Caros e Caras,
Paz e saúde!
Inverno maluco. Às vezes faz frio. Às vezes, clima de primavera.
Vinte e oito de janeiro quase acabou. Flores. Presentinhos, surpresinhas das meninas, um quebra-cabeça que elas nos obrigaram a montar antes de sairmos para jantar, com um casal de narigudos do Mordillo que esculpem um coração num bloco de gelo no mar, usando um maçarico. Montamos e colocamos em uma pequena moldura de vidro. Vai ficar em cima do computador, na parede.
Salames piacentinos de entrada. Ela pede pennete ai funghi e rucola. Eu, tortelli di zucca. Depois, porco ai funghi e costelette di cervo ai fruti di bosco. Uma garrafa de Guturnio reserva especial. Café.
Dezoito anos atrás era verão. Agora, esse frio aconchegante que obriga a andar de braços dados. Como naquele verão, quando tudo começou.
Tudo tão diferente. O mesmo sentimento. Mais a sensação tranqüila de uma serenidade sem fim.
Ciao.
A Itália vista por um brasileiro. As diferenças culturais, descobertas e sabores, com uma pitada de bom humor (às vezes).
sexta-feira, janeiro 28, 2005
terça-feira, janeiro 25, 2005
Minha Pátria, Minha Língua
Caros e Caras,
Paz e saúde!
“As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia lusitana,
Por mares nunca dantes navegados
Passaram muito além da Tapróbana”.
Não, Tapróbana definitivamente não soa bem e nem rima com “lusitana”. E foi por isso que Camões decidiu mudar a sílaba tônica, transformando em grave uma palavra esdrúxula. Nos poucos dicionários onde ainda é possível encontrar a palavra, ela aparece sem o acento original.
Sempre me espantou o fato de Camões ser visto como o maior escritor da língua portuguesa. Sem considerar a sua estatura, ou a sua capacidade de utilizar-se das figuras de linguagem e da métrica adequadamente (o que não chega a merecer elogios, se vista como pré-requisito para qualquer poeta daquele período), particularmente acho que o nosso Luís foi somente um escritor menos dotado de inspiração, que teve a feliz idéia de um poema épico exaltando as descobertas lusitanas, num momento em que o orgulho do seu povo necessitava de um estandarte cultural para marcar as novas conquistas.
Não é uma obra que mereça ser lida por todos os povos, como o trabalho indiscutível daquele outro escritor, o inglês. Nem tão pouco fez o sucesso como o italiano Dante (ainda que o seu mérito como autor ou tradutor possa ser discutido - mas não na Itália!). O seu poema é lido somente nas salas de aula de Portugal, do Brasil e, provavelmente, dos outros países de língua portuguesa. Provavelmente.
Considero como a verdadeira grande obra do povo português, a difusão da língua por países tão distantes e diferentes entre si. Ainda que com variações às vezes acentuadas, o Brasil é unido sobretudo pela sua língua. Poucos europeus acreditam na inexistência de dialetos no Brasil (às vezes, eu também) . Falar a mesma língua num país tão grande está além da capacidade de compreensão deles.
Num jornal de Pavia (uma cidade da região da Lombardia, próxima a Milão e próxima de Piacenza) uma anciã colocou um anúncio solicitando uma empregada com uma única exigência: falar perfeitamente o dialeto pavês. Em Piacenza, o dialeto local parece francês. Mas é somente aparência, os franceses não entendem lhufas! Nem mesmo os piacentinos mais jovens entendem quando os seus avós conversam animadamente na feira. Ainda hoje encontro pessoas que entendem o meu italiano mas me respondem sempre em dialeto. Não por má vontade, mas por não saber falar o italiano.
Segundo o Ministério do Interior da Itália (www.interno.it), o italiano é a língua oficial do país, falada por 75% da população. Ou seja: dos quase 58 milhões de habitantes, algo como 14,5 milhões de pessoas não falam a língua oficial. Os estrangeiros são 6 milhões, mas uma esmagadora maioria fala italiano. Uma recente pesquisa do Ministério da Educação, levantou que as crianças estrangeiras do ensino fundamental falam e escrevem melhor o italiano que os filhos da terra. Qualquer estrangeiro adulto pode se inscrever num dos muitos cursos para estrangeiros, subsidiados pelas prefeituras. Para as crianças o ensino é obrigatório.
No norte da Itália, seguindo uma orientação do Ministério do Interior, muitos prefeitos estão travando uma quixotesca batalha para mudar os nomes de ruas, praças, escolas e monumentos públicos, escritos originariamente em alemão. Outro fator relevante são os dialetos e a insistência dos mais antigos na manutenção deles como línguas oficiais das cidades ou províncias.
Muito antes do efeito globalização, a televisão ocupou-se em difundir o italiano pelo país. E isso não chegou a assustar ninguém. Mas com a enxurrada de informações e imagens do mundo todo, além da ladainha que decreta à morte qualquer ser humano que não saiba inglês, a insegurança tomou conta de parte da população, que teme a perda da própria cultura. Num país que luta pelo reconhecimento internacional e pela afirmação perante os parceiros europeus como grande nação, a Itália fecha-se em si mesma, procurando no próprio umbigo uma via para o inserimento no cenário internacional de forma mais convincente. O provincianismo italiano sonha com uma globalização de mão única.
Outro efeito negativo do atual acesso e velocidade à informação é a perda do hábito da leitura, numa Europa tão cheia de prêmios Nobel e de livrarias. Isso tem provocado uma superficialidade na interpretação dos fatos e do conhecimento, o que acaba gerando conceitos igualmente equivocados, que também se difundem na mesma velocidade.
Hoje o velho Dante é leitura obrigatória somente nas escolas, como o nosso Camões. Enquanto isso, do outro lado do oceano, nós, brasileiros, vivemos o risco de ver o título de maior escritor da língua portuguesa mudar de mãos, provavelmente transformando-se em medalha a ser pendurada no fardão de um Paulo Coelho (o que não muda muito). No fundo, quem é que sabe onde diabos fica Taprobana?
Ciao.
Paz e saúde!
“As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia lusitana,
Por mares nunca dantes navegados
Passaram muito além da Tapróbana”.
Não, Tapróbana definitivamente não soa bem e nem rima com “lusitana”. E foi por isso que Camões decidiu mudar a sílaba tônica, transformando em grave uma palavra esdrúxula. Nos poucos dicionários onde ainda é possível encontrar a palavra, ela aparece sem o acento original.
Sempre me espantou o fato de Camões ser visto como o maior escritor da língua portuguesa. Sem considerar a sua estatura, ou a sua capacidade de utilizar-se das figuras de linguagem e da métrica adequadamente (o que não chega a merecer elogios, se vista como pré-requisito para qualquer poeta daquele período), particularmente acho que o nosso Luís foi somente um escritor menos dotado de inspiração, que teve a feliz idéia de um poema épico exaltando as descobertas lusitanas, num momento em que o orgulho do seu povo necessitava de um estandarte cultural para marcar as novas conquistas.
Não é uma obra que mereça ser lida por todos os povos, como o trabalho indiscutível daquele outro escritor, o inglês. Nem tão pouco fez o sucesso como o italiano Dante (ainda que o seu mérito como autor ou tradutor possa ser discutido - mas não na Itália!). O seu poema é lido somente nas salas de aula de Portugal, do Brasil e, provavelmente, dos outros países de língua portuguesa. Provavelmente.
Considero como a verdadeira grande obra do povo português, a difusão da língua por países tão distantes e diferentes entre si. Ainda que com variações às vezes acentuadas, o Brasil é unido sobretudo pela sua língua. Poucos europeus acreditam na inexistência de dialetos no Brasil (às vezes, eu também) . Falar a mesma língua num país tão grande está além da capacidade de compreensão deles.
Num jornal de Pavia (uma cidade da região da Lombardia, próxima a Milão e próxima de Piacenza) uma anciã colocou um anúncio solicitando uma empregada com uma única exigência: falar perfeitamente o dialeto pavês. Em Piacenza, o dialeto local parece francês. Mas é somente aparência, os franceses não entendem lhufas! Nem mesmo os piacentinos mais jovens entendem quando os seus avós conversam animadamente na feira. Ainda hoje encontro pessoas que entendem o meu italiano mas me respondem sempre em dialeto. Não por má vontade, mas por não saber falar o italiano.
Segundo o Ministério do Interior da Itália (www.interno.it), o italiano é a língua oficial do país, falada por 75% da população. Ou seja: dos quase 58 milhões de habitantes, algo como 14,5 milhões de pessoas não falam a língua oficial. Os estrangeiros são 6 milhões, mas uma esmagadora maioria fala italiano. Uma recente pesquisa do Ministério da Educação, levantou que as crianças estrangeiras do ensino fundamental falam e escrevem melhor o italiano que os filhos da terra. Qualquer estrangeiro adulto pode se inscrever num dos muitos cursos para estrangeiros, subsidiados pelas prefeituras. Para as crianças o ensino é obrigatório.
No norte da Itália, seguindo uma orientação do Ministério do Interior, muitos prefeitos estão travando uma quixotesca batalha para mudar os nomes de ruas, praças, escolas e monumentos públicos, escritos originariamente em alemão. Outro fator relevante são os dialetos e a insistência dos mais antigos na manutenção deles como línguas oficiais das cidades ou províncias.
Muito antes do efeito globalização, a televisão ocupou-se em difundir o italiano pelo país. E isso não chegou a assustar ninguém. Mas com a enxurrada de informações e imagens do mundo todo, além da ladainha que decreta à morte qualquer ser humano que não saiba inglês, a insegurança tomou conta de parte da população, que teme a perda da própria cultura. Num país que luta pelo reconhecimento internacional e pela afirmação perante os parceiros europeus como grande nação, a Itália fecha-se em si mesma, procurando no próprio umbigo uma via para o inserimento no cenário internacional de forma mais convincente. O provincianismo italiano sonha com uma globalização de mão única.
Outro efeito negativo do atual acesso e velocidade à informação é a perda do hábito da leitura, numa Europa tão cheia de prêmios Nobel e de livrarias. Isso tem provocado uma superficialidade na interpretação dos fatos e do conhecimento, o que acaba gerando conceitos igualmente equivocados, que também se difundem na mesma velocidade.
Hoje o velho Dante é leitura obrigatória somente nas escolas, como o nosso Camões. Enquanto isso, do outro lado do oceano, nós, brasileiros, vivemos o risco de ver o título de maior escritor da língua portuguesa mudar de mãos, provavelmente transformando-se em medalha a ser pendurada no fardão de um Paulo Coelho (o que não muda muito). No fundo, quem é que sabe onde diabos fica Taprobana?
Ciao.
sexta-feira, janeiro 21, 2005
Sabores Alterados
Caros e Caras,
Paz e saúde!
