Thursday, January 13, 2005

Neblina

Caros e Caras,
Paz e saúde!

Saio para fumar e descubro que alguém roubou o mundo. Quando morava em Petrópolis, cidade de muita neblina, minha mãe costumava dizer que uma formiguinha tinha roubado a nossa casa, no retorno dos passeios. Nós morávamos no bairro do Cremeri, próximo ao Quitandinha (onde havia uma enorme pista de gelo que eu tentava domar) e em dias de neblina não se enxergava o outro lado da rua. Adoro neblina. Pelo menos quando estou a pé. Caminhar na neblina me dá uma sensação de paz, de tranqüilidade.

Piacenza, em janeiro, é a cidade da neblina. Não tem neve, mas tem muita neblina. Aliás, toda a Planície Padana tem muita neblina nesse período do ano. Ir de carro de Piacenza a Milão (ou vice-versa) é uma aventura arriscada, no inverno. Prefiro ir de trem. Uma semana depois da sua chegada de Bari, no Sul da Itália, o então jovem Antônio ouviu do comandante: “Você já está aqui há uma semana e ainda não saiu do quartel, soldado. Hoje é sábado. Porque você não sai para se divertir um pouco?” Ao que o Antônio respondeu: “Com essa neblina, do outro lado da rua (se é que existe o outro lado da rua) já estarei perdido.”

O aeroporto de Cumbica foi construído em uma área de forte neblina. E todos já sabiam disso antes mesmo da escolha da área para o novo aeroporto. Não creio que quem decidiu pela sua construção naquela região o tenha feito pelo prazer de passear na neblina. Tão pouco creio que a constante neblina agrade aos pilotos e passageiros. O antigo aeroporto da cidade de São Paulo, o de Congonhas, é considerado um dos aeroportos mais perigosos do mundo, rodeado por prédios e localizado (hoje) no meio da cidade. O (já não tão) novo aeroporto foi projetado com a consciência de ser inoperante na maioria das manhãs. A vergonha só não é maior porque está quase sempre escondido pela neblina.

Piacenza não tem aeroporto, mas tem muita neblina. Sorte minha conhecer a cidade, ou seria impraticável passear em dias de neblina. Presença de neblina é sinônimo de ausência de vento. Mas não de ausência de frio. Tomo um café no bar, com suas mesas na rua, fechadas em uma estufa de vidro aquecida. Acendo o charuto e vou caminhar pela cidade. O imenso estacionamento nos fundos do hospital parece-se com o estacionamento do paraíso. A luz difusa é insuficiente para permitir a visão completa da área. Só os primeiros carros são visíveis, assim como a silhueta das árvores nuas. As pessoas caminham lentas, mãos no bolso e o cachecol jogado para trás. A fumaça do meu charuto se mistura e se perde na neblina. O hálito quente das pessoas, também.

O músico de rua soa uma flauta doce enquanto mantém aquecido o filhote de cão, enroscado nas suas pernas e coberto com trapos cinzas. Do outro lado da rua, invisível, o vendedor de castanhas assadas se aquece com o calor do próprio fogareiro. Os camelôs africanos que vendem bolsas falsificadas, simplesmente desapareceram. Os carros passam devagar, como em uma marcha fúnebre. Só eu pareço gostar da neblina. Aos poucos, as imagens vão sumindo, outras surpresas aparecem lentamente. O ritmo da cidade parece preguiçoso. Tudo some.

Minha mãe, meu pai e meus irmãos moram todos em Embu, outra cidade de muita neblina. Lembro de uma noite, quando, voltando do cursinho, deixei minha namorada recém habilitada dirigir para treinar. Na BR 116, à última curva antes da entrada da cidade, passamos por dezenas de troncos espalhados pelo asfalto. Habilmente, aquela que viria se tornar minha esposa, conseguiu manter o carro na estrada e desviar do caminhão que os deixara cair. Ela, então, parou no meio da estrada e começou um desabafo, esclarecendo não ter culpa e que aquilo era uma loucura. Argumentei que ela tinha razão, mas que seria melhor seguir em frente, antes que o próximo carro nos alcançasse. Era meia-noite e tinha uma neblina terrível.

