Saturday, September 23, 2006

Compadres

(Allan)

Despeje uma dose generosa de azeite extra virgem de oliva em um prato raso; polvilhe com sal e deixe descansar alguns minutos. Corte o pão em fatias e use-o para limpar o prato aos poucos. Vinho tinto seco, com alto teor de tanino para contrastar a gordura suave do azeite. Coma na cozinha, sem pressa, jogando conversa fora com alguém interessante.

(Aldo)

Meu caro Allan

Variante: vá aquecendo numa torradeira (sem torrar) cada fatia de pão italiano. Espessura, não menos de 1 centímetro, não mais que 2. Aquecer o pão é um requinte, não apenas para acentuar-lhe o sabor, mas também porque o azeite extra-virgem em pão quente desprende aroma mais intenso. Sobretudo, desculpe, se provindo de um terroir português; azeites são como vinhos, você sabe, carregam qualidades ganhas em climas e solos abençoados.

E, na
falta de companhia interessante e interessada, por que não uma boa leitura? Em qualquer dos casos, quando o pão acabar, talvez um café, ou capuccino bem
canelado, e
depois -- cama. Mas não esqueça de garantir, antes que a idade o surpreenda, pressão arterial 80/120 ou ligeiramente inferior. Do contrário, a receita acaba ficando... bem, sem sal.

A.

(Allan)

Aldo,

O
pão por aqui é feito uma única vez por dia, pela manhã. A vantagem é que se for aquele pão pugliese rotondo, o típico pão italiano encontrado facilmente no Brasil, chega a durar três dias sem se alterar muito. Mas deve estar inteiro, caso contrário deve ser guardado embalado em papel alumínio na geladeira. Por esse motivo o aqueço sempre, mas no forno. O problema é o azeite, que tenho que comprar naquelas feirinhas dos produtores locais, normalmente de agricultura biológica, pois o azeite encontrado por aqui é produzido na Grécia – maior produtor da região – e misturado com vários tipos para formar o blend exigido pelo consumidor, o que nem sempre respeita a qualidade do produto.

Minha insônia me impõe solidão, mas é uma boa desculpa para a leitura. Mas a mesma insônia desaconselha café depois das três da tarde, mesmo capuccino – café com leite, que eu detesto – . Melhor um chá.


E
quanto à pressão, a minha sempre foi de menino e eu aproveito para levar a vida com mais tempero.


Abraços,

Allan

(Aldo)

Allan

Fico
feliz em descobrir que também você aprecia o chá, mas lembro que, para notívagos crônicos, o efeito pode ser igual ao do café. O que, lamento, vai privá-lo sempre do clássico five o'clock tea. Aqui em casa tomamos chá pela manhã, depois de meio papaia para cada um, com fatias de pão (feito em casa) crestado superficialmente em torradeira, fatia por fatia, que depois untamos, eu com azeite, a Virgínia com coalhada seca (feita em casa). Adoçamos uma ou outra fatia, eu com mel de laranjeira empastado e opaco pela exposição ao frio da geladeira em que é guardado; a Virgínia com um toque de geléia de laranja ou maracujá. Em média, o ritual nos toma uma hora entremeada de comentários de política, de nosso cotidiano profissional e de ruminações filosóficas a partir de leituras recentes.


Chá é uma solução e um problema. Chá, vinho do porto e xerez precisam vir da Inglaterra, que nunca produziu nada disso. Mas, remanescentes da era vitoriana, subsistem em Portugal, na Espanha e na Índia firmas importadoras que ensinaram os nativos a selecionar o que há de melhor em matéria dessas beberagens diabólicas, pelas quais sacrificamos alegremente nossas almas no altar da sensualidade. Também pinta
por aqui, de vez em quando, um bom chá cingalês, embora conturbações políticas, parece, atrapalhem o comércio dos ingleses com Sri Lanka. Minha preferência pessoal em matéria de chá não tem pretensões de connaisseur, mas é um tanto seletiva. De manhã, acho que vai melhor um Orange Pekoe, daqueles que, preparados com cuidados cerimoniais, produzem uma infusão avermelhada e límpida. O melhor que chega aqui é da Twinings. Noutros horários, ah, que é que supera um Earl Grey de boa procedência?

Temos comprado o Ahmad (inglês, apesar do nome), uns 20% mais barato, mas o Lipton importado diretamente é superior, não sei se pela qualidade da bergamota que o aromatiza ou se pela qualidade das folhas, ou se por ambos ingredientes.


Em matéria de ingredientes, não preciso mencionar outro, essencial: tempo. Tempo para o preparo paciente, para o cuidado no tempo de infusão, essencial para limitar a nota de tanino. E tempo para breakfast de uma hora. O que aliás me lembra que, por falta de tempo, devo ir ficando por aqui.


Abraço,
A.

P.S. – Ah, e
chá precisa ser a granel. Em saquinhos é melhor do que chá nenhum, mas, sabe, saquinhos de chá, depois de usados, sempre me sugerem camisinhas descartadas. Argh!

