domingo, março 25, 2007

Frutas Secas

Fico impressionado com a pouca criatividade de algumas pessoas na cozinha. Posso entender preferências, mas não a regra de que todo sorvete para ser bom tem que ser de creme. O consumo de frutas secas é particularmente vítima desse tipo de comportamento. Já escrevi sobre o hábito italiano de misturar pêra com queijo, mas se você ainda não provou gorgonzola com nozes não sabe o que perde.

Experimente criar pratos com frutas secas. Não se sinta mal se não conseguir encontrar pinoli facilmente ou se tiver que pagar caro quando o achar. Custa caro por aqui, também. Substitua-o por castanha de caju torrada adicionada na hora, para não desmanchar, ou por pistache, por exemplo.

Scalopine alla salsa di mandorle – para duas pessoas

260 g. de coxão mole (chã de dentro), de preferência de vitelo;
Farinha de trigo;
50 g. de amêndoas sem pele;
½ copo de vinho branco;
Manteiga;
Sal;
Pimenta do reino branca.

Corte as amêndoas pedaços grandes e reserve. Limpe a carne, corte em fatias finas e faça pequenos cortes nas bordas. Passe a farinha nos dois lados da carne e frite, junto com as amêndoas, em uma frigideira com manteiga. Adicione o vinho e faça evaporar em fogo alto. Adicione o sal e a pimenta do reino. Sirva com batatas rosti ou assadas.

Fruta ou sorvete como sobremesa, mas o de creme não combina.
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sexta-feira, março 16, 2007

O Poder Coercivo Do Estado

– Dotô, cheguei da Sicília ontem e descobri que eu murrí.

Como eu o estou vendo vivo e ainda não fiquei caduco, explique-se.

– Parece que teve um acidente e o fulano tinha um documento meu e morreu…

Como é que esse fulano tinha um documento seu?

– Sei , dotô! sei que enterraram o ômi aqui em Cremona como se fossi eu, mas euaqui, vivim da silva. que sem documento, e sem documento nesse mundo de Meu Deus ninguém pode ficar.

– Vai ter que providenciar um atestado de vida

– Num pode dar o sinhô mesmo?

Não. Tem uma série de procedimentos que a lei exige para provar que o senhor é o senhor mesmo.

Mas… Dotô! Se euaqui e o sinhômi vendo, por que tem que esperar? O sinhô, digo, o dotô não acredita que euvivo, não?

Não é isso, é que existem esses procedimentos…

– E até eumorto?

Não, o senhor está vivo, mas é como se fosse morto. Ao menos até provar que está vivo.

Então eu posso sair por e aprontar, roubar, matar…?

– Pode, aliás, isso facilitaria as coisas. Era mandar esse agente de polícia dar um tirinho no senhor e estaria tudo resolvido. Ele nem seria processado, o senhor está morto mesmo. Me evitaria um bocado de burocracia

– DOTÔ! EU QUERO MEUS DOCUMENTOS.

Infelizmente vai ter que esperar a questão burocrática ser resolvida. É a lei.

– E se eu der uma banana pra lei, assim ó…

Agente! Prenda este homem por desacato à autoridade!

– E que nome o dotô vai usar pra registrar minha prisão? Vai prender quem? E se me mandarem pra Trieste ou pra Nápoles? Como o dotô vai me achar dentro depois?

Agente, leve este cidadão ao serviço de assistência social. Se ele voltar aqui, atire nele. Na volta, me traga uma aspirina.

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quarta-feira, março 07, 2007

Leitora

Loredana é uma daquelas leitoras que interage com o texto. Analisa, põe em dúvida, desconfia, relê e passa parte do dia ruminando a leitura matinal. Evita comentar; as outras pessoas não entendem ou não estão preparados à realidade das coisas. A realidade que Loredana enxerga tão bem. Se tivesse a oportunidade de encontrar-se com seus escritores favoritos, eles ficariam embaraçados com as observações sobre os pequenos equívocos e desatenções que cometem. Loredana tem uma mente treinada.

Segunda-feira é dia de muito trabalho, mas um dia perdido de leitura não se recupera, por isso o hábito de ler pela manhã. todos os dias, sorri, chora, discorda, analisa, questiona, mas toda manhã. Enquanto a mente de Loredana ora luta contra, ora a favor do que , seu coração perdeu todas as batalhas e se rendeu a Matteo, o jovem padeiro dos olhos negros.