Quando mudei-me para São Paulo pela primeira vez (e foram tantas vezes que poderia escrever um roteiro alternativo) notei que a feijoada era feita com qualquer feijão que não fosse o preto. Explicaram-me que a feijoada que eu gostava chamava-se “feijoada carioca”, um termo que até então desconhecia. Protestei e decidi fazer cara feia toda vez que tivesse que comer uma feijoada que não fosse a minha. Achava um abuso mudarem uma coisa tão gostosa sem a menor cerimônia. Óbvio que ninguém me levou a sério, afinal era somente um menino, que ainda acreditava que dinheiro se comprava na mercearia: “Me dá um quilo de dinheiro, Seu Manuel…” e por isso não conseguia entender porque meu pai deveria sair para trabalhar todos os dias. Também achava muito monótona essa história de os dias haverem somente sete nomes. Porque não dar um nome diferente para cada dia? Mas acho que já escrevi isso antes.
Em Salvador descobri que a feijoada pode haver outros ingredientes além dos tradicionais, mas devo confessar que realmente não gosto de verdura cozida no feijão. A feijoada sergipana, então, nunca tive nem coragem de provar. Leva abóbora, quiabo, etc.
A simplicidade dos pratos é, muitas vezes, o grande segredo. A feijoada francesa (o cassoulet) é feita com feijão branco e carne de porco, carneiro, ganso ou pato e pouco tempero. Aquela espanhola (o puchero) com carnes e grão-de-bico, mas muito temperada. O Slow Food (movimento culinário que se contrapõe ao fast food) prega tempo e simplicidade como ingredientes básicos para uma boa cozinha. E, em alguns casos, a tradição como pitada de mestre. Ocorre que as receitas sofrem variações em função dos gostos pessoais e da necessidade de se adaptar às realidades locais.
Mesmo na Itália, país de reduzidas dimensões geográficas, quando comparado ao nosso, os pratos sofrem variações e provocam acaloradas discussões, normalmente resfriadas com vinho. A famosa guerra de tortelli (qualquer massa recheada) entre Crema e Cremona, duas cidades vizinhas da região da Lombardia, consome litros e litros de bom vinho há anos. Outras cidades (como Piacenza, onde moramos) acabaram entrando na guerra. Sou um valoroso voluntário.
Na província de Rieti, região do Lázio na divisa com a região de Abruzzo, existe um vilarejo de quatro mil habitantes. De origem medieval, foi importante centro cultural no século XVII e, graças a fidelidade à casa real d’Aragona, que reinou na Sicília desde 1282 e também em Nápoles, a partir da segunda metade do século XV, ganhou o status de cidade e o direito de cunhar as próprias moedas. Mas apesar da sua rica história e da interessante arquitetura, Amatrice ficou famosa pelo molho utilizado no macarrão deles de cada dia. A receita é simples: tomate, guanciale e pecorino. E aqui começam as adaptações.
Tomate é tomate em qualquer lugar do mundo, apesar de suas origens americanas (que, se recordo uma lição do Aldo Pereira, seria andino). Mas a regra de utilizar somente tomates maduros e com muita polpa é sempre válida. O toucinho defumado (ou bacon) que utilizamos no Brasil é muito forte, por ser excessivamente defumado e temperado. Na Itália usa-se um toucinho levemente defumado ou apenas seco, com pouco sal. A grande maioria é cilíndrica (para comer com pão) ou prensado (para cozinhar). Bochecha em italiano se diz guancia; guanciale é o toucinho feito com a bochecha do porco, menos gorduroso que o toucinho da barriga (em italiano pancetta, de pancia, barriga). Na receita de domingo, o guanciale pode ser substituído por toucinho comum, mas procure um que seja mais suave e com um pouco de carne. Quanto ao pecorino, queijo de leite de ovelhas e que no Brasil custa caro, pode ceder o lugar a um queijo meia cura pouco húmido. E aqui vale um lembrete: queijo ralado não é sinônimo de queijo tipo parmesão ralado. Todo queijo pode ser ralado, dependendo do efeito que se deseja. Ricota ralada não é uma raridade por aqui.
Substituindo os ingredientes, a receita fica fácil e econômica: Tomate, queijo meia cura ralado e toucinho levemente defumado (ou seco). Sem alho. Outra dica: a massa caseira, por ser irregular e porosa, absorve melhor o molho e deve ser “ao dente” no momento em que se come, portanto deve ser retirada do fogo ainda meio dura. Se à água de cozimento for adicionado um cubo de caldo de carne além do sal, o truque de mestre terá um agradável efeito. Em uma frigideira grande, frite com um pouco de azeite de oliva o toucinho em pedaços pequenos, sem deixá-lo endurecer (não frite demais) e adicione o tomate cortado em pedaços, que não chega a desmanchar-se. Uma pitada de açucar para tirar o excesso de acidez e junte o macarrão já pronto e escorrido (não se preocupe em escorrer toda a água). Misture os ingredientes mexendo a frigideira (e não o macarrão) como se fosse uma panqueca (em italiano se diz saltare). Sirva e cubra com um punhado de queijo meia cura ralado e lembre-se que este é somente um primeiro prato. A receita do segundo deixo à imaginação de cada um.
Meus amigos italianos confessaram necessitar de um incentivo especial para a primeira garfada de feijoada, com todas aquelas carnes pretas misturadas ao feijão. Couve existe somente no sul da Itália e temos que adaptar com outra verdura (que não tem o mesmo sabor), a erbetta ou bida. Paio, nem pensar! Também tivemos que reduzir as carnes muito gordurosas e não conseguimos encontrar a costelinha defumada. Mas basta uma boa caipirinha servida antes, que todas as resistências são vencidas. Eles sempre pedem bis.
De hoje em diante fica o pacto entre nós: quando falarmos de feijoada (ou houver um convite para uma) será sempre a minha feijoada, com feijão preto. A verdadeira feijoada, que não necessita do adjetivo “carioca” e que vem do tempo em que dinheiro se comprava na mercearia e cada dia tinha um nome.
Agora, com licença que vou sair para escolher um vinho. A guerra dos tortelli continua.
Ciao.
Paz e saúde!
Quando mudei-me para São Paulo pela primeira vez (e foram tantas vezes que poderia escrever um roteiro alternativo) notei que a feijoada era feita com qualquer feijão que não fosse o preto. Explicaram-me que a feijoada que eu gostava chamava-se “feijoada carioca”, um termo que até então desconhecia. Protestei e decidi fazer cara feia toda vez que tivesse que comer uma feijoada que não fosse a minha. Achava um abuso mudarem uma coisa tão gostosa sem a menor cerimônia. Óbvio que ninguém me levou a sério, afinal era somente um menino, que ainda acreditava que dinheiro se comprava na mercearia: “Me dá um quilo de dinheiro, Seu Manuel…” e por isso não conseguia entender porque meu pai deveria sair para trabalhar todos os dias. Também achava muito monótona essa história de os dias haverem somente sete nomes. Porque não dar um nome diferente para cada dia? Mas acho que já escrevi isso antes.
Em Salvador descobri que a feijoada pode haver outros ingredientes além dos tradicionais, mas devo confessar que realmente não gosto de verdura cozida no feijão. A feijoada sergipana, então, nunca tive nem coragem de provar. Leva abóbora, quiabo, etc.
A simplicidade dos pratos é, muitas vezes, o grande segredo. A feijoada francesa (o cassoulet) é feita com feijão branco e carne de porco, carneiro, ganso ou pato e pouco tempero. Aquela espanhola (o puchero) com carnes e grão-de-bico, mas muito temperada. O Slow Food (movimento culinário que se contrapõe ao fast food) prega tempo e simplicidade como ingredientes básicos para uma boa cozinha. E, em alguns casos, a tradição como pitada de mestre. Ocorre que as receitas sofrem variações em função dos gostos pessoais e da necessidade de se adaptar às realidades locais.
Mesmo na Itália, país de reduzidas dimensões geográficas, quando comparado ao nosso, os pratos sofrem variações e provocam acaloradas discussões, normalmente resfriadas com vinho. A famosa guerra de tortelli (qualquer massa recheada) entre Crema e Cremona, duas cidades vizinhas da região da Lombardia, consome litros e litros de bom vinho há anos. Outras cidades (como Piacenza, onde moramos) acabaram entrando na guerra. Sou um valoroso voluntário.
Na província de Rieti, região do Lázio na divisa com a região de Abruzzo, existe um vilarejo de quatro mil habitantes. De origem medieval, foi importante centro cultural no século XVII e, graças a fidelidade à casa real d’Aragona, que reinou na Sicília desde 1282 e também em Nápoles, a partir da segunda metade do século XV, ganhou o status de cidade e o direito de cunhar as próprias moedas. Mas apesar da sua rica história e da interessante arquitetura, Amatrice ficou famosa pelo molho utilizado no macarrão deles de cada dia. A receita é simples: tomate, guanciale e pecorino. E aqui começam as adaptações.
Tomate é tomate em qualquer lugar do mundo, apesar de suas origens americanas (que, se recordo uma lição do Aldo Pereira, seria andino). Mas a regra de utilizar somente tomates maduros e com muita polpa é sempre válida. O toucinho defumado (ou bacon) que utilizamos no Brasil é muito forte, por ser excessivamente defumado e temperado. Na Itália usa-se um toucinho levemente defumado ou apenas seco, com pouco sal. A grande maioria é cilíndrica (para comer com pão) ou prensado (para cozinhar). Bochecha em italiano se diz guancia; guanciale é o toucinho feito com a bochecha do porco, menos gorduroso que o toucinho da barriga (em italiano pancetta, de pancia, barriga). Na receita de domingo, o guanciale pode ser substituído por toucinho comum, mas procure um que seja mais suave e com um pouco de carne. Quanto ao pecorino, queijo de leite de ovelhas e que no Brasil custa caro, pode ceder o lugar a um queijo meia cura pouco húmido. E aqui vale um lembrete: queijo ralado não é sinônimo de queijo tipo parmesão ralado. Todo queijo pode ser ralado, dependendo do efeito que se deseja. Ricota ralada não é uma raridade por aqui.
Substituindo os ingredientes, a receita fica fácil e econômica: Tomate, queijo meia cura ralado e toucinho levemente defumado (ou seco). Sem alho. Outra dica: a massa caseira, por ser irregular e porosa, absorve melhor o molho e deve ser “ao dente” no momento em que se come, portanto deve ser retirada do fogo ainda meio dura. Se à água de cozimento for adicionado um cubo de caldo de carne além do sal, o truque de mestre terá um agradável efeito. Em uma frigideira grande, frite com um pouco de azeite de oliva o toucinho em pedaços pequenos, sem deixá-lo endurecer (não frite demais) e adicione o tomate cortado em pedaços, que não chega a desmanchar-se. Uma pitada de açucar para tirar o excesso de acidez e junte o macarrão já pronto e escorrido (não se preocupe em escorrer toda a água). Misture os ingredientes mexendo a frigideira (e não o macarrão) como se fosse uma panqueca (em italiano se diz saltare). Sirva e cubra com um punhado de queijo meia cura ralado e lembre-se que este é somente um primeiro prato. A receita do segundo deixo à imaginação de cada um.
