Monday, April 04, 2016

Missa de sétimo dia



(Com a mão na boca)






Pescando no ‘Panema, perdíamos as horas e contávamos causos. Peixes? Ah, era isso que tínhamos ido fazer... Quem se importa? O barco à deriva, o churrasco na calma madrugada do rancho, a cerveja gelada, as laranjas para martar a fome no barco e as aulas de nós, que de pesca ele entendia. De pescar, um pouco menos.

Início ou fim da estrada?

Depende do ponto de partida.

A chegada não é o destino,

Senão o recomeço.

E se a estrada é limitante,

Caminhe pelos campos.



(Na primeira vez que a viu, disse: "vai ser a mãe dos meus filhos")






Foi, talvez, a pessoa mais inteligente que conheci. Uma inteligência simples, prática e definitiva. Teimoso também. Trabalhador entusiasmado, inventava soluções na sua 1020, a oficina de torno e solda histórica e respeitada. Depois de observar e observar e observar, descobri que ele estava para soldar a grade do lado errado. Disse a ele, mas nem piscou: “não está”, retrucou sem se alterar. Pedi para que olhasse bem e ele balançou a cabeça: “não está”, repetiu. Insisti, argumentando que ele teria que desfazer a solda e isso poderia arruinar o trabalho de horas. Ele parou, olhou pra grade no chão, virou-a do lado certo, ligou a máquina de solda e, com toda tranquilidade: “agora tá do lado certo”. E soldou.


Senhor de muito amar,

Fiel na fé em si.

Acreditar no trabalho e na família,

Nas amizades sinceras e joviais.

Acreditar, também, acredite!

No ritual da cerveja,

Que a vida não é sofrer.



(Piacenza, Itália - Dezembro de 2009)





Não falava mal de ninguém. Tampouco era de pedir opiniões; decidia e fazia, no tempo dele, do jeito dele, esperando que fosse definitivo. Tudo o que fez, fez para durar. Nas relações, no trabalho, na paz. Esse era um compromisso, não gostava de gambiarras ou situações paliativas. E se nada é para sempre, já que a vida é provisória, pelo menos aquilo que fazia deveria ser sólido, durável, de qualidade. “1020”.

Se o destino não é clemente,

O sábio ensina a rir,

Observar, aprender e mudar

Sorrir é melhor que discutir.

Lutar não será alternativa,

Viver em pazes, ao contrário...


(Preparando o banho das minhocas)

Passeava na Itália como em casa. Comunicador que era, encontrava novos amigos, rodava a cidade a pé, sozinho; ficava horas na casa do amigo sem que ninguém soubesse dele. Nunca se perdeu na vida, foi a vida a perder-se nele. Conversava com todo mundo, voltava para casa com cálibres, ferramentas de precisão, brindes e as peças de reposição que precisava. Sem falar a língua. Era universal mas dizia-se caipira.

O mundo ideal será assim,

De amigos, gentes de bem.

Com quem se aprende

A ser uma pessoa melhor.

...E a devolver alguns peixes ao rio,

Pois o importante é a pescaria,

Não o peixe.


(O sorriso de sempre e aqueles olhos azuis que a convenceram)




E assim vem outra aula, a última, que ensina que tudo acaba, um dia. A parceria de causos e cervejas fica pra depois, a pescaria do tempo substituiu churrascos noturnos por lembranças. A vida vai à deriva e o que fica é o velho barco de alumínio construído com as próprias mãos (como sempre), emborcado nos fundos do quintal da oficina, com mais ferrugem que ferragens. Aqui, até a saudade é 1020.
                        

Amém!



PS - Nessa carta AQUI já tinha falado da nossa cumplicidade, em pescar, mentir e contar causos; já essa outra AQUI, foi uma homenagem ao grande amigo, que deve estar rindo muito de todo esse palavrório sobre ele e a falta dele, do meu esforço vão de dizer o indizível.

(A saudade tatuada na neta Luiza)

6 comments:

✿ chica said...

Emocionante e tão tocante, bem escrita tua homenagem ao Seu Zé, teu sogro e amigão de pescarias e de vida! Triste perda, mas ele, de onde está, certamente continuará a soldar a vida dele com a da família... Fica a saudade em todos vocês. Fiquem bem! abraços, chica

Clarice Pelizzon said...

Linda homenagem! Emocionante!

Lucia Freitas said...

beijo e abraço enorme pra vocês todos.

Georgia Aegerter said...

Allan, um post assim só pode existir quando realmente se viveu essas coisas. Você tinha o que escrever porque o teu sogro foi tudo isso no teu mundo, na tua vida.
Forte abraço e minhas consolações a família.

Lili Detoni said...

Pronto... no dia da minha volta aqui no meu bloguinho eu deparo com tanta coisa linda escrita de uma só vez!
Emocionante homenagem, querido amigo!
Abraço forte, daqui desse Brasil tão carente de pessoas assim como vc é!
Lili.

anamaria said...

Caro Allan, perdi meu pai ano passado mas não tive a sua inspiração para escrever sobre isso. Lamento pela sua perda mas te parabenizo por ter tido a felicidade de desfrutar da companhia do seu babbo tão intensamente.