Sunday, August 15, 2004

Ferragosto

Caros e Caras,
Paz e saúde!

Toda sexta-feira em Salvador é dia de branco. As pessoas vestem a cor da paz em homenagem ao Senhor do Bonfim, padroeiro da cidade. Muitos vão até a Colina Sagrada para a missa, ou simplesmente para, num curto passeio, absorver a energia que se multiplica e se divide entre os passantes. Próximo ao Carnaval, todos os dias são sextas-feiras e a euforia transborda dos copos de cerveja e dos cocos gelados; inunda as praias num tom dourado e se mistura com uma água ora verde, ora azul. Quando isso acontece, todos se tornam baianos e comungam a mesma fé: o Carnaval das cores.

Como falar de uma emoção a quem nunca a viveu? A vocês, pobres mortais que desconhecem a sensação descrita no parágrafo acima, é inútil dizer que o clima desta semana na Itália é idêntico àquele respirado em Salvador antes do Carnaval. O sacro e o profano se misturam naquele que os italianos chamam de o mais louco e mais esperado fim-de-semana do ano. Quinze de agosto, Assunção de Nossa Senhora: feriado na Europa católica, que na Itália chama-se Ferragosto.

As estradas estão paradas, nada se move. Um mar de carros cobre cada pedaço de asfalto, um odor acre, exalado da centopéia automobilística, sugere já não haver vida dentro dos veículos, cujos ocupantes morreram (provavelmente) de impaciência ou pelo calor saariano que os ventos africanos nos sopraram. A Europa arde. E isso nem chega a ser um pleonasmo.

O país se divide em dois: a Itália das férias e a Itália em férias.

A Itália das férias se encontra nas cidades de praia ou de montanha, onde cada espaço conquistado é defendido como a virgindade da filha única pelo pai arruinado: “…é tudo o que me resta. Que ninguém se atreva ou leva bala!” O aluguel diário da espreguiçadeira e do guarda-sol custam mais caro que comprá-los novos, mas você tem a vantagem de comprar, também, o espaço que eles ocupam, pois já estão montados e o resto da areia foi tomado por quem chegou antes, muito antes de você. Pague e não reclame, ou algum turista espertinho pode pagar na sua frente e adeus espaço! No restaurante, a sensação é maravilhosa (se você chegar antes do meio-dia) pois os garçons são italianos e dá pra entender o que eles falam; ao contrário das praias e pontos turísticos, onde milhares de línguas e dialetos se misturam num exercício confuso de democracia. Vá em grupo, assim o sorteio para ver quem irá deixar o olho para pagar a conta pode livrar sua cara.

A Tv, sádica, mostra o resultado dos inexperientes que deixaram a viagem para a última hora e dão dicas de como voltar vivo das férias.
- Onde está a sua carteira e o celular? – Pergunta a repórter ao jovem prestes a entrar no mar.
- Na pochete… – Responde o rapaz.
- E onde está a pochete?
- Na sacola…
- … E a sacola? – Insiste a repórter.
- Embaixo do guarda-sol.
- E quem está tomando conta?
- …Ninguém!!??! – Diz o jovem, já atônito.
Mais de noventa por cento dos italianos agem desta maneira, mas não contem aos ratos de praia de Copacabana, acostumados com o arrastão e outras modalidades de furtos.

Nas cidades de montanha, onde ainda é possível respirar e dormir à noite sem ar-condicionado, é preciso fazer reservas nos hotéis que abrem neste período com um ano de antecedência, normalmente ocupados pelos mesmos idosos por anos a fio. Não espere encontrar nestes locais nada de excitante, além do ar puro e restaurantes lotados. De resto, é tudo igual.

A Itália em férias não existe. Os bares estão fechados, as padarias estão fechadas, as farmácias estão fechadas, as bancas de jornais estão fechadas. Enfim, a cidade está fechada. Somente as piscinas públicas estão abertas, mas os funcionários te olham com desaprovação tão profunda, que você não consegue esquecer nem por um minuto de que eles também não viajaram de férias e, pior: estão trabalhando! A cena se repete em todas as cidades entre o mar e a montanha. As únicas exceções são Roma e Florença, por causa do grande fluxo turístico e apesar do calor abafado. Mas encontrar um restaurante aberto naquelas cidades requer paciência, espírito aventureiro e muita fome.

Há três anos tivemos um vazamento na banheira que provocou uma infiltração no teto do vizinho de baixo. Chamamos o nosso encanador, que é o único autorizado a instalar o aquecedor de água e todas as torneiras com “C” e “H” (cold – frio e Hot – quente, em inglês, mas que eles traduzem como caldo – quente em italiano e H de …ah! Quem se importa?). Dois dias depois ele nos respondeu, da França, para informar que voltaria em dez dias. Procuramos outros profissionais, mas eles estavam todos em férias. O serviço de emergência da prefeitura nos sugeriu fechar o registro e tomar banho na casa de algum amigo. Inútil tentar explicar que todos os amigos também estavam de férias. Para nossa sorte, o cunhado de um amigo do nosso vizinho, um outro encanador (o sujeito, não o vizinho), não havia viajado, mas nos informou que cobraria uma taxa para sermos atendidos antes das inúmeras outras emergências. Veio, quebrou a parede, não descobriu o vazamento e só voltou quinze dias depois, quando o nosso encanador já havia feito o conserto. E nos apresentou a conta por abrir e fechar o buraco na parede. Um hotel nos teria saído mais barato.