Meus amigos italianos confessaram necessitar de um incentivo especial para a primeira garfada de feijoada, com todas aquelas carnes pretas misturadas ao feijão. Couve existe somente no sul da Itália e temos que adaptar com outra verdura (que não tem o mesmo sabor), a erbetta ou bida. Paio, nem pensar! Também tivemos que reduzir as carnes muito gordurosas e não conseguimos encontrar a costelinha defumada. Mas basta uma boa caipirinha servida antes, que todas as resistências são vencidas. Eles sempre pedem bis.
De hoje em diante fica o pacto entre nós: quando falarmos de feijoada (ou houver um convite para uma) será sempre a minha feijoada, com feijão preto. A verdadeira feijoada, que não necessita do adjetivo “carioca” e que vem do tempo em que dinheiro se comprava na mercearia e cada dia tinha um nome.
Agora, com licença que vou sair para escolher um vinho. A guerra dos tortelli continua.
Ciao.
quarta-feira, janeiro 19, 2005
Inverno
Caros e Caras,
Paz e saúde!
Os jornais brasileiros anunciaram a onda de frio na Europa, informando que as baixas temperaturas tomaram conta do velho continente, atingindo, em alguns países a -17 ºC. Para completar a informação, comunico que é apenas o começo. No inverno de 1999/2000, tivemos o prazer de conhecer na pele (literalmente falando) a nobre temperatura de -21 ºC. Até o Natal a temperatura estava acima da média do período, por causa dos ventos que vem da Africa. Como resultado, algumas anomalias puderam ser observadas nos eventos que marcam essa estação do ano: flores que só apareceriam na primavera começaram a pontilhar as ruas e campos e uma espécie migratória de borboletas que deveria retornar no início da próxima estação, fez o caminho de volta e deu um colorido inesperado nesta época do ano.
Ninguém noticiou, mas com a onda de frio repentina, creio que as borboletas não tiveram tempo de perceber o ligeiro equívoco e, as que se arrependeram e tentaram retornar, conseguiram chegar, no máximo, ao sul da Itália, onde devem ter sido recepcionadas pela neve e não puderam aproveitar do clima mais aconchegante do norte da Africa.
Você que está lendo agora essa carta, deve estar pensando: “O que esse cara tá falando? Frio? Temperatura negativa…? Que diabo de isso é isso? Nesse clima de euforia de pré-carnaval; a expectativa com o novo ano; a paralisia que ocorre nesse período, que faz com que o ano termine antes do Natal, mas só recomece depois do Carnaval e alguém vem falar de frio? O termômetro se enche de vermelho pra me dizer que chegamos a 40 ºC, na sombra!”
Acorda, ô meu! (diriam os paulistas) Sai dessa, meu rei! (os baianos) Qualé, bró! (cariocas).
A intenção é essa mesma. Mostrar uma realidade diversa. Experimente olhar para o termômetro e imagine-se vestindo uma camiseta de mangas compridas, depois uma malha de lã, meias grossas, calças, casaco e luvas. Eu fiz essa experiência no verão e tive calafrios. Espero que você também, ou um de nós não é normal.
Já escrevi sobre as esculturas que a neve forma, cobrindo as bicicletas em frente a estação. Mas o que mais me diverte é a capacidade dela em equilibrar-se sobre as finas placas de trânsito.
Quando viu a neve pela primeira vez, a Luiza, a caçula, saiu e tocou-a, comeu, cheirou, examinou de todos os modos possíveis, jogou para o ar, fez guerra de bolas de neve com a irmã e a mãe e, ao final, explicou-me: “Pai, neve é espuma de gelo. Se você pisar, fica dura e machuca. Se tiver sede pode comer que é água, mas só um pouquinho, porque é meio suja. Pode brincar à vontade que ela não derrete, por causa do frio.”
Difícil mesmo, é acostumar-se com a ditadura da moda: todo mundo usa preto no inverno. Não uma peça ou um casaco, mas tudo preto. Da mesma forma que no verão todos os homens usam calça pescador com cordinha na barra. Não ouse sair diferente, as reações podem ser perigosas. Noutro dia usei um sapato de camurça bege: as pessoas mostravam-se horrorizadas e indignadas. Cheguei a temer o linchamento. Vermelho? Nem pensar! Achar meias marrons neste período requer investimento alto: teria que pegar um avião. O outro lado da moeda é que finalmente achei as meias pretas, que somem das prateleiras no resto do ano. Já comprei dez pares.
Mas aprende-se a sair de casa, independente dos humores do tempo. As ruas são sempre cheias de movimento. As pessoas saem, inclusive a pé, mesmo que seja só para um café ou chocolate quente, um cinema. O italiano é habituado a planejar tudo: Quinta, aquele bar novo; sexta, jantar no restaurante predileto; sábado, pizza e discoteca. E saem, desconsiderando frio, chuva ou mesmo neve.
Com a aproximação do Carnaval (nem sei quando é!), me encho de esperanças de que o azul e branco da minha Portela volte, enfim, a brilhar. Penso nos muitos Carnavais passados em Salvador e comparo com as manifestações da festa na minha cidade: o baile infantil no salão paroquial e as chiacchere (pronuncia-se kiákere), um tipo de biscoito frito, coberto com açúcar de confeiteiro. Opções existem, mas não tenho vontade de ir a Veneza nesta época do ano, pois não entendo o Carnaval contemplativo. É tudo muito caro nesse período (nas outras, também) e falta estacionamento por lá.
Vou apreciando e aprendendo a viver o inverno sem deixar-me envolver demais em velhas lembranças. Em seis meses a situação será diferente. E aí eu vou às forras.
*
Alguns esclarecimentos: 1) um amigo perguntou o que aconteceu com o meu português e aproveito para esclarecer que, às vezes, escrevo no escritório, onde o Word é em italiano assim como a correção automática. Outras vezes, escrevo em casa, onde o Word é em português de Portugal. Pode acontecer de estar escrito económico em vez de econômico. Outro motivo é o fato de muitas palavras se assemelharem nas duas línguas e eu falo italiano o dia inteiro, posso cometer deslizes. Mas também é verdade que o meu português está precisando de uma boa lustrada. Estou me esforçando. 2) Outra amiga acusou-me de estar muito baiano: Bem, eu não queria me gabar não, mas já que você tocou no assunto… 3) uma outra me escreveu para lamentar que não entende muito o que eu tenho escrito, uma vez que a realidade dela é tão diferente. Neste caso, conto com a sensibilidade e capacidade alheias em comparar realidades assim tão diferentes. Afinal, o objetivo é esse mesmo.
Amanheceu na Itália. Vou fazer um café e acordar minhas três meninas (mãe e filhas). São cinco e meia, 22 ºC, eu aqui de bermudas e camiseta, olhando a fina neve que cai lá fora, começo a pensar nas chiacchere. E lembro do caro amigo Dimas que partiu sem a prometida viagem à Itália. Uma partida anunciada, mas não menos sentida. Talvez as borboletas tenham voltado para dar as boas vindas a ele…
Ciao.
Paz e saúde!
Os jornais brasileiros anunciaram a onda de frio na Europa, informando que as baixas temperaturas tomaram conta do velho continente, atingindo, em alguns países a -17 ºC. Para completar a informação, comunico que é apenas o começo. No inverno de 1999/2000, tivemos o prazer de conhecer na pele (literalmente falando) a nobre temperatura de -21 ºC. Até o Natal a temperatura estava acima da média do período, por causa dos ventos que vem da Africa. Como resultado, algumas anomalias puderam ser observadas nos eventos que marcam essa estação do ano: flores que só apareceriam na primavera começaram a pontilhar as ruas e campos e uma espécie migratória de borboletas que deveria retornar no início da próxima estação, fez o caminho de volta e deu um colorido inesperado nesta época do ano.
Ninguém noticiou, mas com a onda de frio repentina, creio que as borboletas não tiveram tempo de perceber o ligeiro equívoco e, as que se arrependeram e tentaram retornar, conseguiram chegar, no máximo, ao sul da Itália, onde devem ter sido recepcionadas pela neve e não puderam aproveitar do clima mais aconchegante do norte da Africa.
Você que está lendo agora essa carta, deve estar pensando: “O que esse cara tá falando? Frio? Temperatura negativa…? Que diabo de isso é isso? Nesse clima de euforia de pré-carnaval; a expectativa com o novo ano; a paralisia que ocorre nesse período, que faz com que o ano termine antes do Natal, mas só recomece depois do Carnaval e alguém vem falar de frio? O termômetro se enche de vermelho pra me dizer que chegamos a 40 ºC, na sombra!”
Acorda, ô meu! (diriam os paulistas) Sai dessa, meu rei! (os baianos) Qualé, bró! (cariocas).
A intenção é essa mesma. Mostrar uma realidade diversa. Experimente olhar para o termômetro e imagine-se vestindo uma camiseta de mangas compridas, depois uma malha de lã, meias grossas, calças, casaco e luvas. Eu fiz essa experiência no verão e tive calafrios. Espero que você também, ou um de nós não é normal.
Já escrevi sobre as esculturas que a neve forma, cobrindo as bicicletas em frente a estação. Mas o que mais me diverte é a capacidade dela em equilibrar-se sobre as finas placas de trânsito.
Quando viu a neve pela primeira vez, a Luiza, a caçula, saiu e tocou-a, comeu, cheirou, examinou de todos os modos possíveis, jogou para o ar, fez guerra de bolas de neve com a irmã e a mãe e, ao final, explicou-me: “Pai, neve é espuma de gelo. Se você pisar, fica dura e machuca. Se tiver sede pode comer que é água, mas só um pouquinho, porque é meio suja. Pode brincar à vontade que ela não derrete, por causa do frio.”
Difícil mesmo, é acostumar-se com a ditadura da moda: todo mundo usa preto no inverno. Não uma peça ou um casaco, mas tudo preto. Da mesma forma que no verão todos os homens usam calça pescador com cordinha na barra. Não ouse sair diferente, as reações podem ser perigosas. Noutro dia usei um sapato de camurça bege: as pessoas mostravam-se horrorizadas e indignadas. Cheguei a temer o linchamento. Vermelho? Nem pensar! Achar meias marrons neste período requer investimento alto: teria que pegar um avião. O outro lado da moeda é que finalmente achei as meias pretas, que somem das prateleiras no resto do ano. Já comprei dez pares.
Mas aprende-se a sair de casa, independente dos humores do tempo. As ruas são sempre cheias de movimento. As pessoas saem, inclusive a pé, mesmo que seja só para um café ou chocolate quente, um cinema. O italiano é habituado a planejar tudo: Quinta, aquele bar novo; sexta, jantar no restaurante predileto; sábado, pizza e discoteca. E saem, desconsiderando frio, chuva ou mesmo neve.