P.S. do P.S.
Não pense que pretendo causar-lhe inveja com referência a papaia e pão feito em casa. Alternativamente, compramos pão italiano. O da Famiglia Milano é tão bom quanto o melhor que provamos na Itália. E você, seu hipotenso, tem o privilégio
daqueles gorgonzolas,
parmesães e provolones che te dico io, inventados para acompanhar um bom rotondo. Isto sem falar nas facilidades alfandegárias para importação de chá inglês, vinho francês, destilado alemão e azeite português (Gallo extravirgem é o nosso predileto). Tudo isso deve suavizar-lhe doloridas reminiscências e a divisão irremediável que o exílio abriu na alma de vocês, não é?
O
mi sbaglio?

(Allan)

Aldo,

Nunca prestei muita atenção para o chá meu de cada dia, mas confesso preferi-lo ao café. O problema é que meu dia é muito corrido e chá, como você bem observou, requer tempo. Falta-me a fleuma inglesa e a paciência para apreciar corretamente um bom chá antes do meu charuto. Acabo engolindo o curto café e saio do bar para acender logo o meu dominicano – que os cubanos estão pela hora da morte.

Fui verificar e descobri oito tipos de chás na despensa. As meninas estão consumindo chá de limão, rosa di bosco e camomila. Os meus são Orange Pekoe, Earl Grey e chá verde Lipton, um outro chá verde da Star Tea e o meu preferido: uma lata de Gunpowder Green Tea Twinings. Pois é. Prefiro chá verde.

A duas esquinas de casa há uma loja com incontáveis opções de chás e tisanas do mundo inteiro, onde é possível comprar apenas poucas gramas para provar e encontrar o sabor que mais lhe agrada. não me arrisco naquelas tisanas coloridas para serem comidas no final. Diferentemente do café, prefiro comprar as marcas que conheço e evitar surpresas desagradáveis nas minhas noites insones. Com o café fizemos o contrário. Imprimi uma planilha e demos votos às diversas marcas que experimentamos. O campeão foi o Expresso Illy. Com o chá, vou na certeza.

A Eloá também faz um pão maravilhoso em casa, que fica uma delícia com um pouco de geleia de mandarino – tangerina. Quanto à papaia, eu passo. Devo ser o único brasileiro a não gostar de mamão. E que você tocou no assunto, acabo de lembrar do gorgonzola suave que ela trouxe. Vou ver se encontro uma garrafa de Barbera que estava por aqui.

8 comments:

Roberta de Felippe said...

Eu sou (meio) brasileira e ODEIO mamão! (ah, e a fase de introspecção está findando). Beijos, meu querido.

Sandra said...

Allan, querido.. Que delícia de troca entre você e o moço! (desculpe, Aldo, mas não te conheço).

É nessas horas que sinto falta de... nem sei o que! Talvez dessa saudade, ou desse escambo de gostos e gentilezas e, por que não dizer, de carinho.

Beijo nos dois!

Viva said...

Allan e Aldo, obrigada por nos deixarem compartilhar desse legítimo chazinho de compadres :).

Brasiliano said...

Caros Allan e Aldo, voces estao acham que vao me mater de inveja falando desse jeito?! Entao segura essa: Aqui na Puglia nos produzimos nosso azeite, colhemos as azeitonas e depois fazemos o melhor azeite extra virgem que voces jà provaram, Tenho uma pequena latinha de 30 litros na dispensa de casa, è sò abrir a torneirinha e ver o liquido dourado descer. Produzimos tambèm nosso proprio molho de tomate, de maneira muito artesanal e sem conservantes. Duas semanas atràs fizemos o molho que vai durar por todo o 2007, tomates escolhidos a dedo, o molho sai bem denso, vermelho sangue e saboroso, depois è sò jogar na panela e usar a criatividade para tempera-lo ao momento!! Abraço!

Manoel Carlos said...

Chá, aqui em casa, o Twinings é o preferido, diversos sabores; café, sempre, muito forte de "cortar com faca"; pão? Minha filha que viveu comigo em Moçambique, retornou ao Brasil com dois anos de idade e queria comer pão, eu comprava todos os tipos de pão das padarias e ela repetia: - quero pão-pão! Pois é, em Moçambique o pão era de trigo, aqui é misturado...
Esta troca de receita, para ser melhor, deve ter sido acompanhada de experimentação.

maray said...

Bom, se o assunto é chá, deixo eu botar minha notinha vegetariana por aqui. Chá atualmente pra mim só o ban-chá, aquele chá verde japonês. Que após um lauto almoço de bife de soja acompanhado de abóbora com azeite ao forno cai muito bem. De sobremesa uma maçã verde, bem pequena.
Se eu gosto de tudo isso? Não, eu detesto!
Mas gosto ( e preciso) manter minha pressão, meu colesterol e meus triglicérides em ordem sob risco de ir desta pra melhor bem rapidinho...
Pois é, a tudo na vida a gente se acostuma.
Por isso eu danço cada vez mais e sempre um tango argentino !!

Isabela said...
This comment has been removed by a blog administrator.
D. Afonso XX, o Chato said...

Dois brasileiros, então. abs