Wednesday, December 15, 2004

Domingo Passado

Caros e Caras,
Paz e saúde!

Esquentou. Esse inverno está meio confuso. Pensei que fosse nevar forte e não nevou. Céu limpo pra brigadeiro mostrar as próprias habilidades. Passeando pela cidade, as meninas ficam com frio quando atravessamos um trecho à sombra e com calor sob o sol. A temperatura muda em até dez graus em questão de metros. Isso me faz lembrar a lição da Kamany, minha cadela akita e fiel companheira até a morte. Sob o sol de Salvador apressava o passo, para depois reduzir até quase sentar-se, à sombra. Língua pra fora, ofegava com a boca aberta, tentando expelir o ar quente e trocá-lo por um mais fresco. Só que o efeito era o inverso: seus pulmões estavam mais frescos que o ar que respirava. Água. Sombra e uma toca que ela mesma cavava.

Os cães passeiam sem roupas neste inverno, pois roupa de cachorro saiu de moda. O frio maltrata os de pêlos mais curtos e eles não podem nem mesmo tomar um chocolate quente para aquecer. Nem água, porque esfria ainda mais. A guerra dos ventos ainda não foi vencida pelos do Norte, alternando dias quentes com dias frios. Mas todos são unânimes em afirmar que realmente é um inverno atípico, com temperaturas acima da média. “Normalmente a neve começava a cair em novembro” diz um piacentino ancião. Estamos em dezembro e necas de pitibiribas!

Leio que a posição dos pólos está se invertendo. Um dia, o Norte será no Sul. Não vou esperar pra conferir. Teria cinqüenta mil e quarenta e cinco anos. A mesma revista noticia a venda de tampas plásticas para copos nos pubs ingleses (como aquelas do Mac Donald), como medida para evitar a alteração das bebidas, cujo objetivo seria o estupro. Custam em torno de trinta e cinco centavos de Euro, numa demonstração da capacidade de alguns em ganhar dinheiro em qualquer situação.

Um pároco da cidade de Lecce, no sul da Itália, colocou um cartaz no alto da porta da sua igreja: “Aberta aos domingos.” Tempos duros. A concorrência dos shopping centers e lojas que fazem de tudo para atrair consumidores, irritou o padre. Talvez poucos se recordem que a festa é deles, da Igreja, vazia aos domingos antes do Natal. Os fiéis deveriam recordar, por mais que a mensagem tenha sido distorcida, da origem sagrada da festa. Pelo menos o simpático padre decidiu que não os deixará esquecer.

A Eloá chama a minha atenção para o colorido da estação. Apesar do preto não sair nunca de moda nessa terra, já é possível não pensar em uniforme de inverno, com o preto que dominava da cabeça aos pés em mais de noventa por cento das pessoas. Meias marrons, porém, nem com anúncio de jornal. Que diabos eles fizeram com as meias marrons? Taí um presente que me agradaria neste Natal: uma boa quantidade de meias marrons, que, pela raridade, devem custar mais que uma caixa de charutos cubanos.

Os filmes de Natal tornam-se cada vez menos interessantes. O “Expresso Polar” é pobre de enredo, apesar de ser um típico conto de Natal e apesar do processo da filmagem. As meninas nem comentaram o filme. “Qual a parte que você mais gostou?” é como elas costumam reagir ao final de cada filme. Dessa vez, necas de pitibiribas! Me rendo. Vão assistir “Os Incríveis” e assistir a fita do “Grinch”. Dias melhores virão. Espero.

Café, charuto e caminhada. Aproveitamos as poucas horas de sol para brincar de Kamany. Chocolate quente a ser tomado de colher. Denso. As pessoas reclamam do tráfego, aumentado pelo frio que desestimula as saídas em bicicleta. Reclamam da escassez de vagas para estacionar e eu sugiro: “vá de bicicleta!” Ninguém me ouve. Quem não tem carro prefere pegar o ônibus. Quem precisa economizar ou está habituado ao frio tradicional desta época, não reclama do tráfego ou da falta de vagas: vai de bicicleta e economiza piadas espirituosas. Eu, simplesmente caminho. Sorrio entre uma baforada e outra. Sinto o cheiro das castanhas assadas e penso em acarajé. Caminho e sorrio. Dou baforadas.

