Caros e Caras,
Paz e saúde!
Dia 26 de dezembro é dia de Santo Stefano, feriado na Itália. Serve para curar a ressaca do Natal e para preparar os ânimos para a semana que vem. Aproveita-se para verificar a sobrevivência de fígado, rins, estômago, etc. Canja de galinha e suco de laranja, que aqui não existe engov. Nos casos mais dramáticos um Gatorade ajuda a resolver.
Computador, game boy, celular e walkman fazem parte do cotidiano das nossas filhas. Televisão, também. Apesar disso, elas nos pediram jogos de salão, como palavras cruzadas e outros jogos que nos reunirão à mesa ou sobre o tapete por longas horas no inverno que acaba de começar. Livros já não fazem parte das listas de presentes: Elas os compram (ou trazem da biblioteca) com a mesma desenvoltura com que nós compramos os nossos. E, às vezes, os lêem primeiro. A Luiza prefere um ritmo mais civilizado, enquanto a Bianca simplesmente devora até cinco vezes o mesmo livro – o último livro de Harry Potter foi vencido em apenas um fim-de-semana. E tem 804 páginas!
A Corso Emanuele esteve lotada nesse mês. A última semana antes do Natal foi um verdadeiro inferno, ou o paraíso, dependendo do lado do balcão que se observava. Todas as lojas estiveram constantemente movimentadas, inclusive aquela que vende aparelhos ortopédicos. Era quase impossível encontrar alguém caminhando sem um pacote em mãos. Os cafés, docerias, a pequena osteria, pizzarias e até as soveterias (que não fecham durante o inverno e têm movimento, sim, senhor!) trabalharam em ritmo acelerado. O horário se estende até tarde e a Corso lembra shopping center brasileiro aos sábados à tarde. As sutís diferenças são a temperatura e os finos flocos de neve que desafiam o desfile de roupas escuras e casacos de pele, mas que se derretem quando tocam o chão. Ainda não nevou…!
Essa é, também, a época em que as entidades beneficentes menores ou menos conhecidas aproveitam para montar barracas para a coleta de doações. As entidades maiores e mais organizadas preferem fazer um “dia nacional” em outro período, para evitar a concorrência e para ganhar destaque na imprensa. No centro e nas principais praças da cidade é impossível não ser abordado por alguém pedindo contribuição. E todos contribuem.
Graças aos novos tempos em casa a árvore é sintética. Evita o desespero de não ter o que fazer com a planta depois do dia seis de janeiro, na falta de um jardim, e aplaca o ardor ecológico que as meninas desenvolveram na escola e que nós estimulamos. Lanternas e velas produzidas nas salas de aula contribuem para a iluminação interna, já colorida pelas luzes da árvore. Um presépio de massa de modelar, produzido e pintado pelas mãos ainda inábeis das nossas pequenas - e retocado pela mãe - divide o espaço sob a árvore com bonecos de neve e outras figuras que aparecem neste período. No lugar dos cartões de boas festas, e-mails. Somente as empresas preferem confiar nos correios e se organizam antes para serem lembradas.
De resto, a rotina não cansa: preparar a ceia do dia 24; arranjar uma desculpa para tirar as meninas de casa na noite do dia 23, para que os presentes possam ser embrulhados; um longo passeio a pé antes da ceia, na então vazia mas colorida e iluminada cidade; a ceia da véspera, tipicamente brasileira, contrariando a tradição local que aconselha peixe e comida leve; e, depois, cama. Dia 25: alguém (eu!) levanta de madrugada e pega os presentes escondidos na pequena varanda da cozinha (sob uma temperatura muito abaixo do zero absoluto!) e os distribui sob a árvore; ficamos deitados até que elas acordem e (quem diria!) saltem da cama cedo; aguardamos os “Oh!”, “Olha…!” e “UAU…!”; fingimos estar dormindo e esperamos que elas voltem para nos acordar e levantamos; dividimos e abrimos os presentes (apesar de Papai Noel já ter se tornado uma lenda em casa, preferimos manter o clima da surpresa); preparar o almoço de natal; levar o nosso almoço brasileiro para a casa dos amigos com quem passamos o dia; comer a massa in brodo e os pratos típicos desta época: a mostarda (frutas em calda leve), canapés, a massa boiando em um prato de caldo de carne (já dei a receita antes), o galo escaldado, a carne que ferveu para o caldo da massa, salames, presuntos e lardo (gordura de porco levemente salgada e temperada, crua); encantar – “Oh!”, “Olha…!” e “UAU…!”– os nossos anfitriões com os nossos pratos e sobremesas; vinhos, espumantes e licores. Mais trocas de presentes.
Nos sentimos uma família completa, apesar da falta que nos fazem parentes e amigos. E é divertido passar o Natal como estávamos acostumados a ver nos filmes, com frio e neve (apesar da neve em Piacenza este ano estar tímida, bastam poucos quilômetros para encontrá-la). Uma sensação de bem-estar vai, aos poucos, substituindo a aversão que sempre tive pela festa.
Hoje, todos voltam ao normal. A caridade e solidariedade retomam o nível da primavera e o movimento da Corso diminui. Uma sensação de alívio que irá permanecer por alguns dias nos conforta. Mas só até o dia 31.
…Meus sais, por favor!
Ciao.
A Itália vista por um brasileiro. As diferenças culturais, descobertas e sabores, com uma pitada de bom humor (às vezes).
segunda-feira, dezembro 27, 2004
sexta-feira, dezembro 24, 2004
Feliz Natal!
Caros e Caras,
Paz e saúde!
Nos mudamos para São Paulo no dia 23 de dezembro de 1967. Meu pai nos aguardava ansioso na bela casa da Rua Américo Brasiliense, em Santo Amaro. Ao lado da casa havia uma igrejinha de madeira digna de um filme. Sobre o gramado da casa, quatro bicicletas novas. Deveriam ser os nossos presentes de Natal, mas meu pai estava realmente muito ansioso. No dia seguinte saiu apavorado para comprar presentes para a manhã seguinte. O Natal, então, tinha gosto de rabanada, nozes, castanhas portuguesas e frutas como pêssego, ameixas e outros sabores esquecidos na minha infância.
Em 1976, com dezesseis anos, fui com minha mãe e meus irmãos passar o Natal em Macaé, casa dos meus avós. Lembro do meu avô, um ancião pela metade do último quarto de século, com os olhos estalados e boca aberta ofegante, procurando a saída da própria casa, fugindo da multidão que havia se tornado a sua família reunida. Depois daquele Natal decidi que não iria mais àquela convenção familiar, de gente que se encontraria uma vez por ano para falar das vidas uns dos outros. Minha mãe não insistia, pois no fundo entendia e creio que ela mesma ia só por ser o período mais tranqüilo para encontrar os próprios pais e os inúmeros irmãos juntos.
No Natal seguinte ofereci minha boa vontade ao amigo Cláudio, que desde sempre faz doces alemães deliciosos no Embu e que nessa época tem um volume de trabalho absurdo. Fui prontamente aceito, já que o ajudava ocasionalmente nos fins-de-semana. Acabamos virando sócios no negócio dos doces. O Natal ganhou o perfume dos strudels, fludens e outros doces. O sabor das tortas silvanas (um atentado calórico que realmente vale a pena, cuja receita permanecerá secreta) e as cores das florestas negras, misturando-se com os enfeites da árvore de Natal. Nossas jornadas tornavam-se pesadas, com toneladas de maçãs para descascar, doces sendo produzidos em escala industrial por nós dois em quinze horas seguidas de trabalho. O dia vinte e três começava às cinco da manhã e só terminava às três, quatro da tarde do dia vinte e quatro. Dopados de cansaço, dormíamos até às oito da noite e saíamos para algum restaurante de desgarrados. Cansados, mas com a prazerosa sensação do dever cumprido e a certeza de termos deixado sorrisos em muitos rostos.
Depois, casei e mudei para Salvador. Passei a comemorar o Natal em respeito às tradições da Eloá, mas continuava achando uma festa melancólica, com sentimentos um tanto hipócrita e pessoas que tornam-se boas e caridosas sob o estímulo do clima criado pelo comércio. Em noventa e dois nasceu a Bianca, quase quatro meses antes do Natal. E foi aí que minha idéia de Natal começou a mudar. Quando, em noventa e cinco, nasceu a Luiza, o Natal já havia se transformado na nossa festa mais importante, mas confesso que por razões diversas às que deram origem à comemoração. Não vou à igreja, não fui batizado e não sinto falta ou necessidade, mas respeito a decisão materna de batizar as meninas e fazê-las ir à missa, catecismo, primeira comunhão, etc.