Ouço o calmo bater de asas dos pombos que procuram os vãos nos telhados dos prédios. Eles não se assustam com o ônibus que surge do nada, habituados com o barulho da cidade, que parece sumir no vapor do escapamento. Os poucos pombos no chão da Piazza Cavalli caminham entre os poucos pedestres, esperando, em vão, migalhas que ninguém lhes dará hoje. Os pensamentos se perdem com a fumaça do charuto e o hálito quente. Eu sou aquele, com uma mão no bolso, passos lentos, tentando enxergar o invisível, ouvindo sons identificáveis, passeando pelo desconhecido com tranqüilidade. Uma formiga roubou o mundo, mas eu me sinto em paz. Não existe nada à minha frente, tudo é obra da construção dos meus passos, da direção que escolho seguir. Nem o outro lado da rua existe, se eu não quiser. Apenas vou caminhando, misturando meu hálito quente à fumaça do charuto e à espessa névoa ao meu redor, como um navio. Aos poucos, deixo minha silhueta desaparecer neblina adentro.

Ciao.

10 comments:

Anonymous said...

Allan,
A fumaça do teu charuto é uma cortina de fumaça, que te permite a distância para ver o mundo com esses olhos. A neblina te deixa feliz (em paz) porque é com essa luz difusa que você prefere ver o mundo. Um observador que caminha e vê o invisível. E nos descreve o que viu com o teu modo tranqüilo, sábio.
Abração,

Frank & Gaia

Manoel Carlos said...

Alguns trechos evocam imagens felinianas.
Mesmo com tanta cerração, você nos conduz com segurança.

Anonymous said...

Caminante, no hay camino. El camino se hace al caminar.

Abraço

maray do Checaribe

Anonymous said...

Eu adoro quando alguma formiga rouba o mundo ao meu redor. Pena que não esteja encontrando muitas formigas meliantes ultimamente por aqui. Manda alguma daí pra cá, Allan. ;)

Beijo,

Mônica.

Anonymous said...

Olá Allan...sou a sandrinha do blog http://balzakiana.blog.tiscali.it Confesso que já estive no teu cantinho por muitas vezes e em algumas destas oportunidades deixei meus comentários...tenho uma admiro o modo como vc retrata o teu cotidiano ....vc consegue nos transportar através de tuas palavras como quem narra um jogo de futebol e faz quase real a sensação de ser e estar quando apenas se pode ler......Sabes Allan que no dia do meu aniversário visitei teu blog ...li teu post e não comentei..apenas saboreie e fiquei no meu cantinho....Qual foi minha surpresa quando li teu comentário...VC Allan ali...no meu cantinho...no dia do meu niverrrrrrrrr......foi D+.
Agora respondendo a tua pergunta deic]xada lá no meu bloguinho...eu moro no interior de são Paulo ..mais precisamente em Porto Ferreira..e o blog italiano é merito da Meire uma amiga que também conheci nesse imenso calçadão virtual .....;0)

Brigaduuuu por ter surgido em um dia tão especial em minha vida ...como quem rompe a neblina...e se mostra...te curto....

Baci e abbraci...Ciaoooooooooo

Anonymous said...

inquieta
www.rosebud.rose.bud.zip.net
Oi Allan...cheguei aqui com neblina e tudo !!!
Obrigada pela visita ao rose
Vim, vi e gostei. N sou Julio Cesar mas dou meus pulinhos
bjs

Anonymous said...

Eu vi isso em Itatiaia! Roubaram o mundo e deixaram as luzes acesas! Foi lindo. E mais: achei que eram as brumas de Avalon.
Achei meu livro How to be a carioca, estava com o filho. Mas é em inglês. Vou ver o que faço.
Angela

Anonymous said...

Como vai Allan! Ao contrário de ti, vivo em um mundo translúcido, aberto, que parece não ter ar. E o calor transmite justamente isso, respiramos com dificuldade o que parece não existir. O céu é de um azul imensamente igual, sem nuances, pairando sobre nós, e se não víssemos o sol, imaginaríamos que vem deste azul a luz que nos cobre. Não desejo tua neblina, não te desejo meu translúcido. Estamos em nossos elementos? Abração.
Reginaldo Siqueira - singrando.org

cadê o ralo said...

Ciao Allan! A neblina aqui tá de cortar com a faca! Eu até que gosto de ver de manhãzinha tudo envolvido na "fumaça"... dá um ar meio surreal junto com os prados congelados e o cheirinho de lenha queimada das chaminés. Tem o seu charme, uma manhã com neblina.
Um beijão

inquieta said...

Existe alguma coisa atrás dessa neblina toda.E das boas. Vc é um otimo contador de historias.Um abtaço