Tuesday, December 07, 2004

Dezembro

Caros e Caras,
Paz e saúde!

Às oito o dia começa a amanhecer. Às cinco da tarde é já noite. As plantas sofrem com as poucas horas de sol, mas não conseguem entrar em letargo por causa do calor, nos vasos dentro de casa. Algumas não resistem. E não só elas. O nosso relógio biológico gira sem ponteiros. Fome de madrugada (que no meu caso ocorre também nos outros meses) sono durante o dia e uma insônia coletiva. As pessoas resistem à tentação de ficar na cama nos fins-de-semana, para que a vida não se transforme num eterno compromisso profissional. Ruas, lojas e cafés lotam. A fila do cinema só pode ser evitada com a reserva feita por telefone (lembrem-se: o italiano é craque em organizar o próprio lazer. Anos de experiência).

Dia oito de dezembro é feriado nacional na Itália. É dia santo. E isso me faz lembrar que é, também, o início das Festas de Largo em Salvador. Dia de Nossa Senhora da Conceição da Praia. A festa é comemorada em frente ao Mercado Modelo, com a lavagem das escadas da igreja da santa. Aliás, cabe uma retificação: não é o início das festas, mas apenas o marco de um novo ciclo, uma vez que as tais festas não têm fim. Teoricamente deveriam começar com a Festa da Conceição, ter o ponto alto na colina sagrada com a Lavagem do Bonfim e terminarem na última quinta-feira antes do próximo oito de dezembro. Mas já virou tudo uma coisa só. Falta apenas oficializar o feriado eterno em Salvador, o que, diga-se de passagem, não seria má idéia.

O sol de Salvador ajuda a aquecer minhas lembranças, mas eu vivo no presente. O meu presente é o inverno, o frio, sabores e perfumes diferentes daqueles da minha infância. A primeira neve já caiu, ainda tímida, que se desfez com os primeiros raios de sol. A Corso (Corso Emanuele II, a rua chique da cidade, a vinte metros de casa) está toda iluminada, com lâmpadas que formam desenhos de milhões de flocos de neve. O comércio funciona até as nove da noite. Algumas lojas fecham às seis e reabrem às nove, ficando abertas até às onze. O movimento é intenso, mas não frenético.

Na Piazza Cavalli, como em todos os anos, a feira de Natal começou há sete dias. Vende de tudo: livros a preço de sebo, artesanato, luvas e roupas de lã, doces (torrones!) e uma variedade infinita de objetos para presente. As barracas são grudadas umas às outras, formando longos corredores sob o frio cortante. Poucas têm música, mas o clima de festa domina feirantes e clientes. À tradicional árvore de Natal formada por pequenas lâmpadas, foi incorporada uma de verdade, enorme! Os vendedores de castanhas assadas vão vencendo à tradição e conseguem ultrapassar o dia de finados, normalmente a data que marca o fim do consumo daquele produto. Começam a assemelhar-se às festas de Salvador… E um perfume de vinho quente se espalha pelos ângulos e cantos da praça.

A via Calzolai, também no centro, foi decorada com arcos de luzes, formando à noite um túnel iluminado que conduz à praça, centro de toda atividade.

O primeiro semestre do ano escolar chega ao fim. Serão duas semanas de férias e um vulcão parece despertar. Serão quinze dias sem escola, sem catecismo, sem basquete, sem vôlei, sem aula de jornalismo ou violão. Espero que as festas dos respectivos cursos, os passeios, as inúmeras apresentações de teatrinho ou coral, visitas aos amigos, ceia e almoço de Natal somados aos presentes, sejam suficientes para aplacar a ira do deus da lava.

Nesta época, os supermercados se enchem das chamadas furtas exóticas. É possível encontrar carambola por três euros a unidade; um par de maracujás por cinco euros; uma manga, dois euros e assim por diante. Até o abacate é considerada uma fruta exótica, ao contrário do abacaxi, que pode ser encontrado o ano inteiro e em abundância. Os amigos menos tímidos se desculpam pelo mau jeito e nos perguntam que parte comer de cada fruta. Pequenos diabinhos voam frenéticos em volta da minha cabeça, quando a pessoa não é exatamente um amigo e (juro!) às vezes me perturbam tanto que não consigo recordar das respostas dadas.

Mas é também esse o período de um dos meus passeios favoritos: sairmos todos juntos para tomar chocolate quente. Os bares com mesas na calçada (ou na rua mesmo) há muito colocaram os aquecedores para fora, normalmente sob um toldo ou outro tipo de proteção. São equipamentos a gaz, com uma forma que lembra um cogumelo e que impedem o congelamento dos clientes. Sentamos numa mesa próxima ao aquecedor, pedimos o chocolate, tão denso que precisa ser tomado a colheradas, quente até o fim. Um vento frio faz-se sentir em todas as partes que não estiverem protegidas pelo grosso casaco, geralmente de pena de ganso. As mesas ao lado estão sempre cheias e o mesmo ritual da colher se repete.

Longe do calor, das praias e das festas a que estava acostumado, dezembro vai ganhando um outro significado. O volume de trabalho nos faz esquecer um pouco as guerras e os nossos pequenos problemas. O frio nos aproxima e nos oferece a oportunidade de conversarmos e escutarmos mais. Caminhamos abraçados. A fina neve contribui para espalhar uma sensação de tranquilidade. O vapor que sobe das chaminés transforma a paisagem urbana numa pieguice bucólica, que só contribui para o clima quente dentro da gente.