Com o tempo e muito treinamento, estou aprendendo a dizer saúde quando alguém espirra, a dizer obrigado quando alguém me diz saúde. Estou aprendendo a ser mais tolerante, a entender o que é importante aos que me rodeiam, mesmo que eu ache deselegante. Permaneço indignado com o excessivo teor comercial da festa (com o qual eu contribuo enchendo as meninas e a Eloá de presentes), com a exclusão dos mais humildes de uma festa que deveria ser humilde, mas mudei minha visão sobre o Natal.
Hoje o Natal é o momento de lembrar dos amigos, dos irmãos e dos meus pais. Todos tão distantes. Mas é, também, um momento de reflexão, de recarregar as baterias e de desejar que esse espírito de comunhão possa atingir a todos, independentemente da religiosidade da festa. Sob o frio do inverno italiano recém-chegado, desejo a todos a mesma alegria que minhas filhas terão ao abrir os presentes pela manhã. O mesmo clima de dever cumprido e o perfume de strudel do Cláudio. E uma multidão de pessoas com quem dividir bons sentimentos, mesmo que essas pessoas estejam longe como nós.
Feliz Natal!
Paz e saúde!
Nos mudamos para São Paulo no dia 23 de dezembro de 1967. Meu pai nos aguardava ansioso na bela casa da Rua Américo Brasiliense, em Santo Amaro. Ao lado da casa havia uma igrejinha de madeira digna de um filme. Sobre o gramado da casa, quatro bicicletas novas. Deveriam ser os nossos presentes de Natal, mas meu pai estava realmente muito ansioso. No dia seguinte saiu apavorado para comprar presentes para a manhã seguinte. O Natal, então, tinha gosto de rabanada, nozes, castanhas portuguesas e frutas como pêssego, ameixas e outros sabores esquecidos na minha infância.
Em 1976, com dezesseis anos, fui com minha mãe e meus irmãos passar o Natal em Macaé, casa dos meus avós. Lembro do meu avô, um ancião pela metade do último quarto de século, com os olhos estalados e boca aberta ofegante, procurando a saída da própria casa, fugindo da multidão que havia se tornado a sua família reunida. Depois daquele Natal decidi que não iria mais àquela convenção familiar, de gente que se encontraria uma vez por ano para falar das vidas uns dos outros. Minha mãe não insistia, pois no fundo entendia e creio que ela mesma ia só por ser o período mais tranqüilo para encontrar os próprios pais e os inúmeros irmãos juntos.
No Natal seguinte ofereci minha boa vontade ao amigo Cláudio, que desde sempre faz doces alemães deliciosos no Embu e que nessa época tem um volume de trabalho absurdo. Fui prontamente aceito, já que o ajudava ocasionalmente nos fins-de-semana. Acabamos virando sócios no negócio dos doces. O Natal ganhou o perfume dos strudels, fludens e outros doces. O sabor das tortas silvanas (um atentado calórico que realmente vale a pena, cuja receita permanecerá secreta) e as cores das florestas negras, misturando-se com os enfeites da árvore de Natal. Nossas jornadas tornavam-se pesadas, com toneladas de maçãs para descascar, doces sendo produzidos em escala industrial por nós dois em quinze horas seguidas de trabalho. O dia vinte e três começava às cinco da manhã e só terminava às três, quatro da tarde do dia vinte e quatro. Dopados de cansaço, dormíamos até às oito da noite e saíamos para algum restaurante de desgarrados. Cansados, mas com a prazerosa sensação do dever cumprido e a certeza de termos deixado sorrisos em muitos rostos.
Depois, casei e mudei para Salvador. Passei a comemorar o Natal em respeito às tradições da Eloá, mas continuava achando uma festa melancólica, com sentimentos um tanto hipócrita e pessoas que tornam-se boas e caridosas sob o estímulo do clima criado pelo comércio. Em noventa e dois nasceu a Bianca, quase quatro meses antes do Natal. E foi aí que minha idéia de Natal começou a mudar. Quando, em noventa e cinco, nasceu a Luiza, o Natal já havia se transformado na nossa festa mais importante, mas confesso que por razões diversas às que deram origem à comemoração. Não vou à igreja, não fui batizado e não sinto falta ou necessidade, mas respeito a decisão materna de batizar as meninas e fazê-las ir à missa, catecismo, primeira comunhão, etc.
Com o tempo e muito treinamento, estou aprendendo a dizer saúde quando alguém espirra, a dizer obrigado quando alguém me diz saúde. Estou aprendendo a ser mais tolerante, a entender o que é importante aos que me rodeiam, mesmo que eu ache deselegante. Permaneço indignado com o excessivo teor comercial da festa (com o qual eu contribuo enchendo as meninas e a Eloá de presentes), com a exclusão dos mais humildes de uma festa que deveria ser humilde, mas mudei minha visão sobre o Natal.
Hoje o Natal é o momento de lembrar dos amigos, dos irmãos e dos meus pais. Todos tão distantes. Mas é, também, um momento de reflexão, de recarregar as baterias e de desejar que esse espírito de comunhão possa atingir a todos, independentemente da religiosidade da festa. Sob o frio do inverno italiano recém-chegado, desejo a todos a mesma alegria que minhas filhas terão ao abrir os presentes pela manhã. O mesmo clima de dever cumprido e o perfume de strudel do Cláudio. E uma multidão de pessoas com quem dividir bons sentimentos, mesmo que essas pessoas estejam longe como nós.
Feliz Natal!
domingo, dezembro 19, 2004
Nas Terras do Saci
Caros e Caras,
Paz e saúde!
Os anos sessenta foram tempos duros. Lembro que minha mãe mandou-nos para a casa dos nossos avós, em Itaquira, um lugarejo perdido entre Macaé e Campos, no interior do Rio de Janeiro. O único modo de chegar em Itaquira era de trem, e o trem só parava ali uma vez por dia. Se houvesse necessidade de sair em horário diferente, precisaria ir até Carapebus, um vilarejo pouco maior que Itaquira e algumas horas de distância a cavalo.
A casa da minha avó ficava próxima à linha do trem, que servia de estrada para nossas caminhadas até a escola. Antes da aula, porém, eu e meu irmão Cecil íamos até a fazenda vizinha pegar leite, e ele aproveitava para provocar a vaca vermelha, obrigando-a a correr atrás dele. E ele, gargalhando, driblava os chifres da vaca. Depois, leite quente, pão caseiro com manteiga idem, aipim, farofa de gergelim socada no pilão, um gole do café ralo típico da região e escola. O trilho do trem cortava o longo e ininterrupto canavial. Nos passeios de trem com minha avó, eu sentava na janela e observava o que parecia um imenso mar verde, ondulante sob o vento. Pois bem, é em Itaquira que mora o Saci. Um negrinho de uma perna só, com um barrete vermelho e um cachimbo de barro na boca. Adora estripulias como destelhar casas e assustar os animais. O seu sinal é o vento: se o canavial atrás da gente começa a balançar, não se deve olhar pra trás, ou o danado nos joga no chão com um tapa na cara. O único modo de capturar um saci é jogando uma peneira na base de um redemoinho e, com cuidado, colocá-lo dentro de uma garrafa. Mas o tinhoso é ágil e não se deixa apanhar. Meu avô me deu uma peneira, fingindo não saber que era pra pegar saci, pois ele era contra essa convivência estreita com as lendas e superstições. Creio que a peneira ficou por lá, quando ele vendeu a fazenda para ir morar em Macaé. Quem sabe alguém conseguiu engarrafar um saci com ela. Quem sabe…
Ontem, sábado, fui à reunião na escola da Luiza. Os elogios de sempre, uma rasgação de seda com os resultados e o comportamento responsável da menina, um sincero orgulho das professoras pelo privilégio de tê-la como aluna, e toda aquela ladainha que fazem quando se referem à melhor aluna da classe. Nada disso desviou-me do meu objetivo: falar com a professora de matemática que ela havia sobrecarregado a Luiza de responsabilidades, provocando ciúmes nos outros alunos. Mas como afrontar a fera? Ela é daquelas pessoas que se altera quando fala, esbugalha os olhos pra fora, gesticula e dispara a falar numa velocidade de deixar locutor de futebol de boca aberta. E mudo. Além disso, meu irmão Cecil nem está por perto para ensinar-me como dribla-la. Bom, a técnica usada foi a de sempre: jamais dizer qualquer coisa que possa soar como cobrança ou agressão, o que só provoca reações defensivas e não resolve o problema. O truque é sorrir sempre e criar uma situação onde o outro assuma a responsabilidade de resolver o problema, como um salvador da pátria. Expliquei a ela que a menina tem o hábito de assumir responsabilidades (não, não é culpa da professora se ela apaga a lousa, vai chamar a bedel, ou auxilia os colegas quando a professora pede, é ela que é assim) e que isso estaria provocando uma reação no resto da classe. Esclareci o quanto me sinto impotente para resolver o assunto e de não ter a mesma experiência de uma professora com tantos anos de bons serviços prestados. Arranquei dela a promessa de uma especial atenção para o problema, além do compromisso de utilizar também os outros alunos para as pequenas tarefas em classe. Saí de lá com a certeza de ter falado com a pessoa certa. A professora que deixei, sentiu-se dona da responsabilidade e única capaz de resolver todos os problemas, ajudando um pobre pai preocupado com a saúde emocional da própria filha, sob o sorriso cúmplice da professora de italiano, que piscou-me o olho na saída.