É mais fácil atravessar esta época do ano se chove, neva ou simplesmente está nublado. Em um dia de sol os olhos enganam a mente, que vai buscar na memória as sensações de outros domingos ensolarados.

Os jogadores de vôlei Anderson e Sérgio, portadores da medalha de ouro dos últimos Jogos Olímpicos, foram contratados pelo time da cidade há poucos meses. Se a família de Sérgio não chegar antes do Natal, provavelmente ele não irá resistir. Confessa pelos cantos a vontade de voltar. Cena comum. Muita gente comenta ter vontade de vir morar fora. Muitos me pedem dicas e conselhos. “Venha. Mas considere a possibilidade de voltar logo.” Respondo. A maioria espera encontrar um pote de ouro, e acaba indo trabalhar na fábrica de potes. Caminhado, vejo muitas dessas faces. De quem está juntando dinheiro para voltar. Já nós, vivemos aqui, pensamos aqui e caminhamos aqui. Por isso sorrimos. Vivemos esse inverno como um inverno bizarro e não nos preocupamos com as diferenças entre esses dias e aqueles domingos nas nossas memórias. Nos adaptamos e vamos nos divertindo com cada nova descoberta, a cada tradição adquirida.

Nos dias ensolarados de inverno, passeamos e tomamos chocolate quente. Sapatos marrons com meias vermelho-escuras ou cinzas. Meias marrons? Necas de pitibiribas!
Bah…! Dou baforadas.

Ciao.

14 comments:

Anonymous said...

Corro do frio. Não que o tema, sou bem resistente a ele, só que não me atrai. Calor intenso e pouca roupa. Uma pena que isso só fica bem num dia de domingo ou feriado nacional. Não suporto um domingo em casa. Dentro de casa. Ao menos quero passá-lo no quintal, em uma piscina. Apesar de minha sensibilidade tropical acho o natal uma época boa. Minha mãe fazia questão de que Papai Noel comparecesse em casa na noite de véspera de natal, e passamos alguns anos, eu e meus irmãos, fingindo crer no velhinho para não quebrar a magia. Claro que minha mãe sabia. E tuas meninas ainda acreditam? Abraço.
Reginaldo Siqueira singrando.org

A Farsante said...

Já nós, vivemos aqui, pensamos aqui e caminhamos aqui. Por isso sorrimos. Vivemos esse inverno como um inverno bizarro e não nos preocupamos com as diferenças entre esses dias e aqueles domingos nas nossas memórias. Nos adaptamos e vamos nos divertindo com cada nova descoberta, a cada tradição adquirida.Eu acho que também seria uma estrangeira desse tipo. Não digo que no Iraque tenha sido assim, pois era diferente. Eu estava cercada de brasileiros. Mas acho que até já disse aqui que queria ser um pouco estrangeira por um certo tempo ou mesmo por muito tempo, não sei. Engraçado, lendo seus textos eu sinto como se você estivesse tão distante, e numa realidade tão diferente... Como se vivesse em outro planeta, sabe? E o curioso é que, quando estive fora, por mais incríveis que fossem as novidades, aquilo era minha vida. Uma coisa meio lá, meio cá, meio oito e oitenta ao mesmo tempo. Queria sentir isso de novo.
Beijos,
Mônica (do Monicômio)

Claudio Costa said...

"É mais fácil atravessar esta época do ano se chove, neva ou simplesmente está nublado. Em um dia de sol os olhos enganam a mente, que vai buscar na memória as sensações de outros domingos ensolarados." Gostaria de ter escrito uma frase tão bela quanto essa! Não é elogio barato (pois que vc não merece nem sou disso). Às vezes me sinto como o poeta Drummond, que disse: "Lutar com palavras é luta mais vã, entanto lutamos mal rompe a manhã." A gente que escreve luta e luta, mas o melhor é quando a gente consegue "brincar" com elas... aí, é a glória!

Rafael Galvão said...

Frio na sombra, calor no sol só me lembra Brasília. E eu não gosto de Brasília.

Agora, vi que você colocou seu e-mail online. Sugiro que modifique, coloque algo como allanrpjRETIREISTO@gmail.com; do contrário, não demora muito até você receber muito, muito, muito, muito spam. :)

Anonymous said...