Domingo, 15 de agosto. Ferragosto. Quando for programar sua viagem à Itália, lembre-se: evite esta data. Vista-se de branco e vá ao Bonfim. E reze por nós.

Ciao.

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Post Sctiptum:


Atualização sobre o tema "Ferragosto" aqui.

13 comments:

Anonymous said...

Quando em Roma, vi um filme chamado Ferragosto, muito divertido. Nele trabalhava a atriz italiana mais linda do mundo que eu queria muito lembrar onome dela! Morena, na época com 43 anos, agora deve estar com 50.

Lá no Fundão, muitos funcionários iam de branco na sexta. E uma professora dasBelas Artes também!
Já foi no site de arte? não é deslumbrante? já te mandei o convite pro Multiply.
Angela

Rafael Galvão said...

Os italianos são os brasileiros sem o jeitinho brasileiro?

Anonymous said...

Allan,
Estive em Roma há alguns anos e voltei com a impressão de não ter aproveitado como deveria. Depois de ler o seu texto Roma, cidade aberta (Fellini?) descobri que realmente saí com a impressão errada, mas não entendia porque. Acabo de decidir que voltarei a Roma neste ano, quando o verão europeu acabar. Muito obrigado!
Abração, Lenine

Anonymous said...

tio, cansei. vc escreve muito. eh tudo muito comprido.
vc viajou e nadica de fotos? roma? sao benedeto sei lá o que? cade as fotos? pedroluis

Anonymous said...

Allan,
Gostei do conselho. Vou fazer como o Lenine, do comentário acima, e visitar Roma após o verão. Mas como não sou besta, vou visitar Salvador agora. E rezar por você! ;)
Abraços,
Luis Becker

Anonymous said...

Allan, tô começando a acreditar que os italianos são realmente exagerados. Se é prá partir, partem aos vagalhões. Se é prá invadir, são pior que os ônibus da zona norte. Porém o que dá prá ver mesmo é que há dinheiro para ser gasto no lazer, coisa que poucos brasileiros podem fazer, se não tiveram a sorte de ter nascido em Salvador. Abraços amigo.
Reginaldo mblog.com/singrando

Anonymous said...

Ah!
Agora entendemos porque tinha tanta gente de branco na Igreja do Bomfim!
O detalhe das torneiras trocadas ("C" = cold; "H" = hot)
é coisa de quem tem uma alma extremamente sacana. Ou, como se diz na Itália: Você é filho da puta por dentro!
:OD

Frank & Gaia

Anonymous said...

Allan, finalmente linkei você. Adoro seus comentários, que tenho acompanhado nos blogs alheios. Sua prosa é fluida e saborosa, com um humor fabuloso! A Itália de férias e em férias é bárbaro! Aqui na Espanha também é assim. Madrid está só para três gatos pingados, e muita coisa fechada por todo o mês de agosto.Em compensação as estradas, cidades de praia e campo, cada pedaço de chão ou cadeira de restaurante fica parecendo aquela brincadeirinha de criança em que rodávamos em torno das cadeiras até a música parar e todos sentavam, menos um que ficava com cara de bobo e saía da brincadeira... Só que em férias espanholas funciona ao contrário, só senta um enquanto todos os outros esperam pacientemente na fila que música pare outra vez...
Bom, continue escrevendo assim. É uma delícia ler!
Nora Borges

Anonymous said...

Bom Dia,
Passei para desejar um bom dia,
Meire
http://pensamentosepoesias.blog.tiscali.it/
e
http://senzainchiostro.blog.tiscali.it/

anamaria said...

encontrei seu blog por acaso e ja favoritei. Vc tem um estilo de escrever mordaz e ao mesmo tempo cativante. Gostei muito. Estive em Salvador casualmente no dia do Bonfim e alerto todos os conhecidos a não cometerem tal erro. O mesmo se aplica ao tal do Ferragosto não? Abçs.

Allan Robert P. J. said...

Anamaria,

Não consegui acessar o seu perfil. Por gentileza, deixe a sua URL para que eu possa retribuir a visita.

:)

Neide said...

Socorro!!! Eu estou na Italia e amanha é o FERRAGOSTO!!!

Vixe, ainda bem que eu sou de Salvador, mas Allan, a Bahia nao sao de mim!!! rsrsrs...

Beijos

Rosa said...

Olha, tinha de contar...Me identifiquei com seu texto...
Moro pertinho de Roma, na beirinha dela, e nasci em Salvador. Passei minha infância na beira da Praia da Barra, portanto não sou um dos "pobres mortais" do seu texto...rsrsrs...Isso é que é ter sorte na vida, né, não? Graças a Deus!!
Na impossibilidade de voltar a Salvador, fiquei em Roma. E acho que os italianos são brasileiros um pouco mais estourados e, como no primeiro dia, sou apaixonada por toda essa maravilhosa confusão!!!! Abraços!