Ontem, sábado, foi um dia de vento. Pensei que fosse somente em Piacenza, mas a televisão informou ter ventado forte em toda a Itália. As bicicletas – a algumas lambretas – foram jogadas ao chão, sobre as calçadas. As folhas das árvores neste fim de outono sendo varridas de um lado para outro, uns poucos redemoinhos. Casas destelhadas, animais assustados, e alguém que me assoprava o fogo do isqueiro, impedindo-me de acender o charuto. A temperatura não era das mais baixas, mas o vento gelava tudo.
O mesmo vento que trouxe notícias da Turquia, na comemoração pelo início das negociações para a sua entrada na União Européia, apesar de todos os pareceres contra, apesar de nada estar definido e apesar das tais negociações estarem previstas para iniciarem no longínquo outubro do ano que vem. O mesmo vento que leva para longe as notícias do Iraque, para não estragar o clima de Natal, formando um redemoinho que só permite a divulgação de notícias amenas, do campeonato de esqui, do futebol, do veadinho que invadiu a pista de esqui no momento em que o concorrente italiano fazia sua descida, dos presentes mais procurados. O mundo é um delicioso floco de neve.
Saí da escola com o capote fechado, olhos de camelo protegidos pelos óculos escuro. Repassando a conversa com a professora, observei os pequenos redemoinhos que giravam as folhas, como meu irmão que ria enquanto driblava a vaca vermelha. Imaginei o sorriso do negrinho, quando o policial saiu correndo atrás do quepe.
Ah…!
Que falta me faz a minha peneira.
Ciao.
Paz e saúde!
Os anos sessenta foram tempos duros. Lembro que minha mãe mandou-nos para a casa dos nossos avós, em Itaquira, um lugarejo perdido entre Macaé e Campos, no interior do Rio de Janeiro. O único modo de chegar em Itaquira era de trem, e o trem só parava ali uma vez por dia. Se houvesse necessidade de sair em horário diferente, precisaria ir até Carapebus, um vilarejo pouco maior que Itaquira e algumas horas de distância a cavalo.
A casa da minha avó ficava próxima à linha do trem, que servia de estrada para nossas caminhadas até a escola. Antes da aula, porém, eu e meu irmão Cecil íamos até a fazenda vizinha pegar leite, e ele aproveitava para provocar a vaca vermelha, obrigando-a a correr atrás dele. E ele, gargalhando, driblava os chifres da vaca. Depois, leite quente, pão caseiro com manteiga idem, aipim, farofa de gergelim socada no pilão, um gole do café ralo típico da região e escola. O trilho do trem cortava o longo e ininterrupto canavial. Nos passeios de trem com minha avó, eu sentava na janela e observava o que parecia um imenso mar verde, ondulante sob o vento. Pois bem, é em Itaquira que mora o Saci. Um negrinho de uma perna só, com um barrete vermelho e um cachimbo de barro na boca. Adora estripulias como destelhar casas e assustar os animais. O seu sinal é o vento: se o canavial atrás da gente começa a balançar, não se deve olhar pra trás, ou o danado nos joga no chão com um tapa na cara. O único modo de capturar um saci é jogando uma peneira na base de um redemoinho e, com cuidado, colocá-lo dentro de uma garrafa. Mas o tinhoso é ágil e não se deixa apanhar. Meu avô me deu uma peneira, fingindo não saber que era pra pegar saci, pois ele era contra essa convivência estreita com as lendas e superstições. Creio que a peneira ficou por lá, quando ele vendeu a fazenda para ir morar em Macaé. Quem sabe alguém conseguiu engarrafar um saci com ela. Quem sabe…
Ontem, sábado, fui à reunião na escola da Luiza. Os elogios de sempre, uma rasgação de seda com os resultados e o comportamento responsável da menina, um sincero orgulho das professoras pelo privilégio de tê-la como aluna, e toda aquela ladainha que fazem quando se referem à melhor aluna da classe. Nada disso desviou-me do meu objetivo: falar com a professora de matemática que ela havia sobrecarregado a Luiza de responsabilidades, provocando ciúmes nos outros alunos. Mas como afrontar a fera? Ela é daquelas pessoas que se altera quando fala, esbugalha os olhos pra fora, gesticula e dispara a falar numa velocidade de deixar locutor de futebol de boca aberta. E mudo. Além disso, meu irmão Cecil nem está por perto para ensinar-me como dribla-la. Bom, a técnica usada foi a de sempre: jamais dizer qualquer coisa que possa soar como cobrança ou agressão, o que só provoca reações defensivas e não resolve o problema. O truque é sorrir sempre e criar uma situação onde o outro assuma a responsabilidade de resolver o problema, como um salvador da pátria. Expliquei a ela que a menina tem o hábito de assumir responsabilidades (não, não é culpa da professora se ela apaga a lousa, vai chamar a bedel, ou auxilia os colegas quando a professora pede, é ela que é assim) e que isso estaria provocando uma reação no resto da classe. Esclareci o quanto me sinto impotente para resolver o assunto e de não ter a mesma experiência de uma professora com tantos anos de bons serviços prestados. Arranquei dela a promessa de uma especial atenção para o problema, além do compromisso de utilizar também os outros alunos para as pequenas tarefas em classe. Saí de lá com a certeza de ter falado com a pessoa certa. A professora que deixei, sentiu-se dona da responsabilidade e única capaz de resolver todos os problemas, ajudando um pobre pai preocupado com a saúde emocional da própria filha, sob o sorriso cúmplice da professora de italiano, que piscou-me o olho na saída.
Ontem, sábado, foi um dia de vento. Pensei que fosse somente em Piacenza, mas a televisão informou ter ventado forte em toda a Itália. As bicicletas – a algumas lambretas – foram jogadas ao chão, sobre as calçadas. As folhas das árvores neste fim de outono sendo varridas de um lado para outro, uns poucos redemoinhos. Casas destelhadas, animais assustados, e alguém que me assoprava o fogo do isqueiro, impedindo-me de acender o charuto. A temperatura não era das mais baixas, mas o vento gelava tudo.
O mesmo vento que trouxe notícias da Turquia, na comemoração pelo início das negociações para a sua entrada na União Européia, apesar de todos os pareceres contra, apesar de nada estar definido e apesar das tais negociações estarem previstas para iniciarem no longínquo outubro do ano que vem. O mesmo vento que leva para longe as notícias do Iraque, para não estragar o clima de Natal, formando um redemoinho que só permite a divulgação de notícias amenas, do campeonato de esqui, do futebol, do veadinho que invadiu a pista de esqui no momento em que o concorrente italiano fazia sua descida, dos presentes mais procurados. O mundo é um delicioso floco de neve.
Saí da escola com o capote fechado, olhos de camelo protegidos pelos óculos escuro. Repassando a conversa com a professora, observei os pequenos redemoinhos que giravam as folhas, como meu irmão que ria enquanto driblava a vaca vermelha. Imaginei o sorriso do negrinho, quando o policial saiu correndo atrás do quepe.
Ah…!
Que falta me faz a minha peneira.
Ciao.
quarta-feira, dezembro 15, 2004
Domingo Passado
Caros e Caras,
Paz e saúde!
Esquentou. Esse inverno está meio confuso. Pensei que fosse nevar forte e não nevou. Céu limpo pra brigadeiro mostrar as próprias habilidades. Passeando pela cidade, as meninas ficam com frio quando atravessamos um trecho à sombra e com calor sob o sol. A temperatura muda em até dez graus em questão de metros. Isso me faz lembrar a lição da Kamany, minha cadela akita e fiel companheira até a morte. Sob o sol de Salvador apressava o passo, para depois reduzir até quase sentar-se, à sombra. Língua pra fora, ofegava com a boca aberta, tentando expelir o ar quente e trocá-lo por um mais fresco. Só que o efeito era o inverso: seus pulmões estavam mais frescos que o ar que respirava. Água. Sombra e uma toca que ela mesma cavava.
Os cães passeiam sem roupas neste inverno, pois roupa de cachorro saiu de moda. O frio maltrata os de pêlos mais curtos e eles não podem nem mesmo tomar um chocolate quente para aquecer. Nem água, porque esfria ainda mais. A guerra dos ventos ainda não foi vencida pelos do Norte, alternando dias quentes com dias frios. Mas todos são unânimes em afirmar que realmente é um inverno atípico, com temperaturas acima da média. “Normalmente a neve começava a cair em novembro” diz um piacentino ancião. Estamos em dezembro e necas de pitibiribas!