Com a aproximação do Carnaval (nem sei quando é!), me encho de esperanças de que o azul e branco da minha Portela volte, enfim, a brilhar. Penso nos muitos Carnavais passados em Salvador e comparo com as manifestações da festa na minha cidade: o baile infantil no salão paroquial e as chiacchere (pronuncia-se kiákere), um tipo de biscoito frito, coberto com açúcar de confeiteiro. Opções existem, mas não tenho vontade de ir a Veneza nesta época do ano, pois não entendo o Carnaval contemplativo. É tudo muito caro nesse período (nas outras, também) e falta estacionamento por lá.
Vou apreciando e aprendendo a viver o inverno sem deixar-me envolver demais em velhas lembranças. Em seis meses a situação será diferente. E aí eu vou às forras.
*
Alguns esclarecimentos: 1) um amigo perguntou o que aconteceu com o meu português e aproveito para esclarecer que, às vezes, escrevo no escritório, onde o Word é em italiano assim como a correção automática. Outras vezes, escrevo em casa, onde o Word é em português de Portugal. Pode acontecer de estar escrito económico em vez de econômico. Outro motivo é o fato de muitas palavras se assemelharem nas duas línguas e eu falo italiano o dia inteiro, posso cometer deslizes. Mas também é verdade que o meu português está precisando de uma boa lustrada. Estou me esforçando. 2) Outra amiga acusou-me de estar muito baiano: Bem, eu não queria me gabar não, mas já que você tocou no assunto… 3) uma outra me escreveu para lamentar que não entende muito o que eu tenho escrito, uma vez que a realidade dela é tão diferente. Neste caso, conto com a sensibilidade e capacidade alheias em comparar realidades assim tão diferentes. Afinal, o objetivo é esse mesmo.
Amanheceu na Itália. Vou fazer um café e acordar minhas três meninas (mãe e filhas). São cinco e meia, 22 ºC, eu aqui de bermudas e camiseta, olhando a fina neve que cai lá fora, começo a pensar nas chiacchere. E lembro do caro amigo Dimas que partiu sem a prometida viagem à Itália. Uma partida anunciada, mas não menos sentida. Talvez as borboletas tenham voltado para dar as boas vindas a ele…
Ciao.
domingo, janeiro 16, 2005
Balada do Louco
Caros e Caras,
Paz e saúde!
O Rafael decidiu criar um outro blog só com histórias de loucos. Quem quiser participar, basta mandar um e-mail. As histórias já começaram a pipocar e estou torcendo para encontrar um monte de relatos de todos vocês. Passem lá!
Ciao.
Paz e saúde!
O Rafael decidiu criar um outro blog só com histórias de loucos. Quem quiser participar, basta mandar um e-mail. As histórias já começaram a pipocar e estou torcendo para encontrar um monte de relatos de todos vocês. Passem lá!
Ciao.
quinta-feira, janeiro 13, 2005
Neblina
Caros e Caras,
Paz e saúde!
Saio para fumar e descubro que alguém roubou o mundo. Quando morava em Petrópolis, cidade de muita neblina, minha mãe costumava dizer que uma formiguinha tinha roubado a nossa casa, no retorno dos passeios. Nós morávamos no bairro do Cremeri, próximo ao Quitandinha (onde havia uma enorme pista de gelo que eu tentava domar) e em dias de neblina não se enxergava o outro lado da rua. Adoro neblina. Pelo menos quando estou a pé. Caminhar na neblina me dá uma sensação de paz, de tranqüilidade.
Piacenza, em janeiro, é a cidade da neblina. Não tem neve, mas tem muita neblina. Aliás, toda a Planície Padana tem muita neblina nesse período do ano. Ir de carro de Piacenza a Milão (ou vice-versa) é uma aventura arriscada, no inverno. Prefiro ir de trem. Uma semana depois da sua chegada de Bari, no Sul da Itália, o então jovem Antônio ouviu do comandante: “Você já está aqui há uma semana e ainda não saiu do quartel, soldado. Hoje é sábado. Porque você não sai para se divertir um pouco?” Ao que o Antônio respondeu: “Com essa neblina, do outro lado da rua (se é que existe o outro lado da rua) já estarei perdido.”
O aeroporto de Cumbica foi construído em uma área de forte neblina. E todos já sabiam disso antes mesmo da escolha da área para o novo aeroporto. Não creio que quem decidiu pela sua construção naquela região o tenha feito pelo prazer de passear na neblina. Tão pouco creio que a constante neblina agrade aos pilotos e passageiros. O antigo aeroporto da cidade de São Paulo, o de Congonhas, é considerado um dos aeroportos mais perigosos do mundo, rodeado por prédios e localizado (hoje) no meio da cidade. O (já não tão) novo aeroporto foi projetado com a consciência de ser inoperante na maioria das manhãs. A vergonha só não é maior porque está quase sempre escondido pela neblina.
Piacenza não tem aeroporto, mas tem muita neblina. Sorte minha conhecer a cidade, ou seria impraticável passear em dias de neblina. Presença de neblina é sinônimo de ausência de vento. Mas não de ausência de frio. Tomo um café no bar, com suas mesas na rua, fechadas em uma estufa de vidro aquecida. Acendo o charuto e vou caminhar pela cidade. O imenso estacionamento nos fundos do hospital parece-se com o estacionamento do paraíso. A luz difusa é insuficiente para permitir a visão completa da área. Só os primeiros carros são visíveis, assim como a silhueta das árvores nuas. As pessoas caminham lentas, mãos no bolso e o cachecol jogado para trás. A fumaça do meu charuto se mistura e se perde na neblina. O hálito quente das pessoas, também.
O músico de rua soa uma flauta doce enquanto mantém aquecido o filhote de cão, enroscado nas suas pernas e coberto com trapos cinzas. Do outro lado da rua, invisível, o vendedor de castanhas assadas se aquece com o calor do próprio fogareiro. Os camelôs africanos que vendem bolsas falsificadas, simplesmente desapareceram. Os carros passam devagar, como em uma marcha fúnebre. Só eu pareço gostar da neblina. Aos poucos, as imagens vão sumindo, outras surpresas aparecem lentamente. O ritmo da cidade parece preguiçoso. Tudo some.
Minha mãe, meu pai e meus irmãos moram todos em Embu, outra cidade de muita neblina. Lembro de uma noite, quando, voltando do cursinho, deixei minha namorada recém habilitada dirigir para treinar. Na BR 116, à última curva antes da entrada da cidade, passamos por dezenas de troncos espalhados pelo asfalto. Habilmente, aquela que viria se tornar minha esposa, conseguiu manter o carro na estrada e desviar do caminhão que os deixara cair. Ela, então, parou no meio da estrada e começou um desabafo, esclarecendo não ter culpa e que aquilo era uma loucura. Argumentei que ela tinha razão, mas que seria melhor seguir em frente, antes que o próximo carro nos alcançasse. Era meia-noite e tinha uma neblina terrível.
Ouço o calmo bater de asas dos pombos que procuram os vãos nos telhados dos prédios. Eles não se assustam com o ônibus que surge do nada, habituados com o barulho da cidade, que parece sumir no vapor do escapamento. Os poucos pombos no chão da Piazza Cavalli caminham entre os poucos pedestres, esperando, em vão, migalhas que ninguém lhes dará hoje. Os pensamentos se perdem com a fumaça do charuto e o hálito quente. Eu sou aquele, com uma mão no bolso, passos lentos, tentando enxergar o invisível, ouvindo sons identificáveis, passeando pelo desconhecido com tranqüilidade. Uma formiga roubou o mundo, mas eu me sinto em paz. Não existe nada à minha frente, tudo é obra da construção dos meus passos, da direção que escolho seguir. Nem o outro lado da rua existe, se eu não quiser. Apenas vou caminhando, misturando meu hálito quente à fumaça do charuto e à espessa névoa ao meu redor, como um navio. Aos poucos, deixo minha silhueta desaparecer neblina adentro.
Ciao.
Paz e saúde!
Saio para fumar e descubro que alguém roubou o mundo. Quando morava em Petrópolis, cidade de muita neblina, minha mãe costumava dizer que uma formiguinha tinha roubado a nossa casa, no retorno dos passeios. Nós morávamos no bairro do Cremeri, próximo ao Quitandinha (onde havia uma enorme pista de gelo que eu tentava domar) e em dias de neblina não se enxergava o outro lado da rua. Adoro neblina. Pelo menos quando estou a pé. Caminhar na neblina me dá uma sensação de paz, de tranqüilidade.
Piacenza, em janeiro, é a cidade da neblina. Não tem neve, mas tem muita neblina. Aliás, toda a Planície Padana tem muita neblina nesse período do ano. Ir de carro de Piacenza a Milão (ou vice-versa) é uma aventura arriscada, no inverno. Prefiro ir de trem. Uma semana depois da sua chegada de Bari, no Sul da Itália, o então jovem Antônio ouviu do comandante: “Você já está aqui há uma semana e ainda não saiu do quartel, soldado. Hoje é sábado. Porque você não sai para se divertir um pouco?” Ao que o Antônio respondeu: “Com essa neblina, do outro lado da rua (se é que existe o outro lado da rua) já estarei perdido.”
O aeroporto de Cumbica foi construído em uma área de forte neblina. E todos já sabiam disso antes mesmo da escolha da área para o novo aeroporto. Não creio que quem decidiu pela sua construção naquela região o tenha feito pelo prazer de passear na neblina. Tão pouco creio que a constante neblina agrade aos pilotos e passageiros. O antigo aeroporto da cidade de São Paulo, o de Congonhas, é considerado um dos aeroportos mais perigosos do mundo, rodeado por prédios e localizado (hoje) no meio da cidade. O (já não tão) novo aeroporto foi projetado com a consciência de ser inoperante na maioria das manhãs. A vergonha só não é maior porque está quase sempre escondido pela neblina.
Piacenza não tem aeroporto, mas tem muita neblina. Sorte minha conhecer a cidade, ou seria impraticável passear em dias de neblina. Presença de neblina é sinônimo de ausência de vento. Mas não de ausência de frio. Tomo um café no bar, com suas mesas na rua, fechadas em uma estufa de vidro aquecida. Acendo o charuto e vou caminhar pela cidade. O imenso estacionamento nos fundos do hospital parece-se com o estacionamento do paraíso. A luz difusa é insuficiente para permitir a visão completa da área. Só os primeiros carros são visíveis, assim como a silhueta das árvores nuas. As pessoas caminham lentas, mãos no bolso e o cachecol jogado para trás. A fumaça do meu charuto se mistura e se perde na neblina. O hálito quente das pessoas, também.
