Sunday, April 24, 2005

Opera Buffa

Caros e Caras,
Paz e saúde!

Primavera em conflito. Faltam o calor, o pólen e o frenesi dessa época.

Vamos de carro até a estação. De lá, pegamos o trem para Milão. São cinqüenta minutos de uma viagem entre vilarejos espalhados pelos campos da Lombardia. Na Estação Central, um prédio belo e frio, pegamos o metrô rumo ao centro da cidade. Descemos na estação Duomo, subimos as escadas que nos leva à Piazza Duomo e nos defrontamos com a catedral de Milão, ainda empacotada para as reformas externas. Olhamos à esquerda e observamos por alguns instantes a galeria Vitorio Emanuelle II, com seu ar pomposo e suas lojas caras. Entramos, tomamos um café e caminhamos na direção oposta à praça. No meio da galeria, no cruzamento entre as duas alas, algumas pessoas giram sobre o Saco do Touro, figura em mármore no piso que, segundo a lenda, traz sorte a quem dá uma volta completa com o calcanhar sobre o saco do pobre animal. Rimos, afinal não acreditamos em superstições e atravessamos o resto da galeria. À saída, distante apenas alguns metros da Duomo, está a praça que abriga o Scala, nosso objetivo. Antes de entrarmos no teatro ainda temos tempo para uma parada em frente à estátua de Leonardo (aquele…), que nos observa a todos com um ar grave.

Durante o velório do Papa a Proteção Civil enviou mensagens a todos os celulares solicitando evitar visitas a Roma, tamanha era a multidão que entupiu a capital italiana para um último adeus. Da mesma forma, o governo mandou-nos, via correio, os convites para assistir a uma peça no reformado teatro (país do primeiro mundo que se preza utiliza-se de modernos meios para comunicar-se com os cidadãos). A peça se chamava Pão e Circo e haveria uma única apresentação. Nós não tínhamos a menor idéia do que nos aguardava, mas a possibilidade de visitar o novo teatro nos convenceu da empreitada. Grátis, então…

Dentro do majestoso teatro uma enorme tenda cobria toda a paltéia, dando-nos a impressão de estarmos dentro de um circo. Um grupo de policiais controlava os convites e indicava os lugares numerados. Quando o policial pediu meu documento para verificar o nome impresso no convite assustou-se com o fato de eu ser estrangeiro e deixou escapar: “mas o senhor não vota…”. Como o nome no convite era o meu, ele não teve alternativa senão deixar-me entrar. Mas, por segurança, revistou-me. Sentamos ao lado de um casal idoso. Todos numa elegância digna de uma estreia do Teatro Scala. A Eloá cutucou-me com o cotovelo e cochichou-me um “viu?”. A senhora ao lado observou com desdém minha camiseta da seleção e disparou num italiano com forte sotaque milanês: “o senhor votou no Lula?”. Lembrei a ela que o voto é secreto, direito do qual não abro mão. Jurei à Eloá que da próxima vez aceito a opinião quanto a roupa, mas aleguei que no convite estava escrito “traje esportivo”.

No palco, abrem-se as cortinas e deparamos com uma pequena multidão que finge dormir em pé, enquanto o mestre de cerimônias explica que a peça será muito divertida e que valerá cada tostão que iremos pagar. Um segundo cutucão seguido de outro “viu?”. Me defendo esclarecendo que o convite informava a gratuidade do evento e que entramos sem pagar. A senhora ao lado esclarece que pagaremos, mas que eu ainda sou muito novo para entender essas coisas. Os atores se dividem em dois grupos, ocupando os lados do palco e deixando o centro vazio. Aqueles à esquerda gritam em coro: “somos a direita!”. Os da direita respondem: “…e nós, somos a esquerda!”. Um ator, vestido de rainha da Inglaterra, dirige-se ao centro do palco, chama o líder da direita, que se encontra à esquerda e, num discurso grave e pausado, esclarece que devido aos resultados das últimas eleições regionais, quando os eleitores deram um forte sinal de insatisfação elegendo uma incontestável maioria da oposição, urge uma ação para tirar o país da crise de governabilidade. O primeiro-ministro responde: “Não renuncio, não renuncio e não renuncio!”. O diálogo prossegue com o apoio entusiasmado de todos os outros personagens. Somente um, à esquerda (e, portanto, da direita) não se manifesta: está sentado em uma cadeira de rodas, com um ar de quem sofreu um derrame. Gesticula, balbucia, mas a confusão impede de senti-lo. No meio do palco alguém sussurra as falas, nem sempre compreendidas por causa do sotaque americano e do péssimo italiano do ponto, escondido sob o palco.