Leio que a posição dos pólos está se invertendo. Um dia, o Norte será no Sul. Não vou esperar pra conferir. Teria cinqüenta mil e quarenta e cinco anos. A mesma revista noticia a venda de tampas plásticas para copos nos pubs ingleses (como aquelas do Mac Donald), como medida para evitar a alteração das bebidas, cujo objetivo seria o estupro. Custam em torno de trinta e cinco centavos de Euro, numa demonstração da capacidade de alguns em ganhar dinheiro em qualquer situação.
Um pároco da cidade de Lecce, no sul da Itália, colocou um cartaz no alto da porta da sua igreja: “Aberta aos domingos.” Tempos duros. A concorrência dos shopping centers e lojas que fazem de tudo para atrair consumidores, irritou o padre. Talvez poucos se recordem que a festa é deles, da Igreja, vazia aos domingos antes do Natal. Os fiéis deveriam recordar, por mais que a mensagem tenha sido distorcida, da origem sagrada da festa. Pelo menos o simpático padre decidiu que não os deixará esquecer.
A Eloá chama a minha atenção para o colorido da estação. Apesar do preto não sair nunca de moda nessa terra, já é possível não pensar em uniforme de inverno, com o preto que dominava da cabeça aos pés em mais de noventa por cento das pessoas. Meias marrons, porém, nem com anúncio de jornal. Que diabos eles fizeram com as meias marrons? Taí um presente que me agradaria neste Natal: uma boa quantidade de meias marrons, que, pela raridade, devem custar mais que uma caixa de charutos cubanos.
Os filmes de Natal tornam-se cada vez menos interessantes. O “Expresso Polar” é pobre de enredo, apesar de ser um típico conto de Natal e apesar do processo da filmagem. As meninas nem comentaram o filme. “Qual a parte que você mais gostou?” é como elas costumam reagir ao final de cada filme. Dessa vez, necas de pitibiribas! Me rendo. Vão assistir “Os Incríveis” e assistir a fita do “Grinch”. Dias melhores virão. Espero.
Café, charuto e caminhada. Aproveitamos as poucas horas de sol para brincar de Kamany. Chocolate quente a ser tomado de colher. Denso. As pessoas reclamam do tráfego, aumentado pelo frio que desestimula as saídas em bicicleta. Reclamam da escassez de vagas para estacionar e eu sugiro: “vá de bicicleta!” Ninguém me ouve. Quem não tem carro prefere pegar o ônibus. Quem precisa economizar ou está habituado ao frio tradicional desta época, não reclama do tráfego ou da falta de vagas: vai de bicicleta e economiza piadas espirituosas. Eu, simplesmente caminho. Sorrio entre uma baforada e outra. Sinto o cheiro das castanhas assadas e penso em acarajé. Caminho e sorrio. Dou baforadas.
É mais fácil atravessar esta época do ano se chove, neva ou simplesmente está nublado. Em um dia de sol os olhos enganam a mente, que vai buscar na memória as sensações de outros domingos ensolarados.
Os jogadores de vôlei Anderson e Sérgio, portadores da medalha de ouro dos últimos Jogos Olímpicos, foram contratados pelo time da cidade há poucos meses. Se a família de Sérgio não chegar antes do Natal, provavelmente ele não irá resistir. Confessa pelos cantos a vontade de voltar. Cena comum. Muita gente comenta ter vontade de vir morar fora. Muitos me pedem dicas e conselhos. “Venha. Mas considere a possibilidade de voltar logo.” Respondo. A maioria espera encontrar um pote de ouro, e acaba indo trabalhar na fábrica de potes. Caminhado, vejo muitas dessas faces. De quem está juntando dinheiro para voltar. Já nós, vivemos aqui, pensamos aqui e caminhamos aqui. Por isso sorrimos. Vivemos esse inverno como um inverno bizarro e não nos preocupamos com as diferenças entre esses dias e aqueles domingos nas nossas memórias. Nos adaptamos e vamos nos divertindo com cada nova descoberta, a cada tradição adquirida.
Nos dias ensolarados de inverno, passeamos e tomamos chocolate quente. Sapatos marrons com meias vermelho-escuras ou cinzas. Meias marrons? Necas de pitibiribas!
Bah…! Dou baforadas.
Ciao.
Paz e saúde!
Esquentou. Esse inverno está meio confuso. Pensei que fosse nevar forte e não nevou. Céu limpo pra brigadeiro mostrar as próprias habilidades. Passeando pela cidade, as meninas ficam com frio quando atravessamos um trecho à sombra e com calor sob o sol. A temperatura muda em até dez graus em questão de metros. Isso me faz lembrar a lição da Kamany, minha cadela akita e fiel companheira até a morte. Sob o sol de Salvador apressava o passo, para depois reduzir até quase sentar-se, à sombra. Língua pra fora, ofegava com a boca aberta, tentando expelir o ar quente e trocá-lo por um mais fresco. Só que o efeito era o inverso: seus pulmões estavam mais frescos que o ar que respirava. Água. Sombra e uma toca que ela mesma cavava.
Os cães passeiam sem roupas neste inverno, pois roupa de cachorro saiu de moda. O frio maltrata os de pêlos mais curtos e eles não podem nem mesmo tomar um chocolate quente para aquecer. Nem água, porque esfria ainda mais. A guerra dos ventos ainda não foi vencida pelos do Norte, alternando dias quentes com dias frios. Mas todos são unânimes em afirmar que realmente é um inverno atípico, com temperaturas acima da média. “Normalmente a neve começava a cair em novembro” diz um piacentino ancião. Estamos em dezembro e necas de pitibiribas!
Leio que a posição dos pólos está se invertendo. Um dia, o Norte será no Sul. Não vou esperar pra conferir. Teria cinqüenta mil e quarenta e cinco anos. A mesma revista noticia a venda de tampas plásticas para copos nos pubs ingleses (como aquelas do Mac Donald), como medida para evitar a alteração das bebidas, cujo objetivo seria o estupro. Custam em torno de trinta e cinco centavos de Euro, numa demonstração da capacidade de alguns em ganhar dinheiro em qualquer situação.
Um pároco da cidade de Lecce, no sul da Itália, colocou um cartaz no alto da porta da sua igreja: “Aberta aos domingos.” Tempos duros. A concorrência dos shopping centers e lojas que fazem de tudo para atrair consumidores, irritou o padre. Talvez poucos se recordem que a festa é deles, da Igreja, vazia aos domingos antes do Natal. Os fiéis deveriam recordar, por mais que a mensagem tenha sido distorcida, da origem sagrada da festa. Pelo menos o simpático padre decidiu que não os deixará esquecer.
A Eloá chama a minha atenção para o colorido da estação. Apesar do preto não sair nunca de moda nessa terra, já é possível não pensar em uniforme de inverno, com o preto que dominava da cabeça aos pés em mais de noventa por cento das pessoas. Meias marrons, porém, nem com anúncio de jornal. Que diabos eles fizeram com as meias marrons? Taí um presente que me agradaria neste Natal: uma boa quantidade de meias marrons, que, pela raridade, devem custar mais que uma caixa de charutos cubanos.
Os filmes de Natal tornam-se cada vez menos interessantes. O “Expresso Polar” é pobre de enredo, apesar de ser um típico conto de Natal e apesar do processo da filmagem. As meninas nem comentaram o filme. “Qual a parte que você mais gostou?” é como elas costumam reagir ao final de cada filme. Dessa vez, necas de pitibiribas! Me rendo. Vão assistir “Os Incríveis” e assistir a fita do “Grinch”. Dias melhores virão. Espero.
Café, charuto e caminhada. Aproveitamos as poucas horas de sol para brincar de Kamany. Chocolate quente a ser tomado de colher. Denso. As pessoas reclamam do tráfego, aumentado pelo frio que desestimula as saídas em bicicleta. Reclamam da escassez de vagas para estacionar e eu sugiro: “vá de bicicleta!” Ninguém me ouve. Quem não tem carro prefere pegar o ônibus. Quem precisa economizar ou está habituado ao frio tradicional desta época, não reclama do tráfego ou da falta de vagas: vai de bicicleta e economiza piadas espirituosas. Eu, simplesmente caminho. Sorrio entre uma baforada e outra. Sinto o cheiro das castanhas assadas e penso em acarajé. Caminho e sorrio. Dou baforadas.
É mais fácil atravessar esta época do ano se chove, neva ou simplesmente está nublado. Em um dia de sol os olhos enganam a mente, que vai buscar na memória as sensações de outros domingos ensolarados.