O músico de rua soa uma flauta doce enquanto mantém aquecido o filhote de cão, enroscado nas suas pernas e coberto com trapos cinzas. Do outro lado da rua, invisível, o vendedor de castanhas assadas se aquece com o calor do próprio fogareiro. Os camelôs africanos que vendem bolsas falsificadas, simplesmente desapareceram. Os carros passam devagar, como em uma marcha fúnebre. Só eu pareço gostar da neblina. Aos poucos, as imagens vão sumindo, outras surpresas aparecem lentamente. O ritmo da cidade parece preguiçoso. Tudo some.
Minha mãe, meu pai e meus irmãos moram todos em Embu, outra cidade de muita neblina. Lembro de uma noite, quando, voltando do cursinho, deixei minha namorada recém habilitada dirigir para treinar. Na BR 116, à última curva antes da entrada da cidade, passamos por dezenas de troncos espalhados pelo asfalto. Habilmente, aquela que viria se tornar minha esposa, conseguiu manter o carro na estrada e desviar do caminhão que os deixara cair. Ela, então, parou no meio da estrada e começou um desabafo, esclarecendo não ter culpa e que aquilo era uma loucura. Argumentei que ela tinha razão, mas que seria melhor seguir em frente, antes que o próximo carro nos alcançasse. Era meia-noite e tinha uma neblina terrível.
Ouço o calmo bater de asas dos pombos que procuram os vãos nos telhados dos prédios. Eles não se assustam com o ônibus que surge do nada, habituados com o barulho da cidade, que parece sumir no vapor do escapamento. Os poucos pombos no chão da Piazza Cavalli caminham entre os poucos pedestres, esperando, em vão, migalhas que ninguém lhes dará hoje. Os pensamentos se perdem com a fumaça do charuto e o hálito quente. Eu sou aquele, com uma mão no bolso, passos lentos, tentando enxergar o invisível, ouvindo sons identificáveis, passeando pelo desconhecido com tranqüilidade. Uma formiga roubou o mundo, mas eu me sinto em paz. Não existe nada à minha frente, tudo é obra da construção dos meus passos, da direção que escolho seguir. Nem o outro lado da rua existe, se eu não quiser. Apenas vou caminhando, misturando meu hálito quente à fumaça do charuto e à espessa névoa ao meu redor, como um navio. Aos poucos, deixo minha silhueta desaparecer neblina adentro.
Ciao.
domingo, janeiro 09, 2005
Lapsus
Caros e Caras,
Paz e saúde!
Ontem, ao voltar do trabalho, …Não! Ontem era sábado e eu não trabalho aos sábados. Ah, sim! Havia ido ao supermercado e começava a preparar o almoço: arroz, bife acebolado, salada e abobrinha recheada ao forno, cardápio decidido pela Luiza, a caçula da família. A enorme porta de vidro entre a cozinha e a varanda deixava passar toda a claridade do dia de sol. Um céu de e o calor dos vinte e quatro graus me convenceram a sair sem camisa à varanda para sentir o clima da manhã deste janeiro ensolarado. Um frio navalha cortou minha pele e fez-me recordar de que estamos no inverno. E eu me surpreendo, mais uma vez, com a capacidade prestidigitadora do cérebro, que nos faz influenciar pelas aparências, desconsiderando as informações disponíveis.
A Itália de hoje vive uma ilusão parecida. O Governo não governa, a oposição não se opõe. É tudo jogo de cena, onde o importante é mandar mensagens aos eleitores e manter aceso o debate. Um político dá uma entrevista e faz um comentário infeliz - é um político, afinal. No dia seguinte todos correm a entrevistar um seu opositor, que rebate a fala do primeiro: pronto! Inicia-se, assim, mais uma semana de acalorada discussão, com outros políticos que entram no debate televisivo meio a conta-gotas, mas que mantém a atenção da população àquilo que deveria ser um democrático exercício de confronto de idéias. O problema é que nada se resolve. Extingue-se no ar como um redemoinho de vento sem levar a conclusão alguma e, não raro, o tema tratado muda e ninguém se dá conta. O espetáculo é mais importante que o enredo e todos acabam satisfeitos. Políticos e eleitores.
Há algum tempo foi sugerido que se estendesse também aos estrangeiros o direito às casas populares. Trata-se de casas que o governo constrói e aluga a preços menores (teoricamente) à população de baixa renda. O aluguel pode ser herdado pelos filhos. Como não poderia deixar de ser, foram entrevistar o líder de extrema-direita Umberto Bossi, que respondeu: “…Então o sujeito trabalha a vida inteira e nós damos a casa ao primeiro Bingo-Bongo que aparece?” No dia seguinte, tentando esclarecer (os esclarecimentos são feitos sempre no dia seguinte, para garantir a audiência nos próximos capítulos da novela) Bossi explicava: “quando eu era criança, Bingo-Bongo era um negrinho que sorria sempre, não importando o que lhe fizessem: você dava um soco e o derrubava, ele levantava e continuava a sorrir.” Bossi é assim: quando tenta consertar uma besteira, costuma afundar nela até o pescoço. Tem estado calado nesse último ano, mas assim que a saúde lhe permitir, voltará à carga. Menos mal, pois as polêmicas atuais não têm a mesma graça.
A coisa funciona desse modo: o político escolhe uma bandeira, um slogan e o defende com unhas e dentes. A imprensa faz a cobertura necessária e vende a imagem escolhida. As pessoas comuns discutem e tomam partido – não importa se contra ou a favor, o que conta é participar do jogo – esquecendo-se de que poderiam usar o tempo para algo mais útil, como um curso de culinária, por exemplo. Nem interessa se o político realmente acredita nas próprias sandices, basta polemizar. O transe coletivo se aproxima da catarse só encontrada em dias de futebol.
O senhor Calisto Tanzi também teve um branco de memória: esqueceu-se do que fez com o dinheiro de milhares de pequenos investidores que confiaram na empresa fundada e dirigida por ele, a Parmalat. Não seria tão grave para quem não tem ações da empresa, mas a crise interferiu também nas outras empresas subsidiárias ou coligadas, o que obrigou o time do Parma a vender os melhores jogadores para tentar sobreviver. Tal ação modificou a formação dos outros clubes, modificando o resultado final do atual campeonato. E futebol é coisa séria neste país. O futebol de alguns times grandes tomou o mesmo rumo do dinheiro dos Tanzi: Sumiu!
Querem outra? Parece que alguém esqueceu de acionar o botão na posição “automático” e as operações podiam ser feitas somente com o controle manual, que na realidade servia somente para as simulações dos inúmeros testes. Também neste caso não seria um problema, bastaria acionar o tal botão e a coisa começaria a funcionar. Mas ninguém se dispôs a ir a Marte para apertar o botão do incomunicável Beagle 2. Mas não contem a ninguém, esta é uma informação reservada. Não faz mal, ninguém mais lembra do abandonado Beagle 2.
Marco, um amigo (eu o chamo de miudinho), conta que às vezes esquece de ter jantado e janta outra vez. Ou, na dúvida, prefere não arriscar: “por segurança”, diz ele. Conta que teve muito trabalho para atingir os atuais cento e cinquenta quilos e não pode vacilar. As pessoas procuram desviar-se da balança neste período pós festas: Santa Luzia, Natal, Santo Stefano, Fim de ano e Befana, sempre com muita comida e muito doce. Todos os anos são centenas de novidades em panetones e pandoros. E todos devem provar de tudo. No caso do meu amigo, a balança é que desvia dele.
Sabem aquele músico brasileiro famoso que em uma entrevista conta ter feito uma turnê na Europa? Pois é! …Esteve no Festival de San Remo e tem vergonha de contar. O diretor da Rai 1, proprietária e produtora do evento, já anunciou a edição deste ano. Como em todos os anos, os artistas são convidados, que por sua vez podem levar convidados para dividir o palco (Roberto Carlos e Sergio Endrigo em 68, por exemplo, ou Carlinhos Brown e Jovanotti, numa parceria mais recente). O apresentador não será Pippo Baudo, que participou de quase todas as edições anteriores, nem Simona Ventura, a loira da voz estridente (esganiçada) e vestidos dourados três números menor, mas o chato do Paolo Bonolis, para combinar o chatíssimo festival. O tititi em torno dos que irão participar já começou, apesar de em 2003 terem provado que a colocação dos participantes depende exclusivamente do jabá pago aos produtores. Dois anos é um tempo superior à memória da população e o assunto foi esquecido. Um dos convidados estrangeiros do ano passado (que não concorrem) foi Moris Albert. Lembram dele?
Que coisa! Comecei esta carta porque tinha uma coisa interessante para contar e não consigo lembrar o que era. Mas termino contando que o cardápio escolhido para o jantar foi cachorro-quente com Coca-cola. Aliás, como refrigerante é um produto raríssimo nesta casa, Luiza optou por trazer uma lata de Fanta e outra de Sprite, além da própria Coca: “eu não lembro do que eu gosto”, justificou. Mas não contem aos meus amigos italianos que comemos cachorro-quente, eles ficariam horrorizados. Já se esqueceram da época em que os Bingo-Bongos eram eles.
Ciao.
Paz e saúde!
Ontem, ao voltar do trabalho, …Não! Ontem era sábado e eu não trabalho aos sábados. Ah, sim! Havia ido ao supermercado e começava a preparar o almoço: arroz, bife acebolado, salada e abobrinha recheada ao forno, cardápio decidido pela Luiza, a caçula da família. A enorme porta de vidro entre a cozinha e a varanda deixava passar toda a claridade do dia de sol. Um céu de e o calor dos vinte e quatro graus me convenceram a sair sem camisa à varanda para sentir o clima da manhã deste janeiro ensolarado. Um frio navalha cortou minha pele e fez-me recordar de que estamos no inverno. E eu me surpreendo, mais uma vez, com a capacidade prestidigitadora do cérebro, que nos faz influenciar pelas aparências, desconsiderando as informações disponíveis.
A Itália de hoje vive uma ilusão parecida. O Governo não governa, a oposição não se opõe. É tudo jogo de cena, onde o importante é mandar mensagens aos eleitores e manter aceso o debate. Um político dá uma entrevista e faz um comentário infeliz - é um político, afinal. No dia seguinte todos correm a entrevistar um seu opositor, que rebate a fala do primeiro: pronto! Inicia-se, assim, mais uma semana de acalorada discussão, com outros políticos que entram no debate televisivo meio a conta-gotas, mas que mantém a atenção da população àquilo que deveria ser um democrático exercício de confronto de idéias. O problema é que nada se resolve. Extingue-se no ar como um redemoinho de vento sem levar a conclusão alguma e, não raro, o tema tratado muda e ninguém se dá conta. O espetáculo é mais importante que o enredo e todos acabam satisfeitos. Políticos e eleitores.
