Friday, November 18, 2005

Pisando Folhas Secas

Caros e Caras,
Paz e saúde!

Escavações do início do século vinte descobriram grutas ao redor do pico St. Galen, na Suiça, com altares e outras evidências de rituais primitivos praticados pelo Homem de Neanderthal. Segundo a mitologia da Grécia antiga, o poderoso Zeus concebeu uma filha com a deusa Deméter. Deméter veio de Creta para a Sicília e escondeu a filha Perséfone em uma gruta, deixando duas serpentes de guarda enquanto planejava dar a notícia ao poderoso Zeus, que se aproximou da donzela em forma de serpente e com ela concebeu um filho, Dionísio. Hera, a poderosa rainha e esposa ciumenta de Zeus, mandou dois titãs matarem Dionísio. Eles o dilaceraram em sete partes, o cozinharam em um caldeirão e em seguida o assaram em sete espetos, com exceção do coração, resgatado pela deusa Atena. Zeus, sentindo cheiro de carne assada, entrou na caverna e matou os dois titãs. A deusa Atena entregou-lhe o coração em uma cesta e Zeus o engoliu. Em seguida realizou a ressurreição, parindo ele mesmo o filho.

Obedecendo a uma antiga regra, onde toda matéria se transforma, fico imaginando que as folhas deste Outono italiano poderiam ter feito parte de outros Outonos em outros lugares. Elas caem, se decompõem, fermentam, viram adubo que alimentarão outras plantas, que alimentarão outros seres vivos, que entrarão na cadeia alimentar do reino animal, onde carnívoros se alimentam de outros carnívoros e de herbívoros, que se alimentam de plantas, que se alimentaram de carnívoros, herbívoros, vegetais mortos e excrementos. É a vida alimentando-se da morte.

A herança genética da necessidade de acreditar em seres superiores vem de uma época em que ainda não éramos homo sapiens, assim como a ressurreição de filhos de donzelas e deuses já era um argumento utilizado antes do cristianismo. Desde o primeiro ato consciente não instintivo, o homem tornou-se prisioneiro dessa sua capacidade de pensar. Muito tempo passou, desde então, e já nem nos vemos mais como parte integrante do processo que compõe as folhas de Outono. Em breve a neve cobrirá tudo, indiferente aos processos e composições. Indiferente às convicções. A neve tudo cobre, estendendo uma brancura de paz que ilude os olhos e conforta os sentidos, nos impedindo de questionar as próprias convicções por muito tempo.

Vagueando pelas ruas contemplo um evento que se repete todos os anos. Tento aprender com o exemplo e me regenerar com as perdas que caem como folhas secas. Cada perda é uma dor diferente e eu me torno diferente, também. Como diferentes são as folhas: são outras folhas. O que resta é o que conseguimos absorver de outros seres que se vão, assim como iremos nós um dia.

A Primavera trará novas esperanças, novas cores, iniciando um novo ciclo. A neve terá amortecido a dor das feridas e o tempo cuidará de regenerar os espíritos. A força da herança pré-histórica fará seu efeito e reconduzirá o otimismo ao vértice das minhas emoções, como a planta que morre e renasce da própria semente. Com o alternar das estações serei o novo Dionísio. Em Outonos futuros, vou caminhar por outros lugares, esperando reencontrar as folhas que caíram neste outono italiano.

Ciao.

7 comments:

Manoel Carlos said...

Do Mundo há inúmeras versões, em diversos níveis de realidade. Entre nós, os criadores, cientistas e artistas, ao apresentarem as respectivas interpretações, montam e remontam o quebra-cabeça da realidade; como você brilhantemente o fez nesta postagem.

I said...

Trata-se do eterno retorno , o verdadeiro ou, pelo menos o que podemos constactar.Do outro , daquele de que mais se fala, apenas podemos tecer conjecturas.

Marilia Mota said...

Ah, é linda a Itália. Para nós que temos tão pouca história, ver as ruínas brotando da terra, por todo lado, é emocionante. Fora a arte. Só o Museu do Vaticano... Vou voltar sempre aqui para ver como se sente quem está vivendo aí e não tem a rápida visão de turista que eu tenho, por exemplo. Espero que você viaje bastante e nos fale de todas as regiões, de Trieste a Turim, Milão ou Capri, tudo. Abs!
Marilia

Claudio Costa said...

Nada como filosofar a partir de fragmentos do cotidiano. As coisas podem ser apenas coisas ou podem se transformar em matéria de sonhos. Este post foi muito bem inspirado.

D. Afonso XX, o Chato said...

Ainda esperas pela neve que amortecerá a dor da perda recente. Bonita a forma de dizeres que essa pessoa passa a se incorporar a ti. Um post belo e com propostas de reflexões importantes. abs

Anaí Tobias said...

Belas palavras, temos que buscar forças em nós e no Deus que nos criou para que este resgate o que há de mais importante em nós e que nos refaça a vida perdida na batalha com o nosso maior inimigo. Sabe que o teor dessa lenda é o mesmo da famosa passagem bíblica de Elias, todos os atores e os atos estão lá: Deus que cria, a fragilidade da criatura diante do "demonio" geloso e cheio de poder pra distruir o que lhe ameaça, e o fundamental, o que de mais importante temos, o coração, que tem que permanecer íntegro pra que possa ser novamente recriado...e recriado do amor! Sempre venho aqui e gosto muito dos seus textos, mas hoje não pude deixar de comentar. Boa semana!

I said...

Amigo Allan , já por diversas vezes tento acessar o blog de nossa amiga comum Maray, dona do Che Caribe e não consigo. Pior, "perdi" o endereço de email de Maray. Pode ver o ques e está a passar com o blog Che caribe?Porque motivo não se consegue aceder?