O que vc prefere? um calor de 33 graus, que é o que Salvador está fazendo? rs.....Hoje ao caminhar pelo Farol da Barra, lembrei-me dos seu post sobre o sublime pôr do sol..
Pena, que mesmo morando e sendo daqui , não goste tanto dessa cidade como vc parece gostar...

um abraço

Márcia Motta

Patricia said...

Adorei o relato.
Adorei o seu jeito de escrever.
Acho que vou voltar aqui mais vezes pra conhecer e partilhar um bocadinho dessa tua visão da Itália.

Grande abraço,

Patricia

Milton said...

Amigo Allan!

Esta história é verdadeira: sob um calor de 30 graus à noite, escrevi rapidamente meu post. Pedi para a Claudia ler e ela, com fome, só corrigiu os erros de digitação. Eu tinha a intenção de reler o texto para publicá-lo logo após à meia-noite mas... necas de pitibiribas! Dormi. Quando acordei, às 6h30, pensei: pô, o Allan perdeu a quarta parte do António Barbeiro. Fui direto para o micro que estava ligado assim como todas as luzes da casa (a Claudia também tinha desmaiado de sono) e lá estava o teu comentário. Gozado, né?

Não gosto do verão e acho que vou adotar a estratégia da tua cadela. O ideal - para mim - é como fazia o crítico de música erudita Herbert Caro. Ele fugia para a Alemanha entre dezembro e março, depois voltava nos meses em que a vida é possível em Porto Alegre.

Nãoentendi muito bem a coisa do estupro pela alteração da bebida...

Grande abraço.

Denise Arcoverde said...

Allan, fico feliz quando leio seus posts, além de bem escritos, sábios... gosto de ver como vocês lidam com a "vida de imigrante"... é isso mesmo, como eu sempre repito "O melhor lugar do mundo é aqui e agora"...

Sabe o que foi interessante, dessa vez? agora li seu post com a foto da linda família na mente, então, ficou muito mais "claro"... a foto já está lá na nossa Galeria de Natal, as filhas e a Eloá são lindas... só não dá pra ver que a meia não era marrom ;)

Mineiras, Uai! said...

Olá, olá meu caro!!! Bacana seu texto, hein Allan! Quanto à sugestão do engov, valeu! Um ponto pra vc e das meias marrons ponto negativo....

Bjocas da Dodô!!!

Anonymous said...

Allan, muito obrigada pelo conselho lá no meu blog. Não consegui ficar muito tranqüila, mas no final, como você bem disse, deu tudo certo. Obrigada mesmo, achei muito gentil da sua parte!
Um beijo,
Tati (do Scream of the Butterfly)

Felicia Luisa said...

ESCAMBO:
Troco pacote de meias marrons (mas aviso que é da H&M) por deliciosos biscoitos italianos (esqueci o nome dos danados, pode?). Contatos pelo site:
http://adonadoblog.blogspot.com.
Atenciosamente,
A Dona:)

Manoel Carlos said...

Antigamente, os padres usavam meias pretas, os cônegos meias roxas e iam mudando as cores das meias de acordo com a hierarquia eclesiástica. Não havia marrom.
Você usou a conhecida expressão "Céu de Brigadeiro", pois ontem mesmo o apedeuta-mor, ocupante da presidência da república, usou a expressão "céu de almirante", como os lulistas sempre fizeram, pois é mais fácil todos falarem errado a fazerem-no falar corretamente, avesso ao estudo que é, provavelmente todos passarão a usar a nova expressão.

Anonymous said...

Divino!
Simplesmente divino!

Frank & Gaia

Leila Silva said...

Cadelinha sabia essa, Allan...
E verdade, ha muitos brasileiros interessados em saber como e' a vida no estrangeiro e parece que o Brasil nunca 'exportou' tanta gente. Nao comecou agora, agora mas na epoca Collor...Agora que estou no Brasil, ha sempre alguem querendo saber, como voce disse, sobre a vida na Europa ou nos Estados Unidos. Muitos tem uma ideia completamente equivocada da relacao salario e custo de vida...
Como sempre o seu texto 'e claro e cristalino, muito bom mesmo de ler.
Abracos
PS: Espero que nos vejamos antes do natal :)...senao, feliz natal desde ja (embora eu nao seja assim tao crista...mas vale a festa)