Friday, October 27, 2017

Pintassilgo moderno



Macarrão, carramão, racamão, camarão, marracão. Eu ia adiante por esse caminho até conseguir não lembrar como era o certo. Me desesperava ao tentar dizer macarrão e sair outra coisa. Me desesperava e mudava de brincadeira. Brincava muito sozinho, apesar de ter três irmãos e um mundo de amigos. “Ele vive no mundo da Lua”, dizia minha mãe. Vez ou outra, ainda diz.

A verdade é que sempre gostei de brincar com as palavras. Era bom em português, mas já esqueci muita gramática, que gramática é regra e sempre fui meio rebelde. Um rebelde tímido, silêncioso, que é pra não chamar a atenção. O anjinho encapetado. Não dissimulado, sonso. Não, isso não. Apenas um com cara de querubim, imaginação de sobra e espírito de porco.

Asno gorante, invés de ignorante; burro de estrofe, quando a ignorância faz alguém empacar; muitilhão, tantilhão, coisilhão e porrilhão. Nessa ordem de grandeza; diarreia intelectual, quando alguém tenta me convencer com argumentos apoiados em tratados, resultados científicos ou baboseiras alheias. Mas tem mais. Muito mais.

Quem tem dois ou mais filhos não se assusta quando outros pais trocam o nome dos próprios filhos [é verdade, meus pais me chamavam de Bruce durante um período por incerteza mesmo, mas naquela época eu e meu irmão caçula éramos realmente idênticos. Até eu me confundia]. No caso das minhas filhas, Bianca e Luiza, acontecia por dois motivos: primeiro, a síndrome a que me referi acima; depois, porque sim. Marinalva e Bertolândia, Arirí e Arará, Pupunha e Janaíra ou qualquer coisa que me viesse na hora. “Papi, quem é a Chumbrega e quem é a Fufinha?” “A Fufinha sou eu, você é a Chumbrega.” “Não, eu não quero ser a Chumbrega…” E a coisa rolava.

É mais fácil lembrar de alguém que se chama Petronilha ou Marinalva que da Maria ou da Regina. Sim, teve uma Petronilha na minha infância e uma Marinalva na minha adolescência, lembro delas até hoje. Quantas marias e reginas passaram? Quem sabe? Eu, não.

Conversava com um querido amigo – que já se foi – numa língua que não existia. Cada dia um era o tradutor, num chopinho descontraído em algum boteco do Leblon ou da Tijuca. “Vat minih havá” (vai tomar no c…) “Vate vut!” (vai você!) “Ah damalah n’go” (bora tomar outra). E as pessoas olhavam com curiosidade, e os garçons se dirigiam àquele que falava em português, e nós ríamos às pamparras.

Pintassilgo moderno é algo realmente bonito. Não, o superlativo de bonito é lindo. Então, pintassilgo moderno (às vezes sai “muderno”, que é mais bonito) é algo lindíssimo. Vocês já viram um pintassilgo, as variações de cores e a vivacidade delas? Um pintassilgo moderno seria a tentativa de melhorar o que já é melhor, uma ode à beleza, o Sol visto de cima da neblina, o vôo do pássaro solitário, um abraço na rua. Pintassilgo moderno é o orvalho no cabelo do rapaz esperando a namorada, a horta no fundo do quintal, a flor que desafia a calçada. Pintassilgo moderno são minhas duas filhas, Chumbrega e Fufinha.

2 comments:

Georgia Aegerter said...

Verdade Allan,ninguém se lembra dos Josés e Antonios. Na escola primária eu conheci um Iberê e no Ginásio um Rabello, ninguém esquece esses nomes. Partindo desse princípio acredito que eu tb nao fiquei esquecida, hehehehhehe, legal!
Bom fim de semana com um pouco de garoa alemã.

Sissym Mascarenhas said...

Allan!
“Papi, quem é a Chumbrega e quem é a Fufinha?” “A Fufinha sou eu, você é a Chumbrega.” “Não, eu não quero ser a Chumbrega…” E a coisa rolava.

Vc me fez lembrar de meu pai...
os 3 da Figueirada: Cocó, Ranheta e Facada. Ele era sempre o Facada, minha irmã a Cocó e eu... kkkkkk ficava danada!

Sobre Pintassilgo, eu vi muitos passarinhos diferentes e bonitos, soltos, quando garota, hoje ou vejo presos, ou em NATGEO, ou em revistas.

Bjs