Sunday, October 08, 2017

Call center na Itália

Se você não aguenta mais receber ligações de call center tentando lhe empurrar serviços – necessários e menos necessários –, planos de saúde/aposentadoria/férias em Marte, biscoitinhos da vovó, Internet barata que não cai nunca e abatjour de pele de camelo, venha para a Itália. Aqui não existe isso, confie em mim.

Ninguém vai ligar na hora do almoço para convencer você a trocar de gestor do serviço elétrico. Nunca, mas nunca mesmo, vai receber uma ligação às nove da noite oferecendo tratamentos de beleza. Nenhuma voz decidida e bem treinada vai lhe chamar pra tentar vender osso de baleia, não. Nem pra avisar que você está sendo roubado na conta de energia elétrica e pedir pra informar os códigos da conta de luz para saber que tarifa deveria estar pagando (aqueles que permitem mudar de gestor e depois proporcionar a surpresa de duas contas, a do antigo e aquela que você autorizou sem saber). Fique tranquilo, confie em mim.

Salão de beleza onde o Trump e o Kim cortam cabelo, clínica dentária prometendo banguela barata, cartão fidelidade de parque de diversões na Groelândia, agências de viagem organizando passeios em buracos negros... Qualquer atividade comercial ou charlatã utiliza aqueles serviços de telemarketing que descobrem todos os seus contatos. Mas na Itália, não. Esqueça as respostas mal educadas que você treinou, a ocasional paciência ao lembrar que a pessoa do outro lado da linha está tentando ganhar o pão de cada dia ou fingir que está roncando. Se os call center da vida são o inferno, isso aqui é o paraíso.

Muita gente tem cancelado a assinatura do telefone fixo, já que o celular virou o centro da vida. Em casa ainda temos. Serve para receber chamadas da minha mãe – talvez a única pessoa da Terra a não ter smartphone – e para, bem, er… Ligações para oferecer produtos e serviços aos quais não podemos abrir mão (mas que abrimos). A Eloá nem responde quando toca, se não for  nos horários habituais da dona Paula (a sogra dela). 

Sexta-feira, nove e vinte da noite. Cansado do dia cheio e doido por um banho, mas não antes de levar o Shiva, nosso pilantra de quatro patas, para passear. Toca o fixo e eu atendo:
«Alô.»
«Por favor, me passe a senhora.»
«Qual senhora?»
«A… como se chama?»
«A Pina, a Domenica ou a Maria?»
«A Pina.»
«Aqui não tem ninguém com esse nome.»
Deliciei-me com os quinze segundos de silêncio antes que ela desligasse.

1 comment:

Sissym Mascarenhas said...


kkkkkkkkkkkkkkkk
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Adorei isso