Os jogadores de vôlei Anderson e Sérgio, portadores da medalha de ouro dos últimos Jogos Olímpicos, foram contratados pelo time da cidade há poucos meses. Se a família de Sérgio não chegar antes do Natal, provavelmente ele não irá resistir. Confessa pelos cantos a vontade de voltar. Cena comum. Muita gente comenta ter vontade de vir morar fora. Muitos me pedem dicas e conselhos. “Venha. Mas considere a possibilidade de voltar logo.” Respondo. A maioria espera encontrar um pote de ouro, e acaba indo trabalhar na fábrica de potes. Caminhado, vejo muitas dessas faces. De quem está juntando dinheiro para voltar. Já nós, vivemos aqui, pensamos aqui e caminhamos aqui. Por isso sorrimos. Vivemos esse inverno como um inverno bizarro e não nos preocupamos com as diferenças entre esses dias e aqueles domingos nas nossas memórias. Nos adaptamos e vamos nos divertindo com cada nova descoberta, a cada tradição adquirida.
Nos dias ensolarados de inverno, passeamos e tomamos chocolate quente. Sapatos marrons com meias vermelho-escuras ou cinzas. Meias marrons? Necas de pitibiribas!
Bah…! Dou baforadas.
Ciao.
domingo, dezembro 12, 2004
Preocupações Italianas
Caros e Caras,
Paz e saúde!
Tramita há mais de um ano no parlamento russo um projeto que permite a venda de partes da floresta russa aos cidadãos civis. Uma das leis da revolução bolchevique proibia a propriedade privada. De acordo com o texto da antiga lei, todo pedaço de terra pertencia ao povo. Quer dizer, ao governo do povo. Quer dizer, poderia ser usufruído somente pelos poucos do povo que representavam o governo. Quer dizer… Deixa pra lá!
A Rússia é quase toda coberta por florestas. É o segundo maior aglomerado vegetal do mundo, perdendo somente para a Amazônia. Segundo o projeto, será possível adquirir lotes de floresta para projetos de divertimento e lazer. Como o texto peca por clareza de informações (além de pecar pela própria idealização) ganho a liberdade para imaginar enormes parques temáticos. Algo como “Indiana Jones na Selva Gelada”. Durante o verão, quando a temperatura permitir, os riscos de incêndios de proporções catastróficas serão multiplicados com os previsíveis churrascos de beterrabas, batatas e outros vegetais (repolho cresce até sob a neve!), regados por vodka caseira. E a única revista italiana que comentou o fato, o fez sem o habitual alarde usado para falar dos abusos na nossa (nossa!) floresta tropical. Apenas noticiou o fato sem destaque.
A mesma Rússia informa que o progresso do país é mais importante que o Tratado de Kioto e que, portanto, não tem intenção de cumpri-lo. Trata-se daquele tratado que estabelecia limites para emissão de poluentes, com o simples objetivo de salvar o planeta e que ninguém leva a sério. A desculpa do progresso parece estar contaminando tudo. Basta dar uma olhada nas parcerias de madeireiros internacionais com os índios fazendeiros dentro das reservas brasileiras.
Esses são fatos que realmente preocupam muito os italianos. Licia Colò, apresentadora de programas ecológicos na tv italiana, afirma que precisamos sair da posição de espectadores passivos e fazer algo para salvar o que resta da “nossa” (sic) Amazônia. Mas esquece de dizer que não fazemos nada para recuperar as florestas temperadas da Europa, dizimadas em nome do mesmo progresso. Nem se recorda, tampouco, de esclarecer que se países como a Itália e Estados Unidos eliminassem os subsídios agrícolas (desviando os recursos para a reconstrução e manutenção das florestas deles, por exemplo), países como o Brasil e Nigéria teriam uma qualidade de vida melhor que a atual. Só para lembrar: uma tonelada de açucar de cana tem custo de produção de cerca de 160 dólares. Uma tonelada de açucar de beterraba, cerca de 600. No entanto, ambas são vendidas no mercado internacional por 200 dólares. A diferença (incluindo os lucros dos produtores europeus) é composta de subsídios oferecidos pelos governos.
Outro fato que contribui para a insônia coletiva italiana é a situação da educação feminina em Kabul. Muito está-se fazendo para recuperar o tempo perdido, no que diz respeito à liberdade da mulher, usurpada durante o regime talibã. Mas o problema é que em Kabul falta tudo, principalmente a estrutura física. Faltam prédios. Falta uma riqueza a ser explorada, como o petróleo, por exemplo. E, neste caso, falta também o apoio internacional para a reconstrução do país. A mesma falta de apoio de que sofrem os agricultores no interior da Sicília, que há anos solicitam obras para reduzir o drama da falta d’água no verão. A mesma falta de apoio que irá obrigar diversos vilarejos a atravessar mais um inverno morando em containers (alguns há mais de trinta anos!), vítimas de terremotos em regiões frias da Itália.
A notícia que mais agradou os italianos este ano? A prisão de Sadam Hussein. Líder de um povo habituado à luta, sob quem reinava a suspeita de manipular tudo em seu país, fraudando, inclusive, as eleições. Risco constante a outros países, comandante de ações assassinas e de experiências com armas químicas. Transgressor da ecologia e dos direitos humanos. Pessoa vil, que manipulava a mídia para vender uma imagem de salvador enquanto massacrava quem quer que se opusesse a suas idéias. Os italianos já o julgaram e condenaram: uma pessoa assim merece a morte! Para transformar-se no próprio diabo, falta só o chapéu de cowboy que tanto fascina esse povo.
Uma notícia anterior, requentada, era a enorme desilusão dos italianos com a falência momentânea da proposta para uma constituição comum européia. A má vontade dos diversos governantes ficou tão latente à época, que quase ninguém comentou a saída de Alessandra Mussolini (não, o sobrenome não é coincidência não) da Aliança Nacional, base parlamentar que sustenta o atual governo italiano, afirmando que iria fundar um novo partido por discordar do então vice primeiro-ministro Gianfranco Fini.
Mais? O futuro de Cuba pós Fidel Castro. A situação econômica da Argentina. A falta de estrutura do turismo mundial para atender a demanda de duzentos e setenta milhões de chineses, catapultados à condição de classe média disposta a viajar. A onda anti-semita na Europa graças a Sharon, visto como uma eterna ameaça à paz. A volta da vaca-louca na Inglaterra e da Sars na China, apesar de ninguém comentar o problema da Aids, que, segundo o Ministério da Saúde, continua contaminando uma média de dez pessoas por dia na Itália. Não existe nenhuma campanha, nenhum tipo de informação. Nada. O destino da Palestina sem Arafat e sob a pressão de Israel e Estados Unidos. A luta pelo poder no resto da Europa, decidida a goles de venenos ou com o velho hábito de tentar ganhar no grito. Tantas as preocupações dos italianos neste ano que está por terminar. Resta a expectativa pelos novos fatos.
Curiosa a capacidade humana de resolver os problemas alheios. Talvez por isso o mundo esteja tão cheio de consultores.
Alguém aí falou em pizza?
Ciao.
Paz e saúde!
Tramita há mais de um ano no parlamento russo um projeto que permite a venda de partes da floresta russa aos cidadãos civis. Uma das leis da revolução bolchevique proibia a propriedade privada. De acordo com o texto da antiga lei, todo pedaço de terra pertencia ao povo. Quer dizer, ao governo do povo. Quer dizer, poderia ser usufruído somente pelos poucos do povo que representavam o governo. Quer dizer… Deixa pra lá!
A Rússia é quase toda coberta por florestas. É o segundo maior aglomerado vegetal do mundo, perdendo somente para a Amazônia. Segundo o projeto, será possível adquirir lotes de floresta para projetos de divertimento e lazer. Como o texto peca por clareza de informações (além de pecar pela própria idealização) ganho a liberdade para imaginar enormes parques temáticos. Algo como “Indiana Jones na Selva Gelada”. Durante o verão, quando a temperatura permitir, os riscos de incêndios de proporções catastróficas serão multiplicados com os previsíveis churrascos de beterrabas, batatas e outros vegetais (repolho cresce até sob a neve!), regados por vodka caseira. E a única revista italiana que comentou o fato, o fez sem o habitual alarde usado para falar dos abusos na nossa (nossa!) floresta tropical. Apenas noticiou o fato sem destaque.
A mesma Rússia informa que o progresso do país é mais importante que o Tratado de Kioto e que, portanto, não tem intenção de cumpri-lo. Trata-se daquele tratado que estabelecia limites para emissão de poluentes, com o simples objetivo de salvar o planeta e que ninguém leva a sério. A desculpa do progresso parece estar contaminando tudo. Basta dar uma olhada nas parcerias de madeireiros internacionais com os índios fazendeiros dentro das reservas brasileiras.