Do alto dos beirais, as pombas encolhidas observam mudas o movimento constante.
Dezembro. Paz.

Ciao.

12 comments:

Milton said...

Não lembro de ter lido. (Será que já te perguntei isto?) O que fazes na Itália além de nos dar belos relatos invernais como este? Grande abraço.

Anonymous said...

Não pretendo abrir mão desse calor gostoso tão cedo, mas lendo o seu texto senti os perfumes que você descreve (que conheço bem) e bateu uma saudade do frio aconchegante da Itália.
Abração,
Diogo

Anonymous said...

Além de ter a sensação de ter nascido na época errada, acho às vezes que nasci no clima errado tb. Odeio calor. como tb não gosto de cerveja nem vinho gelado, fico muito pouco amigável nessa época. Meu negócio é frio, conhaque, vinho tinto e...soja! Mas concordo numa coisa contigo: festas e Salvador são tudo de bom nesta vida. E de noite, Buenos Aires. Na hora do almoço, qualquer lugar do sul da Itália.
Como é bom sonhar! Abração.

maray

asa said...

Ola' Allan

Curioso, aqui mais a norte, em Glasgow, ainda nao nevou. Comeco a pensar que no Reino Unido neva em todo o lado menos em Glasgow. Fica escuro as 15:30 quando o ceu esta' nublado, mas hoje como tivemos um dia de sol espetacular, ha' ainda um resquicio de luz la' fora.

No domingo a cidade parecia um formigueiro de gente. Havia ate' uma banda de samba a tocar na rua, perto do concert hall (banda apenas mulheres que tocam varios tipos de percurssao) O Lucio Marcello, um amigo italiano tb a estudar em Glasgow, apareceu de surpresa. E entao aprendi com ele alguns passos de capoeira ao som de samba nas ruas natalicias e apinhadas de gente. E' por isso que gosto tanto da Escocia. Para alem das outras mil razoes fortes que o tempo e o espaco me impedem de contar aqui agora.

Abraco de uma portuguesa em Glasgow

ver

PS desculpa a falta de acentos, teclado alergico.

Márcia Maia said...

Aqui em Recife, também é feriado. As pessoas sobem o morro, na devoção da Virgem, ou dançam e bebem e riem na parte profana da festa. O dia é claro, azul e quente, mas há brisa. A praia decerto está repleta. E a preguiça a todos contamina. Entre um gole e outro de cerveja. Bem gelada.
Um beijo.

Anonymous said...

Allan, vc. hoje ar-re-ben-tou!!!
Continuo adorando teus posts.
Lulu

Anonymous said...

Allan,
Entao bom natal...
e ano novo tambem.....
Meire

Anonymous said...

Como disse a Lulu, arrebentou mesmo! Quando morava no Iraque, eu adorava dezembro, embora odeie essa história de Natal. Aqui no Brasil, detesto esse mês famigerado. Acho que gosto mais de frio do que de épocas, de ocasiões. Quando tá frio, até o enjoado do Natal parece ficar mais leve.
Mas, sobre o texto: eu às vezes morro de preguiça achando que as pessoas são só um bando de bichos. Quando vejo, como vi ontem, aquela fila enooorme de carros na entrada dos shoppings, penso que aquilo é um bando de porcos indo para o matadouro. Lendo seu texto, porém, continuo pensando que somos bichos, mas de um tipo muito mais interessante. Sei lá se é porque o tapete do vizinho parece sempre mais colorido do que o nosso, mesmo quando não gostamos das cores.
Beijos,
Mônica.

golb said...

[off-topic]Allan, acabo de ler no Rafael Galvão que você fez referência ao Boitatá, que colocou no blog dele um post publicado aqui no Carta da Itália.

Como fui eu que sugeri a ele, num comentário, a leitura do texto, achei melhor esclarecer pra você o que aconteceu.

Ao contrário do que estão fazendo com o Rafael, o Boitatá não colocou um hotlink, apenas transcreveu o post, colocando os créditos (o que, aliás, você mesmo fez questão de dizer no blog do Rafael). Não sei por que, mas fiquei com a impressão que você não gostou muito de ver seu texto em blog alheio, posso estar enganado.

De todo modo, se você achar melhor, posso explicar o ocorrido e pedir para o Boitatá retirar, tenho certeza de que a intenção dele foi apenas divulgar o assunto, dada sua relevância.

Saudações!

golb said...

Melhor assim, Allan.
Tudo certo, como sempre.
Forte abraço!

cadê o ralo said...

Ciao Allan! Eu tô virando pomba encolhida... domingo passado me animei todinha prá ir no centro, mercadinho de Natal. Depois de passar duas horas (digo, duas horas) entre engarrafamentos e procura enlouquecida de uma vaga, suspirei e voltei prá o meu cobertor. Eu gosto mesmo é da Rua da Alfandega!
Beijos

Manoel Carlos said...

Talvez tocado pelo "espírito natalino", você fez uma crônica terna.
E, é claro, bem escrita, narrativa leve e solta.