Sunday, May 27, 2018

Eles estão entre nós



 Era o ano de 1959.
 Turi percebeu que algo passava entre ele e o Sol, mas não abriu o olho. Não sentia cheiro de comida, e isso descartava a necessidade de se levantar da rede. Ninguém o importunaria, podia voltar ao que mais gostava de fazer: nada. Sentir a brisa do mar era mais que suficiente para um nobre como ele.

Minutos depois, o que quer que fosse voltou a esconder o Sol. Turi se espreguiçou, coçou calmamente a barriga, levantou a cabeça e só então abriu os olhos. Sobre o mar calmo, um silensioso objeto circular fazia manobras aéreas. Às vezes quase tocando a água, noutras, numa altura que não se podia enxergar. Curioso mas não assustado, Turi apenas observava, pensar não era um hábito. Finalmente o objeto parou acima da areia da praia, a uns dez metros de distância de Turi e esticou um cilindro de uns três metros até o chão. De lá saíram três seres que pareciam camarões (não na cor, mas na forma), que se dirigiram ao sorridente Turi.

▬ Olá! Viemos em paz. Gostaríamos de fazer uma proposta ao seu povo…
▬ Que proposta? – interrompeu Turi, enquanto se ajeitava na rede.
▬ Bem, gostaríamos de propor uma troca. Mas antes, deixe-nos explicar o que temos a oferecer.

Turi olhou atentamente aqueles três camarões imensos e não conteve o sorrisinho.
▬ Do quê você está rindo? – perguntou o camarão chefe.
▬ Desculpem, foi involuntário. É que eu… Bem, er… Aprecio camarões.

Instintivamente os três bichões deram um passo para trás.
▬ Continuando – prosseguiu o suculento e enorme camarão chefe – nós viemos de uma galáxia muito distante. Exploramos o Universo em busca de planetas como o seu para incubar as nossas futuras gerações.
▬ Não tem motel por lá? …Ou praia? Na praia, se não estiver ventando, também dá para produzir novas gerações.
▬ Não, o problema é a temperatura. Com o tempo, o nosso planeta está se aquecendo, o que interfere na incubação dos ovos, matando-os antes da eclosão. O subsolo de vocês tem a temperatura ideal e vai continuar assim por mais uns cinco milhões de anos.

Turi ouvia com atenção. Salivando.
▬ Hum…
▬ Bom, a nossa civilização é muito evoluída, resolvemos todos aqueles problemas que para vocês ainda parecem insolúveis, preservamos a natureza do Universo, vivemos em paz com outros povos, aumentamos a qualidade de vida e atingimos uma longevidade de cinco mil anos...
▬ Hum…
▬ Sim, imagino que você gostaria de saber qual é a nossa proposta, não?
▬ Hum… – coçava a barriga.
▬ Bom, assim como fizemos com outros planetas, gostaríamos de instalar algumas colônias aqui. Tudo muito discreto, seu povo não vai nem ver.
▬ Hum…
▬ Não, não se preocupe, sabemos ser invisíveis. Pode acontecer algum incidente, mas nada que prove a nossa presença no seu planeta. Em troca, oferecemos um dos nossos planetas onde reproduzimos o seu habitat. Quer dizer, o habitat dessa parte do planeta onde você e o seu povo vivem.
▬ Hum…
▬ Pode confiar. Estudamos a composição dessa região e já a reproduzimos em todos os detalhes. Não falta nem mesmo o ar característico daqui. Só não adicionamos nada de tecnológico, como avião ou telefones, pois entendemos que você prefere não se envolver com essas besteiras.
▬ E como foi que me escolheram?
▬ Milhões de anos de experiência nos ensinaram que o povo que vive melhor é aquele comanda o planeta. Sabemos que a qualidade de vida de vocês é invejada pelos outros povos do seu planeta, que a música é a melhor, que deixam o trabalho duro para os outros, que estão longe dos conflitos de poder subalterno, que se alimentam basicamente do que o habitat de vocês oferece. E dentre o seu povo, descobrimos que você é o ser mais relaxado. Portanto, você é o monarca.
▬ Hum…
▬ Claro que não vamos levar todos de uma vez, isso provocaria alarme no resto da população e chamaria a atenção. O modo como agimos funciona do seguinte modo: nós monitoramos cada pessoa; quando alguém estiver para morrer, levamos para o novo planeta e, no caminho, curamos a pessoa e a deixamos na nova casa pronta para os próximos cinco mil anos. Tudo o que pedimos em troca é a possibilidade de incubar nossos filhos no subsolo do seu planeta. Uma incubação que dura de vinte a vinte e dois anos, pelo tempo de vocês. Não vamos interferir em nada, a menos que alguém descubra uma das nossas colônias. Nesse caso – e somente nesse caso – a pessoa ou pessoas envolvidas serão eliminadas.

Turi estalou a boca, limpou a saliva com as costas da mão, sentou-se na rede, se espreguiçou novamente e falou (com uma fome dos diabos):
▬ Tá bom.

Estamos em 2018. O pacto funciona perfeitamente até hoje.
Enquanto as colônias dos camarões gigantes são cultivadas há anos, na Terra, em algum lugar no Universo, o preguiçoso filho de pescador Turi e boa parte do seu povo vivem tranquilamente num planeta exatamente igual à Samoa, onde os grandes camarões, por precaução, jamais colocaram os pés.

1 comment:

Denise said...

ah ah muito bom. Pensei logo nos filmes dos Homens de preto.
abraço, garoto