do mundo (eles não conhecem o açaí), além de um sabor único. Na primeira vez que provei, fechei os olhos e exclamei: Jaboticaba!

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Post Scriptum:

O Leitor Pier, cujo perfil não é acessível, fez uma correção pertinente:

Pier said...

"O MIRTILLO (Fam. Ericacee, Gen Vaccinuim, nome scientifico Vaccinuim myrtillus )não tem nada a ver com a Sardegna. Trata-se de um arbusto com altura entre 25 e 40 cm que cresce nos Alpes e Apeninos até 2000m de altitude, cujos frutos se consomem em natura o usados para a preparação de geleias e conservas. São também utilizados para aromatizar uma típica bebida italiana, a Grappa, destilado fortemente alcoólico do bagaço das uvas viníferas.
O autor do blog fez uma bela confusão com o MIRTO(Fam. Myrtacee, Gen. Myrtus, Nome Scientifico Myrtus communis) este sim arbusto tipico da mata mediterrânea e em particular da Sardegna, onde é usado para prepar um licor típico ' Liquore di Mirto' "

Fica, então, valendo a correção geográfica. Mas que o sabor é de jaboticaba, ah, isso é!
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terça-feira, setembro 18, 2007

Convocações

A querida e sempre antenada Lúcia Malla convoca:

“Dia 15 de outubro está sendo planejada uma mobilização mundial dos blogs para falar sobre um tema único - é o chamado Blog Action Day. O tema desse ano é Meio Ambiente. Nós aqui no Faça a sua parte escrevemos sempre sobre o tema, mas vale lembrar que a data é especial e que todo blog, independente do assunto que trata normalmente, é convidado a participar do evento. Blogs de viagem podem por exemplo discutir sobre ecoturismo; blogs de piadas, fazer reflexões bem-humoradas sobre a questão ambiental - e assim sucessivamente.

Guarde a data na agenda, cadastre seu blog no site do Blog Action Day e prepare o post. É 15 de outubro: dia de falar sobre o meio ambiente no universo da blogosfera.



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Há alguns dias o Flávio Prada convida à reflexão:

“A idéia é antiga, mas as formas de aplicá-la são novas. Vamos mandar todo mundo que merece tomar no respectivo. A política não pode ser um fato distante quando temos algo como internet e blogosfera pelas mãos. Nosso instrumento é mais poderoso do que muitos foram capazes de entender. Estamos tentando extender esse entendimento para a realidade. E se a realidade permitir, vamos ao menos nos fazer notar.
Amanhã ou depois, devo postar um cançãozinha que pode servir de trilha para videos, para quem quiser poduzir e colocar no You Tube para divulgar o evento.”

Acompanhe e comente aqui.

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sábado, setembro 15, 2007

Início do ocaso

Semana passada saiu o último número da revista italiana Diario. No editorial a explicação dos motivos que levaram à decisão. A possibilidade de acessar informações em tempo real a qualquer leitor minimamente curioso e a escassa publicidade resumem os argumentos.

Vou sentir falta. Cheguei a procurar em 20 bancas de jornal até encontrar uma que ainda dispusesse um exemplar, meses atrás. Era um sábado de manhã e a revista saía às sextas. Comprei meu exemplar na banca da estação ferroviária, onde impera a venda de revistas de baixo preço e qualidade que tratam da vida dos famosos. Aprendi a reservar meu número com meu jornaleiro.

Vou sentir falta da leitura inteligente e do jornalismo investigativo, das denúncias e do conjunto de matérias interessantes, apesar da linha declaradamente progressista que impedia um ponto de vista isento. Mas qual veículo de informação produz jornalismo isento?

O leitor italiano perde muito, e tenho a impressão que é só o início.