Moças e rapazes começam a distribuir copos de vinho, afirmando ser de excelente qualidade. Eu aceito, provo e sentencio: delicioso! A Eloá agradece e recusa. Eu insisto e ela me devolve um olhar de censura. Pego o copo dela e agradeço. Outro cutucão. Dessa vez, silencioso. A fome começa a dar sinal, mas evito comentar com medo de outra cutucada.

A peça se desenrola num clima de confusão. O primeiro-ministro insiste em não renunciar, apesar da opinião contrária dos próprios correligionários. Parece um menino que se recusa a devolver o brinquedo do amigo. A platéia ri o tempo todo. O vinho continua a ser distribuído, mas o vazio do meu estômago o faz ecoar no cérebro. A esquerda se revolta e passa a xingar o primeiro-ministro. Um personagem que tentava acalmar a esquerda pega uma bandeira e começa a correr de um lado para o outro do palco. A bandeira tem um lado vermelho e outro azul. Um parlamentar da esquerda e dois da direita formam uma pequena fila atrás dele, trotando pra lá e pra cá. A direita pede ajuda ao público para conter a esquerda. Algumas pessoas aceitam o convite e recolhem a lona sobre a platéia, formam um grande saco e tentam enfiar a esquerda ali dentro. Os de esquerda que conseguem escapar ajudam a fechar a boca do saco, dão pontapés nos que estão dentro e acusam a direita. O saco reage chamando a direita de facista. O público delira, o quinto copo de vinho é servido e eu noto que não é tão bom assim. A fome aumenta. O sujeito da bandeira pára no centro do palco e sugere formar um único partido, de centro. Os da direita ficam indecisos, olham para o da cadeira de rodas que gesticula negativamente. A rainha da Inglaterra pede o fim do impasse mas o primeiro-ministro não cede. O da bandeira esclarece que havendo um único partido as brigas terminariam, pois todos seriam governo. O saco grita: “governo, jamais!”. Ele ainda tenta convencer alegando ter o símbolo justo e mostra um broche com um tucano. O primeiro-ministro pergunta porque o tucano e ele responde que é um bicho que agrada a todos. Eu, a Eloá e outras seis pessoas damos uma sonora gargalhada. O público ri em seguida. A senhora ao lado pergunta o porquê e eu explico que ela é italiana demais para entender. O ponto move os braços energicamente e fala: “the another one!”. O da bandeira olha, gesticula e pede a tradução. Alguém grita: “o outro!”. Ele enfia o tucano no bolso e tira outro broche, com uma lagartixa. O primeiro-ministro questiona o porquê da lagartixa e ele esclarece que a lagartixa, ficando em cima do muro, tem a sabedoria de olhar os dois lados. A platéia chora de rir.

Numa última tentativa, a rainha da Inglaterra esclarece ao primeiro-ministro que se ele renunciar poderá continuar no cargo, apresentando um novo plano de governo e substituindo apenas um ou dois ministros. Um sujeito próximo a nós não consegue chegar ao banheiro e molha as calças de tanto rir. O primeiro-ministro gosta da idéia e se consulta com os aliados. Os da esquerda partem para cima do saco com socos e pontapés, que responde xingando a direita. A bandeira volta a correr. O primeiro-ministro faz um discurso dizendo que renuncia em nome do povo mas caso permanecesse no cargo iria promover profundas mudanças. O saco reage, dizendo que ele irá trair os que votaram nele. Mesmo assim ele renuncia. A rainha da Inglaterra aceita mas o convida a permanecer no cargo para tocar as reformas de que o país tanto precisa. No discurso de posse, o primeiro-ministro informa que manterá a atual política e que o país vai bem, obrigado. O saco o chama de traidor da pátria e o acusa de quebrar a promessa de mudanças que acabara de fazer. Ele dá o troco chamando-os de eternos insatisfeitos. A situação permanece a mesma mas o protocolo fora seguida. A crise de governabilidade chegara ao fim.