Há algum tempo foi sugerido que se estendesse também aos estrangeiros o direito às casas populares. Trata-se de casas que o governo constrói e aluga a preços menores (teoricamente) à população de baixa renda. O aluguel pode ser herdado pelos filhos. Como não poderia deixar de ser, foram entrevistar o líder de extrema-direita Umberto Bossi, que respondeu: “…Então o sujeito trabalha a vida inteira e nós damos a casa ao primeiro Bingo-Bongo que aparece?” No dia seguinte, tentando esclarecer (os esclarecimentos são feitos sempre no dia seguinte, para garantir a audiência nos próximos capítulos da novela) Bossi explicava: “quando eu era criança, Bingo-Bongo era um negrinho que sorria sempre, não importando o que lhe fizessem: você dava um soco e o derrubava, ele levantava e continuava a sorrir.” Bossi é assim: quando tenta consertar uma besteira, costuma afundar nela até o pescoço. Tem estado calado nesse último ano, mas assim que a saúde lhe permitir, voltará à carga. Menos mal, pois as polêmicas atuais não têm a mesma graça.
A coisa funciona desse modo: o político escolhe uma bandeira, um slogan e o defende com unhas e dentes. A imprensa faz a cobertura necessária e vende a imagem escolhida. As pessoas comuns discutem e tomam partido – não importa se contra ou a favor, o que conta é participar do jogo – esquecendo-se de que poderiam usar o tempo para algo mais útil, como um curso de culinária, por exemplo. Nem interessa se o político realmente acredita nas próprias sandices, basta polemizar. O transe coletivo se aproxima da catarse só encontrada em dias de futebol.
O senhor Calisto Tanzi também teve um branco de memória: esqueceu-se do que fez com o dinheiro de milhares de pequenos investidores que confiaram na empresa fundada e dirigida por ele, a Parmalat. Não seria tão grave para quem não tem ações da empresa, mas a crise interferiu também nas outras empresas subsidiárias ou coligadas, o que obrigou o time do Parma a vender os melhores jogadores para tentar sobreviver. Tal ação modificou a formação dos outros clubes, modificando o resultado final do atual campeonato. E futebol é coisa séria neste país. O futebol de alguns times grandes tomou o mesmo rumo do dinheiro dos Tanzi: Sumiu!
Querem outra? Parece que alguém esqueceu de acionar o botão na posição “automático” e as operações podiam ser feitas somente com o controle manual, que na realidade servia somente para as simulações dos inúmeros testes. Também neste caso não seria um problema, bastaria acionar o tal botão e a coisa começaria a funcionar. Mas ninguém se dispôs a ir a Marte para apertar o botão do incomunicável Beagle 2. Mas não contem a ninguém, esta é uma informação reservada. Não faz mal, ninguém mais lembra do abandonado Beagle 2.
Marco, um amigo (eu o chamo de miudinho), conta que às vezes esquece de ter jantado e janta outra vez. Ou, na dúvida, prefere não arriscar: “por segurança”, diz ele. Conta que teve muito trabalho para atingir os atuais cento e cinquenta quilos e não pode vacilar. As pessoas procuram desviar-se da balança neste período pós festas: Santa Luzia, Natal, Santo Stefano, Fim de ano e Befana, sempre com muita comida e muito doce. Todos os anos são centenas de novidades em panetones e pandoros. E todos devem provar de tudo. No caso do meu amigo, a balança é que desvia dele.
Sabem aquele músico brasileiro famoso que em uma entrevista conta ter feito uma turnê na Europa? Pois é! …Esteve no Festival de San Remo e tem vergonha de contar. O diretor da Rai 1, proprietária e produtora do evento, já anunciou a edição deste ano. Como em todos os anos, os artistas são convidados, que por sua vez podem levar convidados para dividir o palco (Roberto Carlos e Sergio Endrigo em 68, por exemplo, ou Carlinhos Brown e Jovanotti, numa parceria mais recente). O apresentador não será Pippo Baudo, que participou de quase todas as edições anteriores, nem Simona Ventura, a loira da voz estridente (esganiçada) e vestidos dourados três números menor, mas o chato do Paolo Bonolis, para combinar o chatíssimo festival. O tititi em torno dos que irão participar já começou, apesar de em 2003 terem provado que a colocação dos participantes depende exclusivamente do jabá pago aos produtores. Dois anos é um tempo superior à memória da população e o assunto foi esquecido. Um dos convidados estrangeiros do ano passado (que não concorrem) foi Moris Albert. Lembram dele?
Que coisa! Comecei esta carta porque tinha uma coisa interessante para contar e não consigo lembrar o que era. Mas termino contando que o cardápio escolhido para o jantar foi cachorro-quente com Coca-cola. Aliás, como refrigerante é um produto raríssimo nesta casa, Luiza optou por trazer uma lata de Fanta e outra de Sprite, além da própria Coca: “eu não lembro do que eu gosto”, justificou. Mas não contem aos meus amigos italianos que comemos cachorro-quente, eles ficariam horrorizados. Já se esqueceram da época em que os Bingo-Bongos eram eles.
Ciao.
quarta-feira, janeiro 05, 2005
Cadê o Mordomo?
Caros e Caras,
Paz e saúde!
Num dos departamentos da empresa onde trabalho havia (passado imperfeito) um chefe maluco. Seu comportamento viajava de um extremo a outro com um gesto, uma palavra. Apesar de tudo era uma pessoa divertida. Os mais experientes evitavam confrontá-lo nos momentos de combustão, ou, quando o faziam, era para mostrar que o culpado era ele, o chefe. Quando o chefe encontrava algo errado procurava o culpado e partia pra cima berrando por explicações. Como a primeira reação é aquela de se defender, o infeliz pagava um preço muito alto pelo deslize e deveria suportar a ira e as acusações do chefe por todo o dia. Porém, se o culpado abaixava a cabeça e reconhecia o erro, o chefe o abraçava, beijava e procurava consolá-lo, dizendo que todos erram e isso não era o fim do mundo. Não raro, passava o dia certificando-se que o funcionário tivesse um dia positivo, presenteando-lhe com balas, contando piadas, fazendo palhaçadas e até strip tease. Para ele (o chefe) o importante era encontrar o culpado. E quando o encontrava, a paz reinava.
Num episódio mais recente, no ano passado, o gnomo do inverno fez girar mais veloz a máquina da neve e bloqueou toda a Itália por dois dias, com cenas de pessoas que saíam de casa pela janela do primeiro andar porque a porta havia sido coberta pela neve. O trecho da Autostrada A1 entre Bolonha e Piacenza foi interrompido e a Defesa Civil distribuiu cobertores, água e alimentos às pessoas presas nos veículos sob a neve. Os caminhões que limpam as estradas e jogam sal no asfalto trabalharam sem parar. Felizmente a situação não teve consequências mais graves. Óbvio e inútil informar que o gnomo que cuida de Piacenza não permitiu que a neve nos atingisse, mas bastava sair de Piacenza para encontrar toda a neve do mundo.
Voltando ao episódio das estradas, uma vez passada a emergência, os órgãos públicos e a Defesa Civil iniciaram uma longa (creio que infindável) troca de acusações e a discussão sobre os possíveis culpados…
Pesquisando no tempo até meados dos anos noventa, encontramos um ciclista que se tornaria uma lenda. Enfrentando muitas dificuldades pessoais e uma respeitável coleção de quedas, como nos contos de fada, Marco Pantani tornou-se o ídolo em um esporte muito disputado na Europa. Numa das muitas corridas que fez, foi atropelado por um carro de uma equipe de jornalistas que não deveria estar dentro do circuito de ruas e estradas fechado para o evento. Do hospital, informou que iria contrariar a solicitação dos organizadores e que iria, sim, processar os jornalistas que causaram o acidente. E o fez.
Precisou ser operado de ambas as pernas, fez uma longa recuperação e voltou triunfalmente, vencendo o Giro d’Italia. Tempos depois, quando Pantani estava próximo de tornar-se bicampeão do evento, numa das últimas etapas, na localidade de Madona di Campiglio, uma blitz policial invadiu o hotel em que ele estava hospedado e o levou preso, sob acusação de uso de substâncias dopantes. Numa situação que até hoje não foi esclarecida, com parte da imprensa que o acusava enquanto outra sugeria a participação de uma máfia das casas de apostas (muito comuns por aqui - as casas de apostas e as máfias), o campeão protestou e jurou inocência. Era o ano de 1999 e Pantani disse: “Sempre soube levantar e me recuperar das quedas. Sei que desta vez não conseguirei me reerguer.” Como profecia ou por ser o único a ter conhecimento de todos os fatos, nunca mais se reergueu. Treinava, tentava e… nada! Nunca mais um outro título. Os jornais vendiam como água quando conseguiam uma entrevista ou tinham alguma atualização do “Caso Pantani”. Numa outra edição do Giro d’Italia, uma nova blitz encontrou uma seringa com resíduos de substância de uso proibido, em um quarto de hotel que a polícia suspeita mas não conseguiu provar que fosse ocupado pelo ex-campeão. Outro processo interminável na justiça. Outra montanha de jornais vendidos.
Pantani começou a evitar jornalistas, olhares diretos, lugares públicos e velhos amigos. Por mais de uma vez internou-se espontaneamente em clínicas de desintoxicação. Soube-se, depois, que o pai havia sequestrado todos os seus bens e o dinheiro que ganhou como profissional, para evitar que o filho torrasse tudo. Vivia de mesada. No início do ano passado interrompeu os treinamentos para uma viagem de repouso a Cuba, onde encontrou-se com Maradona. Dias depois, o consulado italiano na Ilha chamou os familiares: “venham buscá-lo!”
Os pais, abatidos pelo desgaste de ver o filho que não conseguia se reerguer (desde Madona de Campiglio) pedem uma trégua e tiram uma semana de férias, num cruzeiro nas ilhas gregas – paga com dinheiro próprio, e não aquele do filho famoso. Pantani aproveita a folga e some. Deixa em Milão o carro e o celular. Não quer ser encontrado. Hospeda-se em um apart hotel em Rimini, cidade de praia. Passa o tempo trancado e com poucas saídas. Tem os olhos estáticos e o rosto inexpressivo. É cordial, breve mas simpático com o porteiro e as poucas pessoas que cumprimenta. No dia 14 de Fevereiro sofre a última queda de sua breve vida de trinta e quatro anos: é encontrado morto no chão do pequeno apartamento. Os exames divulgados informaram que morreu por overdose de medicamentos e cocaína ou crac. A polícia iniciou uma desesperada busca pelo traficante que teria vendido a Pantani a última dose. Como sempre ocorre nesses casos, numa coletiva de imprensa sobre a investigação, oficiais da polícia pediram a ajuda, ainda que anônima, de qualquer um que pudesse apontar quem vendeu a droga ao campeão. Precisavam desesperadamente encontrar o culpado…
Quando fiz um curso de piloto privado, ministrado por integrantes da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes da Base Aérea do Salvador, aprendi que após um acidente, o que eles mais temiam era descobrir uma falha humana como causa. Mais que preservar a imagem dos pilotos, perdia-se a oportunidade de se prevenir novos acidentes, numa prática internacional de troca de informações, com novas normas que surgem após cada acidente aéreo. É por isso que o avião é, ainda, o meio mais seguro que havemos. O que conta é o que se pode aprender com os erros.