Esses são fatos que realmente preocupam muito os italianos. Licia Colò, apresentadora de programas ecológicos na tv italiana, afirma que precisamos sair da posição de espectadores passivos e fazer algo para salvar o que resta da “nossa” (sic) Amazônia. Mas esquece de dizer que não fazemos nada para recuperar as florestas temperadas da Europa, dizimadas em nome do mesmo progresso. Nem se recorda, tampouco, de esclarecer que se países como a Itália e Estados Unidos eliminassem os subsídios agrícolas (desviando os recursos para a reconstrução e manutenção das florestas deles, por exemplo), países como o Brasil e Nigéria teriam uma qualidade de vida melhor que a atual. Só para lembrar: uma tonelada de açucar de cana tem custo de produção de cerca de 160 dólares. Uma tonelada de açucar de beterraba, cerca de 600. No entanto, ambas são vendidas no mercado internacional por 200 dólares. A diferença (incluindo os lucros dos produtores europeus) é composta de subsídios oferecidos pelos governos.
Outro fato que contribui para a insônia coletiva italiana é a situação da educação feminina em Kabul. Muito está-se fazendo para recuperar o tempo perdido, no que diz respeito à liberdade da mulher, usurpada durante o regime talibã. Mas o problema é que em Kabul falta tudo, principalmente a estrutura física. Faltam prédios. Falta uma riqueza a ser explorada, como o petróleo, por exemplo. E, neste caso, falta também o apoio internacional para a reconstrução do país. A mesma falta de apoio de que sofrem os agricultores no interior da Sicília, que há anos solicitam obras para reduzir o drama da falta d’água no verão. A mesma falta de apoio que irá obrigar diversos vilarejos a atravessar mais um inverno morando em containers (alguns há mais de trinta anos!), vítimas de terremotos em regiões frias da Itália.
A notícia que mais agradou os italianos este ano? A prisão de Sadam Hussein. Líder de um povo habituado à luta, sob quem reinava a suspeita de manipular tudo em seu país, fraudando, inclusive, as eleições. Risco constante a outros países, comandante de ações assassinas e de experiências com armas químicas. Transgressor da ecologia e dos direitos humanos. Pessoa vil, que manipulava a mídia para vender uma imagem de salvador enquanto massacrava quem quer que se opusesse a suas idéias. Os italianos já o julgaram e condenaram: uma pessoa assim merece a morte! Para transformar-se no próprio diabo, falta só o chapéu de cowboy que tanto fascina esse povo.
Uma notícia anterior, requentada, era a enorme desilusão dos italianos com a falência momentânea da proposta para uma constituição comum européia. A má vontade dos diversos governantes ficou tão latente à época, que quase ninguém comentou a saída de Alessandra Mussolini (não, o sobrenome não é coincidência não) da Aliança Nacional, base parlamentar que sustenta o atual governo italiano, afirmando que iria fundar um novo partido por discordar do então vice primeiro-ministro Gianfranco Fini.
Mais? O futuro de Cuba pós Fidel Castro. A situação econômica da Argentina. A falta de estrutura do turismo mundial para atender a demanda de duzentos e setenta milhões de chineses, catapultados à condição de classe média disposta a viajar. A onda anti-semita na Europa graças a Sharon, visto como uma eterna ameaça à paz. A volta da vaca-louca na Inglaterra e da Sars na China, apesar de ninguém comentar o problema da Aids, que, segundo o Ministério da Saúde, continua contaminando uma média de dez pessoas por dia na Itália. Não existe nenhuma campanha, nenhum tipo de informação. Nada. O destino da Palestina sem Arafat e sob a pressão de Israel e Estados Unidos. A luta pelo poder no resto da Europa, decidida a goles de venenos ou com o velho hábito de tentar ganhar no grito. Tantas as preocupações dos italianos neste ano que está por terminar. Resta a expectativa pelos novos fatos.
Curiosa a capacidade humana de resolver os problemas alheios. Talvez por isso o mundo esteja tão cheio de consultores.
Alguém aí falou em pizza?
Ciao.
terça-feira, dezembro 07, 2004
Dezembro
Caros e Caras,
Paz e saúde!
Às oito o dia começa a amanhecer. Às cinco da tarde é já noite. As plantas sofrem com as poucas horas de sol, mas não conseguem entrar em letargo por causa do calor, nos vasos dentro de casa. Algumas não resistem. E não só elas. O nosso relógio biológico gira sem ponteiros. Fome de madrugada (que no meu caso ocorre também nos outros meses) sono durante o dia e uma insônia coletiva. As pessoas resistem à tentação de ficar na cama nos fins-de-semana, para que a vida não se transforme num eterno compromisso profissional. Ruas, lojas e cafés lotam. A fila do cinema só pode ser evitada com a reserva feita por telefone (lembrem-se: o italiano é craque em organizar o próprio lazer. Anos de experiência).
Dia oito de dezembro é feriado nacional na Itália. É dia santo. E isso me faz lembrar que é, também, o início das Festas de Largo em Salvador. Dia de Nossa Senhora da Conceição da Praia. A festa é comemorada em frente ao Mercado Modelo, com a lavagem das escadas da igreja da santa. Aliás, cabe uma retificação: não é o início das festas, mas apenas o marco de um novo ciclo, uma vez que as tais festas não têm fim. Teoricamente deveriam começar com a Festa da Conceição, ter o ponto alto na colina sagrada com a Lavagem do Bonfim e terminarem na última quinta-feira antes do próximo oito de dezembro. Mas já virou tudo uma coisa só. Falta apenas oficializar o feriado eterno em Salvador, o que, diga-se de passagem, não seria má idéia.
O sol de Salvador ajuda a aquecer minhas lembranças, mas eu vivo no presente. O meu presente é o inverno, o frio, sabores e perfumes diferentes daqueles da minha infância. A primeira neve já caiu, ainda tímida, que se desfez com os primeiros raios de sol. A Corso (Corso Emanuele II, a rua chique da cidade, a vinte metros de casa) está toda iluminada, com lâmpadas que formam desenhos de milhões de flocos de neve. O comércio funciona até as nove da noite. Algumas lojas fecham às seis e reabrem às nove, ficando abertas até às onze. O movimento é intenso, mas não frenético.
Na Piazza Cavalli, como em todos os anos, a feira de Natal começou há sete dias. Vende de tudo: livros a preço de sebo, artesanato, luvas e roupas de lã, doces (torrones!) e uma variedade infinita de objetos para presente. As barracas são grudadas umas às outras, formando longos corredores sob o frio cortante. Poucas têm música, mas o clima de festa domina feirantes e clientes. À tradicional árvore de Natal formada por pequenas lâmpadas, foi incorporada uma de verdade, enorme! Os vendedores de castanhas assadas vão vencendo à tradição e conseguem ultrapassar o dia de finados, normalmente a data que marca o fim do consumo daquele produto. Começam a assemelhar-se às festas de Salvador… E um perfume de vinho quente se espalha pelos ângulos e cantos da praça.
A via Calzolai, também no centro, foi decorada com arcos de luzes, formando à noite um túnel iluminado que conduz à praça, centro de toda atividade.
O primeiro semestre do ano escolar chega ao fim. Serão duas semanas de férias e um vulcão parece despertar. Serão quinze dias sem escola, sem catecismo, sem basquete, sem vôlei, sem aula de jornalismo ou violão. Espero que as festas dos respectivos cursos, os passeios, as inúmeras apresentações de teatrinho ou coral, visitas aos amigos, ceia e almoço de Natal somados aos presentes, sejam suficientes para aplacar a ira do deus da lava.
Nesta época, os supermercados se enchem das chamadas furtas exóticas. É possível encontrar carambola por três euros a unidade; um par de maracujás por cinco euros; uma manga, dois euros e assim por diante. Até o abacate é considerada uma fruta exótica, ao contrário do abacaxi, que pode ser encontrado o ano inteiro e em abundância. Os amigos menos tímidos se desculpam pelo mau jeito e nos perguntam que parte comer de cada fruta. Pequenos diabinhos voam frenéticos em volta da minha cabeça, quando a pessoa não é exatamente um amigo e (juro!) às vezes me perturbam tanto que não consigo recordar das respostas dadas.
Mas é também esse o período de um dos meus passeios favoritos: sairmos todos juntos para tomar chocolate quente. Os bares com mesas na calçada (ou na rua mesmo) há muito colocaram os aquecedores para fora, normalmente sob um toldo ou outro tipo de proteção. São equipamentos a gaz, com uma forma que lembra um cogumelo e que impedem o congelamento dos clientes. Sentamos numa mesa próxima ao aquecedor, pedimos o chocolate, tão denso que precisa ser tomado a colheradas, quente até o fim. Um vento frio faz-se sentir em todas as partes que não estiverem protegidas pelo grosso casaco, geralmente de pena de ganso. As mesas ao lado estão sempre cheias e o mesmo ritual da colher se repete.