Na manhã de terça-feira, mal acabara de ler e planejara tudo para o grande momento. Desceu do trem tão distraída que nem parou no pequeno bar da estação de Castel San Giovanni para tomar o cappuccino de todas as manhãs. Seguiu direto para o trabalho e passou o dia absorvida pelos seus planos.

Ao meio-dia comeu uma saladinha e tomou um suco de laranja em mesmo. Queria poder escolher uma camiseta nova e teria que se apressar para encontrar a loja aberta, antes da uma da tarde. Conhecia a paixão de Matteo pelo basquete e foi fácil encontrar uma camiseta do Lakers, que ela sabia ser um time dos Estados Unidos. A balconista ainda lhe perguntou de que cidade dos Estados Unidos era o time, mas a ela pouco importava. Deu de ombros, pagou e saiu sorrindo. Nem imaginava que Matteo era um torcedor do Chicago Bulls, time que cultiva uma longa rivalidade com o Los Angeles Lakers.

Quando pegou o trem de volta para Piacenza ainda digeria satisfeita a leitura daquela manhã. Consciente de que sua vida mudava a cada novo texto lido, ela dependia da leitura tanto quanto a leitura dependia dela. À noite, tudo seria perfeito, afinal ele era de touro, primeiro decanato. Combinava perfeitamente com ela. Mas Matteo havia decidido trocá-la por Francesca, aquela vaca da papelaria. Nem apareceria à noite. Um sms e tudo se resolvia com um texto breve. Melhor assim: não recebeu a camisa do Lakers nem a viu chorar a morte de Willy, o gato de pelúcia.

Definitivamente, naquela manhã tinham publicado o horóscopo errado.
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sexta-feira, março 02, 2007

Resultados da pesquisa

Da enquete que fim no post anterior, algumas respostas não me surpreenderam.
Vamos aos resultados.

Responderam a pesquisa:
Pelo blog – 6
Por e-mail – 21
Por telefone – 1
Total – 28

1) Por que você decidiu vir morar fora?
(Considerando todas as respostas):
Por amor – 25
Para estudar – 3
Por melhor qualidade de vida – 15
Principalmente para fugir da violência do Rio – 1

2) Que tipo de dificuldades ou de facilidades você enfrentou para arranjar casa?
Nenhuma, o parceiro ou parceiro já possuía – 22
Alguma, apesar do parceiro ou parceira já morar aqui – 1
A escola ofereceu moradia quase de graça – 1
Morou com brasileiros até se virar sozinho ou sozinha – 4

3) Você precisou mudar de profissão para se adaptar? O que precisou fazer?
O que fazia no Brasil – o que faz na Itália:
Secretária executiva – trabalha com o marido na loja dele – 3
Secretária executiva – mãe e esposa – 1
Psicólogo/a – associação cultural – 1
Revisor/a de textos – redator/a de sites para idosos e assistentes – 1
Engenheiro/a de software – engenheiro/a de software – 2
Estudante de comércio exterior – estagiário/a – 1
Vendedor/a – vendedor/a – 2
Vendedor/a – pintor de parede – 3
Vendedor/a – garçon/garçonete – 3
Nutricionista – cozinheiro/a – 1
Designer – designer – 1
Pequeno/a empresário/a – cozinheiro/a – 2
Pequeno/a empresário/a – instalador/a de antenas e pequenos serviços – 1
Pequeno/a empresário/a – tradutor/a de inglês – 1
Médico/a – médico/a – 2
Médico/a – tradutor/a de inglês – 1
Manicure – manicure – 2

4) Qual foi o maior impacto positivo dessa mudança?
(Considerando todas as respostas):
Qualidade de vida e segurança – 8
Ter uma família – 6
Maiores oportunidades para os filhos – 3
Educação dos filhos – 5
Viver um grande amor – 4
Viver em um país rico de cultura e história – 3
Gastronomia – 4
Vinhos – 1
Ser bem recebido/a – 3

5) E o negativo?
(Considerando todas as respostas):
Obtusidade e provincianismo – 9
A recomendação no trabalho, o QI (Quem Indicou?) – 7
Preconceito – 11
Isolamento social – 1
A dificuldade em adaptar-se – 9
Frustração profissional – 12
Mal atendimento nas repartições públicas – 8
Saudades – 23

A você que participou, muito obrigado. Quando vier a Piacenza lhe pago um café.
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