Como num conto policial, o italiano tem necessidade de encontrar um culpado para todos os males. Acho que é por isso que a instituição dos mordomos não vingou neste país.
Ciao.
Paz e saúde!
Num dos departamentos da empresa onde trabalho havia (passado imperfeito) um chefe maluco. Seu comportamento viajava de um extremo a outro com um gesto, uma palavra. Apesar de tudo era uma pessoa divertida. Os mais experientes evitavam confrontá-lo nos momentos de combustão, ou, quando o faziam, era para mostrar que o culpado era ele, o chefe. Quando o chefe encontrava algo errado procurava o culpado e partia pra cima berrando por explicações. Como a primeira reação é aquela de se defender, o infeliz pagava um preço muito alto pelo deslize e deveria suportar a ira e as acusações do chefe por todo o dia. Porém, se o culpado abaixava a cabeça e reconhecia o erro, o chefe o abraçava, beijava e procurava consolá-lo, dizendo que todos erram e isso não era o fim do mundo. Não raro, passava o dia certificando-se que o funcionário tivesse um dia positivo, presenteando-lhe com balas, contando piadas, fazendo palhaçadas e até strip tease. Para ele (o chefe) o importante era encontrar o culpado. E quando o encontrava, a paz reinava.
Num episódio mais recente, no ano passado, o gnomo do inverno fez girar mais veloz a máquina da neve e bloqueou toda a Itália por dois dias, com cenas de pessoas que saíam de casa pela janela do primeiro andar porque a porta havia sido coberta pela neve. O trecho da Autostrada A1 entre Bolonha e Piacenza foi interrompido e a Defesa Civil distribuiu cobertores, água e alimentos às pessoas presas nos veículos sob a neve. Os caminhões que limpam as estradas e jogam sal no asfalto trabalharam sem parar. Felizmente a situação não teve consequências mais graves. Óbvio e inútil informar que o gnomo que cuida de Piacenza não permitiu que a neve nos atingisse, mas bastava sair de Piacenza para encontrar toda a neve do mundo.
Voltando ao episódio das estradas, uma vez passada a emergência, os órgãos públicos e a Defesa Civil iniciaram uma longa (creio que infindável) troca de acusações e a discussão sobre os possíveis culpados…
Pesquisando no tempo até meados dos anos noventa, encontramos um ciclista que se tornaria uma lenda. Enfrentando muitas dificuldades pessoais e uma respeitável coleção de quedas, como nos contos de fada, Marco Pantani tornou-se o ídolo em um esporte muito disputado na Europa. Numa das muitas corridas que fez, foi atropelado por um carro de uma equipe de jornalistas que não deveria estar dentro do circuito de ruas e estradas fechado para o evento. Do hospital, informou que iria contrariar a solicitação dos organizadores e que iria, sim, processar os jornalistas que causaram o acidente. E o fez.
Precisou ser operado de ambas as pernas, fez uma longa recuperação e voltou triunfalmente, vencendo o Giro d’Italia. Tempos depois, quando Pantani estava próximo de tornar-se bicampeão do evento, numa das últimas etapas, na localidade de Madona di Campiglio, uma blitz policial invadiu o hotel em que ele estava hospedado e o levou preso, sob acusação de uso de substâncias dopantes. Numa situação que até hoje não foi esclarecida, com parte da imprensa que o acusava enquanto outra sugeria a participação de uma máfia das casas de apostas (muito comuns por aqui - as casas de apostas e as máfias), o campeão protestou e jurou inocência. Era o ano de 1999 e Pantani disse: “Sempre soube levantar e me recuperar das quedas. Sei que desta vez não conseguirei me reerguer.” Como profecia ou por ser o único a ter conhecimento de todos os fatos, nunca mais se reergueu. Treinava, tentava e… nada! Nunca mais um outro título. Os jornais vendiam como água quando conseguiam uma entrevista ou tinham alguma atualização do “Caso Pantani”. Numa outra edição do Giro d’Italia, uma nova blitz encontrou uma seringa com resíduos de substância de uso proibido, em um quarto de hotel que a polícia suspeita mas não conseguiu provar que fosse ocupado pelo ex-campeão. Outro processo interminável na justiça. Outra montanha de jornais vendidos.
Pantani começou a evitar jornalistas, olhares diretos, lugares públicos e velhos amigos. Por mais de uma vez internou-se espontaneamente em clínicas de desintoxicação. Soube-se, depois, que o pai havia sequestrado todos os seus bens e o dinheiro que ganhou como profissional, para evitar que o filho torrasse tudo. Vivia de mesada. No início do ano passado interrompeu os treinamentos para uma viagem de repouso a Cuba, onde encontrou-se com Maradona. Dias depois, o consulado italiano na Ilha chamou os familiares: “venham buscá-lo!”
Os pais, abatidos pelo desgaste de ver o filho que não conseguia se reerguer (desde Madona de Campiglio) pedem uma trégua e tiram uma semana de férias, num cruzeiro nas ilhas gregas – paga com dinheiro próprio, e não aquele do filho famoso. Pantani aproveita a folga e some. Deixa em Milão o carro e o celular. Não quer ser encontrado. Hospeda-se em um apart hotel em Rimini, cidade de praia. Passa o tempo trancado e com poucas saídas. Tem os olhos estáticos e o rosto inexpressivo. É cordial, breve mas simpático com o porteiro e as poucas pessoas que cumprimenta. No dia 14 de Fevereiro sofre a última queda de sua breve vida de trinta e quatro anos: é encontrado morto no chão do pequeno apartamento. Os exames divulgados informaram que morreu por overdose de medicamentos e cocaína ou crac. A polícia iniciou uma desesperada busca pelo traficante que teria vendido a Pantani a última dose. Como sempre ocorre nesses casos, numa coletiva de imprensa sobre a investigação, oficiais da polícia pediram a ajuda, ainda que anônima, de qualquer um que pudesse apontar quem vendeu a droga ao campeão. Precisavam desesperadamente encontrar o culpado…
Quando fiz um curso de piloto privado, ministrado por integrantes da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes da Base Aérea do Salvador, aprendi que após um acidente, o que eles mais temiam era descobrir uma falha humana como causa. Mais que preservar a imagem dos pilotos, perdia-se a oportunidade de se prevenir novos acidentes, numa prática internacional de troca de informações, com novas normas que surgem após cada acidente aéreo. É por isso que o avião é, ainda, o meio mais seguro que havemos. O que conta é o que se pode aprender com os erros.
Como num conto policial, o italiano tem necessidade de encontrar um culpado para todos os males. Acho que é por isso que a instituição dos mordomos não vingou neste país.
Ciao.
sábado, janeiro 01, 2005
Receitas de Ano Novo
Caros e Caras,
Paz e saúde!
A tragédia na Ásia reduziu o brilho da festa de fim de ano. Muitas cidades italianas cancelaram as comemorações preparadas, enquanto outras decidiram aproveitar a oportunidade para recolher fundos aos sobreviventes. As TVs, rádios e jornais não nos permitem esquecer nem por um momento, fazendo-nos sentir um pouco responsáveis pelo futuro daquela parte do mundo. Há, inclusive, quem tenha optado por manter a viagem à região, como meio de colaborar com as áreas que vivem exclusivamente do turismo, mesmo considerando a dificuldade em divertir-se em meio a tragédia.
Piacenza decidiu manter a festa e arrecadar o sentimento de solidariedade sob forma de doações, enquanto esse sentimento está fresco nos corações e bolsos das pessoas. A Piazza Cavalli é o centro da cidade e das atenções nos períodos festivos. Uma banda tocava velhos sucessos e músicas latino-americanas. Não ficamos até à meia-noite, mas tenho certeza de que as músicas de Jorge Bem Jor mais famosas foram misturadas a outros velhos sucessos do Carnaval brasileiro, pois todo ano é a mesma coisa. Na praça, nas rádios e TVs! Só os fogos de artifício programados pela prefeitura foram abolidos, em respeito ao clima de semi-luto. Em compensação, não faltaram iniciativas particulares, com todo tipo de fogos, rojões e bombinhas. Muitas bombinhas. E pequenas dinamites, também. A praça ficou permanentemente coberta por uma nuvem de fumaça, o que me fez recordar Salvador em noite de São João.
Neste período surgem muitas promessas de mudanças pessoais, independente da situação do resto do planeta (os assuntos particulares têm maior importância que aqueles coletivos), resoluções tomadas sob efeito de champanhe, breviários e receitas. Ainda que a decisão de mudar seja um ato louvável, não considerar os aspectos externos pode levar a uma outra decisão: a de não fazer um balanço no dia trinta e um de dezembro seguinte. Pois bem, eu tenho receitas que dão certo. Aproveite-as!
Mousse de Presunto
Ingredientes para quatro pessoas:
300 g. de presunto cozido
250 g. de ricota
100 ml. de creme de leite
Duas folhas de gelatina em folha
Sal
Pimenta do reino
Retire a gordura do presunto e corte-o em cubinhos. Amasse a ricota com um garfo e ponha no liqüidificador. Adicione o presunto, o creme de leite, o sal e a pimenta do reino. Bata tudo até formar uma massa homogênea. Dissolva a gelatina segundo as instruções. Ainda morna, junte dois terços da gelatina à massa e reserve. Com o restante da gelatina, forre o fundo de quatro formas para empada e leve-as à geladeira por dez minutos. Divida a massa nas formas e recoloque-as na geladeira por, pelo menos, três horas. Para desenformar, basta colocar as formas em um pouco de água morna por alguns segundos. Decore e sirva. Ideal como anti-pasto nestes dias de verão brasileiro. E respeita a tradição de comer porco nos primeiros dias do ano. A vez das aves foi no Natal, pois manda a tradição (brasileira) que animais que ciscam pra traz sejam consumidos nos últimos dias do anos, deixando tudo que não serve no ano que termina. O porco fuça pra frente. (Mesmo não sendo supersticioso, aproveite a mousse.)
Salada de Polvo
Ingredientes para quatro pessoas:
1 polvo de uns 500 g.
300 g. de tomate
70 g. de alcaparras
2 batatas grandes
1 ramo de sálvia fresca
1 ramo de timo fresco
1 dente de alho
Pimenta malagueta fresca
Limão
Azeite extra-virgem de oliva
Sal
Lave o polvo, limpe-o e esfregue-o em uma peneira sob água corrente para liberá-lo da sua viscosidade. Coloque-o em uma panela com dois litros d’água fria e salgada. Leve-o ao fogo e deixe-o cozinhar por quarenta minutos, após levantar fervura. Apague o fogo e deixe o polvo esfriar na própria água.