Longe do calor, das praias e das festas a que estava acostumado, dezembro vai ganhando um outro significado. O volume de trabalho nos faz esquecer um pouco as guerras e os nossos pequenos problemas. O frio nos aproxima e nos oferece a oportunidade de conversarmos e escutarmos mais. Caminhamos abraçados. A fina neve contribui para espalhar uma sensação de tranquilidade. O vapor que sobe das chaminés transforma a paisagem urbana numa pieguice bucólica, que só contribui para o clima quente dentro da gente.
Do alto dos beirais, as pombas encolhidas observam mudas o movimento constante.
Dezembro. Paz.
Ciao.
Paz e saúde!
Às oito o dia começa a amanhecer. Às cinco da tarde é já noite. As plantas sofrem com as poucas horas de sol, mas não conseguem entrar em letargo por causa do calor, nos vasos dentro de casa. Algumas não resistem. E não só elas. O nosso relógio biológico gira sem ponteiros. Fome de madrugada (que no meu caso ocorre também nos outros meses) sono durante o dia e uma insônia coletiva. As pessoas resistem à tentação de ficar na cama nos fins-de-semana, para que a vida não se transforme num eterno compromisso profissional. Ruas, lojas e cafés lotam. A fila do cinema só pode ser evitada com a reserva feita por telefone (lembrem-se: o italiano é craque em organizar o próprio lazer. Anos de experiência).
Dia oito de dezembro é feriado nacional na Itália. É dia santo. E isso me faz lembrar que é, também, o início das Festas de Largo em Salvador. Dia de Nossa Senhora da Conceição da Praia. A festa é comemorada em frente ao Mercado Modelo, com a lavagem das escadas da igreja da santa. Aliás, cabe uma retificação: não é o início das festas, mas apenas o marco de um novo ciclo, uma vez que as tais festas não têm fim. Teoricamente deveriam começar com a Festa da Conceição, ter o ponto alto na colina sagrada com a Lavagem do Bonfim e terminarem na última quinta-feira antes do próximo oito de dezembro. Mas já virou tudo uma coisa só. Falta apenas oficializar o feriado eterno em Salvador, o que, diga-se de passagem, não seria má idéia.
O sol de Salvador ajuda a aquecer minhas lembranças, mas eu vivo no presente. O meu presente é o inverno, o frio, sabores e perfumes diferentes daqueles da minha infância. A primeira neve já caiu, ainda tímida, que se desfez com os primeiros raios de sol. A Corso (Corso Emanuele II, a rua chique da cidade, a vinte metros de casa) está toda iluminada, com lâmpadas que formam desenhos de milhões de flocos de neve. O comércio funciona até as nove da noite. Algumas lojas fecham às seis e reabrem às nove, ficando abertas até às onze. O movimento é intenso, mas não frenético.
Na Piazza Cavalli, como em todos os anos, a feira de Natal começou há sete dias. Vende de tudo: livros a preço de sebo, artesanato, luvas e roupas de lã, doces (torrones!) e uma variedade infinita de objetos para presente. As barracas são grudadas umas às outras, formando longos corredores sob o frio cortante. Poucas têm música, mas o clima de festa domina feirantes e clientes. À tradicional árvore de Natal formada por pequenas lâmpadas, foi incorporada uma de verdade, enorme! Os vendedores de castanhas assadas vão vencendo à tradição e conseguem ultrapassar o dia de finados, normalmente a data que marca o fim do consumo daquele produto. Começam a assemelhar-se às festas de Salvador… E um perfume de vinho quente se espalha pelos ângulos e cantos da praça.
A via Calzolai, também no centro, foi decorada com arcos de luzes, formando à noite um túnel iluminado que conduz à praça, centro de toda atividade.
O primeiro semestre do ano escolar chega ao fim. Serão duas semanas de férias e um vulcão parece despertar. Serão quinze dias sem escola, sem catecismo, sem basquete, sem vôlei, sem aula de jornalismo ou violão. Espero que as festas dos respectivos cursos, os passeios, as inúmeras apresentações de teatrinho ou coral, visitas aos amigos, ceia e almoço de Natal somados aos presentes, sejam suficientes para aplacar a ira do deus da lava.
Nesta época, os supermercados se enchem das chamadas furtas exóticas. É possível encontrar carambola por três euros a unidade; um par de maracujás por cinco euros; uma manga, dois euros e assim por diante. Até o abacate é considerada uma fruta exótica, ao contrário do abacaxi, que pode ser encontrado o ano inteiro e em abundância. Os amigos menos tímidos se desculpam pelo mau jeito e nos perguntam que parte comer de cada fruta. Pequenos diabinhos voam frenéticos em volta da minha cabeça, quando a pessoa não é exatamente um amigo e (juro!) às vezes me perturbam tanto que não consigo recordar das respostas dadas.
Mas é também esse o período de um dos meus passeios favoritos: sairmos todos juntos para tomar chocolate quente. Os bares com mesas na calçada (ou na rua mesmo) há muito colocaram os aquecedores para fora, normalmente sob um toldo ou outro tipo de proteção. São equipamentos a gaz, com uma forma que lembra um cogumelo e que impedem o congelamento dos clientes. Sentamos numa mesa próxima ao aquecedor, pedimos o chocolate, tão denso que precisa ser tomado a colheradas, quente até o fim. Um vento frio faz-se sentir em todas as partes que não estiverem protegidas pelo grosso casaco, geralmente de pena de ganso. As mesas ao lado estão sempre cheias e o mesmo ritual da colher se repete.
Longe do calor, das praias e das festas a que estava acostumado, dezembro vai ganhando um outro significado. O volume de trabalho nos faz esquecer um pouco as guerras e os nossos pequenos problemas. O frio nos aproxima e nos oferece a oportunidade de conversarmos e escutarmos mais. Caminhamos abraçados. A fina neve contribui para espalhar uma sensação de tranquilidade. O vapor que sobe das chaminés transforma a paisagem urbana numa pieguice bucólica, que só contribui para o clima quente dentro da gente.
Do alto dos beirais, as pombas encolhidas observam mudas o movimento constante.
Dezembro. Paz.
Ciao.
quarta-feira, dezembro 01, 2004
Quatro Rodas
Caros e Caras,
Paz e saúde!
Certa vez, ouvi alguém dizer que para avaliar a civilidade de um povo, bastaria observar como as pessoas se comportam no trânsito. Geralmente esse tipo de frase vem precedida de um “segundo a Ciência…”, porque envolver a Ciência dá uma credibilidade pouco contestável. Desconheço a existência de qualquer estudo que possa ser considerado válido, a respeito da relação entre a civilidade e o comportamento no trânsito, mas devo admitir que faz um certo sentido.
O típico motorista de Salvador não chega a ser presunçoso, mas tem um “quê” de arrogância, além de memória fotográfica. Pode dirigir a duzentos por hora e mesmo assim é capaz de identificar todas as pessoas interessantes que cruzaram com ele. Ao encontrar um amigo, pára o carro no meio da rua para conversar e, talvez, combinar a cerveja do início de noite. Se o motorista seguinte decide buzinar, o primeiro colocará a cabeça para fora da janela e dirá – com o típico e alegre egocentrismo baiano: “Você não está vendo que EU estou parado aqui, não?”
Em Piacenza ainda não consegui me habituar a atravessar a rua sem medo, sobre a faixa de segurança. Eles param! Quanto menor o vilarejo, maior o respeito no trânsito. Um corolário óbvio é que nas grandes cidades a situação está mais próxima da nossa realidade, enquanto a Lei de Murphy se aplica o trânsito das grandes cidades do Sul. Na caótica Nápoles, por exemplo, o perigoso é estar fora de um carro (a pé, de moto ou bicicleta).
Uma experiência tão inútil quanto divertida é observar os garotos que passeiam pelas ruas de Salvador. Sozinhos ou em pequenos grupos, eles caminham pelas calçadas (andar pela rua em Salvador pode ser uma experiência única e definitiva) até encontrarem um automóvel estacionado com alguém dentro. No veículo em questão – e somente nele – passam a mão ou dão pequenas batidinhas em tom provocatório. É como mexer com um cão acorrentado: se alguém reclama, eles não dão bola. Mas se o cão estica a corrente ou alguém desce do carro, correm divertidos.
Já por aqui, a arrogância está nos pedestres. Caminhar por algumas calçadas de Piacenza pode transformar-se numa experiência desagradável e ácida: nos fins de tarde os pombos se recolhem nos beirais das casas (pombo não migra) e deixam o registro sobre os incautos pedestres. Talvez por esse motivo, o piacentino prefira caminhar pela rua e olhar aos que buzinam ou aceleram como quem diz: “Você não está vendo que EU estou andando aqui, não?”