Um último copo de vinho é servido, mas não vai além do primeiro gole. O saco é aberto e todos entram nele. O da cadeira de rodas tenta reagir quando o empurram dentro do saco. Uma mão permanece fora do saco, movimentando a bandeira. Ouve-se um brinde ao novo governo, risadas e o hino nacional. Fecham-se as cortinas. O público ainda ri quando saímos. Fora, um nauseante cheiro de pizza afugenta a fome e faz minha cabeça rodar ainda mais, vítima que fui daquele vinho vagabundo. Olho para trás e vejo que alguns começam a vomitar. Nos dirigimos à Piazza Duomo para o metrô e depois o trem. Antes, uma última olhada à estátua de Leonardo que, percebo, tem um leve sorriso no canto da boca. Na dúvida, damos uma volta sobre o saco do touro.

Ciao.

6 comments:

Anonymous said...

Foi como se eu tivesse assistido também! Tirando o final da platéia, com o passar mal, foi um programão!
E abraços ao fair play da Eloá com a camisa!
Boa resposta do voto secreto,mas, como ausente do país, é só dizer que estava fora do domicílio eleitoral!
Angela ( leio sempre seu blog, adoro. Recebo mensagem dizendo que tem novidade, venho sempre. Nem sempre comento, claro, mas venho! Se desse um copy and paste no Journal do multiply iria ver quem visita sem comentar. Só uma sugestão da preguiçosa)

Felicia Luisa said...

Pois é, bem que a senhora do seu lado avisou: no final, você acabou mesmo pagando...:)

Manoel Carlos said...

Se eu não soubesse que você não vale o que o gato enterra até acreditaria que foi à Ópera de Milão de camisa da Seleção.
Morri de rir.
É muito bom este seu humor sutil.
Nem sob tortura você confessaria que votou no Lula-lau.

Anonymous said...

Allan,
Eu tb molhei as calças de tanto rir lendo o seu texto. Normalmente vc usa uma ironia sutil q poucos conseguem captar, dessa vez vc foi cínico e sarcástico. Colocar o presidente Ciampi como a rainha da Inglaterra mostra perfeitamente a inutilidade do cargo; confundir esquerda com direita é um clássico italiano; oferecer gato por lebre, – o vinho vagabundo – também; falácia não enche barriga. Vc mostrou ser capaz de manobrar sua indignação como poucos, enchendo seu texto de situações q expõem o ridículo da pantomímica política italiana. Parabéns!

Mas tem um porém: ficou parecendo papo de comadre. Quem não tiver intimidade com a realidade italiana não irá entender a ironia. Vc deveria ter deixado algumas dicas para q o leitor entendesse q a viagem a Milão não aconteceu, q vc não foi ao Scala, mas q a reeleição do Berlusconi foi real como vc detalhou. O risco, agora, é q os seus leitores (acostumados com o seu lirismo) entendam a cena como verídica. Pior: q eles pensem q a dona Eloá seja uma mulher de cutucões e q eles acreditem q um gentleman como vc realmente tenha ido ao Scala de camiseta! Fica a dica.
Abração,
Diogo.

Leila Silva said...

Allan,
Voce esta se superando...Como os outros, chorei de rir. A gente fica so imaginando as cenas. Tomar o copo que a Eloa recusou foi demais! E depois ainda reclama do vinho.
E esse Manoel e' intrometido hein? Voce ja tinha dito que o voto e' secreto e ele ainda insiste...vou dar uma bronca nele.
Essa confusao entre esquerda e direita tambem foi muito boa, me fez pensar numa piada sobre italianos e comunidade Europeia que recebi ha alguns meses. Nao 'e bem uma piada, 'e uma animacao, vou tentar achar e te mando, 'e otima. Espero que vc nao a tenha recebido mil vezes.
Abracos
Leila

Leila Silva said...

http://www.infonegocio.com/xeron/bruno/italy.html

Este e' o link para a animacao de que falei no comentario anterior, nao tem tanta relacao nao mas e' engracado.
Abracos