Descasque as batatas e corte-as em rodelas. Em uma panela, coloque um pouco d’água salgada e leve-a ao fogo. Quando começar a ferver, coloque as batatas e deixe-as por dois minutos. Escorra-as e reserve. Forre uma assadeira com papel forno e deposite as batatas lado a lado. Lave as folhas de timo e coloque uma folha sobre cada rodela de batata. Leve as batatas ao forno pré-aquecido a 120 ºC por vinte minutos.
Lave os tomates, retire as sementes e corte-os em cubinhos. Escorra bem as alcaparras e reserve. Corte o dente de alho ao meio. Em uma tigela, esfregue bem o dente de alho , de modo a deixar o perfume, mas não os pedaços de alho. Coloque na tigela os tomates, três ou quatro folhas de sálvia lavadas e cortadas em tirinhas, as alcaparras, a pimenta em tirinhas, o suco do limão, um fio de azeite de oliva e o polvo cortado. Misture tudo e prove o sal.
Forre o centro de quatro pratos com as batatas, cubra-as com o polvo e decore com folhas de sálvia. Essa receita serve como entrada e pode ser acompanhada com um vinho branco seco de sabor delicado, mas suco de caju também serve.
Spaghetti Alle Vongole
Ingredientes para quatro pessoas:
400 g. de spaghetti
1 kg. de vôngoles
1 maço de salsinha
1 dente d’alho
Pimenta seca
3 colheres de sopa de azeite extra-virgem de oliva
Sal
Em uma tigela com água e sal, coloque as vôngoles por duas ou três horas, de modo que a areia e outras sujeiras se depositem no fundo da tigela. Corte o alho e a salsinha bem finos. Escorra e enxágüe as vôngoles sob água corrente. Coloque as vôngoles em uma frigideira larga com o azeite, o alho e a salsinha. Leve a frigideira ao fogo, cubra-a e deixe o fogo alto até que todas as vôngoles estejam abertas, mexendo de vez em quando. Apague o fogo e retire as vôngoles das conchas. Recoloque as vôngoles na frigideira e reserve. Cozinhe o spaghetti em abundante água salgada. Acenda o fogo da frigideira no momento de escorrer o macarrão. Escorra o spaghetti e coloque-o na frigideira. Misture tudo, deixando em fogo alto por dois minutos. Decore com ramos de salsinha, a pimenta em tirinhas e sirva.
Receita tradicional. Viva a tradição!
Atum Com Perfume de Limão
Ingredientes para quatro pessoas:
4 postas de atum
2 limões
2 cenouras
Um macinho de salsinha batidinha
200 ml. de vinho branco seco
4 folhas de alface para a decoração
3 colheres de sopa de azeite extra-virgem de oliva
Sal
Pimenta do reino
Tempere o atum com o azeite de oliva, sal, pimenta do reino e o suco de meio limão. Lave o outro limão e corte-o em rodelas finas (com casca e tudo). Descasque, lave e corte em tirinhas a cenoura. Coloque as postas de atum em uma assadeira, lado a lado. Cubra-o com as rodelas de limão e sobre as rodelas, coloque a cenoura. Molhe com o vinho e cubra a assadeira com papel alumínio. Leve ao forno pré-aquecido a 180 ºC por cerca de vinte minutos. Retire do forno e coloque o atum nos pratos decorados com a alface. Em uma pequena frigideira, reduza o molho da assadeira por alguns minutos e divida-o sobre o atum. Adicione um pouco de pimenta do reino e salsinha batidinha. Sirva com ou sem acompanhamento.
Aproveite essas receitas de Ano Novo e bom 2005!
Ciao.
Paz e saúde!
A tragédia na Ásia reduziu o brilho da festa de fim de ano. Muitas cidades italianas cancelaram as comemorações preparadas, enquanto outras decidiram aproveitar a oportunidade para recolher fundos aos sobreviventes. As TVs, rádios e jornais não nos permitem esquecer nem por um momento, fazendo-nos sentir um pouco responsáveis pelo futuro daquela parte do mundo. Há, inclusive, quem tenha optado por manter a viagem à região, como meio de colaborar com as áreas que vivem exclusivamente do turismo, mesmo considerando a dificuldade em divertir-se em meio a tragédia.
Piacenza decidiu manter a festa e arrecadar o sentimento de solidariedade sob forma de doações, enquanto esse sentimento está fresco nos corações e bolsos das pessoas. A Piazza Cavalli é o centro da cidade e das atenções nos períodos festivos. Uma banda tocava velhos sucessos e músicas latino-americanas. Não ficamos até à meia-noite, mas tenho certeza de que as músicas de Jorge Bem Jor mais famosas foram misturadas a outros velhos sucessos do Carnaval brasileiro, pois todo ano é a mesma coisa. Na praça, nas rádios e TVs! Só os fogos de artifício programados pela prefeitura foram abolidos, em respeito ao clima de semi-luto. Em compensação, não faltaram iniciativas particulares, com todo tipo de fogos, rojões e bombinhas. Muitas bombinhas. E pequenas dinamites, também. A praça ficou permanentemente coberta por uma nuvem de fumaça, o que me fez recordar Salvador em noite de São João.
Neste período surgem muitas promessas de mudanças pessoais, independente da situação do resto do planeta (os assuntos particulares têm maior importância que aqueles coletivos), resoluções tomadas sob efeito de champanhe, breviários e receitas. Ainda que a decisão de mudar seja um ato louvável, não considerar os aspectos externos pode levar a uma outra decisão: a de não fazer um balanço no dia trinta e um de dezembro seguinte. Pois bem, eu tenho receitas que dão certo. Aproveite-as!
Mousse de Presunto
Ingredientes para quatro pessoas:
300 g. de presunto cozido
250 g. de ricota
100 ml. de creme de leite
Duas folhas de gelatina em folha
Sal
Pimenta do reino
Retire a gordura do presunto e corte-o em cubinhos. Amasse a ricota com um garfo e ponha no liqüidificador. Adicione o presunto, o creme de leite, o sal e a pimenta do reino. Bata tudo até formar uma massa homogênea. Dissolva a gelatina segundo as instruções. Ainda morna, junte dois terços da gelatina à massa e reserve. Com o restante da gelatina, forre o fundo de quatro formas para empada e leve-as à geladeira por dez minutos. Divida a massa nas formas e recoloque-as na geladeira por, pelo menos, três horas. Para desenformar, basta colocar as formas em um pouco de água morna por alguns segundos. Decore e sirva. Ideal como anti-pasto nestes dias de verão brasileiro. E respeita a tradição de comer porco nos primeiros dias do ano. A vez das aves foi no Natal, pois manda a tradição (brasileira) que animais que ciscam pra traz sejam consumidos nos últimos dias do anos, deixando tudo que não serve no ano que termina. O porco fuça pra frente. (Mesmo não sendo supersticioso, aproveite a mousse.)
Salada de Polvo
Ingredientes para quatro pessoas:
1 polvo de uns 500 g.
300 g. de tomate
70 g. de alcaparras
2 batatas grandes
1 ramo de sálvia fresca
1 ramo de timo fresco
1 dente de alho
Pimenta malagueta fresca
Limão
Azeite extra-virgem de oliva
Sal
Lave o polvo, limpe-o e esfregue-o em uma peneira sob água corrente para liberá-lo da sua viscosidade. Coloque-o em uma panela com dois litros d’água fria e salgada. Leve-o ao fogo e deixe-o cozinhar por quarenta minutos, após levantar fervura. Apague o fogo e deixe o polvo esfriar na própria água.
Descasque as batatas e corte-as em rodelas. Em uma panela, coloque um pouco d’água salgada e leve-a ao fogo. Quando começar a ferver, coloque as batatas e deixe-as por dois minutos. Escorra-as e reserve. Forre uma assadeira com papel forno e deposite as batatas lado a lado. Lave as folhas de timo e coloque uma folha sobre cada rodela de batata. Leve as batatas ao forno pré-aquecido a 120 ºC por vinte minutos.
Lave os tomates, retire as sementes e corte-os em cubinhos. Escorra bem as alcaparras e reserve. Corte o dente de alho ao meio. Em uma tigela, esfregue bem o dente de alho , de modo a deixar o perfume, mas não os pedaços de alho. Coloque na tigela os tomates, três ou quatro folhas de sálvia lavadas e cortadas em tirinhas, as alcaparras, a pimenta em tirinhas, o suco do limão, um fio de azeite de oliva e o polvo cortado. Misture tudo e prove o sal.
Forre o centro de quatro pratos com as batatas, cubra-as com o polvo e decore com folhas de sálvia. Essa receita serve como entrada e pode ser acompanhada com um vinho branco seco de sabor delicado, mas suco de caju também serve.
Spaghetti Alle Vongole
Ingredientes para quatro pessoas:
400 g. de spaghetti
1 kg. de vôngoles
1 maço de salsinha
1 dente d’alho
Pimenta seca
3 colheres de sopa de azeite extra-virgem de oliva
Sal
Em uma tigela com água e sal, coloque as vôngoles por duas ou três horas, de modo que a areia e outras sujeiras se depositem no fundo da tigela. Corte o alho e a salsinha bem finos. Escorra e enxágüe as vôngoles sob água corrente. Coloque as vôngoles em uma frigideira larga com o azeite, o alho e a salsinha. Leve a frigideira ao fogo, cubra-a e deixe o fogo alto até que todas as vôngoles estejam abertas, mexendo de vez em quando. Apague o fogo e retire as vôngoles das conchas. Recoloque as vôngoles na frigideira e reserve. Cozinhe o spaghetti em abundante água salgada. Acenda o fogo da frigideira no momento de escorrer o macarrão. Escorra o spaghetti e coloque-o na frigideira. Misture tudo, deixando em fogo alto por dois minutos. Decore com ramos de salsinha, a pimenta em tirinhas e sirva.
Receita tradicional. Viva a tradição!
Atum Com Perfume de Limão
Ingredientes para quatro pessoas:
4 postas de atum
2 limões
2 cenouras
Um macinho de salsinha batidinha
200 ml. de vinho branco seco
4 folhas de alface para a decoração
3 colheres de sopa de azeite extra-virgem de oliva
Sal
Pimenta do reino
Tempere o atum com o azeite de oliva, sal, pimenta do reino e o suco de meio limão. Lave o outro limão e corte-o em rodelas finas (com casca e tudo). Descasque, lave e corte em tirinhas a cenoura. Coloque as postas de atum em uma assadeira, lado a lado. Cubra-o com as rodelas de limão e sobre as rodelas, coloque a cenoura. Molhe com o vinho e cubra a assadeira com papel alumínio. Leve ao forno pré-aquecido a 180 ºC por cerca de vinte minutos. Retire do forno e coloque o atum nos pratos decorados com a alface. Em uma pequena frigideira, reduza o molho da assadeira por alguns minutos e divida-o sobre o atum. Adicione um pouco de pimenta do reino e salsinha batidinha. Sirva com ou sem acompanhamento.
Aproveite essas receitas de Ano Novo e bom 2005!
Ciao.
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