O problema, para os motoristas, é que o automóvel em Piacenza – ou pelo menos no centro da cidade – é uma anomalia. As ruas são estreitas e curtas, e foram projetadas para a passagem de carroças e tropas do antigo exército romano. A bicicleta é o meio mais apropriado e todo mundo a usa. A legislação italiana também contribui para transformar a situação num verdadeiro exercício de auto-controle dos que são habilitados a guiar. Causar um acidente irá provocar enormes enxaquecas (no sentido figurado). Basta o motorista ou um passageiro do outro carro alegar uma forte dor de cabeça (no sentido literal) ou no pescoço, para que o médico do pronto-socorro meta um colar ortopédico e mande-o ficar quinze dias em casa. Pronto! O valor do seguro obrigatório vai para as estrelas. Atropelar um pedestre ou um ciclista, então, nem se fale! Perde-se a habilitação, o carro, a casa e a paz.
Morando há poucos meses na Itália, andava de bicicleta quando fui jogado ao chão por um motorista displicente. Como a rua estivesse movimentada e os limites de velocidade costumam ser respeitados durante o dia, não chegou a passar de um susto. O motorista parou imediatamente e, de dentro de um Citroen que deve ter pertencido a Colombo – parece um aquário feito de eucatex e vidro fino, com as portas que se abrem ao contrário – desceu quem eu imagino ter sido o motorista do próprio Cristóvão. O senhor mal se mantinha em pé. Tremia e chorava enquanto tentava pedir-me desculpas no incompreensível dialeto piacentino. As pessoas que estavam em um bar próximo saíram para ver o que acontecia, apesar do frio. Consegui convencê-los de que estava tudo bem, e que eles deveriam preocupar-se com o motorista que, àquela altura, amparado por dois tomadores de café, sentou-se na calçada soluçando e balbuciando. Peguei a bicicleta e sumi no tráfego antes que a situação piorasse e que aparecesse uma ambulância, com a promessa dos samaritanos de que eles cuidariam do desolado e frustrado piloto ancião.
Ao contar o caso aos amigos, fui duramente criticado. Segundo eles, eu deveria ter ficado no chão, chorando e gritando até a ambulância chegar. É como uma aposentadoria: poderia ter parado de trabalhar e receberia uma renda vitalícia.
O seguro obrigatório custa uma fortuna, e todos os carros devem manter expostos num envelope de plástico colado ao vidro, a parte que identifica a companhia seguradora com a data de vencimento bem visível. Mas quem vai fazer uma viagem longa pode comunicar à seguradora e suspender o seguro pelo tempo em que o carro estiver na garagem.
Por aqui os cães não costumam ser acorrentados, e as crianças não têm o hábito de passar a mão nos carros. Mas os motoristas param quando há um pedestre sobre a faixa de segurança. A arrogância dos passantes é coisa dos tempos de Colombo (que na realidade se chamava Cristoforo), mas somos todos pedestres em algum momento do dia, em Piacenza ou Salvador, e esta é uma condição que a existência dos pombos não nos permite esquecer.
Enquanto a Ciência se ocupar mais com o desenvolvimento dos carros que com os problemas do trânsito, nós, pedestres, podemos contar só com a boa vontade e gentileza encontradas nos vilarejos.
Ciao.
Paz e saúde!
Certa vez, ouvi alguém dizer que para avaliar a civilidade de um povo, bastaria observar como as pessoas se comportam no trânsito. Geralmente esse tipo de frase vem precedida de um “segundo a Ciência…”, porque envolver a Ciência dá uma credibilidade pouco contestável. Desconheço a existência de qualquer estudo que possa ser considerado válido, a respeito da relação entre a civilidade e o comportamento no trânsito, mas devo admitir que faz um certo sentido.
O típico motorista de Salvador não chega a ser presunçoso, mas tem um “quê” de arrogância, além de memória fotográfica. Pode dirigir a duzentos por hora e mesmo assim é capaz de identificar todas as pessoas interessantes que cruzaram com ele. Ao encontrar um amigo, pára o carro no meio da rua para conversar e, talvez, combinar a cerveja do início de noite. Se o motorista seguinte decide buzinar, o primeiro colocará a cabeça para fora da janela e dirá – com o típico e alegre egocentrismo baiano: “Você não está vendo que EU estou parado aqui, não?”
Em Piacenza ainda não consegui me habituar a atravessar a rua sem medo, sobre a faixa de segurança. Eles param! Quanto menor o vilarejo, maior o respeito no trânsito. Um corolário óbvio é que nas grandes cidades a situação está mais próxima da nossa realidade, enquanto a Lei de Murphy se aplica o trânsito das grandes cidades do Sul. Na caótica Nápoles, por exemplo, o perigoso é estar fora de um carro (a pé, de moto ou bicicleta).
Uma experiência tão inútil quanto divertida é observar os garotos que passeiam pelas ruas de Salvador. Sozinhos ou em pequenos grupos, eles caminham pelas calçadas (andar pela rua em Salvador pode ser uma experiência única e definitiva) até encontrarem um automóvel estacionado com alguém dentro. No veículo em questão – e somente nele – passam a mão ou dão pequenas batidinhas em tom provocatório. É como mexer com um cão acorrentado: se alguém reclama, eles não dão bola. Mas se o cão estica a corrente ou alguém desce do carro, correm divertidos.
Já por aqui, a arrogância está nos pedestres. Caminhar por algumas calçadas de Piacenza pode transformar-se numa experiência desagradável e ácida: nos fins de tarde os pombos se recolhem nos beirais das casas (pombo não migra) e deixam o registro sobre os incautos pedestres. Talvez por esse motivo, o piacentino prefira caminhar pela rua e olhar aos que buzinam ou aceleram como quem diz: “Você não está vendo que EU estou andando aqui, não?”
O problema, para os motoristas, é que o automóvel em Piacenza – ou pelo menos no centro da cidade – é uma anomalia. As ruas são estreitas e curtas, e foram projetadas para a passagem de carroças e tropas do antigo exército romano. A bicicleta é o meio mais apropriado e todo mundo a usa. A legislação italiana também contribui para transformar a situação num verdadeiro exercício de auto-controle dos que são habilitados a guiar. Causar um acidente irá provocar enormes enxaquecas (no sentido figurado). Basta o motorista ou um passageiro do outro carro alegar uma forte dor de cabeça (no sentido literal) ou no pescoço, para que o médico do pronto-socorro meta um colar ortopédico e mande-o ficar quinze dias em casa. Pronto! O valor do seguro obrigatório vai para as estrelas. Atropelar um pedestre ou um ciclista, então, nem se fale! Perde-se a habilitação, o carro, a casa e a paz.
Morando há poucos meses na Itália, andava de bicicleta quando fui jogado ao chão por um motorista displicente. Como a rua estivesse movimentada e os limites de velocidade costumam ser respeitados durante o dia, não chegou a passar de um susto. O motorista parou imediatamente e, de dentro de um Citroen que deve ter pertencido a Colombo – parece um aquário feito de eucatex e vidro fino, com as portas que se abrem ao contrário – desceu quem eu imagino ter sido o motorista do próprio Cristóvão. O senhor mal se mantinha em pé. Tremia e chorava enquanto tentava pedir-me desculpas no incompreensível dialeto piacentino. As pessoas que estavam em um bar próximo saíram para ver o que acontecia, apesar do frio. Consegui convencê-los de que estava tudo bem, e que eles deveriam preocupar-se com o motorista que, àquela altura, amparado por dois tomadores de café, sentou-se na calçada soluçando e balbuciando. Peguei a bicicleta e sumi no tráfego antes que a situação piorasse e que aparecesse uma ambulância, com a promessa dos samaritanos de que eles cuidariam do desolado e frustrado piloto ancião.
Ao contar o caso aos amigos, fui duramente criticado. Segundo eles, eu deveria ter ficado no chão, chorando e gritando até a ambulância chegar. É como uma aposentadoria: poderia ter parado de trabalhar e receberia uma renda vitalícia.
O seguro obrigatório custa uma fortuna, e todos os carros devem manter expostos num envelope de plástico colado ao vidro, a parte que identifica a companhia seguradora com a data de vencimento bem visível. Mas quem vai fazer uma viagem longa pode comunicar à seguradora e suspender o seguro pelo tempo em que o carro estiver na garagem.
Por aqui os cães não costumam ser acorrentados, e as crianças não têm o hábito de passar a mão nos carros. Mas os motoristas param quando há um pedestre sobre a faixa de segurança. A arrogância dos passantes é coisa dos tempos de Colombo (que na realidade se chamava Cristoforo), mas somos todos pedestres em algum momento do dia, em Piacenza ou Salvador, e esta é uma condição que a existência dos pombos não nos permite esquecer.
Enquanto a Ciência se ocupar mais com o desenvolvimento dos carros que com os problemas do trânsito, nós, pedestres, podemos contar só com a boa vontade e gentileza encontradas nos vilarejos.
Ciao.
Assinar:
Comentários (Atom)