Thursday, October 27, 2005

Eminências Pardas

Caros e Caras,

Paz e saúde!

Tenho a impressão de cada ser humano sonha com os quinze minutos de fama decretados por Andy Warhol. O problema começa com o tempo, que não é suficiente para todos. Nem as pessoas se contentam com o breve quarto de hora: querem mais. Querem sempre mais. Mas o personagem do título desta carta é um outro tipo: não me refiro ao aspone do órgão público que age como assessor de Deus, nem ao suplente de vereador do vilarejo que acredita ser o Chefe do aspone. Não, o que tem me impressionado é a quantidade de pessoas que, de um modo ou de outro, acaba virando notícia de jornal, como o Chapman que matou Lennon para ficar famoso.

Ela vivia olhando para o chão. Procurava dinheiro. Muita gente pensava que ela era louca, mas quem a conhecia sabia que ela ficara assim de tanto procurar. Às vezes encontrava moedas, ou alguma nota de pequeno valor. E ficava com raiva: queria achar a grande bolada que mudaria a sua vida, dentro de um envelope pardo. Chegaram a dar queixa e eu tive que levá-la à delegacia algumas vezes. Essa gente tem medo de tudo que é diferente. Não sabem tomar conta da própria vida e preferem julgar todos que vivem fora do padrão estabelecido por eles. Ela não era perigosa nem nada, apenas passava o dia procurando dinheiro pelo chão. Ou nos beirais de janelas, sobre as latas de lixo, muretas, cantinho de calçada. Ela nem precisava: a pensão deixada pelo marido permitia-lhe uma vida tranqüila, até com um certo conforto. Mas ela queria a sua loteria pessoal. Em dias de feira, olha ela desde às cinco da manhã. Vasculhava tudo com os olhos, não tocava em nada. Às vezes seguia alguém que acabara de sair de um banco, sempre esperando que caísse um grosso envelope. E eu tive que explicar-lhe que ela teria que devolvê-lo, caso acontecesse. Mas ela não ouvia ninguém. chorava quando os meninos a chamavam de Dona da Esmola: ela não aceitava esmolas. Muitos pensavam que ela realmente era surda, que foi por isso que não ouviu o trem chegando, mas eu sei que foi suicídio. Depois da notícia da mulher que achou e devolveu quinhentos euros ela mudou, passou a ficar mal-humorada. Semanas depois, quando a televisão noticiou que um homem achou e também devolveu mais de noventa mil euros, ela perdeu a expressão. Não sorria aquele sorriso tímido quando pedia café com brioche no bar da praça, não ouvia mais os meninos que a perseguiam à saída da escola, parou até de olhar para o chão. Foi quando falei com o comandante que deveríamos levá-la para a clínica, e fomos achá-la no trilho do trem: era tarde.”

São pessoas que tem aspirações mas não sabem como ou não conseguem alcançá-las. É gente normal, como o vizinho gentil, que um dia explode e vira notícia. Depois, desaparecem como bolhas de sabão e ninguém mais ouve falar.

Lembram do caso da torcedora no caso do rojão que não chegou a atingir o Rojas, goleiro do Chile, no jogo que acabou afastando a seleção chilena de torneios por algum tempo? Pois é, aqui tem um monte de caso parecido. Será que alguma TV compraria a idéia de um programa chamado “Quinze Minutos”? Matéria é que não iria faltar. O único risco seria o programa durar, também ele, apenas quinze minutos. Warhol profético?

Ciao.

7 comments:

I said...

A Pop Art foi efémera...todas as correntes estéticas o são.Warhol conseguiu a imortalidade com a asserção dos 15 minutos de fama,além claro das suas obras....mas a frase parece-me que foi ainda mais marcante, todos a recordamos quando pensamos no artista.

Roberta Febran said...

Aqui no Brasil esse papo de 15 minutos de fama rendeu até novela, você soube né? Mas eu preciso confessar que já corri atrás do meu, num passado bem distante, hohoho. Bacio.

luma said...

O sucesso de algumas pessoas visto por outras pode parecer um insucesso da própria existência. Talvez daí nascem os piores críticos. Bom fim de semana! Beijus

Flavio Prada said...

1-Na minha idade já estou preferindo ter quinze minutos de outras coisas que não a fama. 2-Comentário atrasado do post anterior: já pode me convidar pra um café na tua casa, aceito de bom grado. abraços.

Claudio Costa said...

"Quem tem fama deita na cama", dizem por aqui. Não sei bem o que significa, mas prefiro passar menos tempo deitado e mais tempo por aí! Quanto à "lição de como fazer café", desde já agradeço: na minha casa temos uma cafeteira das que ilustram seu post anterior, que chamamos aqui de "cafeteira italiana". O café sai danado de gostoso. Dois erros nós cometíamos a)deixá-la tampada enquanto ferve b)não misturar ao servir.
De qualquer jeito, seu café aí deve ser ótimo. Abraços.

Sandra said...

Acho que nós blogueiros temos mais fama que muita gente, apesar de sermos ilustres desconhecidos. E sou feliz assim, lendo meus ídolos e escrevendo minhas coisinhas.... Já tenho mais que meus 15 minutos de cota e uma coisa muito mais valiosa do que qualquer dinheiro do mundo: vocês, meus amigos.

D. Afonso XX, o Chato said...

Tocante a história da moça (?). Fala de coisas importantes que esquecemos no dia-a-dia, com ou sem 15 minutos: "Essa gente tem medo de tudo que é diferente. Não sabem tomar conta da própria vida e preferem julgar todos que vivem fora do padrão estabelecido por eles". abs

PS.: "Infelizmente" refere-se ao fato de não gostar de ter nascido no Rio. Toda minha família é gaúcha de nascimento, menos eu. No terceiro post da série explico isso. De qualquer forma, foste o único a notar o "detalhe". abs